{"id":168,"date":"2014-08-10T16:29:30","date_gmt":"2014-08-10T19:29:30","guid":{"rendered":"http:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/?p=168"},"modified":"2014-08-10T18:39:00","modified_gmt":"2014-08-10T21:39:00","slug":"a-paternidade-e-a-patria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/a-paternidade-e-a-patria\/","title":{"rendered":"A paternidade e a p\u00e1tria"},"content":{"rendered":"<p>Parece que n\u00e3o faz muito tempo que escolhi ser pai, mas se me ponho a fazer as contas l\u00e1 se v\u00e3o 29 anos. Quem quiser uma vers\u00e3o mais leve destas mesmas ideias, d\u00ea uma olhada neste outro <a title=\"Homem cria homem\" href=\"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/homem-cria-homem\/\" target=\"_blank\">artigo<\/a>. A decis\u00e3o de ser pai \u00e9 anterior ao chamado ao pastorado e \u00e9 concomitante com a escolha profissional; deu-se em circunst\u00e2ncias de plena admira\u00e7\u00e3o pelo meu velho. \u00a0Lembro que naqueles dias pediram para levar uma foto da personagem que mais admir\u00e1vamos e, ent\u00e3o, levei uma foto 3&#215;4 de meu progenitor. A nossa rela\u00e7\u00e3o (marcada por um profundo e perpetuo sil\u00eancio desde que eu tinha l\u00e1 meus 8 ou 9 anos), sempre foi no sentido em que eu entendia meu velho, mas sentia como que o contr\u00e1rio n\u00e3o era sempre igual. Faz uns dias liguei para ele por conta do dia do amigo. \u00a0Isso porque no \u00e2mago da minha defini\u00e7\u00e3o de gente est\u00e1 a figura do meu pai-amigo, segurando a m\u00e3o quando eu era um pivete. As minhas primeiras lembran\u00e7as s\u00e3o com ele. Todas e cada uma das cicatrizes que levo foram feitas estando com ele e de nenhuma delas me arrependo. \u00a0As coisas que sei e as que imagino da escritura tem como referencial meu velho que -ao final das contas- soube nos passar bem a teoria da coisa. Todavia, ver as ambiguidades que nele havia, me levaram a tomar a decis\u00e3o de ser pai. Ou seja, de ser um outro tipo de pai na realidade.\u00a0\u00a0Acess\u00edvel, compreensivo, presente, interessado, ouvinte, firme, acolhedor. \u00a0Me lembro exatamente onde e como estava naquela noite, assim como \u00a0o frio invernal uruguaio \u00a0batendo no meu rosto. Me lembro\u00a0da primeira namorada. Ele me apoiou, me bancou, me deixou livre, mas n\u00e3o me aconselhou, n\u00e3o me levou para conversar. Uma \u00fanica vez me falou sobre o relacionamento marido mulher e falou assim: &#8220;<em>quando um homem assume um compromisso com uma mulher, tem que levar esse compromisso at\u00e9 o fim<\/em>&#8220;. \u00a0Isso causou um v\u00e1cuo em mim porque queria dizer -naquela \u00e9poca- que eu n\u00e3o mais podia errar, n\u00e3o podia sequer tentar conhecer uma mulher. \u00a0Ent\u00e3o decidi beber desse po\u00e7o de imensa sabedoria ao meu ver, e desse ponto em diante n\u00e3o mais namoraria at\u00e9 que fosse para casar. Casei. Tentei ser e fazer a mulher feliz; tivemos uma filha maravilhosa e um que partiu antes de ver este mundo. Mas esta rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o chegou ao bom termo almejado no inicio. Eu estava, de todo cora\u00e7\u00e3o, tentando ser um bom filho. Mas nessa rela\u00e7\u00e3o de paternidade\/amizade havia faltado o mais relevante: o di\u00e1logo. Hoje eu entendo meu pai. Eu sei que ele n\u00e3o estava falando para mim ou de mim. \u00a0Estava falando dele mesmo e de\u00a0sua frustra\u00e7\u00e3o particular. Seu po\u00e7o silencioso e solit\u00e1rio se tornara insuspeitavelmente estreito e, do alto (ou do fundo) da sua meia-idade, observava como se esvaiam os \u00faltimos anseios de felicidade elaborados durante a\u00a0juventude. O mais dif\u00edcil e perfurante no processo de queda, separa\u00e7\u00e3o, solid\u00e3o, divorcio, n\u00e3o foram as noites sem dormir nem a falta de apetite. N\u00e3o foi tamb\u00e9m o sentimento de culpa nem os olhares\u00a0fulminantes dos que tinham formado um ideal al\u00e9m da minha capacidade e, agora, n\u00e3o tinham outra op\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser mudar de lado na rua quando me viam andando. O que mais do\u00eda\u00a0era n\u00e3o poder estar com minha filha no final do dia. Abra\u00e7a-la, faze-la dormir, aconchega-la nas noites de chuva, assistirmos um bom filme juntos, ou andar de m\u00e3os dadas. Isso at\u00e9 hoje me faz falta, pois, de ser o homem que transmitia seguran\u00e7a, passei a ser o traidor dos sonhos infantis de uma menina inocente. Continuei ent\u00e3o a trabalhar com o que tinha sobejado: acessibilidade, compreens\u00e3o, di\u00e1logo, presen\u00e7a sempre que poss\u00edvel e gra\u00e7a, muita gra\u00e7a. Me expus ao rid\u00edculo e \u00e0 critica p\u00fablica por passar tempo demais na casa da ex porque era ali que minha filha estava; mas era o pre\u00e7o a ser pago para -de alguma forma- suprir o que eu mesmo tinha tirado. A ningu\u00e9m, mais do que a mim mesmo, chamo como respons\u00e1vel pelo que aconteceu.\u00a0E com isto tamb\u00e9m n\u00e3o assumo culpas que n\u00e3o me pertencem, mas como homem-adulto-crist\u00e3o, eu mesmo respondo pela minha conduta. Vieram mais dois filhos com a atual esposa. Um j\u00e1 pronto e outro por fazer. Enquanto ando nesta vida, tento com os tr\u00eas, ser o pai que me propus h\u00e1 29 anos. \u00a0N\u00e3o do cume de uma suposta perfei\u00e7\u00e3o imarcesc\u00edvel e inating\u00edvel, mas de um simples homem que se reconhece pecador, falho e principalmente carente da gra\u00e7a divina. Aos que j\u00e1 s\u00e3o av\u00f3s, esque\u00e7am o que para atr\u00e1s fica. Seja o melhor v\u00f3\/v\u00f4 poss\u00edvel.\u00a0No fim\u00a0das contas, somos a \u00fanica esp\u00e9cie que tem chances de ver os filhos dos netos crescerem. Aos que s\u00e3o pais, esque\u00e7am o que para atr\u00e1s fica. Enquanto seus filhos est\u00e3o em idade de estar perto de voc\u00ea, esteja voc\u00ea perto deles. Converse, dialogue, ou\u00e7a, olhe, conhe\u00e7a, espere, mime, anime, exija, alente, motive, se exponha. Aos que ainda n\u00e3o s\u00e3o pais, esque\u00e7am o que para atr\u00e1s fica. Observe seu velho, veja como ele vive, fique com a melhor parte do bolo. Voc\u00ea pode escolher s\u00f3 reproduzir aquilo que seu pai faz de bem. Seu pai n\u00e3o est\u00e1 por perto? N\u00e3o se preocupe. A imagem de &#8220;pai&#8221; est\u00e1 bem guardada no seu inconsciente, o arqu\u00e9tipo do que \u00e9 um pai e de como deve comportar-se est\u00e3o l\u00e1. \u00a0Seja ent\u00e3o aquilo que voc\u00ea mesmo n\u00e3o teve para seus filhos que ainda est\u00e3o por vir. E finalmente, n\u00e3o perca de vista\u00a0que -como diz o tango- &#8220;<a title=\"Volver - Carlos Gardel\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=I5JQ1m3mxKw\" target=\"_blank\">vinte anos <em>\u00e9<\/em>\u00a0nada<\/a>&#8220;; ou seja, o tempo passa muito r\u00e1pido. \u00a0Relaxe, curta o fato de ocupar a fun\u00e7\u00e3o mais gritantemente necess\u00e1ria na \u00e9poca que vivemos: Ser pai.\u00a0N\u00e3o se acanhe. N\u00e3o morgue. N\u00e3o adie. N\u00e3o envile\u00e7a. N\u00e3o tema. N\u00e3o retroceda. N\u00e3o suma. N\u00e3o desanime. N\u00e3o se envergonhe. Viva, curta, desfrute, ame, compartilhe. E seja pai onde lhe tocar ser pai e do melhor jeito porque ali onde voc\u00ea \u00e9 pai, fique tranquilo que ali e s\u00f3 ali, ser\u00e1 sua p\u00e1tria.<\/p>\n<p><span style=\"color: #222222;\"><em>Uber pater sum, ibi p\u00e1tria<\/em> (Aurora,\u00a0Friedrich\u00a0Nietzche)<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parece que n\u00e3o faz muito tempo que escolhi ser pai, mas se me ponho a fazer as contas l\u00e1 se v\u00e3o 29 anos. Quem quiser uma vers\u00e3o mais leve destas mesmas ideias, d\u00ea uma olhada neste outro artigo. 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