{"id":1281,"date":"2026-05-22T00:32:53","date_gmt":"2026-05-22T03:32:53","guid":{"rendered":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/?p=1281"},"modified":"2026-05-22T00:32:58","modified_gmt":"2026-05-22T03:32:58","slug":"o-deus-dos-afetos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/o-deus-dos-afetos\/","title":{"rendered":"O Deus dos afetos."},"content":{"rendered":"\n<p>Pensar na exist\u00eancia humana, leva &#8211; mais tarde ou mais cedo &#8211; a pensar em Deus. Isso porque em algum momento o ser pensante (que existe e n\u00e3o pode negar estar existindo) \u00e9 compelido a pensar na sua origem. Como bons delegados de responsabilidade, a mente aparentemente interessada de forma genuina no assunto, mas obstinadamente entregue a negar a exist\u00eancia de um ser criador, delega isso a uma civiliza\u00e7\u00e3o anterior, extinta ou visitantes alheios \u00e0 bolha azul chamada de &#8220;Mundo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso, s\u00f3 faz atrasar ou dispersar a solu\u00e7\u00e3o do problema \u00faltimo: de onde surgimos? N\u00e3o apenas como seres biol\u00f3gicos que ultimamente est\u00e1 fartamente provado que a probabilidade de que as condi\u00e7\u00f5es para a vida biol\u00f3gica como a conhecemos se dessem \u00e9 t\u00e3o remota que ultrapassam o limite n\u00e3o j\u00e1 do poss\u00edvel mas tamb\u00e9m do plaus\u00edvel. Essa forma de pensar, nos leva sempre a adiar a solu\u00e7\u00e3o da causa primeira (ou a preocupa\u00e7\u00e3o \u00faltima como Tillich bem poderia dizer) colocando-a sempre distante seja no tempo ou no espa\u00e7o ou numa combina\u00e7\u00e3o de ambos.<\/p>\n\n\n\n<p>Justamente o big-bang (ou sua forma mais correta: a grande expans\u00e3o) nos coloca perante um limite fundamental: o tempo e espa\u00e7o tiveram um ponto de inicio. Uma singularidade. Algo irrepet\u00edvel. E justamente por lidarmos com eventos n\u00e3o observ\u00e1veis diretamente em sua totalidade, continuamos no campo dos modelos e interpreta\u00e7\u00f5es cosmol\u00f3gicas. Com humildade e respeito, isso se chama de &#8220;teoria&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro das teorias de origem, as mitologias n\u00f3rdicas, gregas, eg\u00edpcias, mesopot\u00e2micas, os relatos judaico-crist\u00e3os, as cosmogonias ind\u00edgenas, o hindu\u00edsmo, o taoismo e at\u00e9 mesmo os modelos cosmol\u00f3gicos modernos tentam responder a mesma pergunta primordial: de onde tudo veio?<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez um dos cap\u00edtulos mais interessantes esteja nas mitologias gregas &#8211; sim, no plural &#8211; e no surgimento da filosofia cl\u00e1ssica. S\u00f3crates, posteriormente acusado de impiedade e condenado \u00e0 morte por Atenas, n\u00e3o inaugura sozinho essa ruptura intelectual. Ele \u00e9 resultado de uma longa tradi\u00e7\u00e3o de pensadores que come\u00e7aram a substituir explica\u00e7\u00f5es puramente m\u00edticas por princ\u00edpios racionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os gregos n\u00e3o chegaram \u00e0 ideia de unidade por arrog\u00e2ncia racionalista, mas pela tentativa honesta de encontrar coer\u00eancia no cosmos. A multiplicidade dos deuses n\u00e3o parecia suficiente para explicar a ordem universal. Ent\u00e3o Tales procura o princ\u00edpio de tudo na \u00e1gua. Her\u00e1clito fala do logos e do fluxo constante das coisas. Parm\u00eanides reage afirmando que o <strong><em>ser<\/em><\/strong> precisa ser uno, eterno e n\u00e3o contradit\u00f3rio. Plat\u00e3o transporta essa busca para o mundo das formas perfeitas. Arist\u00f3teles formula o conceito do motor im\u00f3vel: uma causa primeira, n\u00e3o causada, fundamento \u00faltimo do movimento e da exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3crates (anterior a Plat\u00e3o) surge dentro dessa tradi\u00e7\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o racional, questionando os deuses antropom\u00f3rficos da religi\u00e3o popular ateniense e deslocando o debate para princ\u00edpios mais universais da verdade, da \u00e9tica e do ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, num sentido bem el\u00e1stico do conceito &#8220;Monoteista&#8221; podemos afirmar que Aristoteles era sim monoteista (ou melhor: proto-monote\u00edsta filos\u00f3fico). E Aristoteles, por sua vez, foi mentor ou tutor intelectual\/filos\u00f3fico durante a adolesc\u00eancia de Alexandre o Grande (uns trezentos anos antes de Jesus). Ent\u00e3o &#8211; com certas liberdades &#8211; poderiamos chegar a cogitar que o encontro do judaismo com o mundo grego (anos antes dos Romanos) foi um confronto com vieses monoteistas. (N\u00e3o estou dizendo que os gregos eram monoteistas. Estou dizendo que certos pensadores gregos, sem mais ferramental que a observa\u00e7\u00e3o chegaram \u00e0 conclus\u00e3o que a origem de tudo s\u00f3 pode ter origem num \u00fanico ser que n\u00e3o tem origem. O motor inicial que por nada \u00e9 movido)<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Lembro quando estava no semin\u00e1rio no Uruguai e a pergunta do professor de teologia logo no primeiro semestre (para ser defendida primeiro por escrito e depois de forma oral) era &#8220;Quem pode fazer teologia?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Minha resposta (que \u00e9 a mesma que mantenho hoje) foi: todo mundo faz teologia. Se teologia \u00e9 o estudo ou discurso sobre o divino, logo, at\u00e9 o ateu est\u00e1 fazendo teologia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Voltemos ao nosso assunto. Ent\u00e3o, era de se esperar que duas teologia t\u00e3o similares produzissem alguma coisa em conjunto. Nada mais longe da realidade. Como dizem por a\u00ed, parecido n\u00e3o \u00e9 o mesmo. E &#8211; se voc\u00ea para para pensar &#8211; o encontro dessas duas civiliza\u00e7\u00f5es \u00e9 o que d\u00e1 origem ao que chamamos de &#8220;Mundo Ocidental&#8221; (Por favor, assista https:\/\/youtu.be\/NEsgGT2pwEA?si=UT3F0PoKybkX9WQb para maiores esclarescimentos desse grande estu\u00e1rio)<\/p>\n\n\n\n<p>Esses dois monote\u00edsmos compartilham pouco entre si. Fora o nome &#8211; por for\u00e7a t\u00e9cnica, poderiamos falar da causa primeira como ponto em comum. Mas a\u00ed, logo a\u00ed, j\u00e1 come\u00e7am as divis\u00f5es. As duas tratam do mesmo assunto, mas as duas chegam ao monoteismo por caminhos diferentes e cada um deles com seu valor.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez, no contexto b\u00edblico, o argumento a favor da teologia natural, ou seja, aquela que se faz apenas pela observa\u00e7\u00e3o das coisas criadas que acabam &#8211; para o observador atento &#8211; por levar a uma causa original, tenha seu lugar de destaque com o ap\u00f3stolo Paulo ao dizer &#8220;<em>Porque as suas coisas invis\u00edveis, desde a cria\u00e7\u00e3o do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que est\u00e3o criadas..<\/em>.&#8221; Romanos 1:20<\/p>\n\n\n\n<p>Para mim, essa \u00e9 uma refer\u00eancia direta de reconhecimento de um romano-judeu (Paulo era um judeu que tinha a cidadania romana por nascimento e era fortemente afetado pela cultura Grega) ao que havia de melhor no pensamento grego sobre a divindade. Repare, as coisas de Deus (por exemplo, poder eterno e divindade) s\u00e3o invis\u00edveis a olho nu, mas s\u00e3o claramente vistas pelas coisas criadas. Ou seja, o velho argumento de que o rel\u00f3gio demanda um relojoeiro e n\u00e3o o acaso.<\/p>\n\n\n\n<p>A teologia monoteista grega, como estamos tentando demonstrar, faz toda gala do que hoje chamamos de &#8220;Teologia Natural&#8221;. Ou seja, a que surge da observa\u00e7\u00e3o da natureza. E ela tem um rol important\u00edssimo para quem pare essa loucura que chamamos vida, e contemple um pouco. (Talvez por isso cada vez estamos mais ocupados e enredados com &#8220;fazer&#8221; em lugar de &#8220;contemplar&#8221;)<\/p>\n\n\n\n<p>O problema, \u00e9 que a outra teologia, como trem avassalador, est\u00e1 lastreada em outro tipo de coisa. A teologia hebreia, est\u00e1 baseada num ato de escolha, forma\u00e7\u00e3o e auto-revela\u00e7\u00e3o divina paulatina e crescente. Ou seja, as duas vias se cruzam, mas s\u00e3o de natureza distinta. Certos fil\u00f3sofos gregos, por experimenta\u00e7\u00e3o chegaram a entender que, de haver um deus, deveria ser \u00fanico, original, causador de tudo e &#8211; principalmente &#8211; imut\u00e1vel. Nada o poderia afetar.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensemos um momento nisso. Para que uma coisa seja origem do <em>ser<\/em>, n\u00e3o pode ser <em>coisa<\/em>. Tem que ser &#8220;<strong><em>ser<\/em><\/strong>&#8220;. Voc\u00ea pode produzir uma pedra no rim, mas essa mesma pedra n\u00e3o pode fazer um beb\u00ea. Por outro lado, para esse <strong><em>ser<\/em><\/strong> poder ser a causa de tudo, deve ser perfeito. D\u00b4outra forma nem sequer a idealiza\u00e7\u00e3o do perfeito poderia existir, j\u00e1 que apenas um <strong><em>ser<\/em><\/strong> perfeito pode produzir outras coisas que s\u00e3o mais ou menos perfeitas, mas um ser imperfeito n\u00e3o poderia &#8211; por muito que tentasse &#8211; produzir um ser perfeito contudo pudesse produzir uma coisa perfeita ou que lembrasse a mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, se esse <strong><em>ser<\/em><\/strong> que \u00e9 causa de todo o restante \u00e9 perfeito, ele n\u00e3o pode ser alterado do seu estado de perfei\u00e7\u00e3o. Se ele \u00e9 alterado para melhor, ent\u00e3o n\u00e3o era perfeito. J\u00e1 se \u00e9 alterado para pior, ent\u00e3o ele deixa de ser perfeito e alguma outra coisa (que n\u00e3o poderia existir porque teria que ser substancialmente id\u00eantica ao ser perfeito que acaba de n\u00e3o mais ser) deveria ocupar seu lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo, os gregos acertaram em cheio de que: se existe um deus deve ser apenas um e apenas ele ser causa de tudo e todos. Mas o que acontece quando esse trem se encontra com o outro trem do monote\u00edsmo ao qual se chega por auto-revela\u00e7\u00e3o do divino? Esse ser criador perfeito e causa de todo, pode ter afeto? Pode sequer sentir alguma coisa?<\/p>\n\n\n\n<p>O trem que vem em dire\u00e7\u00e3o igual e contr\u00e1ria nos fala de um Deus que fica irado, que se alegra, que se arrepende de coisas que fez, que se entristece com as atitudes dos seus seres criados, mas que se alegra com sua companhia. E isso, meu querido leitor, vai necessariamente a bater de frente com as ideias fixistas gregas cl\u00e1ssicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para abreviar a hist\u00f3ria \u2014 n\u00e3o porque ela seja pouco importante, mas porque nosso caminho aqui aponta para outro lugar \u2014 podemos resumir dizendo que aqueles primeiros s\u00e9culos foram marcados por tens\u00e3o constante entre o mundo judaico, o pensamento grego e o poder romano. Ent\u00e3o surge Jesus, dentro desse contexto: um judeu do primeiro s\u00e9culo que seus disc\u00edpulos passam a proclamar como o pr\u00f3prio Deus encarnado.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, o movimento crist\u00e3o continua crescendo lentamente apesar das persegui\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas. Cerca de trezentos anos mais tarde, j\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo IV, o cristianismo havia deixado de ser um pequeno grupo marginal e alcan\u00e7ava uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano \u2014 embora os n\u00fameros exatos sejam discutidos pelos historiadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Constantino percebe essa mudan\u00e7a. Em 313, juntamente com Lic\u00ednio, publica o \u00c9dito de Mil\u00e3o, garantindo liberdade religiosa aos crist\u00e3os e encerrando oficialmente as persegui\u00e7\u00f5es imperiais. Mais tarde, j\u00e1 no final do s\u00e9culo IV, Teod\u00f3sio I tornaria o cristianismo niceno a religi\u00e3o oficial do Imp\u00e9rio Romano atrav\u00e9s do \u00c9dito de Tessal\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto surge Agostinho de Hipona \u2014 mais tarde conhecido como Santo Agostinho \u2014 provavelmente uma das figuras mais influentes de toda a forma\u00e7\u00e3o intelectual do cristianismo ocidental. S\u00e9culos depois seria reconhecido como um dos quatro grandes doutores da Igreja Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Agostinho n\u00e3o escrevia no conforto de uma biblioteca isolada do mundo. Ele escrevia em meio a conflitos reais, tentando responder a problemas teol\u00f3gicos que amea\u00e7avam a pr\u00f3pria compreens\u00e3o crist\u00e3 de Deus, do homem e da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre essas disputas, duas se destacam especialmente.<\/p>\n\n\n\n<p>De um lado, o manique\u00edsmo \u2014 religi\u00e3o \u00e0 qual o pr\u00f3prio Agostinho havia aderido antes de sua convers\u00e3o \u2014 ensinava uma esp\u00e9cie de dualismo c\u00f3smico, no qual bem e mal existiam como princ\u00edpios quase equivalentes e eternos em conflito permanente. O universo seria resultado dessa tens\u00e3o entre duas for\u00e7as fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado, o pelagianismo afirmava que o ser humano, mesmo ap\u00f3s a queda, preservava capacidade moral suficiente para responder positivamente ao chamado divino por sua pr\u00f3pria vontade. O pecado teria ferido o homem, mas n\u00e3o destru\u00eddo profundamente sua liberdade moral. Pel\u00e1gio n\u00e3o negava a gra\u00e7a de Deus em absoluto \u2014 como \u00e0s vezes se caricatura \u2014 mas entendia essa gra\u00e7a muito mais como aux\u00edlio, instru\u00e7\u00e3o, exemplo e revela\u00e7\u00e3o do que como uma interven\u00e7\u00e3o absolutamente necess\u00e1ria para libertar uma vontade escravizada pelo pecado.<\/p>\n\n\n\n<p>Agostinho reage de forma quase oposta. Para ele, depois da queda, o ser humano n\u00e3o apenas se inclina ao mal: ele est\u00e1 incapacitado de voltar-se verdadeiramente para Deus sem a\u00e7\u00e3o pr\u00e9via da pr\u00f3pria gra\u00e7a divina. A vontade continua existindo, mas profundamente adoecida. O homem ainda escolhe \u2014 mas escolhe sempre dentro dos limites de uma natureza corrompida. Em outras palavras: o problema n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de vontade, mas incapacidade moral de desejar o bem \u00faltimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isso \u00e9 farinha de outro saco.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que o assunto n\u00e3o fique pendente: o pelagianismo acabava minimizando tr\u00eas coisas importantes para Agostinho e para boa parte da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 posterior: os efeitos radicais da queda, a escravid\u00e3o da vontade humana ao pecado e a necessidade absoluta da gra\u00e7a preveniente. S\u00e9culos mais tarde, Jacobus Arminius tentaria navegar esse mesmo problema de forma mais equilibrada, preservando a necessidade da gra\u00e7a sem transformar o ser humano num simples objeto passivo da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o que para Agostinho n\u00e3o houvessem atos civis bons. O ser humano (mesmo o mais perdido dos pecadores) ainda poderia amar seus filhos, construir cidades, escrever poesia, se sacrificar por alguma causa boa. Mas n\u00e3o consegue mover-se corretamente para Deus si s\u00f3. Chega de modernismo por enquanto.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, o neo-platonismo acabou funcionando para Agostinho quase como uma ferramenta intelectual de emerg\u00eancia. N\u00e3o porque fosse id\u00eantico ao cristianismo \u2014 claramente n\u00e3o era \u2014 mas porque oferecia categorias filos\u00f3ficas mais compat\u00edveis com a ideia de um Deus supremo, transcendente, origem de todo ser e de todo bem. Isso tamb\u00e9m n\u00e3o torna Agostinho um anti-her\u00f3i. Mas na luta que lhe tocou travar em defesa da soteriologia, ele precisou escolher. Lembre que ele falava assim sobre Plat\u00e3o: &#8220;o mais pr\u00f3ximo do cristianismo entre os pag\u00e3os&#8221;. O neoplatonismo acabou servindo a Agostinho como ponte filos\u00f3fica para poder conversar com a intelectualidade do imp\u00e9rio Romano. E ele escolheu bem o lado.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que, junto com essas ferramentas, certas ideias gregas tamb\u00e9m entraram silenciosamente pela porta dos fundos. Entre elas, a no\u00e7\u00e3o de um Deus absolutamente impass\u00edvel, incapaz de sofrer, ser afetado ou experimentar qualquer esp\u00e9cie de mudan\u00e7a relacional. E talvez seja justamente aqui que comece uma das tens\u00f5es mais profundas entre o Deus da metaf\u00edsica cl\u00e1ssica e o Deus revelado nas Escrituras.<\/p>\n\n\n\n<p>Fa\u00e7a um pequeno exercicio na sua comunidade ou com seus conhecidos. Pergunte simplesmente &#8220;Deus muda?&#8221; ou pior, &#8220;Podemos afetar Deus com nossas a\u00e7\u00f5es?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Um texto &#8211; ali\u00e1s talvez o \u00fanico &#8211; que venha na cabe\u00e7a dos seus interlocutores ser\u00e1 o de &#8220;Toda a boa d\u00e1diva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a nem sombra de varia\u00e7\u00e3o.&#8221; Tiago 1:17<\/p>\n\n\n\n<p>E &#8211; n\u00e3o havendo categorias &#8211; se d\u00e1 por sentado que n\u00e3o qualquer mudan\u00e7a no Criador. Trazendo assim &#8211; sem saber &#8211; ecos das posturas dos fil\u00f3sofos gregos que mencion\u00e1vamos antes. Uma forma simples de resolver esse embroglio \u00e9 que essencial e moralmente Deus n\u00e3o muda. Mas que ele sim tem mudado &#8211; e muito &#8211; no seu jeito de lidar com o Ser Humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 um complicador. N\u00e3o tanto pelo texto, mas pela heran\u00e7a que a negocia\u00e7\u00e3o de Agostinho com o neo-platonismo trouxe para dentro da areia da teologia crist\u00e3. Lutamos ent\u00e3o, n\u00e3o com categorias b\u00edblicas, mas com categorias e defini\u00e7\u00f5es alheias \u00e0 escrituras e estranhas \u00e0 revela\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Deus para com seu povo escolhido ao longo de s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Deus b\u00edblico faz coisas muito inconvenientes filosoficamente. Sem medo \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es de antropopatismo em que a B\u00edblia frequentemente descreve Deus usando linguagem humana, preciso insistir em que a Biblia uma e outra vez insiste em um deus que de fato \u00e9 Deus. E que tem afetos para al\u00e9m de meras figuras linguisticas. Especialmente ao atribuir-Lhe emo\u00e7\u00f5es como alegria, ira ou tristeza, vemos que Deus muda de atitude (se arrepende). Ele se ira. Ele ama. Ele responde ora\u00e7\u00e3o. Ele desce para ver Babel. Ele chora por Israel por meio dos profetas. E em Jesus\u2026 ah\u2026 em Jesus, Deus sofre.<\/p>\n\n\n\n<p>Se Jesus era apenas um &#8220;faz de conta&#8221; ent\u00e3o tudo o que cremos do sofrimento (e das alegrias) de Jesus durante sua vida na terra n\u00e3o passam de pantomima. Se ele estava apenas se comportando como um ser humano perfeito, ent\u00e3o era apenas um Deus disfar\u00e7ado e um grande impostor. A grande conclus\u00e3o \u00e0 que os disc\u00edpulos chegaram ap\u00f3s a ressurrei\u00e7\u00e3o era que Jesus \u00e9 Deus. Ou para dize-lo de forma mais forte: Deus \u00e9 Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus n\u00e3o era um corpo adotado durante um per\u00edodo e abandonado para sofrer na cruz. Era ele mesmo, Deus, havendo tomado forma de carne e deixando de lado seus atributos n\u00e3o comunic\u00e1veis de lado assumindo plenamente a condi\u00e7\u00e3o humana sem deixar de ser quem era. Claro, sem pecado pois o pecado n\u00e3o faz parte da figura original do ser humano. Um novo come\u00e7o. Ou como diria Irineu de Li\u00e3o na sua teoria da recapitula\u00e7\u00e3o: Uma nova cabe\u00e7a [para uma nova cria\u00e7\u00e3o].<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o recolhe muito bem o anseio de mais de um de n\u00f3s no seu cap\u00edtulo 14: &#8220;<strong>Replicou-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.<\/strong>&#8221; Jo\u00e3o 14:8 Fala a verdade. Se voc\u00ea pudesse ter acesso direto a Deus. Ao criador. Ao origem de tudo. Ao moto original. \u00c0quele que n\u00e3o tem igual. \u00c0quele que n\u00e3o pode ser substitu\u00eddo\u2026. fala a verdade. Isso n\u00e3o seria suficiente para cair de joelhos e esquecer todo teu orgulho e argumentos vazios que tu precisas para sustentar a narrativa de uma exist\u00eancia sem Deus? N\u00e3o seria isso que te tiraria do torpor de uma vida vazia e sem sentido para finalmente encontrar a paz?<\/p>\n\n\n\n<p>E qual \u00e9 a resposta de Jesus \u00e0 pergunta mais profunda e existencial que qualquer homem poderia fazer em qualquer \u00e9poca? A mais simples e reveladora de todas: &#8220;<strong>Disse-lhe Jesus: Filipe, h\u00e1 tanto tempo estou convosco, e n\u00e3o me tens conhecido? Quem me v\u00ea a mim v\u00ea o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?<\/strong>&#8221; Jo\u00e3o 14:9<\/p>\n\n\n\n<p>Para desmentir isso, voc\u00ea precisa chamar Jesus de mentiroso. E isso vai contra n\u00e3o apenas a auto-revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica, mas contra milhares de pessoas que &#8220;.. n\u00e3o podiam deixar de falar do que tinham visto e ouvido \u2026 &#8221; (par\u00e1frases de Atos 4:20)<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O Novo Testamento n\u00e3o tem medo algum de mostrar um Deus que \u00e9 afetado. E nisso, ele \u00e9 plena continuidade do Antigo Testamento. Dois Pactos, Duas Alian\u00e7as o mesmo Deus manifestado de formas bem distintas, mas com um elo comum: Os Afetos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<strong>Jesus Chorou<\/strong>&#8221; talvez seja a frase mais simples e mais profunda da encarna\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m a frase mais destruidora de toda a metaf\u00edsica impass\u00edvel aristot\u00e9lica. Porque se Jesus, que \u00e9 &#8220;<strong>a imagem exata do ser de Deus<\/strong>, chorou. Ent\u00e3o o choro n\u00e3o \u00e9 um acidente antropol\u00f3gico tempor\u00e1rio. Uma prosopopeia para colocar bovino para adormecer. \u00c9 revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Talvez tenhamos protegido Deus tanto do sofrimento que acabamos protegendo-o tamb\u00e9m do amor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o problema nunca tenha sido afirmar que Deus \u00e9 perfeito. O problema foi imaginar perfei\u00e7\u00e3o como incapacidade de ser afetado. Porque o amor verdadeiro necessariamente implica vulnerabilidade relacional. Vejamos alguns exemplos:<\/p>\n\n\n\n<p>O pai do filho pr\u00f3digo. Sofre.<\/p>\n\n\n\n<p>O noivo no livro de Os\u00e9ias (e recomendo sua leitura). Sofre.<\/p>\n\n\n\n<p>O Espirito Santo, pode ser entristecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus, chora diante de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o porque Deus tenha perdido controle do plano, mas porque o plano era justamente &#8220;relacionamento&#8221; e relacionamento real sempre envolve afeto real.<\/p>\n\n\n\n<p>Aristoteles queria proteger a perfei\u00e7\u00e3o; Agostinho queria proteger a transcend\u00eancia; a tradi\u00e7\u00e3o quis proteger Deus da mutabilidade; mas talvez, no processo, tenham protegido Deus tamb\u00e9m da vulnerabilidade do amor.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>1) Pulemos Tomas de Aquino. N\u00e3o porque n\u00e3o seja importante, mas porque o volume dele excede a capacidade de conten\u00e7\u00e3o de este pequeno conjunto de linhas e abrir\u00edamos mais vertentes. A qual delas mais interessantes.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>2) Durante s\u00e9culos tentamos proteger Deus da dor. Como se sofrer fosse indigno dele. Mas o evangelho, parece caminhar na dire\u00e7\u00e3o oposta. A cruz n\u00e3o revela um Deus incapaz de ser afetado. Revela um Deus que ama profundamente demais para permanecer distante<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>3) Existem duas coisas que a B\u00edblia parece afirmar ao mesmo tempo. E &#8211; segundo minha opini\u00e3o &#8211; n\u00e3o nos compete desmontar ou desfazer essa tens\u00e3o, mas aplica-la como tal. Uma das coisas \u00e9 &#8220;Deus age segundo um prop\u00f3sito eterno&#8221; (devo confessar aqui por pura honestidade intelectual que essa ideia me atrai muito) e a outra coisa \u00e9 &#8220;Deus ama de forma viva, relacional, verdadeira&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O nosso problema come\u00e7a quando tentamos transformar uma dessas coisas na nega\u00e7\u00e3o da outra. Se tudo em Deus \u00e9 apenas a execu\u00e7\u00e3o fria de um decreto eterno, ent\u00e3o o amor corre risco de virar apenas mecanismo. A cruz seria &#8220;o plano&#8221; apenas isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o Novo Testamento n\u00e3o fala assim. Ele diz:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<strong>Deus <em>amou<\/em> o mundo de tal maneira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o diz:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<strong>Deus executou consistentemente um protocolo metaf\u00edsico eterno<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Existe afeto ali. Existe desejo. Existe\u2026 entrega.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>4) Pensamos nestas categorias: ou Deus age racionalmente ou Deus age afetivamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas talvez Deus n\u00e3o esteja dividido (assim como o homem \u00e9 uma s\u00f3 coisa mesmo que possamos dividir para estudar)<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, talvez o amor n\u00e3o seja um impulso irracional posterior ao ser divino. Como coisa adquirida ou monopolizada posteriormente a\u2026 sei l\u00e1. Fica complicado. Deus \u00e9 eterno e se adquire alguma coisa &#8220;depois&#8221; de algo, ent\u00e3o onde esse algo estava\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Talez o amor seja precisamente o que Deus eternamente \u00e9. Jo\u00e3o explode com tudo ao dizer &#8220;Deus \u00e9 amor&#8221;. Se bem alguns entendem que amor \u00e9 qualquer coisa parecida com libertinagem, ao passo que outros entendem que &#8220;Deus possui amor&#8221; \u2026 muito amor, mas apenas o possui\u2026.. A revela\u00e7\u00e3o diz que Deus &#8220;<strong><em>\u00c9<\/em><\/strong> &#8220;amor ]<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>5) A cruz n\u00e3o cria o amor de Deus. Ela o revela de uma forma singular (volte l\u00e1 no topo no uso da palavra &#8220;singularidade&#8221;) dentro (isso diz muito mais do que consigo expressar em palavras) da hist\u00f3ria humana.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Jonathan Edwards entra quase como um eco tardio disso tudo. Um homem profundamente reformado, profundamente racional, mas que percebeu algo que muita teologia posterior a Agostinho tinham anestesiado: os afetos n\u00e3o s\u00e3o inimigos da verdade. S\u00e3o parte da pr\u00f3pria maneira como fomos feitos para responder a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Talvez os afetos n\u00e3o sejam um defeito inferior da exist\u00eancia humana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Assim como quando andamos pela BR-116, todo cuidado aqui \u00e9 pouco. &#8220;Afetos&#8221; em Edwards n\u00e3o \u00e9 <em>sentimentalismo<\/em> Repare. Do outro lado do oceano, no velho mundo, o movimento era exatamente esse. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 &#8220;emo\u00e7\u00e3o passageira&#8221; e muito menos &#8220;histeria religiosa&#8221; coisas das quais, qualquer pessoa que leve a vida a s\u00e9rio deve fugir.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Edwards, &#8220;affections&#8221; (pobremente traduzida por afetos nas l\u00ednguas neo-latinas) eram <strong><em>as inclina\u00e7\u00f5es profundas do cora\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong>. Agora. Para e pensa nisso. N\u00e3o estamos falando de um Cat\u00f3lico ou de um Protestante. Estamos falando de um Reformado. S\u00e9rio\u2026 \u00e9 um bom momento para ir l\u00e1 fora espairecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Este homem era conhecido por andar muito a cavalo. E ele costumava pensar muito e se perder em suas cavila\u00e7\u00f5es. Contam que ele levava papeis e linha de costura. Anotava as ideias e as costurava no sobretudo dele. Era a esposa dela quem organizava isso tudo depois. Haja trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Fim da pausa.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Edwards (1703-1758) <em>afetos<\/em> s\u00e3o os amores que verdadeiramente movem a alma. Aquilo fundamental que movimenta a vontade. Dito de outra forma, ningu\u00e9m se movimenta para coisa nenhuma apenas por ter conclu\u00eddo logicamente que aquele \u00e9 um bom passo. A l\u00f3gica tem seu papel, mas ele se movimenta porque ama algo.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha esposa (que \u00e9 terapeuta) h\u00e1 alguns anos se referindo ao meu minist\u00e9rio ela disse &#8220;Obvio que para voc\u00ea n\u00e3o pesa. Voc\u00ea ama isso tudo&#8221;. E essa frase resume o pensamento de Edwards de uma forma brutal.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e9culos depois Freud, seu disc\u00edpulo Jung, a neuro-ci\u00eancia a psicologia cognitiva iriam redescobrir isso. Mas o pr\u00f3prio Edwards n\u00e3o \u00e9 original na sua ideia. A B\u00edblia fala &#8220;<strong>a boca fala do que est\u00e1 cheio o cora\u00e7\u00e3o.<\/strong>&#8221; Mateus 12:34 e tamb\u00e9m &#8220;<strong>onde est\u00e1 o teu tesouro, a\u00ed estar\u00e1 tamb\u00e9m o teu cora\u00e7\u00e3o<\/strong>&#8221; Mateus 6:21<\/p>\n\n\n\n<p>O ser humano, raramente \u00e9 movido pela raz\u00e3o pura. Veja o que rola com grandes l\u00edderes pol\u00edticos mundiais. S\u00e9rio que voc\u00ea acha que algum deles se movimenta por pura raz\u00e3o? Considere Pond\u00e9, Karnal, Mos\u00e9, Cortella, Cl\u00f3vis de Barros Filho. S\u00e3o eles movidos pela raz\u00e3o pura? N\u00e3o\u2026 H\u00e1 afetos, temores, e toda sorte de mundo subterr\u00e2neo oculto neles. A raz\u00e3o acaba fazendo parte do arcabou\u00e7o comunicacional deles. Mas n\u00e3o \u00e9 a raz\u00e3o que os move. A causa original \u00e9 um afeto nem que seja o afeto \u00e0 pr\u00f3pria voz proferida em alto som.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, Edwards n\u00e3o defendia um um Deus mut\u00e1vel emocionalmente. Ele continua dentro da tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica em muitos aspectos. O que ele sim faz \u00e9 reposicionar os afetos como parte essencial da espiritualidade humana. Friso a palavra &#8220;<strong>essencial<\/strong>&#8221; e &#8220;<strong>espiritualidade<\/strong>&#8221; aqui. Isso faz muita diferen\u00e7a: &#8220;Os afetos n\u00e3o s\u00e3o inimigos da verdade&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O homem n\u00e3o \u00e9 movido apenas por ideias, mas por afetos. Eles se entrela\u00e7am. E n\u00e3o poderia ser de outra forma. Por mais que adotemos um paradigma dicot\u00f4mico (corpo e esp\u00edrito) ou tricot\u00f4mico (corpo, alma e espirito) \u00e9 ineg\u00e1vel que apenas podemos fazer essa divis\u00e3o aos efeitos do estudo. A morte prova esse ponto. Do mesmo jeito, raz\u00e3o e afeto est\u00e3o intrinsicamente mesclados mas que geralmente damos mais aten\u00e7\u00e3o a um que a outro ou entendemos ser mais importante um do que outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o eis a essencialidade da espiritualidade humana: os afetos fazem parte insepar\u00e1vel dela. Porque ao tentar separar ela, voc\u00ea acaba tendo apenas uma parte oca, morta.<\/p>\n\n\n\n<p>O ser humano faz aquilo que ama. (E o contrario nem sempre \u00e9 verdadeiro. Viva a ambival\u00eancia)<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez por isso Edwards tenha percebido algo que muita teologia excessivamente racionalizada come\u00e7ava a esquecer: ningu\u00e9m se relaciona com Deus apenas por conclus\u00e3o l\u00f3gica. A pr\u00f3pria f\u00e9 envolve desejo, encanto, temor, amor, alegria, rever\u00eancia e beleza.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou dito de outra forma: voc\u00ea nunca na vida vai convencer ningu\u00e9m sobre ser Deus a causa \u00fanica da exist\u00eancia humana. Ou a pessoa ama a Deus ou o detesta. As duas coisas far\u00e1 com todas suas for\u00e7as, com todo seu cora\u00e7\u00e3o e com toda sua alma. Da\u00ed que alguns &#8211; se dizendo crist\u00e3os &#8211; podem fazer rituais pag\u00e3os. Porque n\u00e3o h\u00e1 afetos envolvidos na rela\u00e7\u00e3o com Deus, seu criador, apenas raz\u00e3o, conveni\u00eancia, sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema do ser humano n\u00e3o seria apenas ignor\u00e2ncia intelectual, mas desordem afetiva. N\u00e3o amamos pouco. Amamos errado.<\/p>\n\n\n\n<p>E talvez seja justamente aqui que a cruz deixa de ser apenas um mecanismo jur\u00eddico eterno e passe a revelar algo muito mais profundo: que o pr\u00f3prio fundamento da realidade n\u00e3o \u00e9 indiferen\u00e7a, mas amor.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>E o &#8220;Deus dos afetos&#8221; do t\u00edtulo, onde fica?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<strong>Porque <em>somos feitura sua<\/em>, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que and\u00e1ssemos nelas<\/strong>&#8221; Ef\u00e9sios 2:10<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;<strong>E criou Deus o homem \u00e0 sua imagem; <em>\u00e0 imagem de Deus o criou<\/em>; homem e mulher os criou.<\/strong>&#8221; G\u00eanesis 1:27<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez seja justamente por isso que a B\u00edblia insista tanto no cora\u00e7\u00e3o humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque no fim das contas, o homem sempre se move na dire\u00e7\u00e3o daquilo que ama.<\/p>\n\n\n\n<p>E talvez o fato de sermos criaturas t\u00e3o profundamente afetivas diga mais sobre o Criador do que estivemos dispostos a admitir durante s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, o fruto raramente cai longe da \u00e1rvore.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto aborda a busca da humanidade pela compreens\u00e3o da exist\u00eancia e do divino, tra\u00e7ando uma linhagem filos\u00f3fica desde os pensadores gregos at\u00e9 a teologia crist\u00e3. Destaca vis\u00f5es contrastantes de um Deus distante e imut\u00e1vel versus um Deus relacional e afetivo, como o personificado em Jesus. 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