{"id":1379,"date":"2026-08-05T06:10:00","date_gmt":"2026-08-05T09:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/?p=1379"},"modified":"2026-08-04T16:27:42","modified_gmt":"2026-08-04T19:27:42","slug":"o-tempo-passa-e-vamos-ficando-velhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/o-tempo-passa-e-vamos-ficando-velhos\/","title":{"rendered":"O tempo passa e vamos ficando velhos"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7o meu dia tomando essas p\u00edlulas. Ao final do dia, tenho mais quatro.<\/p>\n<p>Tem uma m\u00fasica eternizada na voz da cantora argentina <a href=\"https:\/\/www.letras.com\/mercedes-sosa\/63290\/\">Mercedes Sosa<\/a> que diz assim: &ldquo;O tempo passa e vamos ficando velhos, e o amor n\u00e3o o reflito como ontem&rdquo; (em tradu\u00e7\u00e3o livre, que n\u00e3o consegue transmitir a ideia de &ldquo;nos vamos poniendo viejos&rdquo;).<\/p>\n<p>O envelhecimento \u00e9 uma experi\u00eancia universal. Dizem que de nada temos seguran\u00e7a neste mundo a n\u00e3o ser da morte. Por\u00e9m (como Spurgeon bem colocava) n\u00e3o h\u00e1 nada mais incerto do que a hora da morte. Ent\u00e3o, se voc\u00ea est\u00e1 vivo (e n\u00e3o haveria outra forma de voc\u00ea estar lendo este artigo), o mais seguro \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 envelhecendo e esse processo, se n\u00e3o interrompido por doen\u00e7a ou acidente, vai se prolongar alguns anos mais.<\/p>\n<p>A velhice n\u00e3o chega de uma vez. Ela vai se instalando silenciosamente. De repente, vemos que n\u00e3o mais lembramos dos nomes. Que o corpo exige cuidado. Que os pais envelhecem e\/ou morrem. Que alguns projetos deixam de ser sonhos e passam a ser lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>O verdadeiro choque n\u00e3o \u00e9 perder a juventude; \u00e9 descobrir que o tempo j\u00e1 n\u00e3o parece infinito.<\/p>\n<h2>A juventude vive da ilus\u00e3o da reversibilidade<\/h2>\n<p>Enquanto somos jovens, acreditamos que quase tudo pode ser perfeito. Como temos for\u00e7a, energia, vitalidade, o horizonte da vida parece largo e distante. E, pior ainda, revers\u00edvel.<\/p>\n<p>Pensamos que sempre haver\u00e1 tempo para pedir perd\u00e3o, reconstruir relacionamentos, mudar de profiss\u00e3o ou corrigir decis\u00f5es. A maturidade revela que existem acontecimentos irrevers\u00edveis. O evangelho n\u00e3o promete devolver o passado; promete redimir pessoas que t\u00eam um passado. Redimir, simplificando, \u00e9 comprar um escravo por um pre\u00e7o. Libert\u00e1-lo e lev\u00e1-lo para um novo plano que, no caso de Jesus e a f\u00e9 nele, significa o Reino. Aqui e agora. Outras palavras similares, mas que, embora n\u00e3o cheguem perto, servem para explicar o que estou querendo: Alforria, Emancipa\u00e7\u00e3o. (Na emancipa\u00e7\u00e3o\/alforria que conhecemos, n\u00e3o foram criadas as condi\u00e7\u00f5es sociais necess\u00e1rias para que o emancipado conseguisse ter uma vida digna. Isso a reden\u00e7\u00e3o trata mais profundamente, e isso importa.)<\/p>\n<h2>A B\u00edblia n\u00e3o romantiza a velhice<\/h2>\n<p>Na realidade, a B\u00edblia n\u00e3o romantiza nada. Ela conta duas hist\u00f3rias de formas tocantes: a perif\u00e9rica, que \u00e9 o relato de a\u00e7\u00f5es, decis\u00f5es, observa\u00e7\u00f5es, consequ\u00eancias das decis\u00f5es \u2014 boas e ruins \u2014 e micro atos de reden\u00e7\u00e3o atingindo pessoas, fam\u00edlias, povos. E tamb\u00e9m tem o relato principal, que \u00e9 a reden\u00e7\u00e3o feita por Jesus na cruz, apontando para uma reden\u00e7\u00e3o at\u00e9 da cria\u00e7\u00e3o. O importante aqui: Deus n\u00e3o abandona seus projetos.<\/p>\n<p>Textos como Eclesiastes 12 descrevem com realismo a decad\u00eancia do corpo. Salmo 90 ensina a contar os dias. Jo\u00e3o 21 mostra Jesus anunciando a Pedro a perda gradual da autonomia.<\/p>\n<p>A Escritura honra os cabelos brancos, mas nunca trata a velhice como um pr\u00eamio autom\u00e1tico nem como sin\u00f4nimo de sabedoria. Baste ver o mundar\u00e9u de pessoas idosas carrancudas, raivosas, violentas, bravas com Deus e com o mundo, vivendo num inconformismo e ressentimento que cabem bem na adolesc\u00eancia, mas n\u00e3o no final da vida.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as na vida, pode sim ser de ordem violenta ou instant\u00e2nea &#8211; um AVC, uma paralisia, uma trai\u00e7\u00e3o, o trabalho que se perde e muda tudo, enfim a lista \u00e9 longa &#8211; mas as mudan\u00e7as sobre as quais temos algum tipo de poder s\u00e3o demoradas e dolorosas. Por isso que, geralmente, negamos a necessidade de ajuda ou a import\u00e2ncia de ver que, fazendo do mesmo jeito que sempre fizemos, n\u00e3o conseguiremos obter resultados diferentes.<\/p>\n<p>Essas mudan\u00e7as requerem n\u00e3o apenas um alvo sonhado. Precisam se transformar em um plano bem estabelecido. N\u00e3o uma coisa do tipo &ldquo;Daqui pra frente tudo ser\u00e1 diferente&rdquo;. Esse refr\u00e3o que se repete ano ap\u00f3s ano em certa TV p\u00fablica j\u00e1 mostra, logo em fevereiro ou mar\u00e7o, que n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/p>\n<h2>Consequ\u00eancias permanecem. Condena\u00e7\u00e3o, n\u00e3o.<\/h2>\n<p>A B\u00edblia est\u00e1 cheia de pessoas que pecaram, obtiveram o perd\u00e3o de Deus e tiveram que continuar a viver com as consequ\u00eancias do seu pecado. Talvez o exemplo mais claro seja o de Davi.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma idade em que descobrimos que n\u00e3o somos mais definidos pelos nossos maiores acertos nem pelos nossos maiores fracassos. Somos definidos pela gra\u00e7a com que Deus continua escrevendo a hist\u00f3ria apesar deles.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Davi mostra que Deus perdoa sem apagar todas as consequ\u00eancias. H\u00e1 perdas que permanecem at\u00e9 o fim da vida. Davi n\u00e3o perdeu apenas o filho que teve com Bate-Seba \u2014 a gravidez dela foi justamente o que levou Davi a mandar Urias para a linha de frente \u2014 mas tamb\u00e9m enfrentou uma fratura de integridade e desdobramentos prolongados na casa real.<\/p>\n<blockquote>\n<p>No epis\u00f3dio de Bate-Seba, ap\u00f3s Davi pecar, a B\u00edblia diz que o SENHOR enviou Nat\u00e3 a Davi (2 Samuel 12). Nat\u00e3 confronta Davi com uma par\u00e1bola e, depois, anuncia diretamente as consequ\u00eancias: que a espada n\u00e3o se afastaria da casa de Davi e que o filho morreria, e que isso aconteceria \u201cporquanto\u201d Davi agiu daquele modo (2 Samuel 12:1-14).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Mesmo com isso, Davi n\u00e3o perdeu o reinado, e n\u00e3o foi \u201cdesqualificado\u201d como rei diante de Deus: ele continuou sendo um dos l\u00edderes do povo judeu e, apesar das consequ\u00eancias, permaneceu no prop\u00f3sito divino.<\/p>\n<p>Acho que poucos conseguimos entender a atitude de Davi ao se levantar do jejum assim que o menino morreu e ir celebrar um banquete. Para o observador ocasional, isso soa a psicopatia, ou pelo menos a desinteresse. Geralmente o que se espera \u00e9 que se fa\u00e7a luto ap\u00f3s a morte. Ele n\u00e3o. Menos mal que temos a explica\u00e7\u00e3o b\u00edblica. Por isso sugiro a leitura inteira do epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>O crist\u00e3o idoso pode carregar cicatrizes profundas sem continuar vivendo como condenado. E isso \u00e9 realmente libertador. Romanos 8 e 1 Cor\u00edntios 4 mostram que a palavra final sobre nossa vida pertence a Cristo, n\u00e3o \u00e0 culpa nem aos aplausos.<\/p>\n<h3>O envelhecimento desmonta a ilus\u00e3o de autossufici\u00eancia<\/h3>\n<p>A maior perda talvez n\u00e3o seja a for\u00e7a f\u00edsica, mas a autonomia. O corpo deixa de obedecer, a mem\u00f3ria falha, outras pessoas passam a cuidar de n\u00f3s, a privacidade e a independ\u00eancia deixam de ser um bem extremamente prezado e zelado para virar moeda de barganha com a manuten\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Descobrimos que nunca fomos realmente independentes; apenas consegu\u00edamos esconder nossa depend\u00eancia. Agora j\u00e1 n\u00e3o. A velhice se torna uma esp\u00e9cie de <em>humildade compuls\u00f3ria<\/em>.<\/p>\n<p>Por exemplo, o modo como Jesus descreve o futuro de Pedro mostra que depend\u00eancia nem sempre \u00e9 escolhida: em vez de Pedro seguir o caminho que queria, haveria um tempo em que ele seria levado \u201cpara onde n\u00e3o queres\u201d. O corpo \u2014 e, por extens\u00e3o, a vontade \u2014 deixa de ser o centro do governo, e a vida passa a ser conduzida por um chamado que o ultrapassa. Assim, a fragilidade n\u00e3o aparece apenas como falha; ela vira lugar de comunh\u00e3o com a gra\u00e7a e com a miss\u00e3o, porque o \u201ceu\u201d j\u00e1 n\u00e3o sustenta sozinho o peso do caminho.<\/p>\n<h2>A igreja local deveria ser o lugar onde a fragilidade encontra comunh\u00e3o<\/h2>\n<p>\u00c0 medida que a depend\u00eancia cresce, torna-se ainda mais necess\u00e1ria uma comunidade capaz de acolher confiss\u00e3o, arrependimento, luto e limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<hr>\n<p>N\u00e3o se engane, at\u00e9 o mais perdido dos pecadores precisa de confiss\u00e3o. H\u00e1 um <a href=\"https:\/\/www.lavanguardia.com\/internacional\/20260316\/11491494\/arqueros-ciervos-secretos-safari-humano-sarajevo.html\">livro<\/a> publicado recentemente sobre os franco-atiradores ocidentais em Sarajevo nos anos 1990. Tratarei disso num outro artigo.<\/p>\n<hr>\n<p>Voltemos ao assunto do luto, confiss\u00f5es, limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em vez de acolher confiss\u00e3o, arrependimento, luto e limita\u00e7\u00f5es, muitas igrejas esperam que os mais velhos demonstrem estabilidade permanente. A comunh\u00e3o dos santos deveria ser um b\u00e1lsamo justamente quando j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 como voltar atr\u00e1s.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesse sentido que Maria, colocada sob os cuidados de Jo\u00e3o (Jo\u00e3o 19:26-27), \u00e9 uma boa ilustra\u00e7\u00e3o: ela \u00e9 recebida, sustentada e amparada por algu\u00e9m designado para n\u00e3o deixar a fragilidade isolada. Se at\u00e9 naquele momento, quando a vida de Jesus estava sendo levada, Maria n\u00e3o foi \u201clargada\u201d, mas entregue ao cuidado, ent\u00e3o a igreja tamb\u00e9m deve aprender a fazer o mesmo com os seus idosos \u2014 n\u00e3o como favor, mas como express\u00e3o de amor que n\u00e3o depende da for\u00e7a de quem recebe.<\/p>\n<h3>Cristo d\u00e1 sentido ao tempo que resta<\/h3>\n<p>A esperan\u00e7a crist\u00e3 n\u00e3o consiste em recuperar a juventude nem em escapar da realidade. Consiste em descobrir que o tempo, mesmo quando nos tira as for\u00e7as, oportunidades e autonomia, continua pertencendo a Deus. Cristo n\u00e3o elimina a finitude; ele impede que ela tenha a palavra final.<\/p>\n<p>Agora, sem romantizar nem tornar doce a p\u00edlula do envelhecimento, vamos ancorar a reflex\u00e3o em 2 Cor\u00edntios 4:16: \u201cAinda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia.\u201d O corpo pode \u201cdeixar de obedecer\u201d, mas a vida interior n\u00e3o fica sem governo: ela vai sendo rearrumada, dia ap\u00f3s dia.<\/p>\n<p>E o mesmo tom pastoral aparece em Isa\u00edas 46:4: \u201cAt\u00e9 a vossa velhice eu sou o mesmo\u2026 eu vos sustentarei.\u201d Deus n\u00e3o se afasta quando a capacidade diminui; Ele sustenta quando a depend\u00eancia aumenta.<\/p>\n<p>Por fim, o Salmo 71:9-18 coloca palavras num luto que \u00e9 real: ele descreve envelhecimento e decl\u00ednio, mas n\u00e3o cala o testemunho de amparo. A velhice pode doer \u2014 ainda assim, a m\u00e3o que sustenta n\u00e3o muda.<\/p>\n<p>O envelhecimento, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 finitude \u201cgradual\u201d; h\u00e1 dias em que chega uma esp\u00e9cie de noite interior. No Alzheimer, a mem\u00f3ria se rompe, as palavras se perdem, e \u00e0s vezes o c\u00e9rebro j\u00e1 n\u00e3o parece alcan\u00e7ar os est\u00edmulos como antes. Nesses momentos, a promessa de Deus n\u00e3o \u00e9 que a mente volte a funcionar, mas que Ele guarda em paz quem persevera.<\/p>\n<p>Talvez chegue um dia em que nossa mente j\u00e1 n\u00e3o consiga permanecer firme nele. N\u00e3o \u00e9 mais uma capacidade cognitiva que a pessoa controla, \u00e9 algo sustentado por amor: por ora\u00e7\u00e3o, por presen\u00e7a, por leitura, por m\u00fasica, por cuidado paciente.<\/p>\n<p>Quando chega o tempo em que \u201cnem mais o c\u00e9rebro parece responder\u201d, ainda assim a comunh\u00e3o pode acontecer por caminhos que atravessam o pensamento consciente: uma can\u00e7\u00e3o conhecida, o tom da voz, uma frase do evangelho dita com const\u00e2ncia, uma ora\u00e7\u00e3o sussurrada. Vi isso em pessoas que j\u00e1 n\u00e3o falavam por causa do Alzheimer, mas se comoviam \u2014 indo \u00e0s l\u00e1grimas \u2014 quando o nome de Jesus era anunciado. N\u00e3o era performance: era vida sustentada por gra\u00e7a, mesmo no limite.<\/p>\n<h3>Conclus\u00e3o<\/h3>\n<p>Envelhecer \u00e9 descobrir que existem decis\u00f5es irrevers\u00edveis, perdas definitivas e limites que n\u00e3o podem ser negociados. \u00c9 tamb\u00e9m perceber que nossa dignidade nunca esteve na for\u00e7a, na mem\u00f3ria ou na capacidade de controlar a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma hora da vida em que j\u00e1 n\u00e3o podemos voltar atr\u00e1s. Mas ainda podemos caminhar para a frente. N\u00e3o porque o passado deixou de existir, nem porque as perdas deixaram de doer.<\/p>\n<p>Caminhamos porque Cristo entrou na nossa hist\u00f3ria, inclusive naquela parte que nunca conseguiremos reescrever. O tempo continua passando. Continuaremos envelhecendo. Mas j\u00e1 n\u00e3o caminhamos rumo ao vazio. Caminhamos ao encontro daquele que prometeu: &ldquo;At\u00e9 a vossa velhice eu serei o mesmo&hellip; eu vos sustentarei.&rdquo; (Isa\u00edas 46:4)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7o meu dia tomando essas p\u00edlulas. Ao final do dia, tenho mais quatro. 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