{"id":570,"date":"2017-10-04T19:16:56","date_gmt":"2017-10-04T22:16:56","guid":{"rendered":"http:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/?p=570"},"modified":"2017-10-04T19:51:24","modified_gmt":"2017-10-04T22:51:24","slug":"respostas-a-inquietacoes-cientificas-e-religiosas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/respostas-a-inquietacoes-cientificas-e-religiosas\/","title":{"rendered":"Respostas a inquieta\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e religiosas"},"content":{"rendered":"<p>A religi\u00e3o tem sido atacada de diversas maneiras e por in\u00fameras frentes no implac\u00e1vel<br \/>\ncombate que impregna a hist\u00f3ria humana. Munidos de hermen\u00eauticas pr\u00f3prias constru\u00eddas a<br \/>\npartir de postulados cient\u00edficos e empunhando a bandeira da modernidade, muitos c\u00e9ticos se<br \/>\nlan\u00e7am vorazmente na tentativa de destro\u00e7ar qualquer ind\u00edcio de cren\u00e7a religiosa. Espadas s\u00e3o<br \/>\ndesembainhadas em lutas quixotescas que se embrenham por batalhas inexistentes<br \/>\nalimentadas por suas pr\u00f3prias ilus\u00f5es b\u00e9licas.<\/p>\n<p>O que tais tentativas parecem n\u00e3o se dar conta \u00e9 que a ci\u00eancia e a religi\u00e3o jamais foram<br \/>\ninimigas e jamais estiveram em trincheiras opostas. Na verdade, muito do que se diz da<br \/>\nreligi\u00e3o tem sua raz\u00e3o de existir. A interpreta\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 aos processos, por\u00e9m, parece<br \/>\ncarecer de legitimidade.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o, assim como a pol\u00edtica e a ci\u00eancia, tem sido um instrumento de opress\u00f5es, abusos e<br \/>\nmalignidades dos mais variados tipos. Vitimas de interesses escusos e manipuladas por<br \/>\nconsci\u00eancias inescrupulosas, tanto a religi\u00e3o como a pol\u00edtica ou at\u00e9 mesmo a ci\u00eancia se<br \/>\nconstituem como instrumentos nas m\u00e3os de uma sociedade maligna. Como j\u00e1 disse Ulysses<br \/>\nGuimar\u00e3es: \u201cO poder n\u00e3o corrompe o homem; \u00e9 o homem que corrompe o poder. O homem \u00e9<br \/>\no grande poluidor, da natureza, do pr\u00f3prio homem, do poder.\u201d Parafraseando poder\u00edamos<br \/>\nafirmar que a ci\u00eancia (que foi utilizada para o desenvolvimento de armas de destrui\u00e7\u00e3o em<br \/>\nmassa, como a bomba at\u00f4mica, as armas qu\u00edmicas etc), a pol\u00edtica (que em nossos dias parece<br \/>\nter se tornado sin\u00f4nimo de corrup\u00e7\u00e3o) ou at\u00e9 mesmo a religi\u00e3o (que tem sido um meio de<br \/>\nmanipula\u00e7\u00e3o das massas), n\u00e3o corrompem o homem, mas sim \u00e9 o homem quem corrompe a<br \/>\nci\u00eancia, a pol\u00edtica e a religi\u00e3o.<\/p>\n<p>O ser humano \u00e9 o principal corruptor e manipulador dos meios que disp\u00f5e para dar vaz\u00e3o a<br \/>\nsuas cobi\u00e7as, seus intentos, suas dem\u00eancias e suas vol\u00fapias. Se as classes dominantes se<br \/>\nutilizam da religi\u00e3o para seus pr\u00f3prios intentos malignos, n\u00e3o deixam de lado a pol\u00edtica e a<br \/>\nci\u00eancia.<\/p>\n<p>O per\u00edodo chamado \u201cIdade das Trevas\u201d, foi, sem d\u00favida um tempo de obscurecimento da<br \/>\nraz\u00e3o e teve como seu principal protagonista a religi\u00e3o. Esta, instrumentalizada pelas classes<br \/>\ndominantes, se utilizou da boa f\u00e9 do povo para chegar a seus prop\u00f3sitos maculados.<br \/>\nCom a derrocada das \u201cTrevas\u201d, a partir do surgimento do Iluminismo, instala-se uma nova<br \/>\nesperan\u00e7a para a humanidade. Se o obscurantismo de tempos passados tinha cedido espa\u00e7o<br \/>\nao raiar de novos horizontes, agora acreditava-se que finalmente a humanidade seria elevada<br \/>\n\u00e0s esferas da justi\u00e7a, igualdade e fraternidade. A liberdade cient\u00edfica surgia com toda a<br \/>\nimpon\u00eancia e as promessas de melhorias da vida social e humanit\u00e1ria eram cada vez mais<br \/>\nvociferadas por seus proponentes.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria nos mostra que no s\u00e9culo XX, auge da emancipa\u00e7\u00e3o da mente humana das r\u00e9deas<br \/>\nfunestas da religi\u00e3o, o homem, feliz em suas descobertas, foi encontrado \u00e9brio e cambaleante<br \/>\nem suas pr\u00f3prias vaidades e soberania. Como todos sabem, a racionalidade humana, a<br \/>\nilumina\u00e7\u00e3o do intelecto e os avan\u00e7os cient\u00edficos n\u00e3o puderam impedir as duas grandes guerras<br \/>\nmundiais do s\u00e9culo XX. Milh\u00f5es foram dizimados, manchando as p\u00e1ginas da hist\u00f3ria como<br \/>\nnenhum outro per\u00edodo anterior o fez. O florescimento da ci\u00eancia, que muito ajudou a<br \/>\nhumanidade em quest\u00f5es de sa\u00fade e bem estar social, tamb\u00e9m proporcionou oportunidade<br \/>\npara a concretiza\u00e7\u00e3o das destrui\u00e7\u00f5es em massa e das barb\u00e1ries que at\u00e9 hoje arrepiam at\u00e9 os<br \/>\nmenos sens\u00edveis. Al\u00e9m disso, o boom da revolu\u00e7\u00e3o industrial, que prometia cada vez mais<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es dignas para a vida humana, n\u00e3o impediu o processo de massacre nas f\u00e1bricas e a<br \/>\nmecaniza\u00e7\u00e3o humana. Charles Chaplin retrata brilhantemente este fen\u00f4meno no filme:<br \/>\n\u201cTempos Modernos\u201d. O homem foi substitu\u00eddo pelas m\u00e1quinas e o processo de<br \/>\nindustrializa\u00e7\u00e3o relegou \u00e0s \u201csarjetas\u201d da vida o oper\u00e1rio desvalorizado.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o, j\u00e1 fora dos holofotes e da mira dos seus algozes, n\u00e3o p\u00f4de ser culpada por<br \/>\ntamanhas opress\u00f5es e mostrou n\u00e3o se constituir o gatilho que promovia as mis\u00e9rias sociais. Se<br \/>\nos s\u00e9culos XIX e XX foram o per\u00edodo do coroamento da raz\u00e3o e do destronamento da<br \/>\ndivindade, foram tamb\u00e9m os s\u00e9culos da destrui\u00e7\u00e3o em massa e da dissemina\u00e7\u00e3o da esclerose<br \/>\nsocial. A religi\u00e3o n\u00e3o era mais a m\u00e3o que regia os destinos da humanidade, por\u00e9m a sociedade<br \/>\ncontinuava amargar suas mis\u00e9rias de forma cruel, violenta e numa progress\u00e3o exponencial. Se<br \/>\npor um lado a m\u00e3o do homem moderno apagava as \u00faltimas centelhas das fogueiras<br \/>\ninquisitoriais; por outro a mesma m\u00e3o colhia ali as brasas incandescentes para acender os<br \/>\nfornos cremat\u00f3rios de Auschwitz.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 inimiga da ci\u00eancia, pois seu escopo \u00e9 outro. A Religi\u00e3o objetiva o \u201csagrado\u201d; a<br \/>\nci\u00eancia o profano (comum). O sagrado \u00e9 o totalmente outro, o transcendente, aquele que foge<br \/>\n\u00e0 apreens\u00e3o exaustiva da mente humana. Enquanto a ci\u00eancia se ocupa do que pode ser<br \/>\nexperimentado, observado, estudado e compreendido, a religi\u00e3o permeia o eterno, fala do<br \/>\ninef\u00e1vel, se lan\u00e7a no numinoso, se prostra diante do intoc\u00e1vel. A ci\u00eancia trilha um caminho, a<br \/>\nreligi\u00e3o outro. S\u00e3o paralelos, embora \u00e0s vezes seus olhares se entrecruzem, logo se<br \/>\nabandonam novamente para perscrutar suas pr\u00f3prias sendas.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito social, a religi\u00e3o consolida os la\u00e7os familiares, re\u00fane os pares em volta da mesa,<br \/>\nincentiva a solidariedade, a amabilidade, o atendimento aos carentes e necessitados.<br \/>\nMahatma Gandhi e Madre Teresa de Calcut\u00e1 s\u00e3o alguns exemplos da religi\u00e3o em a\u00e7\u00e3o, lutando<br \/>\npelas causas sociais, se doando em favor dos menos favorecidos. Abraham Heschel, destacado<br \/>\nl\u00edder religioso, posicionou o sentimento religioso ao lado das quest\u00f5es sociais e humanit\u00e1rias<br \/>\ncaminhando lado a lado com Martin Luther King. A eugenia que se apropriou do ferramental<br \/>\ncient\u00edfico e no s\u00e9culo XX foi o d\u00ednamo para uma ideologia demente de superioridade racial, n\u00e3o<br \/>\nfoi suficiente para apagar a chama da luta pela igualdade e liberdade que moveu o cora\u00e7\u00e3o de<br \/>\num religioso como Heschel pelas ruas do Alabama.<\/p>\n<p>O papel da religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o de desenhar um mundo ilus\u00f3rio para entorpecer a mente do fiel,<br \/>\nmas sim carregar de esperan\u00e7as um cora\u00e7\u00e3o que se amarga constantemente pelo desencanto<br \/>\ndo mundo moderno. O iluminismo tentou apagar do cora\u00e7\u00e3o humano a luz do encanto pela<br \/>\nvida. Como disse Christopher Nash (Myth and Modern Literature) \u201cO que \u00e9 chamado de<br \/>\nIluminismo, foi, na realidade o escurecimento, porque pretendia a extin\u00e7\u00e3o da natural,<br \/>\nprimordial m\u00edtica luz interior do homem.\u201d Enquanto a modernidade encarcerava o ser humano<br \/>\nna aridez da luta incans\u00e1vel pelo temporal e lan\u00e7ava mais uma vez a sociedade na<br \/>\ndesesperan\u00e7a de um mundo b\u00e9lico que a raz\u00e3o n\u00e3o foi suficiente para contornar, os suspiros<br \/>\nnost\u00e1lgicos de um cora\u00e7\u00e3o outrora iluminado por um porvir glorioso que modificava os<br \/>\ncaminhos do presente e os preenchia com alegria e colorido, eram novamente sentidos em<br \/>\nmeio ao deserto.<\/p>\n<p>Se por um lado a ci\u00eancia presenteia o homem com o progresso, o desenvolvimento, os<br \/>\navan\u00e7os no campo da sa\u00fade; por outro pode ser um instrumento que furta-lhe a vida quando o<br \/>\nimpede de dar respostas aos anseios mais interiores de suas buscas existenciais e de sentido.<br \/>\nSomos a sociedade do desencanto, da perda de valores, da viol\u00eancia, da falta de respostas, do<br \/>\nesfacelamento das rela\u00e7\u00f5es, da plasticidade dos encontros, dos amores flu\u00eddos (Zygmunt<br \/>\nBauman). Se a religi\u00e3o foi considerada o \u00f3pio do povo, a ci\u00eancia produziu seus pr\u00f3prios \u00f3pios<br \/>\npara substituir o vazio da exist\u00eancia humana. Cresce assustadoramente o n\u00famero de<br \/>\nalucin\u00f3genos no cotidiano, em uma sociedade cada vez mais \u201ciluminada\u201d pelos cachimbos da<br \/>\ndesilus\u00e3o e pelas fagulhas das trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>A seguran\u00e7a dos conhecimentos cient\u00edficos \u00e9 questionada no desenrolar da hist\u00f3ria da pr\u00f3pria<br \/>\nci\u00eancia. Apesar de trazer convic\u00e7\u00f5es importantes para a constru\u00e7\u00e3o social, as descobertas de<br \/>\ncada \u00e9poca s\u00e3o, muitas vezes, antag\u00f4nicas a descobertas de per\u00edodos anteriores. Exemplos<br \/>\ndeste fen\u00f4meno s\u00e3o claros e elucidativos. At\u00e9 1990 os cientistas criam que os dinossauros<br \/>\ntinham sido extintos por um vulc\u00e3o, a partir da\u00ed se come\u00e7ou a propagar ideias de que um<br \/>\nasteroide teria sido a causa de tal cat\u00e1strofe. At\u00e9 2014 a ci\u00eancia acreditava que o homem de<br \/>\nNeandertal era inferior intelectualmente ao Homo Sapiens sendo esta a causa do seu<br \/>\ndesaparecimento. J\u00e1 em 2014 descobertas arqueol\u00f3gicas revelaram que o Homo Sapiens n\u00e3o<br \/>\nera de forma alguma mais inteligente que o homem de Neandertal. A ci\u00eancia j\u00e1 afirmou que o<br \/>\nNeandertal n\u00e3o tinha habitado juntamente com a esp\u00e9cie humana, mas recentemente<br \/>\ndescobriu-se que isto era uma fal\u00e1cia. At\u00e9 2003 os cientistas diziam que os seres humanos<br \/>\ntinham 100.000 genes, mas depois se descobriu que temos por volta de 19.000 a 20.000. At\u00e9 o<br \/>\ns\u00e9culo XX muitos m\u00e9dicos achavam que a sangria curava quase qualquer doen\u00e7a; hoje esta<br \/>\nafirma\u00e7\u00e3o se faz absurda no meio cient\u00edfico. Amostras como estas revelam que os<br \/>\nconhecimentos cient\u00edficos que outrora traziam seguran\u00e7a a seus proponentes, em gera\u00e7\u00f5es<br \/>\nposteriores se mostraram mitol\u00f3gicos e at\u00e9 infantis. As seguran\u00e7as de muitas afirma\u00e7\u00f5es<br \/>\ncient\u00edficas hodiernas poder\u00e3o se mostrar totalmente incoerentes e fr\u00e1geis na gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nposterior. Muitas teorias cient\u00edficas, como por exemplo a que prop\u00f5e as causas do surgimento<br \/>\ndo Universo carecem de fatos pela pr\u00f3pria incapacidade da repeti\u00e7\u00e3o de tais fen\u00f4menos. Fica<br \/>\nevidente que a f\u00e9 se mostra um elemento de propriedade n\u00e3o exclusiva da religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, a religi\u00e3o, ao se propor a lidar com as quest\u00f5es sociais, n\u00e3o oferece resigna\u00e7\u00e3o,<br \/>\naliena\u00e7\u00e3o ou paralisia \u00e0 energia social; pelo contr\u00e1rio, ressignifica a exist\u00eancia humana,<br \/>\nlan\u00e7ando \u00e2ncoras no transcendente, procura transformar o presente com o amor, altru\u00edsmo,<br \/>\ncultivo de valores importantes para o conv\u00edcio social e busca pela sobriedade das rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nhumanas. Quando estabelece suas bases no eterno, a religi\u00e3o prop\u00f5e um presente<br \/>\nrespons\u00e1vel e valorizado, pois as a\u00e7\u00f5es que aqui s\u00e3o feitas se refletir\u00e3o no infinito.<\/p>\n<p>As respostas a uma sociedade contempor\u00e2nea infectada pela ansiedade, depress\u00e3o e stress<br \/>\nn\u00e3o adv\u00e9m de uma \u00fanica fonte, mas sim de uma pluralidade de experi\u00eancias do humano, das<br \/>\nquais a religi\u00e3o, com certeza constitui-se como parte significativa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A religi\u00e3o tem sido atacada de diversas maneiras e por in\u00fameras frentes no implac\u00e1vel combate que impregna a hist\u00f3ria humana. Munidos de hermen\u00eauticas pr\u00f3prias constru\u00eddas a partir de postulados cient\u00edficos e empunhando a bandeira da modernidade, muitos c\u00e9ticos se lan\u00e7am vorazmente na tentativa de destro\u00e7ar qualquer ind\u00edcio de cren\u00e7a religiosa. 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