{"id":110,"date":"2014-08-07T16:29:48","date_gmt":"2014-08-07T19:29:48","guid":{"rendered":"http:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/?p=110"},"modified":"2014-09-11T11:04:56","modified_gmt":"2014-09-11T14:04:56","slug":"na-penumbra-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/na-penumbra-da-vida\/","title":{"rendered":"Na penumbra da vida"},"content":{"rendered":"<p>Viajando pelo interior do Paran\u00e1, sentado numa poltrona confort\u00e1vel de um \u00f4nibus que cruzava paisagens encantadoras e exuberantes, verdadeiras obras de arte que pareciam pincelar a \u201ctela\u201d da janela com verdes de todos os tons, disputava minha aten\u00e7\u00e3o um filme no interior do ve\u00edculo.\u00a0 A hist\u00f3ria era um fato real. Um rapaz cego de nascen\u00e7a, convencido pela mulher que amava, se submeteu a uma cirurgia que pretensamente lhe daria o privil\u00e9gio da vis\u00e3o. A promessa se tornou uma realidade tempor\u00e1ria e este, que at\u00e9 ent\u00e3o vivera no mundo da escurid\u00e3o, come\u00e7ou a enxergar e imergir num mundo confuso de cores e imagens. Lidar com a vis\u00e3o se tornou algo interessante e curioso no enredo. Diferenciar entre fotos e objetos tridimensionais \u00e0 dist\u00e2ncia era um enorme desafio, j\u00e1 que o c\u00e9rebro precisava processar imagens com sentido de profundidade. A hist\u00f3ria ascendeu a picos de emo\u00e7\u00e3o e alegria e despencou numa ang\u00fastia sem fim ao se deparar com a cruel realidade do retorno da aus\u00eancia de luz.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia da vis\u00e3o foi representada no filme de forma clara e deu a chance de perceber que h\u00e1 uma vulnerabilidade expl\u00edcita no processo de percep\u00e7\u00e3o da luz. As sombras que se interp\u00f5em entre o olhar e o ver s\u00e3o como nuvens carregadas que hora nos permitem vislumbrar formas e cores (nem sempre completamente compreendidos), hora nos bloqueia completamente a percep\u00e7\u00e3o. As coisas continuam l\u00e1, mas simplesmente as deixamos de enxergar. O olhar e o ver se distinguem plenamente quando um n\u00e3o corresponde mais ao outro. Vultos vazios se movimentam no escuro marcando espa\u00e7os antes muito bem definidos.<\/p>\n<p>Numa raz\u00e3o inversamente proporcional ao filme em quest\u00e3o, aquele que nasce vendo, pode terminar seus dias mais pr\u00f3ximo de quem jamais viu.<\/p>\n<p>O tr\u00e2nsito que flui da luz para as sombras parece ser o movimento inevit\u00e1vel do desgaste f\u00edsico. Aquilo que antes era envolto em clareza e facilidades agora, a passos lentos, mas cont\u00ednuos, entra pelas terras dificultosas das sombras. Lugar este que antes insistia em assumir o pseud\u00f4nimo de \u201cterra do nunca\u201d; agora percebe que o que era um vigoroso \u201cnunca\u201d, perde suas fantasias se tornando cada vez mais o fat\u00eddico \u201csempre\u201d. Envelhecer parece ser, entre outras coisas, o implac\u00e1vel processo minguante da percep\u00e7\u00e3o da luminosidade.<\/p>\n<p>Na contra m\u00e3o do tr\u00e1fego inevit\u00e1vel, pelo qual viaja o expresso que carrega todos n\u00f3s, est\u00e1 a proposta da vida crist\u00e3 de vislumbres do divino. Neste projeto que convida ao mundo de percep\u00e7\u00f5es, o elemento essencial para a luz se apresenta como sendo a santifica\u00e7\u00e3o. O ato da santidade traz consigo a recompensa da ilumina\u00e7\u00e3o: \u201cbuscai a santifica\u00e7\u00e3o, sem a qual ningu\u00e9m ver\u00e1 o Senhor\u201d. Vis\u00e3o e santidade t\u00eam tudo a ver na vida crist\u00e3 e est\u00e3o relacionados numa propor\u00e7\u00e3o paralela. Quanto mais santidade, mas percep\u00e7\u00e3o do divino.<\/p>\n<p>Uma vez mais faz se a diferen\u00e7a entre olhar e enxergar. As realidades mais concretas da beleza da vida est\u00e3o plenamente expostas diante de todos. Poucos s\u00e3o os que lavam seus olhos no col\u00edrio da santidade e assim contemplam o divino exuberante em sua multiforme exposi\u00e7\u00e3o diante de n\u00f3s. O antigo legislador j\u00e1 clamava em sua fome pela contempla\u00e7\u00e3o do divino. \u201cNingu\u00e9m pode ver a minha face e viver\u201d advertia a divindade que se revelava e se velava.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria culminou na express\u00e3o mais v\u00edvida do divino. O rosto queimado do peregrino afirmava: \u201cquem v\u00ea a mim, v\u00ea ao Pai\u201d. Mas como perceber o Pai numa figura t\u00e3o humana? S\u00f3 mesmo a santidade poderia providenciar tal vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Os anos se passam e o que permanece \u00e9 o desafio de enxergar. Ver a Deus n\u00e3o parece ser somente uma quest\u00e3o relegada a um futuro escatol\u00f3gico que guarda sua percep\u00e7\u00e3o para o dia de amanh\u00e3. A \u00f3tica que se deslumbra na contempla\u00e7\u00e3o do divino se faz poss\u00edvel hoje. Ela \u00e9 vulner\u00e1vel, como todo processo de percep\u00e7\u00e3o da luz. Sua amplitude, sua clareza e sua qualidade s\u00e3o sempre processos circunstanciais dependentes da nega\u00e7\u00e3o de si mesmo. Nesta via, sujeita a todas intemp\u00e9ries da exist\u00eancia humana, hora a luz perpassa por todos os lados de nosso \u00f3rg\u00e3o sensorial, hora ela se obscurece pelas muitas nuvens de nossos retrocessos.<\/p>\n<p>Ver a Deus \u00e9 um privil\u00e9gio daqueles que s\u00e3o banhados pela luz da santidade. Para estes, as paisagens pitorescas de exposi\u00e7\u00e3o da divindade podem ser percebidos at\u00e9 nos cantos mais \u201cinsignificantes\u201d do quadro de cada dia. \u00c9 tamanha sua beleza, que pouco a pouco ocupa todos espa\u00e7os de nossa movimenta\u00e7\u00e3o. Nas mais variadas formas, expressas em cores de tons t\u00e3o distintos e sutis, cada peda\u00e7o da vida traz revela\u00e7\u00f5es inimagin\u00e1veis da presen\u00e7a do divino. Ele est\u00e1 l\u00e1, \u00e0s vezes estampado em cartazes quilom\u00e9tricos de dimens\u00f5es imponentes; \u00e0s vezes pontilhado em min\u00facias apresentadas estrategicamente em propor\u00e7\u00f5es milim\u00e9tricas. Alguns o veem, outros trope\u00e7am nele sem o perceber. Mas ao observador perspicaz, a recompensa \u00e9 imediata. A cada vislumbre um encanto, a cada encanto um \u00eaxtase, a cada \u00eaxtase uma por\u00e7\u00e3o a mais de vida. Talvez a vida abundante seja isso \u2013 a capacidade de contemplar e se deliciar no divino no desenrolar de cada dia.<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 l\u00e1. Pena que muitos n\u00e3o o vejam. Quem tem olhos para ver, veja. Neste processo alguns desfrutam da promessa: Bem-aventurados os puros de cora\u00e7\u00e3o, pois eles ver\u00e3o a Deus.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre ver e n\u00e3o ver est\u00e1 no privil\u00e9gio de se santificar. Isto \u00e9 o que define quem vive a vida e quem simplesmente passa por ela.<\/p>\n<p>Everson Spolaor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viajando pelo interior do Paran\u00e1, sentado numa poltrona confort\u00e1vel de um \u00f4nibus que cruzava paisagens encantadoras e exuberantes, verdadeiras obras de arte que pareciam pincelar a \u201ctela\u201d da janela com verdes de todos os tons, disputava minha aten\u00e7\u00e3o um filme no interior do ve\u00edculo.\u00a0 A hist\u00f3ria era um fato real. 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