{"id":83,"date":"2014-07-26T22:12:02","date_gmt":"2014-07-27T01:12:02","guid":{"rendered":"http:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/?p=83"},"modified":"2014-07-27T15:36:14","modified_gmt":"2014-07-27T18:36:14","slug":"homem-cria-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/homem-cria-homem\/","title":{"rendered":"Homem cria homem"},"content":{"rendered":"<p>Somos seres greg\u00e1rios e como tais enfrentamos v\u00e1rios desafios juntos. Concordamos por exemplo que \u00e9 importante termos as contas em dia, tratar bem o pr\u00f3ximo, termos uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e aparentar -pelo menos isso- estar bem resolvidos. Provamos ent\u00e3o que o nosso pequeno quintal nada mais \u00e9 do que uma reprodu\u00e7\u00e3o do universo humano e que as coisas que nos acontecem n\u00e3o nos acontecem s\u00f3 no foro privado, mas nos acontecem tamb\u00e9m gregariamente.<\/p>\n<p>Todavia, uma coisa na qual gostamos de aparentemente nos diferenciar \u00e9 na cria\u00e7\u00e3o dos filhos. Na realidade, parece que \u00e9 ali que discordamos de tudo e de todos. Queremos fazer nossa pr\u00f3pria linha, ao final das contas, o nosso rebento nada mais \u00e9 do que uma extens\u00e3o de n\u00f3s mesmos e -em certo sentido- uma perpetua\u00e7\u00e3o ou \u201ceternifica\u00e7\u00e3o\u201d do que somos. Nos tornamos egoicos, autosuficientes e virtualmente intoc\u00e1veis para aquilo para o que justamente o conselho alheio deveria servir mais: perpetuar a esp\u00e9cie uma cria de cada vez.<\/p>\n<p>Dependendo de em que ocasi\u00e3o hist\u00f3rica tenha nascido e em que canto do planeta, sua vis\u00e3o ser\u00e1 mais ou menos sofisticada, mais ou menos s\u00f3cio-dependente, mais ou menos espiritualizada. Os termos que usamos para falar da educa\u00e7\u00e3o ou cria\u00e7\u00e3o dos filhos nos delatam. Por exemplo, s\u00e3o comuns as palavras como &#8216;investir&#8217;, ou &#8216;construir&#8217; em sociedades mais industrializadas, ao passo que &#8216;deixar&#8217;, &#8216;liberar&#8217; etc se manifestam mais em sociedades menos exigentes.<\/p>\n<p>Por\u00e9m -e voltando um pouco \u00e0 ideia de seres greg\u00e1rios- podemos identificar algumas linhas gerais, algumas abstra\u00e7\u00f5es universais que podem nortear esta pe\u00e7a teatral sem ensaio que \u00e9 a vida. 1) O que \u00e9 realmente importante para voc\u00ea? 2) Quais parte do seu car\u00e1ter voc\u00ea acredita firmemente que gostaria de serem vistas no seu rebento quando se torne adulto? 3) Se voc\u00ea tivesse certeza que sua vida acabaria hoje \u00e0 noite, o que deveria ter feito ontem e por que n\u00e3o o fez?<\/p>\n<p>J\u00e1 volto sobre esses pontos, deixe eles de molho um pouco. Enquanto isso, permita-me filosofar um pouco. Aceitamos como terreno comum o fato de que se \u00e9 mais feliz quanto mais liberdade financeira se tem, e se obt\u00eam essa liberdade por meio de profiss\u00f5es em que se ganhe muito fazendo pouco. Ao mesmo tempo, e porque n\u00e3o sabemos qual caminho a crian\u00e7a vai escolher, nos vemos obrigados a disponibilizar para ele aulas de jud\u00f4, muay-thai, artes, ingl\u00eas, espanhol, japon\u00eas, religi\u00e3o (alguma, uma ao menos), inform\u00e1tica b\u00e1sica, culin\u00e1ria, etc. Em um escambo descabido, prendemos ent\u00e3o nossos filhos agora e os deformamos o suficiente para que quando lhes chegue a oportunidade de exercer a liberdade, se prendam a d\u00edvidas infinitas para fazer a mesma massacre com nossos netos perpetuando uma sociedade cada vez mais fria, mec\u00e2nica e atar\u00e1xica.<\/p>\n<p>Temos sido enganados. A liberdade como absoluto n\u00e3o existe. \u00c9 quimera. Mas mesmo sabendo, sentindo, apalpando isso, corremos atr\u00e1s do vento e ensinamos aos nossos descendentes a fazerem a mesma coisa. Por isso pergunto: o que \u00e9 realmente importante para voc\u00ea pai? Quais elemento do seu car\u00e1ter s\u00e3o para serem perpetuados? Quais precisam ser abandonados?<\/p>\n<p>Entenda-me bem, aquilo que voc\u00ea realmente acha importante vai vazar por outros cantos que n\u00e3o s\u00e3o a sua boca. No final das contas, o que realmente \u00e9 importante para voc\u00ea vai chegar para seus filhos na forma de atitudes concretas bem palat\u00e1veis que a cria vai entender pelos sentidos e n\u00e3o pela educa\u00e7\u00e3o formal. O que quero frisar, \u00e9 que se voc\u00ea pode clarificar sua cabe\u00e7a sobre o que \u00e9 realmente importante, correr\u00e1 menos risco de cair no buraco de pretender ser uma coisa que n\u00e3o \u00e9, levando seus filhos a um auto-desprezo por n\u00e3o conseguirem atingir um alvo imagin\u00e1rio e imposs\u00edvel que voc\u00ea mesmo n\u00e3o alcan\u00e7a ou se alcan\u00e7ou, n\u00e3o \u00e9 seu plat\u00f4 de felicidade.<\/p>\n<p>\u00c9 o pai que define o filho. Com isso n\u00e3o estou defendendo a velha ideia de que o pai decide cada passo que o filho d\u00e1, a profiss\u00e3o, a esposa, etc. Mas me levanto contra essa crendice popular que tem ganho nossos cora\u00e7\u00f5es de que existe a liberdade absoluta e nossos filhos devem correr atr\u00e1s dela. Ao dizer que o pai define o filho, o termo em ingl\u00eas que me vem \u00e0 cabe\u00e7a \u00e9 <em>shape<\/em>. Ou seja, dar forma, imagem, etc. O que me parece, \u00e9 que com a prega\u00e7\u00e3o na liberdade ut\u00f3pica como realiz\u00e1vel numa gera\u00e7\u00e3o, cria uma carga emocional pesada demais na vida de quem deveria estar livre, leve e solto para curtir a vida, porque \u00e9 na curti\u00e7\u00e3o que o l\u00fadico transcende e ensina de <em>per-si<\/em>.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, deixe esbo\u00e7ar alguns exemplos de como voc\u00ea define (<em>shape<\/em>) a vida do seu filho: Quando ele \u00e9 pequeno voc\u00ea troca as fraldas dele, alisa a cabe\u00e7a dele, lhe diz que o ama. Passa o tempo, ele segura seus bra\u00e7os para andar. Os medos passam, porque o pai acolhe e firmemente segura as m\u00e3os do guri. Depois chega o tempo de usar o pinico, l\u00e1 est\u00e1 voc\u00ea para ajuda-lo. Mais adiante, ele come\u00e7a ir \u00e0 escola, voc\u00ea o leva e o traz, ou o espera, ou se encontra com ele, mas pergunta: \u201cComo foi hoje?\u201d \u201cComo foi com seus colegas?\u201d \u201cDo que voc\u00ea brincou meu filho?\u201d E seus olhos olham os seus e voc\u00ea se comunica. Ele se aproxima da puberdade e voc\u00ea fala das coisas da vida. Aquelas que lhe far\u00e3o falta para ser feliz.<\/p>\n<p>Voc\u00ea lhe ensina a cozinhar, anda com ele de vez em quando, ouve o que ele tem a dizer, ao final de contas, voc\u00ea tamb\u00e9m gosta de ser ouvido. Chega o tempo das primeiras namoradas. Voc\u00ea acaba concordando com ele que a escola \u00e9 um saco. Que a grade curricular \u00e9 exatamente isso, uma grade e o delegado de ensino, bom, \u00e9 delegado oras, mas as regras do jogo s\u00e3o essas. Voc\u00ea o acompanha, o anima. V\u00ea as asas irem brotando. A testosterona come\u00e7a a falar mais alto. Ai voc\u00ea o lembra que \u00e9 natural, que \u00e9 normal isso tudo ai, assim como foi o aprendizado com o uso do esfincter, agora tem que lidar com a normalidade do desenvolvimento e seus medos. Vai se aproximando o tempo de decidir o que vai \u201cfazer da vida\u201d de fato.<\/p>\n<p>Ele pede \u00e1gua. Est\u00e1 assustado. Voc\u00ea o recolhe, deixa ele descansar, pois voc\u00ea sabe que a vida moderna \u00e9 uma pedra de moer carne humana. Ele se define por um curso t\u00e9cnico, nada a ver com o PhD em astrof\u00edsica que voc\u00ea tinha sonhado ontem para ele. Saem juntos como tem feito na \u00faltima d\u00e9cada em todo segundo s\u00e1bado do m\u00eas s\u00f3 para se curtirem e ele estar com um homem de verdade e saber como este se conduz com os amigos, a profiss\u00e3o, as outras mulheres. Ele se decide. Tem medo. Antes era o andar ereto, agora \u00e9 usar as asas. Voc\u00ea continua ai. Ele acaba se mudando de cidade, te liga, voc\u00ea fala uns minutos com ele que s\u00e3o car\u00edssimos, mas n\u00e3o h\u00e1 problema, anos de prosa, sustentam um papo r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Ele volta. Barbado, sorridente. Feliz. Voc\u00ea o abra\u00e7a, sente o cora\u00e7\u00e3o dele batendo perto do seu. N\u00e3o h\u00e1 nada neste mundo que se pare\u00e7a com isso para um homem. O cora\u00e7\u00e3o do filho batendo junto, perto, parece que no mesmo peito. Ele se vai com os amigos. V\u00e3o de passeio para um morro. Coisa de macho. Passam uns dias, te ligam que ele caiu de um penhasco, se machucou, o resgate demorou e ele n\u00e3o resistiu. Chega o caix\u00e3o. Voc\u00ea o toca. N\u00e3o h\u00e1 mais olho no olho, nem cora\u00e7\u00e3o batendo, s\u00f3 resta a satisfa\u00e7\u00e3o de ter cumprido com seu papel de homem: formar outro homem.<\/p>\n<p>O que \u00e9 realmente importante para educar um filho: <em><strong>seu tempo<\/strong><\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somos seres greg\u00e1rios e como tais enfrentamos v\u00e1rios desafios juntos. Concordamos por exemplo que \u00e9 importante termos as contas em dia, tratar bem o pr\u00f3ximo, termos uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e aparentar -pelo menos isso- estar bem resolvidos. 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