{"id":243,"date":"2014-09-15T16:36:48","date_gmt":"2014-09-15T19:36:48","guid":{"rendered":"http:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/?p=243"},"modified":"2014-10-03T20:49:20","modified_gmt":"2014-10-03T23:49:20","slug":"a-trindade-na-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/a-trindade-na-politica\/","title":{"rendered":"A Trindade na pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p>Religi\u00e3o e pol\u00edtica parecem trilhar caminhos comuns muitas vezes. A paix\u00e3o que despertam, a gan\u00e2ncia que as tenta, o poder que as convida e as barb\u00e1ries que podem produzir, s\u00e3o reveladas no processo hist\u00f3rico de forma escancarada. Por\u00e9m, apesar de muitos caminhos em comum, h\u00e1 um \u00fanico elemento imprescind\u00edvel para o estabelecimento, constru\u00e7\u00e3o e sustenta\u00e7\u00e3o de ambas \u2013 o sagrado.<\/p>\n<p>Sem o sagrado n\u00e3o se tem religi\u00e3o nem pol\u00edtica. Este, que assume variadas configura\u00e7\u00f5es nas mais diversas express\u00f5es religiosas da humanidade, se mostra mais uniforme e defin\u00edvel na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de estranhar que, em \u00e9poca de elei\u00e7\u00f5es, o sagrado exerce enorme for\u00e7a nos muitos discursos inflamados em busca de adeptos. Seguindo o pensamento de Rudolfo Otto de que o sagrado \u00e9 mysterium, <em>tremendum et facinans<\/em> (misterioso, tremendo e fascinante), pode-se observar que as for\u00e7as de atra\u00e7\u00e3o e repuls\u00e3o est\u00e3o em constante tens\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao sagrado no plano pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Assim como no Cristianismo, o sagrado pol\u00edtico se configura de forma tri\u00fana. S\u00e3o tr\u00eas os que comp\u00f5em a sacralidade. Embora distintos, s\u00e3o insepar\u00e1veis. As campanhas pol\u00edticas exaltam, louvam, ou condenam o sagrado de forma veemente. Mas no fim, todas acabam cedendo \u00e0 adora\u00e7\u00e3o que lhe cabe e prometem adorn\u00e1-lo, cuidar dele, prestar-lhe culto, aten\u00e7\u00e3o e melhorias pelo tempo em que tiverem o privil\u00e9gio de toc\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A trindade sacrossanta da pol\u00edtica sofre o sacril\u00e9gio de ver seus nomes tomados em v\u00e3o in\u00fameras vezes, sem o m\u00ednimo de escr\u00fapulos ou temor. Ela assume tr\u00eas nomes benditos: Educa\u00e7\u00e3o, Seguran\u00e7a e Sa\u00fade. Nenhum pretendente ao of\u00edcio pode ousar dar vaz\u00e3o a suas prele\u00e7\u00f5es sem invocar a trindade. Ela \u00e9 a pedra fundamental sobre a qual se constroem os templos suntuosos da m\u00e1quina administrativa do poder, e se estabelece como alvo do louvor e centro da pr\u00e9dica de todo aquele que aspira subir os degraus do sucesso.<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria faz-se necess\u00e1ria para a compreens\u00e3o dos fatos. Conta-se que um dia houve uma cat\u00e1strofe. O inimagin\u00e1vel ocorreu e causou um desastre sem precedentes. Ningu\u00e9m sabe o porqu\u00ea de tamanha efic\u00e1cia das for\u00e7as mal\u00e9volas no processo de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 trindade, mas constatou-se que, em algum momento l\u00fagubre da hist\u00f3ria antiga, houve uma desaven\u00e7a e desequil\u00edbrio entre os tr\u00eas elementos que comp\u00f5em a sant\u00edssima trindade.<\/p>\n<p>A Educa\u00e7\u00e3o, enlouquecida, partiu repentinamente e agressivamente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Sa\u00fade. Esta, indefesa e j\u00e1 moribunda, gritava desesperadamente por socorro enquanto era golpeada brutalmente at\u00e9 a morte. Amedrontada por tal atrocidade, a Educa\u00e7\u00e3o fugiu em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s fronteiras do pa\u00eds. A Seguran\u00e7a, por sua vez, sentindo remorso por n\u00e3o ter podido acudir sua fiel amiga Sa\u00fade no momento em que mais precisava, partiu furiosamente em busca da Educa\u00e7\u00e3o. No caminho, atirou aleatoriamente diversas vezes para descarregar sua ira. O resultado de tais disparos deixou um rastro de sangue por seu caminho. Finalmente a Educa\u00e7\u00e3o foi interceptada e, na f\u00faria, acabou sendo assassinada pela Seguran\u00e7a. Esta, tentou ocultar o cad\u00e1ver, mas foi seguida pela popula\u00e7\u00e3o revoltada por tantas mortes inocentes e acabou sendo linchada em pra\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cTr\u00eas cad\u00e1veres num mesmo dia. Que trag\u00e9dia!\u201d, noticiavam os jornais em letras garrafais. Constitu\u00edram uma comiss\u00e3o para decidir o que fazer com os defuntos e, ap\u00f3s muita discuss\u00e3o, resolveram construir tr\u00eas belos t\u00famulos no maior cemit\u00e9rio do pa\u00eds. Os sepulcros foram milimetricamente calculados e posicionados lado a lado formando um monumento impressionante.<\/p>\n<p>Desde aquele dia, coisas estranhas andaram acontecendo. De tempos em tempos, um esp\u00edrito (alguns dizem ser maligno, outros, benigno) sopra sobre os t\u00famulos levantando os corpos apodrecidos. Estes saem de seus jazigos e despertam emo\u00e7\u00f5es das mais diversas na popula\u00e7\u00e3o. As autoridades, acionadas pelo povo, parecem n\u00e3o tomar atitudes, mas, pelo menos, demonstram concordar com uma coisa: este esp\u00edrito colabora com o momento.<\/p>\n<p>No cemit\u00e9rio, coisas sinistras tamb\u00e9m s\u00e3o observadas. Um dos t\u00famulos, certa vez, amanheceu pichado. N\u00e3o se podia entender os escritos. Chamaram os linguistas mais capazes, mas ningu\u00e9m pode decifrar a frase. Chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que algum estudante mal formado teria arriscado algum pensamento. Outros suspeitam de algum professor frustrado, talvez um proponente de alguma revolu\u00e7\u00e3o ortogr\u00e1fica. O certo \u00e9 que n\u00e3o havia muitas pistas, mas uma seta indicava para uma escola, que de t\u00e3o velha, tinha perdido as primeiras duas letras da palavra escola no seu letreiro. Para conter gastos, ou por qualquer outro motivo escuso, preferiram deixar como estava.<\/p>\n<p>Outro t\u00famulo tamb\u00e9m passou por uma experi\u00eancia estranha. Sangue parecia brotar do ch\u00e3o. Levaram para an\u00e1lise. Nunca divulgaram os resultados. H\u00e1 murm\u00farios de todos os tipos, mas na realidade todos parecem temer dizer definitivamente algo. Algu\u00e9m desavisado foi at\u00e9 o local para coletar mais amostras, mas, quando estava agachado, escutou zumbir algo rente \u00e0 sua cabe\u00e7a. Deitou no solo e se arrastou rapidamente para longe do local. Tentaram entrevist\u00e1-lo, mas se recusou a dar entrevistas. Dizem que contou a um amigo que enquanto rasgava suas roupas se arrastando pelo ch\u00e3o, viu um cart\u00e3ozinho de uma empresa que prometia prote\u00e7\u00e3o particular. O autor da fa\u00e7anha nunca mais foi visto e chegaram a comentar sua morte. O fato \u00e9 que o caso foi arquivado.<\/p>\n<p>O mais estranho de todos foi o que aconteceu com o terceiro t\u00famulo. Muitos se recusam a falar, outros fazem o sinal da cruz ao mencionar. Dizem que volta e meia, no calar da noite, uma fumacinha sai de dentro do t\u00famulo por um orif\u00edcio na lateral. Os boatos come\u00e7aram a se espalhar e uma tv alternativa instalou uma c\u00e2mera escondida no cemit\u00e9rio. As imagens foram exibidas antes de serem confiscadas. Turvas e arrepiantes, era poss\u00edvel ver, de vez em quando, a fumacinha saindo. As autoridades se mobilizaram, montaram um esquema de seguran\u00e7a e depois apagaram o caso. Hoje ningu\u00e9m fala muito neste epis\u00f3dio, mas o coveiro, que \u00e9 uma pessoa meio m\u00edstica, disse que um dia, andando pr\u00f3ximo a este t\u00famulo, encontrou metade de um charuto. Pintaram o t\u00famulo de branco para espantar qualquer coisa ruim e h\u00e1 quem nem passe perto do desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p>Os t\u00famulos continuam l\u00e1, ora aparentemente abandonados, ora adornados com flores bel\u00edssimas.<\/p>\n<p>Deus ajude o Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Religi\u00e3o e pol\u00edtica parecem trilhar caminhos comuns muitas vezes. A paix\u00e3o que despertam, a gan\u00e2ncia que as tenta, o poder que as convida e as barb\u00e1ries que podem produzir, s\u00e3o reveladas no processo hist\u00f3rico de forma escancarada. 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