Quando a diferença ocupa o centro
A divisão em capítulos ajuda muito a localizar um texto bíblico, mas às vezes atrapalha o raciocínio. Em 1 Coríntios isso acontece com facilidade. Lemos o capítulo 1, chegamos à discussão sobre Paulo, Apolo e Cefas, viramos a página e parece que Paulo começou outro assunto.
Não começou.
Depois de perguntar se Cristo está dividido, Paulo segue falando da cruz. “A palavra da cruz é loucura para os que perecem” (1Co 1:18). Judeus pedem sinais, gregos procuram sabedoria, mas ele anuncia Cristo crucificado (1Co 1:22-24). E quando chega ao capítulo 3, as facções reaparecem: “quando alguém diz: Eu sou de Paulo; e outro: Eu sou de Apolo, não sois carnais?” (1Co 3:4).
O raciocínio está inteiro.
A cruz desmonta os critérios humanos de grandeza. Eloquência, prestígio, inteligência, carisma, influência: tudo isso pode ser útil. O problema começa quando deixa de ser serviço e vira centro.
Paulo conhecia o risco. Era homem instruído, formado aos pés de Gamaliel (At 22:3). Poderia apoiar sua autoridade na formação, na história, na capacidade argumentativa. Em vez disso, diz que decidiu saber entre os coríntios “Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co 2:2).
Não porque pensar fosse pecado. Seria uma leitura bastante estranha de Paulo.
Mas porque até uma coisa boa consegue tomar um lugar que não é dela.
É exatamente por isso que a discussão sobre denominações costuma dar errado dos dois lados. De um lado, há quem trate sua tradição como se fosse a própria forma final do cristianismo. A igreja certa, a teologia certa, a liturgia certa, a leitura certa, a música certa. O sobrenome eclesiástico começa a funcionar quase como prova de fidelidade a Cristo.
Do outro, há quem trate toda identidade como suspeita e imagine que abolir os nomes resolveria o problema.
Não resolve.
Corinto não tinha batistas, luteranos, presbiterianos ou pentecostais. E conseguiu produzir facções muito bem sem nenhuma dessas placas.
O coração humano não precisa de estatuto denominacional para competir.
É aí que o texto de Paulo incomoda mais do que parece. O problema não está primeiro na existência de diferenças, mas naquilo que fazemos com elas. Paulo não nega que ele plantou e Apolo regou. Ele nega que qualquer um dos dois possa receber a glória pelo crescimento.
“Deus é quem dá o crescimento” (1Co 3:7).
Essa frase deveria ser suficientemente ofensiva para todos nós.
Porque ela põe no lugar tanto o pastor famoso quanto a denominação histórica, tanto a igreja que cresce quanto a igreja que se orgulha de não crescer, tanto o intelectual quanto o anti-intelectual, tanto o tradicional quanto o moderno.
Nenhum deles é o centro.
A cruz é.
Talvez a pergunta não seja, então, se podemos ter identidades. Talvez seja se nossas identidades ainda conseguem ajoelhar-se diante de Cristo sem exigir que ele se pareça conosco.