{"id":212,"date":"2014-10-02T11:44:16","date_gmt":"2014-10-02T14:44:16","guid":{"rendered":"http:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/?p=212"},"modified":"2014-10-03T20:51:49","modified_gmt":"2014-10-03T23:51:49","slug":"cristao-e-politica-entre-a-alienacao-e-a-manipulacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/cristao-e-politica-entre-a-alienacao-e-a-manipulacao\/","title":{"rendered":"Crist\u00e3o e pol\u00edtica: Entre a aliena\u00e7\u00e3o e a manipula\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Cresci em uma comunidade de batistas livre-pensadores (se \u00e9 que isso pode existir) em que as premissas de liberdade, igualdade e fraternidade -se bem n\u00e3o eram mencionadas com essas palavras nem nessa ordem- estavam no \u00e2mago da exist\u00eancia social.<\/p>\n<p>Desde cedo soube que se bem Engel, Marx e Lenin (que n\u00e3o s\u00e3o um grupo de rock <a title=\"Grunge\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Grunge\" target=\"_blank\">grunge<\/a>\u00a0para os desavisados) eram compat\u00edveis com a teologia da restaura\u00e7\u00e3o do ser humano, n\u00e3o o eram o marxismo-leninismo como doutrina e muito menos o stalinismo como sonho de consumo das classes oprimidas. Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m ficava claro que um estado voltado para a extrema direita em que alguns poucos escolhidos a dedo eram os que podiam ter alguma chance de sucesso e que dava r\u00e9dea solta e descabida a uma forma doentia de capitalismo cruel que auto justificava sua exist\u00eancia, n\u00e3o era a esperan\u00e7a pr\u00e1tica de um mercado que ao final das contas \u00e9 formado por gente.<\/p>\n<p>Isso tudo, estava refor\u00e7ado pela presen\u00e7a pensante de minha dupla din\u00e2mica de pais que tinham nascido na p\u00f3s guerra e crescido durante a guerra fria. Tinham visto ser a pr\u00f3pria democracia do pais esmagada pela presen\u00e7a ditatorial de uma direita moralista que teve sua chegada auspiciada por uma esquerda sublevada\u00a0pelos desejos revolucion\u00e1rios desnecess\u00e1rios (ao meu ver) em um pais de longa tradi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e plenamente livre. Ali\u00e1s, vale salientar que meu pais \u00e9 o \u00fanico latino-americano formado sobre bases laicas logo na sua primeira constitui\u00e7\u00e3o o que faz ressaltar ainda mais a pretendida revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Atravessei minha inf\u00e2ncia, ent\u00e3o, com um medo danado de uma explos\u00e3o at\u00f4mica acabar com as praias mais lindas que existem sobre a face da terra, de sermos varridos pelos sovi\u00e9ticos (sim, naquele tempo da pre-historia, existia um pais que se chamava Uni\u00e3o de Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas) e com uma raiva visceral pela inger\u00eancia americana em solos orientais (O nome do meu pais \u00e9 Republica Oriental del Uruguay, por isso o &#8216;orientais&#8217;). Ou seja, n\u00e3o sobrava ningu\u00e9m. Eram os charruas contra o resto.<\/p>\n<p>Ai chega a democracia que &#8211; \u00f3 coincid\u00eancia &#8211; parece que chega simultaneamente e de forma sequencialmente ordeira ao resto do continente. Quando vemos a hist\u00f3ria, parece que entramos e sa\u00edmos desses momentos mais ou menos juntos. Tipo assim, desde os tempos de Colombo que estas Am\u00e9ricas andam mais ou menos de m\u00e3os dadas ou pelo menos, aquela parte que v\u00e1 de Tierra del Fuego hasta el Rio Bravo del Norte.<\/p>\n<p>Trago \u00e0 memoria, Winston Churchill &#8211; primeiro ministro brit\u00e2nico durante a segunda guerra mundial &#8211; que dizia que a democracia n\u00e3o \u00e9 a forma ideal de governo, mas \u00e9 a melhor que conhecemos. E lembro tamb\u00e9m dos grandes momentos da democracia brasileira (sem consultar o Google, que conste) como Juscelino Kubitschek de Oliveira, Ulisses Guimar\u00e3es, Tancredo Neves, Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff e por ai vai. Quem me l\u00ea e est\u00e1 atento \u00e0 lista, j\u00e1 presume certa tend\u00eancia. Todavia minha tend\u00eancia \u00e9 pela boa ventura do Brasil e n\u00e3o por uma certa vertente pol\u00edtica. Mas deixa te mostrar como chego l\u00e1.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o o Brasil desde 1981, mas cheguei para morar em 1995. Acompanhei muito meu pai pelas suas viagens pelo Brasil ent\u00e3o conhe\u00e7o muitos becos e recantos e desde cedo me acostumei com o lance de entender uma cultura que n\u00e3o era a minha. Ent\u00e3o quando cheguei, j\u00e1 cheguei amando, curtindo, deleitando-me nessa vasta cultura brasileira.<\/p>\n<p>Todavia, o grande choque\u00a0veio da constata\u00e7\u00e3o da apatia politica (em que a grande massa parece estar imersa) e o voo rasante de alguns abutres eleitoreiros. Para piorar a cena, alguns &#8211; assim chamados &#8211; pastores e lideres espirituais transferiam \u00e0 grei suas pr\u00f3prias preferencias pol\u00edticas pessoais e quando n\u00e3o, impunham esta op\u00e7\u00e3o por diversas vias de extors\u00e3o psico-morais-espirituais como se de algum projeto divino se trata-se. N\u00e3o saem da minha mem\u00f3ria placas e cartazes, outdoors e outros meios massivos dizendo que a igreja x vota em fulano.<\/p>\n<p>Do outro lado da cena evang\u00e9lica, estavam os pastores que se entendiam humildemente como tais por causa de uma voca\u00e7\u00e3o divina. Eles entendiam que o povo tinha que ficar livre para votar em quem melhor entendia sem a influ\u00eancia do p\u00falpito. S\u00f3 que em lugar de gastar alguns minutos explicando o porqu\u00ea desta atitude, pairava no ar a ideia de que ali, dentro daquelas quatro paredes, o mundo n\u00e3o era politico; ali n\u00e3o havia problemas como quem seria melhor candidato para presidente, deputado, prefeito, vereador; ali era a redoma intoc\u00e1vel de um povo apol\u00edtico que s\u00f3 fora do expediente espiritual se permitia talvez esbo\u00e7ar algumas interrogantes pr\u00e1ticas (como &#8220;em quem votarei para xxxx?&#8221;) que acabavam sendo respondidas quase sempre por sorteio do menos feio, o menos pior, ou o mais espalhafatoso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o h\u00e1 ao meu ver dois extremos bem n\u00edtidos na vivencia politica evang\u00e9lica brasileira: A aliena\u00e7\u00e3o e a manipula\u00e7\u00e3o. As duas posturas mamam de uma crendice popular muito bem alicer\u00e7ada e muito bem nutrida por descuido pastoral seletivo volunt\u00e1rio. Esta crendice \u00e9 a de que a voz do pastor local \u00e9 quase que a voz e Deus. Se ele fala que devo votar em Ciclano, ent\u00e3o \u00e9 em Ciclano que vou votar e se ele &#8211; seja por seu exemplo pessoal ou por sua falta de interesse, por arrog\u00e2ncia ou por pura ignor\u00e2ncia, medo, ou o que for &#8211; comete aliena\u00e7\u00e3o constante das coisas politicas, ent\u00e3o eu vou me alienar.<\/p>\n<p>Considero a manipula\u00e7\u00e3o uma ferramenta diab\u00f3lica forjada nas bigornas do pr\u00f3prio inferno. Mas entendo que a aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim ou pior que a manipula\u00e7\u00e3o porque deixa ao &#8220;Deus dar\u00e1&#8221; uma coisa que deveria ser pensada, orada, conversada. Por conta disso e em \u00faltima inst\u00e2ncia, o pais \u00e9 levado pelos manipulados que em lugares de fieis livres pensantes se transforam em massa de manobra de uma corja desgra\u00e7ada de corruptos, corruptores e corrupt\u00edveis que enxergam no palanque nada mais do que oportunidades de se enriquecer de forma r\u00e1pida e muitas vezes il\u00edcitas \u00e0s custas (e nas costas) do pr\u00f3prio povo que deveria servir.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o que fazer? Quais s\u00e3o as garantias? Como sei que vou acertar? Qual \u00e9 o candidato que Deus quer? Qual o candidato evang\u00e9lico que devo apoiar? Como escolho bem um candidato?<\/p>\n<p>Bem, para inicio de conversa, voc\u00ea n\u00e3o tem garantias nenhuma de que vai acertar at\u00e9 porque o que \u00e9 acertar? O pais muda muito no per\u00edodo em que eles est\u00e3o no poder e muitas vezes \u00e9 exatamente isso que o pais precisa: mudan\u00e7as. Segundo, Deus ama a liberdade e \u00e9 exatamente isso que ele quer para o ser humano ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 um candidato A, B ou C que o Criador prefira na sua magnifica vontade. Terceiro quem lhe disse\u00a0que deve votar em um candidato evang\u00e9lico?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como proceder ao final de contas? L\u00e1 vai uma coisa que detesto fazer, uma receita de bolo para ser bem sucedido. Depois escreverei alguma coisa contra receitas de bolo, mas l\u00e1 vamos n\u00f3s no embalo das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es com uma receitinha b\u00e1sica:<\/p>\n<ol>\n<li>Erradica a ideia da redoma crist\u00e3 evang\u00e9lica.<\/li>\n<li>Deixa para atr\u00e1s a pervers\u00e3o do almejo de um estado teocr\u00e1tico. Visa alvos maiores e abrangentes.<\/li>\n<li>Sonha com uma democracia forte e transparente em que os candidatos sejam trocados livremente pela vontade do povo em espa\u00e7os curtos mas n\u00e3o curt\u00edssimos.<\/li>\n<li>Apoia (durante o per\u00edodo de governo) os projetos que valorizem a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais est\u00e1vel e com melhores oportunidades para seus cidad\u00e3os.<\/li>\n<li>Asiste um jornal de verdade (h\u00e1 alguns nas televis\u00e3o aberta que valem a pena) e presta aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 nos esc\u00e2ndalos da farra\u00a0pol\u00edtica mas tamb\u00e9m nos grandes projetos do pais. Uma vez ou outra, ouve a Voz do Brasil. Em especial o Jornal do Senado e o Jornal do Judici\u00e1rio (dois minutos cada)<\/li>\n<li>Discute n\u00e3o s\u00f3 os candidatos mas os projetos que est\u00e3o sendo apresentados.<\/li>\n<li>Escolhe com anteced\u00eancia teus candidatos (principalmente Presidente e Senadores) e acompanha eles durante a campanha mas n\u00e3o fique s\u00f3 com um. Observe os outros candidatos e n\u00e3o tenha medo de mudar se for preciso.<\/li>\n<li>Fica atento aos debates e tenta conhecer mais de perto a forma de pensar n\u00e3o s\u00f3 do teu candidato mas dos outros. Lembra que \u00e9 bem prov\u00e1vel que um debate ser\u00e1 o mais perto que consigas chegar do teu candidato e seu pensamento. Foge do que mente. Se \u00e9s homem, chama uma mulher para detectar o mentiroso.<\/li>\n<li>Cai fora do curral e muda de igreja se teu pastor quer te obrigar a votar em este ou aquele candidato.<\/li>\n<li>\u00a0Vota com responsabilidade e vigor. \u00c9 serio, o destino da na\u00e7\u00e3o est\u00e1 em tuas m\u00e3os e ao meu ver, s\u00f3 um voto respons\u00e1vel te d\u00e1 direito de dizer &#8220;esses pol\u00edticos &#8211; que eu coloquei l\u00e1 &#8211; s\u00f3 est\u00e3o fazendo isto e aquilo outro&#8221; ou dito de outra forma: n\u00e3o votou, n\u00e3o opine.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Seja que descambemos para a aliena\u00e7\u00e3o ou para o voto de curral, em qualquer dos dois casos estaremos, com certeza, deixando de lado o que de mais precioso temos: a liberdade de pensamento. O bom voto, \u00e9 o voto consciente e estudado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cresci em uma comunidade de batistas livre-pensadores (se \u00e9 que isso pode existir) em que as premissas de liberdade, igualdade e fraternidade -se bem n\u00e3o eram mencionadas com essas palavras nem nessa ordem- estavam no \u00e2mago da exist\u00eancia social. 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