{"id":1276,"date":"2026-05-15T12:30:00","date_gmt":"2026-05-15T15:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/?p=1276"},"modified":"2026-05-15T11:21:46","modified_gmt":"2026-05-15T14:21:46","slug":"%ce%bc%ce%b9%ce%bc%ce%b7%cf%84%ce%ae%cf%82-ensaiando-a-justica-do-reino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/%ce%bc%ce%b9%ce%bc%ce%b7%cf%84%ce%ae%cf%82-ensaiando-a-justica-do-reino\/","title":{"rendered":"\u03bc\u03b9\u03bc\u03b7\u03c4\u03ae\u03c2: ensaiando a justi\u00e7a do Reino"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma ang\u00fastia particular em descobrir que a convers\u00e3o n\u00e3o nos tornou aquilo que imagin\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, eu abracei uma vis\u00e3o quase instant\u00e2nea da vida crist\u00e3. Jesus entrava na vida da pessoa e, a partir dali, as coisas se reorganizavam de modo definitivo. No semin\u00e1rio, estudando Nygren e outros, compreendi que a linguagem b\u00edblica sobre o \u201cvelho homem\u201d e o \u201cnovo homem\u201d talvez n\u00e3o descreva duas partes coexistindo dentro de n\u00f3s, como se houvesse um lado mau e outro bom disputando espa\u00e7o no interior da alma. A \u00eanfase parece recair mais sobre dois mundos, duas ordens de realidade, dois tempos que se sobrep\u00f5em. O velho s\u00e9culo, ainda marcado pelo pecado, pela Lei e pela morte, continua exercendo sua press\u00e3o sobre n\u00f3s. Mas, na ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, um novo tempo j\u00e1 foi inaugurado. A nova cria\u00e7\u00e3o j\u00e1 come\u00e7ou, ainda que n\u00e3o tenha se manifestado em sua plenitude. A vida crist\u00e3 \u00e9, em grande medida, o aprendizado de viver segundo essa realidade futura enquanto ainda caminhamos num mundo que insiste em operar segundo a l\u00f3gica antiga.<\/p>\n<p>Logo, o velho homem (a velha cria\u00e7\u00e3o) ficava para tr\u00e1s em n\u00f3s, e os pecados perdiam a for\u00e7a, os impulsos desordenados eram vencidos, e a santifica\u00e7\u00e3o seguia seu curso natural, como se a gra\u00e7a de Deus funcionasse tamb\u00e9m como uma esp\u00e9cie de reestrutura\u00e7\u00e3o imediata da alma.<\/p>\n<p>Durante muitos anos eu lia textos como G\u00e1latas 2:20 \u2014 \u201cj\u00e1 n\u00e3o sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim\u201d \u2014 como quem l\u00ea a ata de um fato consumado. Na minha compreens\u00e3o, o velho homem havia sido definitivamente encerrado, e o restante da vida crist\u00e3 consistia apenas em administrar as consequ\u00eancias dessa realidade. O mesmo acontecia com a afirma\u00e7\u00e3o de que \u201cos que s\u00e3o de Cristo crucificaram a carne com as suas paix\u00f5es e concupisc\u00eancias\u201d. Eu tomava o verbo no passado como prova de que a batalha essencial j\u00e1 havia sido vencida. Restava apenas viver \u00e0 altura daquilo que, em tese, estava resolvido.<\/p>\n<p>Era uma vis\u00e3o coerente. Tinha sua beleza. E, confesso, trazia certo al\u00edvio. Se a convers\u00e3o resolvesse tudo de uma vez, ent\u00e3o bastaria entregar-se sinceramente a Cristo e o restante viria quase por acr\u00e9scimo.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a vida n\u00e3o respeitou essa teologia.<\/p>\n<p>E quando a vida decide desmentir uma ideia, ela raramente o faz de forma delicada.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do meu minist\u00e9rio, eu cria nisso com convic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se tratava apenas de uma doutrina abstrata. Era tamb\u00e9m a maneira como eu me compreendia. Se eu havia conhecido a Cristo, ent\u00e3o as regi\u00f5es mais profundas do meu cora\u00e7\u00e3o deveriam estar devidamente ordenadas. Talvez ainda houvesse pequenos ajustes a serem feitos, mas a estrutura essencial estaria pronta.<\/p>\n<p>Hoje me parece evidente que essa expectativa carregava mais idealiza\u00e7\u00e3o do que realidade.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2003, durante o casamento da minha irm\u00e3, entrei numa livraria da Mundo Hispano e assisti um filme de Max Lucado, Hermie &amp; Wormie. A hist\u00f3ria de uma lagarta inquieta por ainda n\u00e3o ser a borboleta que um dia se tornaria me pareceu, naquele momento, apenas uma met\u00e1fora bonita. Terminei em l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Meses depois, em junho do mesmo ano, cometi adult\u00e9rio.<\/p>\n<p>E aquilo que eu julgava relativamente s\u00f3lido desmoronou diante dos meus olhos.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi apenas o pecado em si que me abalou. Foi a constata\u00e7\u00e3o de que algu\u00e9m pode conhecer o evangelho, pregar o evangelho, defender o evangelho e, ainda assim, permanecer internamente muito menos transformado do que gostaria de admitir.<\/p>\n<p>Foi doloroso perceber que o problema n\u00e3o era apenas moral. Havia em mim estruturas antigas, mecanismos de defesa, car\u00eancias profundas, medos, compensa\u00e7\u00f5es e formas de lidar com a vida que continuavam operando silenciosamente sob uma superf\u00edcie aparentemente piedosa.<\/p>\n<p>Talvez seja isso que Romanos 5 e 6 descrevem ao falar do Pecado quase como um personagem que entra em cena e passa a exercer dom\u00ednio sobre a humanidade. N\u00e3o me parece que Paulo esteja dizendo que o pecado constitui a ess\u00eancia do ser humano, como se f\u00f4ssemos maus em nossa subst\u00e2ncia mais profunda. A linguagem b\u00edblica aponta em outra dire\u00e7\u00e3o. 1 Pedro fala da corrup\u00e7\u00e3o \u201cque h\u00e1 no mundo\u201d, e Hebreus descreve \u201co pecado que tenazmente nos assedia\u201d. A imagem n\u00e3o \u00e9 a de algo que pertence originalmente a n\u00f3s, mas de uma for\u00e7a que nos cerca, nos pressiona e, quando baixamos a guarda, acaba nos arrastando exatamente para os lugares aos quais jur\u00e1vamos jamais retornar.<\/p>\n<p>Demorei anos para aceitar que a vida crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea de um velho mecanismo por outro mais eficiente, mas um processo lento e, por vezes, humilhante, no qual vamos sendo conformados \u00e0 imagem de Cristo.<\/p>\n<p>E aqui a palavra \u201cimagem\u201d precisa ser levada a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o imitamos Deus em sua ess\u00eancia. Rudolf Otto estava certo ao lembrar que Deus \u00e9 o totalmente outro, o santo que escapa a todas as nossas categorias. H\u00e1 em Deus uma alteridade que n\u00e3o pode ser reproduzida por esfor\u00e7o humano.<\/p>\n<p>Mas em Jesus, esse Deus se fez vis\u00edvel.<\/p>\n<p>O que antes era inacess\u00edvel tornou-se concreto. O amor de Deus passou a ter rosto, voz, gestos, l\u00e1grimas, sil\u00eancio, cansa\u00e7o, compaix\u00e3o e obedi\u00eancia.<\/p>\n<p>Por isso o Novo Testamento usa com tanta naturalidade a linguagem da imita\u00e7\u00e3o. Paulo pode dizer: \u201cSede meus imitadores, como tamb\u00e9m eu sou de Cristo\u201d. N\u00e3o porque a vida crist\u00e3 seja uma encena\u00e7\u00e3o superficial, mas porque a transforma\u00e7\u00e3o acontece justamente quando passamos a organizar nossa exist\u00eancia em torno daquele que finalmente revela o que significa ser humano.<\/p>\n<p>Durante algum tempo, a ideia de imitar a Cristo me soava artificial, quase como um exerc\u00edcio externo de copiar comportamentos. Algo parecido com a proposta de Em Seus Passos Que Faria Jesus?, que, embora bem-intencionada, pode facilmente reduzir o discipulado a uma esp\u00e9cie de moralismo ilustrado.<\/p>\n<p>Hoje vejo de outro modo.<\/p>\n<p>Hoje continuo crendo em G\u00e1latas 2:20, mas j\u00e1 n\u00e3o o leio como uma fotografia est\u00e1tica de algo plenamente conclu\u00eddo. Vejo ali uma realidade objetiva inaugurada em Cristo, cuja apropria\u00e7\u00e3o concreta se estende ao longo de toda a vida. Em alguns momentos, tenho a impress\u00e3o de que certos pecados que ainda persistem em n\u00f3s s\u00e3o justamente os pregos e os flagelos desse processo. Eles exp\u00f5em o quanto ainda resistimos \u00e0 obra de Deus e, ao mesmo tempo, se tornam os instrumentos dolorosos pelos quais o velho homem vai sendo, de fato, levado \u00e0 cruz. Cristo morreu de uma vez por todas; n\u00f3s, ao que parece, vamos aprendendo lentamente o que significa morrer com ele.<\/p>\n<p>Esses pecados (que se voc\u00ea pensa bem nunca s\u00e3o originais e sempre s\u00e3o os mesmos) exp\u00f5em o quanto ainda somos atra\u00eddos pela l\u00f3gica do mundo antigo e, ao mesmo tempo, se tornam os instrumentos dolorosos pelos quais vamos sendo arrancados, pouco a pouco, da velha ordem de coisas e ensinados a viver segundo a realidade inaugurada em Cristo<\/p>\n<p>Imitar a Cristo n\u00e3o \u00e9 representar um personagem. \u00c9 permanecer diante dele tempo suficiente para que sua maneira de existir comece, pouco a pouco, a deslocar a nossa. \u00c9 continuar voltando ao evangelho quando percebemos, com certo constrangimento, que ainda reagimos mais como Ad\u00e3o do que como Jesus. \u00c9 aceitar que a gra\u00e7a n\u00e3o opera apenas nos momentos luminosos, mas tamb\u00e9m no reconhecimento sincero de que ainda h\u00e1 muito em n\u00f3s que precisa morrer para que algo verdadeiramente novo possa nascer.<\/p>\n<p>Talvez a imagem mais honesta da vida crist\u00e3 seja mesmo a de uma crian\u00e7a brincando de ser aquilo que ainda n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Ela segura um caminh\u00e3o de pl\u00e1stico, faz curvas imagin\u00e1rias, troca marchas invis\u00edveis e, por alguns instantes, vive antecipadamente uma realidade que ainda n\u00e3o domina. Ningu\u00e9m a acusa de falsidade. Ao contr\u00e1rio, entendemos intuitivamente que \u00e9 justamente assim que o desejo, a imagina\u00e7\u00e3o e a identidade v\u00e3o sendo formados.<\/p>\n<p>A vida crist\u00e3 guarda algo dessa l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Ensaiamos o perd\u00e3o antes que ele nos pare\u00e7a natural. Ensaiamos a confian\u00e7a quando tudo em n\u00f3s continua inclinado ao medo. Ensaiamos a mansid\u00e3o quando a agressividade ainda parece mais espont\u00e2nea. E nesse processo, \u00e0s vezes lento o suficiente para nos humilhar, descobrimos que Cristo n\u00e3o nos pede que aparentemos uma transforma\u00e7\u00e3o j\u00e1 conclu\u00edda. Ele nos convida a permanecer nele enquanto, entre quedas e recome\u00e7os, a sua vida vai adquirindo forma em n\u00f3s.<\/p>\n<p>Talvez essa seja uma das li\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis e, ao mesmo tempo, mais libertadoras do evangelho: a de que Deus n\u00e3o trabalha conosco a partir da fic\u00e7\u00e3o de quem imagin\u00e1vamos ser, mas a partir da verdade de quem de fato somos. E, ainda assim, com uma paci\u00eancia que muitas vezes excede a nossa pr\u00f3pria capacidade de compreens\u00e3o, ele continua nos conduzindo na dire\u00e7\u00e3o daquilo que, em Cristo, um dia seremos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante muito tempo, acreditei que a convers\u00e3o resolveria instantaneamente as regi\u00f5es mais profundas da alma. A vida, por\u00e9m, desmentiu essa teologia de forma dolorosa. Entre quedas, fracassos e recome\u00e7os, fui descobrindo que a vida crist\u00e3 n\u00e3o consiste em aparentar uma transforma\u00e7\u00e3o conclu\u00edda, mas em aprender, como um \u03bc\u03b9\u03bc\u03b7\u03c4\u03ae\u03c2 (*mimet\u00e9s*), a imitar Cristo enquanto a nova cria\u00e7\u00e3o vai lentamente adquirindo forma em n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1275,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[185,183,181],"tags":[],"class_list":["post-1276","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nova-era","category-reino","category-vida-crista"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/mlr63ku2e7ti.i.optimole.com\/w:auto\/h:auto\/q:mauto\/ig:avif\/https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/featured.png","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p4RFIP-kA","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1276","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1276"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1276\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1278,"href":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1276\/revisions\/1278"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1275"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1276"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1276"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1276"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}