{"id":884,"date":"2021-12-15T07:45:11","date_gmt":"2021-12-15T10:45:11","guid":{"rendered":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/?p=884"},"modified":"2021-12-15T07:46:01","modified_gmt":"2021-12-15T10:46:01","slug":"o-rei-esquecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/igrejapequena.com.br\/blog\/o-rei-esquecido\/","title":{"rendered":"O rei esquecido"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">\u00c9 comum em nossa cultura que \u2014 com a proximidade das festas natalinas \u2014 as nossas mentes individuais voltem seu foco para pensar em reuni\u00f5es familiares, presentes, encontros, comidas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Lembro de pequeno a gostosa sensa\u00e7\u00e3o de leve ansiedade que produziam os dias que antecediam \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do natal. Ver os presentes que nossos pais compraram e colocado ao p\u00e9 da \u00e1rvore que t\u00ednhamos cortado de algum bosque de pinheiros n\u00e3o muito longe com meu pai. Sa\u00edamos em algum ve\u00edculo que ele pudesse arranjar, \u00edamos at\u00e9 algum lugar onde houvessem muitos pinheiros, escolh\u00edamos um galho bonito e o cort\u00e1vamos. Depois o lev\u00e1vamos para casa e o coloc\u00e1vamos na casa para mais tarde colocarmos os adornos nele. O cheiro do pinheiro permeava a casa inteira. <\/p>\n\n\n\n<p>Esse rito (que foi repetido por alguns anos quando eu era pequeno) marcava a chegada de um momento todo especial. Era obvio que conhec\u00edamos o sentido do natal de cor e salteado. T\u00ednhamos uma clara consci\u00eancia de que celebr\u00e1vamos a encarna\u00e7\u00e3o do Deus da eternidade em um ser humano limitado, mas as lembran\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o de cunho teol\u00f3gico e sim emotivo. Nada, no ano inteiro, tinha como concorrer com o natal. Nem sequer o dia dos reis (celebrado no Uruguai &#8211; pais de forma\u00e7\u00e3o laica e liberal &#8211; no seis de janeiro) em que tamb\u00e9m se ganhava presentes, nem a virada de ano e nem o pr\u00f3prio anivers\u00e1rio. Nada, era t\u00e3o almejado como o natal. Mesmo com a chegada da <em>comercializa\u00e7\u00e3o<\/em> e a <em>mercantiliza\u00e7\u00e3o<\/em> das festas natalinas, nada concorria com essa sensa\u00e7\u00e3o de aconchego, esperan\u00e7a, seguran\u00e7a, conex\u00e3o, intimidade, liberdade, estabilidade e tantas outras coisas que a celebra\u00e7\u00e3o do natal trazia para a gente.<\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3prio jantar de natal (que era ao final das contas o \u00e1pice de todos esses dias de espera) era toda uma festa \u00e0 parte. Lembro que minha m\u00e3e tomava o cuidado de comprar algumas coisas especiais meses antes. Quem vive lugares onde as esta\u00e7\u00f5es s\u00e3o bem marcadas sabe haver algumas coisas que mudam radicalmente de pre\u00e7o e de disponibilidade com o passar dos meses ou &#8211; no caso de primavera para ver\u00e3o &#8211; de algumas semanas.  Essas coisas que fariam parte do jantar, eram guardadas e reservadas para aquele \u00fanico jantar. Nem sempre era um jantar muito farto j\u00e1 que as d\u00e9cadas de 70 e 80 n\u00e3o eram especialmente bem abastadas, mas sab\u00edamos podermos esperar algo diferente. <\/p>\n\n\n\n<p>Os anos foram passando e se algu\u00e9m me pergunta hoje sobre alguma comida ou algum enfeite especifico colocado na \u00e1rvore, ou se lembro de algum presente de forma espec\u00edfica lamentavelmente n\u00e3o consigo lembrar. Fiz o exerc\u00edcio de tentar lembrar de algum desses detalhes enquanto escrevia este texto, mas n\u00e3o consigo lembrar de nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eu lembro da felicidade. Lembro dos rostos iluminados. Lembro da alegria das minhas irm\u00e3s, do sorriso dos meus pais. Lembro &#8230; de cada coisa boa.<\/p>\n\n\n\n<p>Lentamente e de forma sorrateira, a amargura da vida, as iras, as raivas, os \u00f3dios foram se acumulando. Em algum momento o pr\u00f3prio Rei foi esquecido e totalmente abandonado e a festa nunca mais foi a mesma.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Meu desejo, do fundo do meu cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 que neste natal, voc\u00ea, meu querido leitor, separe um momento para ver o que est\u00e1 ao seu alcance para impedir que o Rei da festa seja esquecido. De outra forma, mesmo levando o nome de <em>Natal<\/em> estaremos celebrando apenas o desterro dele do lugar de onde nunca poderia ter sido desterrado: nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 comum em nossa cultura que \u2014 com a proximidade das festas natalinas \u2014 as nossas mentes individuais voltem seu foco para pensar em reuni\u00f5es familiares, presentes, encontros, comidas&#8230; Lembro de pequeno a gostosa sensa\u00e7\u00e3o de leve ansiedade que produziam os dias que antecediam \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do natal. 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