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Eu, Jonas

E repentinamente, tudo ficou escuro.

O barulho ensurdecedor das ondas desapareceu. O vento frio, os gritos dos homens, o convés debaixo dos meus pés — tudo sumiu. Primeiro veio a água. Depois, uma escuridão tão completa que eu já não sabia onde terminava meu corpo e começava aquilo que me cercava.

Havia sons. Poucos. Estranhos. Sons que eu não sabia identificar.

Tentei gritar.

Ninguém respondeu.

Então percebi uma coisa ainda mais incompreensível: eu estava vivo.

Tudo o que sabia sobre o mar me dizia que, a essa altura, deveria estar morto. Bem morto. Mas não estava.

Talvez eu soubesse porque ainda sentia a roupa encharcada grudada no corpo. Talvez pelo medo. Talvez porque imaginamos que os mortos não sintam solidão. Ou sim sentem?

Não sei.

Só sei que estava vivo e não tinha como explicar isso.

Então me ajoelhei como pude. Me curvei perante o meu criador. E orei.

Não como aquela repetição litúrgica e vazia que conhecia decor. Mas com o coração. Com todo meu ser.

Chorei. Implorei. Clamei pela misericórdia àquele que vive por sempre. Porque além de vivo, me sentia expulso da sua presença. Não havia como ir mais fundo. Mais longe.

Então de lá, decidi fazer o óbvio: voltar meu olhar para o Criador. Na escuridão. No silêncio. Sem nada a não ser minha voz. Me voltei com tudo e com nada ao mesmo tempo para o meu Criador. 

Foram dias assim.

E por mais que eu não podia ir mais fundo nem mais longe, mesmo assim, a angustia subia e tudo o preenchia. E eu orava. E era arrebatado pela sua misericórdia. A sua compaixão era tão palpável quanto a escuridão que me cercava. 

E eu passei a conhecer um outro tipo de paz. Em escuridão. Em angustia. Em paz. Não tinha eu como reverter minha situação. Mas a paz do meu Criador estava aí. E eu a desfrutava.

Tão repentinamente como entrara nessa situação, fui devolvido à terra firme.

Nunca o sol me pareceu tão radiante nem o céu tão azul.

As palavras de Jó não saíam da minha cabeça: “Eu sei que o meu Redentor vive”. O fato de eu estar vivo era – para mim, naquele momento – a prova de que meu Criador estava vivo e era misericordioso. Sim, se havia uma coisa que sabia de antes, mas agora a tinha experimentado era sua misericórdia.

Se eu tinha sido lançado às profundezas do mar não era senão pela minha negligencia, pelo meu desatino, pela minha desobediência, pelo meu confronto com aquele que me chamara para ir à cidade grande.

E lá estava eu na praia. Sozinho. Meus pensamentos e eu. Só. Apenas desfrutando a bênção de poder ver.

Porém, também podia ouvir. Então ele me chamou de novo. A mesma coisa que semanas atrás: “Vá à grande cidade de Nínive e pregue contra ela a mensagem que lhe darei”.

Nínive era uma cidade importante. A economia da região passava por lá. E era enorme. Três dias eram necessários para poder atravessa-la.

Me aproximei por um caminho que passava por uma pequena colina antes de entrar na cidade à distância. Sentei para observá-la. Era realmente grande. Enorme. E com um movimento de gente que eu não tinha visto antes. 

Então obedeci o Criador. Mensagem simples: “daqui a quarenta dias Nínive será destruída”. Sem muitas explicações. Sem maiores frases do que essa. A destruição da cidade estava decretada. A data da execução da sua pena estava prescrita já. E eu já sabia que eles não se arrependeriam. Então, para que alongar a mensagem? Uma frase simples e direta bastava.

E aí aconteceu uma coisa que eu não entendia. Ou talvez, sim entendia mas me negava a aceitar. 

Como era possível que esse povo parasse e se arrependesse com uma frase tão simples? É verdade que os pecados deles estavam escancarados. Mas eles conseguiam chegar a esse nível de reconhecimento? Eu não acreditava! Como assim que se arrependiam!?

E pior, não foi uma coisa que veio de cima para baixo. Primeiro foram as pessoas comuns. Os obreiros. Os mercadores. Todas as pessoas, das mais importantes às mais singelas proclamavam jejum assim que a mensagem ia chegando. 

Era incrível. E olha que dos três dias que precisava para percorrer a cidade, eu apenas fiz o primeiro deles.

As noticias chegaram ao Rei.

Eu, embrutecido que estava, falei: pronto, agora sim vai chegar quem coloque ordem nisso tudo e a cidade volte a ser o que era e assim poderá ser destruída como o merece. Porque, gente, se havia alguém que merecia ser destruída era essa povo.  Oh sim! Como o mereciam! Até Deus estava de acordo comigo. Não foi para isso que me chamou?

Mas não. O rei proclamou jejum. E não era pouca coisa não. Todo ser vivo devia fazer jejum. As vestes lindas, suaves e vistosas deviam ser trocadas por outras toscas de pano que machucavam a pele. 

Para além disso, ele ordenou que se abandonasse a violência e os maus caminhos. Isso sim confirmava minha tese! Até o rei da cidade não apenas sabia da barbaridade em que vivia Nínive, ele era conivente e agora…. e agora!?   agora ele também se arrependia e com ele a cidade inteira.

Ahh que raiva! Que dor na boca do estómago! Que sabor amargo na minha boca!

Como assim que até o rei se arrependia!?  Ah não, eu não queria nem ver o que o Criador iria fazer. Eu o conhecia. 

Esse coração mole dele. Vou te contar. 

Furioso fiquei.

Estava tão raivoso e embrutecido que cacei um lugar solitário para orar. E lhe disse: “Está vendo!? É por isso que eu não queria vir. Lembra quando eu estava tranquilo em casa? Então, foi exatamente por isso que decidi fugir para Társis. E você o sabe muito bem. Eu te conheço. Sei desse teu coração propenso a perdoar. Sei que você promete castigar, mas depois muda de ideia. Estou farto disso tudo! Me mata. Vai. Chega. Arranca minha vida. Não pode ser pior do que viver!”

Tinha muito mais a falar para Ele. Mas a raiva me deixava cego, gago, embaralhado. 

Tudo bem ele usar de misericórdia comigo e me resgatar de dentro daquele peixe enorme no fundo do mar. Mas a esses daqui!? Que tipo de brincadeira bizarra é essa.

Não conseguia falar mais nada. Um nó na garganta se me formou. As lágrimas rolavam dos meus olhos. Não podia acreditar uma coisa dessas. Melhor, não podia aceitar porque eu o conhecia. Sabia que ele era assim.

Então, ouvi nitidamente a voz dele. Não a tinha ouvido no grande peixe. Mas agora lá estava essa voz mansa dele de novo. Ele me perguntou: “Você tem alguma razão para essa fúria?”

O deixei sem resposta. Preferi largar ele para lá sem lhe dizer ao menos uma frase. Não merecia. Mais uma vez ele me desapontara. E não porque – insisto – não o conhecesse. Mas porque eu esperava que sua justiça sobressaísse desta vez em lugar da sua misericórdia. 

Tudo bem ele ser misericordioso com os do seu povo escolhido, mas com estes!? Brincadeira. Só podia ser brincadeira. 

Optei por lhe fazer o vazio.

Então terminei de atravessar a cidade. Me assentei distante e no alto. Fiz um tapume para evitar um pouco o vento seco enquanto aguardava o que – de fato – ia acontecer com a cidade. Por um lado eu gradava esperança que o arrependimento deles fosse pura enganação. E pelo outro esperava que o Criador destruísse tudo como prometera.

E esperei.

Então o meu Criador, na sua misericórdia, fez brotar uma planta para que o sol não batesse tão forte na minha cabeça. Oh como fiquei feliz. Sim, eu podia me juntar a Jó e dizer mais uma vez “eu sei que meu redentor vive”. Ele me cuidava. Ele me sustentava. Com toda certeza ele me amava.

Fui dormir tranquilo. Na doce esperança que o julgamento do Criador se abatesse sobre a cidade de uma vez por todas. Ao final das contas, Deus tinha mostrado sua bondade para comigo. Amanhã poderia ser o dia dele mostrar o juízo sobre esses outros.

Ao outro dia acordei e vi que uma lagarta tinha acabado com a planta e esta se secara. Estava nascendo o sol e junto com ele se formara um vento forte, seco, quente. O dia prometia.

Quem sabe e isso tudo não era parte da destruição que Deus estava trazendo sobre essa gentalha!  Quem sabe e não ia eu poder assistir de camarote tudo o que ia vir! Se o dia começava assim, o que seria para o meio dia?

Mas o calor não parava de aumentar. E a cidade parecia continuar normal. Meus olhos pararam de distinguir a realidade da imaginação. E sentia quase desmaiando. 

Cheguei à conclusão que o melhor era morrer. Ah… sim… nada como a morte para poder resolver tudo de uma vez. 

Então voltei a orar. Não lhe tinha voltado a dirigir a palavra desde aquele dia. Dessa vez não andei com voltas. Simplesmente lhe disse que para mim a morte era melhor que a vida. Não havia necessidade de dizer mais nada. Já tinha gasto saliva demais com ele. Era apenas um último favor que eu estava pedindo. Simples. Eficiente. A minha morte. Nada mais fazia sentido!!!

E então ele de novo me perguntou a mesma coisa. Bom, ou pelo menos quase a mesma. Como se não tivéssemos tido aquele tempo de silêncio: “Você tem alguma razão para estar tão furioso por causa da planta?”

Eu não podia acreditar. Só podia ser provocação. Ele que tudo o sabe. Por que perguntaria uma coisa dessas de novo?

Ele não tem necessidade que ninguém lhe ensine nem lhe instrua pois ele é fonte de todo conhecimento e sabedoria. Nada há que aconteça sem que ele saiba. Que tipo de pergunta era essa!!?? 

Então eu lhe disse “SIM!!!!! TEEEENHO!!!!!. E estou furioso. Tão furioso que apenas a morte me parece apetecível!” 


Olhando no espelho de Jonas

Há alguns passagens que gostaria de alinhar com o relato de Jonas. A história de Jonas é bem conhecida. Mas geralmente passamos por alto algo que – pessoalmente – me parece muito relevante. Parece que o objetivo final de Deus não era apenas Nínive e sim o profeta. 

Todas as falas de Deus feitas a Jonas se podem agrupar em duas: a) instruções – que na realidade é apenas uma: anunciar a Nínive que seu tempo chegou. b) perguntas retóricas. São três perguntas que Deus faz para Jonas. As primeiras duas colocam de relevo que Jonas não tinha razão para essa fúria toda. E a terceira abre para uma conclusão bem simples: Assim como Jonas teve dó da planta, não deveria Deus ter pena desse povo todo na sua ignorância?

O material em Jonas é abundante e dá para muitas coisas. 

Mas me deixa apenas fisgar uma característica de Jonas para depois vermos juntos sua dor.

Jonas conhecia Deus. Não era um conhecimento intelectual apenas. Era algo mais visceral. Ao ponto tal que sabia como seria o comportamento de Deus nessa situação. Repare que Deus não contradiz esse conhecimento. Parece como se Deus dissesse: exatamente, esse sou eu. Claro, isso não quer dizer que Jonas conhecesse plenamente Deus. Isso é impossível. Mas tinha o suficiente conhecimento de Deus como para entender para onde ia a história. 

Jonas não é pego de surpresa por Deus nesse ponto. E ali vemos uma virtude da leitura completa de um texto curto como o de Jonas já que encontramos isso em Jonas 4:2 ou seja, quase no final do livro. Então é válido dizer que esse conhecimento de Deus se deixa ver na raiva de Jonas. A raiva nasce do desapontamento. Há uma expectativa frustrada. A fuga de Jonas não parece estar ancorada no medo e sim nessa vida frustrada com Deus. 

Toda a raiva de Jonas não é apenas uma reação a um resultado político ou externo; ela é dirigida a Deus, cuja ação frustra aquilo que Jonas considerava que era justo acontecer. A ambivalência existencial do ser humano torna perfeitamente possível que haja na mesma pessoa sentimentos positivos em relação a Deus coexistindo com ressentimento ou raiva. Uma coisa não nega a outra. A raiva interna não invalida a crença no Criador.

E uma das coisas frustrantes do livro de Jonas é exatamente que essa raiva paira no texto inteiro, mas não há transformação da mesma. 

Isso me faz lembrar de Mateus 25:14-30. O servo displicente enterra seu talento. Por falta de conhecimento do seu Senhor? Não. Exatamente pelo contrario. Mais uma vez, Jesus – na sua parábola – não contradiz aquele conhecimento. Faz parte da revelação. Sim: O Senhor colhe onde não plantou (ou você tem visto Jesus – que persiste em forma humana e está assentado à direita de Deus – sarando, pregando, expulsando demônios?) Então o conhecimento estava certo, a emoção e a ação não. 

E também me leva a pensar no irmão do filho pródigo. (Lucas 15:25-32) Conhecia ele seu pai? Em certo sentido sim. Sabia o quanto tinha custado formar aquilo tudo. Mesmo talvez querendo usufruir um pouco do que era seu por direito não o fez. Por que? por falta de conhecimento? Não. Sabia do custo. Sabia da dor do pai pelo irmão mais novo. O conhecimento estava certo. As emoções e as ações não. 

E o que mais me toca: Mateus 18:21-35. O servo recebe o perdão de uma dívida impagável. Quando chega a vez dele de fazer o mesmo com um servo menor, não o faz. Ele conhecia o que era perdão. O tinha acabado de experimentar. Conseguia aplicar para o seu conservo? não. Conhecimento certo. Ação e emoção não.

Jonas conhecia o Senhor. O servo displicente também. O irmão do filho pródigo de igual modo. E não é diferente com o servo da dívida enorme.

Óbvio que o conhecimento deles é parcial. Isso já foi estabelecido. Mas me surpreende nos quatro relatos o espaço vago entre o que é da possibilidade da ação de Deus e o lugar da ação humana. Ou dito de uma outra forma: alguma particularidade do Senhor conheciam. E essa particularidade a conheciam de forma até profunda poderíamos dizer. Porém, esse conhecimento não se traduzia em ter o mesmo coração do Senhor. Sim, eram conhecimentos parciais. Mas achamos que deveriam ter sido suficientes para alterar suas emoções e condutas. 

Não o foram.

Todas essas histórias tem esse toque amargo no final. Alguém não entendeu como funciona a coisa.

E – na Bíblia – deve ser assim. Não é Hollywood. 

Deve ficar claro que a mesma mensagem produz efeitos diferentes nas pessoas. A mesma ação de Deus provoca coisas distintas dentro de cada um de nós. 

Não se trata, então, de conhecimento intelectual. 

E pior, não se trata de falta de experiência.

A angustia mais profunda desses textos é que essas pessoas passaram perto da verdade eterna. E não conseguiram ser tocados por ela.

Jonas tinha tudo para ser uma pessoa feliz. Almejava a morte porque conhecia o seu Senhor, mas não o entendia com o coração. 

Da próxima vez que o Senhor o faça chorar; não corra.

No concreto, não no etéreo

No concreto, não no etéreo

É muito bonito imaginar como deveriam ser as coisas.

Uma única Igreja, sem placas, sem divisões, sem histórias de ruptura, sem disputas doutrinárias, sem diferenças de governo, batismo, ceia, liturgia ou missão. A ideia tem sua beleza. Jesus mesmo ora para que seus discípulos sejam um (Jo 17:20-23).

Só que nós existimos deste lado da eternidade.

E, deste lado da eternidade, a Igreja precisa existir no concreto.

O Novo Testamento não conhece apenas uma Igreja abstrata. Conhece igrejas em Corinto, Éfeso, Filipos, Tessalônica. Conhece presbíteros sendo estabelecidos (At 14:23; Tt 1:5), responsabilidades sendo atribuídas (At 6:1-6), conflitos sendo tratados e decisões sendo tomadas (At 15:1-29).

Igreja concreta precisa decidir.

Quem ensina? Como governa? Como recebe novos membros? Como batiza? Como celebra a Ceia? Como disciplina? Como entende os dons? Como se relaciona com o Estado? Como lida com dinheiro? Como envia missionários?

Em algum momento, a bela frase “somos apenas cristãos” precisa sentar numa mesa e votar alguma coisa.

E aí começam as diferenças.

Talvez esse seja um dos motivos pelos quais a ideia de abolir denominações costuma soar tão sedutora quando somos jovens. O tempo parece infinito, as decisões parecem reversíveis e temos uma convicção impressionante de que nosso ponto de vista — e o de quem concorda conosco — é o correto, puro, equilibrado e sensato.

Descartes já tirava sarro disso ao observar que nada parece tão bem distribuído quanto o bom senso: todo mundo acha que recebeu o suficiente.

A história da Igreja é um ótimo antídoto contra essa segurança.

Pensemos apenas em luteranos, presbiterianos e batistas. Nenhum desses movimentos surgiu porque alguém acordou numa terça-feira com vontade de inventar uma marca nova. A Reforma luterana atravessou conflito político, excomunhão e risco de morte. O presbiterianismo escocês se formou em meio a disputas religiosas e civis profundas. Os primeiros batistas ingleses enfrentaram perseguição por convicções que hoje muitos de nós consideramos banais, como liberdade de consciência e batismo de crentes.

Claro que há orgulho nessa história. Há pecado. Há teimosia. Há rupturas que talvez pudessem ter sido evitadas.

Mas reduzir tudo isso a “eles não conseguiram viver em unidade” é confortável demais para quem observa séculos depois, sentado numa cadeira que essas mesmas lutas ajudaram a tornar possível.

Denominações também são memória.

Elas guardam respostas que comunidades cristãs deram, em tempos e lugares concretos, a perguntas que não podiam simplesmente ignorar. Algumas respostas foram melhores. Outras, piores. Algumas precisam ser corrigidas. Outras merecem ser preservadas justamente porque custaram caro.

Por isso eu não tenho grande interesse numa igreja sem identidade.

Tenho interesse numa igreja cuja identidade saiba seu lugar.

Paulo plantou. Apolo regou. Deus deu o crescimento (1Co 3:6).

Talvez uma denominação seja algo parecido: uma forma histórica, limitada e concreta de plantar ou regar dentro de uma obra que nunca lhe pertenceu.

O problema começa quando ela esquece disso.

En lo concreto, no en lo etéreo

En lo concreto, no en lo etéreo

Es muy lindo imaginar cómo deberían ser las cosas.

Una única Iglesia, sin placas, sin divisiones, sin historias de ruptura, sin disputas doctrinales, sin diferencias de gobierno, bautismo, cena, liturgia o misión. La idea tiene su belleza. Jesús mismo ora para que sus discípulos sean uno (Jn 17:20-23).

Solo que nosotros existimos de este lado de la eternidad.

Y, de este lado de la eternidad, la Iglesia necesita existir en lo concreto.

El Nuevo Testamento no conoce solo una Iglesia abstracta. Conoce iglesias en Corinto, Éfeso, Filipos, Tesalónica. Conoce presbíteros siendo establecidos (Hch 14:23; Tit 1:5), responsabilidades siendo asignadas (Hch 6:1-6), conflictos siendo tratados y decisiones siendo tomadas (Hch 15:1-29).

La Iglesia concreta necesita decidir.

¿Quién enseña? ¿Cómo gobierna? ¿Cómo recibe nuevos miembros? ¿Cómo bautiza? ¿Cómo celebra la Cena? ¿Cómo disciplina? ¿Cómo entiende los dones? ¿Cómo se relaciona con el Estado? ¿Cómo maneja el dinero? ¿Cómo envía misioneros?

En algún momento, la bella frase “somos solo cristianos” necesita sentarse a una mesa y votar algo.

Y ahí comienzan las diferencias.

Quizás ese sea uno de los motivos por los cuales la idea de abolir denominaciones suele sonar tan seductora cuando somos jóvenes. El tiempo parece infinito, las decisiones parecen reversibles y tenemos una convicción impresionante de que nuestro punto de vista —y el de quienes están de acuerdo con nosotros— es el correcto, puro, equilibrado y sensato.

Descartes ya se burlaba de esto al observar que nada parece tan bien distribuido como el buen sentido: todo el mundo cree que recibió lo suficiente.

La historia de la Iglesia es un excelente antídoto contra esa seguridad.

Pensemos solo en luteranos, presbiterianos y bautistas. Ninguno de estos movimientos surgió porque alguien se despertó un martes con ganas de inventar una marca nueva. La Reforma luterana atravesó conflicto político, excomunión y riesgo de muerte. El presbiterianismo escocés se formó en medio de disputas religiosas y civiles profundas. Los primeros bautistas ingleses enfrentaron persecución por convicciones que hoy muchos de nosotros consideramos banales, como libertad de conciencia y bautismo de creyentes.

Claro que hay orgullo en esa historia. Hay pecado. Hay terquedad. Hay rupturas que quizás podrían haberse evitado.

Pero reducir todo eso a “no lograron vivir en unidad” es demasiado cómodo para quien observa siglos después, sentado en una silla que esas mismas luchas ayudaron a hacer posible.

Las denominaciones también son memoria.

Guardan respuestas que comunidades cristianas dieron, en tiempos y lugares concretos, a preguntas que no podían simplemente ignorar. Algunas respuestas fueron mejores. Otras, peores. Algunas necesitan ser corregidas. Otras merecen ser preservadas justamente porque costaron caro.

Por eso no tengo gran interés en una iglesia sin identidad.

Tengo interés en una iglesia cuya identidad sepa su lugar.

Pablo plantó. Apolos regó. Dios dio el crecimiento (1Co 3:6).

Quizás una denominación sea algo parecido: una forma histórica, limitada y concreta de plantar o regar dentro de una obra que nunca le perteneció.

El problema comienza cuando se olvida de eso.

In the Concrete, Not the Ethereal

In the Concrete, Not the Ethereal

It’s lovely to imagine how things ought to be.

One single Church, no labels, no divisions, no tales of rupture, no doctrinal disputes, no differences in governance, baptism, communion, liturgy, or mission. The idea has its charm. Jesus Himself prays for His disciples to be one (John 17:20-23).

But we exist on this side of eternity.

And on this side of eternity, the Church needs to exist in the concrete.

The New Testament doesn’t just know an abstract Church. It knows churches in Corinth, Ephesus, Philippi, Thessalonica. It knows elders being established (Acts 14:23; Titus 1:5), responsibilities being assigned (Acts 6:1-6), and conflicts being addressed and decisions being made (Acts 15:1-29).

Concrete church needs to decide.

Who teaches? How does it govern? How does it receive new members? How does it baptize? How does it celebrate Communion? How does it discipline? How does it understand the gifts? How does it relate to the State? How does it handle money? How does it send missionaries?

At some point, the beautiful phrase “we’re just Christians” has to sit at a table and vote on something.

And that’s where the differences begin.

Perhaps this is one of the reasons why the idea of abolishing denominations tends to sound so alluring when we’re young. Time seems infinite, decisions seem reversible, and we have an impressive conviction that our point of view—and that of those who agree with us—is the correct, pure, balanced, and sensible one.

Descartes already mocked this by observing that nothing seems as well distributed as common sense: everyone thinks they have enough.

The history of the Church is a great antidote to this certainty.

Let’s just think about Lutherans, Presbyterians, and Baptists. None of these movements arose because someone woke up on a Tuesday wanting to invent a new brand. The Lutheran Reformation went through political conflict, excommunication, and the risk of death. Scottish Presbyterianism formed amidst deep religious and civil disputes. The first English Baptists faced persecution for convictions that many of us today consider trivial, like freedom of conscience and believer’s baptism.

Of course, there’s pride in this history. There’s sin. There’s stubbornness. There are ruptures that perhaps could have been avoided.

But reducing all this to “they couldn’t live in unity” is too comfortable for those observing centuries later, sitting in a chair that these very struggles helped make possible.

Denominations are also memory.

They preserve answers that Christian communities gave, in concrete times and places, to questions they couldn’t simply ignore. Some answers were better. Others, worse. Some need correction. Others deserve preservation precisely because they came at a high cost.

That’s why I have little interest in a church without identity.

I’m interested in a church whose identity knows its place.

Paul planted. Apollos watered. God gave the growth (1 Corinthians 3:6).

Perhaps a denomination is something similar: a historical, limited, and concrete way of planting or watering within a work that never belonged to it.

The problem begins when it forgets this.

Unidade sem monotonia

Unidade sem monotonia

Já reparou na criação? Não é linda?

Às vezes fico pensando como deveria ter sido antes da queda, já que Paulo diz que toda a criação foi sujeita à corrupção e geme aguardando redenção (Rm 8:19-22). Mesmo assim, a diversidade continua diante de nós.

O Salmo 104 olha para essa multiplicidade e exclama: “Quão numerosas são as tuas obras, Senhor! Fizeste todas elas com sabedoria” (Sl 104:24). Provérbios diz que o Senhor fundou a terra com sabedoria (Pv 3:19). A variedade não aparece como ruído. Aparece como obra do Criador.

E então chegamos a um texto que sempre me pareceu lindo e, em certo sentido, até engraçado: “Criou Deus o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1:27).

Eu não conheço duas expressões humanas mais evidentemente distintas do que homem e mulher.

E, no entanto, ambos estão debaixo da mesma afirmação: imagem de Deus.

Unidade de origem. Igual dignidade. Distinção real.

Talvez devêssemos guardar essa combinação.

Nós temos uma inclinação curiosa à uniformização. Moda vem em ondas. Casas começam a se parecer. Carros perdem traços que antes permitiam reconhecer uma marca de longe. Igrejas também fazem isso. Um modelo parece funcionar e logo todo mundo começa a cantar parecido, falar parecido, organizar parecido, iluminar parecido, pregar parecido.

Não há pecado necessário em parecer com alguém.

Mas existe uma diferença entre aprender e desaparecer.

Paulo fala de um corpo no qual os dons são diferentes, os serviços são diferentes, as operações são diferentes, mas o Espírito e o Senhor são os mesmos (1Co 12:4-6). E vai além: o olho não pode dizer à mão “não preciso de você” (1Co 12:21).

A unidade do corpo depende justamente de ele não ser uma coisa só repetida muitas vezes.

Isso já deveria nos deixar um pouco desconfiados da ideia de que a igreja ideal seria aquela em que todas as comunidades locais pensassem, servissem e se organizassem exatamente da mesma forma.

E há ainda uma questão mais funda. A fé cristã confessa um Deus trino. Pai, Filho e Espírito Santo não são três deuses, nem três máscaras sucessivas de um mesmo personagem. Deus é um. E, no entanto, a linguagem cristã não elimina a distinção das pessoas (Mt 28:19; 2Co 13:13).

Não estou dizendo que as denominações são uma imagem da Trindade. Seria forçar demais o argumento.

Estou dizendo algo mais simples: diferença não é, por si só, uma ofensa à unidade.

Na criação há diferença. No corpo há diferença. Nos dons há diferença. Entre os apóstolos havia diferença. E, no fim, João ainda vê diante do Cordeiro uma multidão de povos, tribos e línguas (Ap 7:9).

Curiosamente, a eternidade não parece resolver a diversidade apagando-a.

Talvez o nosso problema não seja haver diferença demais.

Talvez seja termos desaprendido a conviver com diferença sem transformá-la em ameaça.

Unidad sin monotonía

Unidad sin monotonía

¿Te diste cuenta de la creación? ¿No es hermosa?

A veces me pongo a pensar cómo debería haber sido antes de la caída, ya que Pablo dice que toda la creación fue sujeta a la corrupción y gime esperando la redención (Ro 8:19-22). Aun así, la diversidad sigue presente ante nosotros.

El Salmo 104 mira esta multiplicidad y exclama: “¡Cuán innumerables son tus obras, oh Jehová! Hiciste todas ellas con sabiduría” (Sal 104:24). Proverbios dice que el Señor fundó la tierra con sabiduría (Pr 3:19). La variedad no aparece como ruido. Aparece como obra del Creador.

Y entonces llegamos a un texto que siempre me pareció lindo y, en cierto sentido, hasta gracioso: “Y creó Dios al hombre a su imagen, a imagen de Dios lo creó; varón y hembra los creó” (Gn 1:27).

No conozco dos expresiones humanas más evidentemente distintas que hombre y mujer.

Y, sin embargo, ambos están bajo la misma afirmación: imagen de Dios.

Unidad de origen. Igual dignidad. Distinción real.

Tal vez deberíamos guardar esta combinación.

Tenemos una inclinación curiosa hacia la uniformización. La moda viene en olas. Las casas empiezan a parecerse. Los autos pierden rasgos que antes permitían reconocer una marca de lejos. Las iglesias también hacen esto. Un modelo parece funcionar y pronto todo el mundo empieza a cantar parecido, hablar parecido, organizarse parecido, iluminar parecido, predicar parecido.

No hay pecado necesario en parecerse a alguien.

Pero existe una diferencia entre aprender y desaparecer.

Pablo habla de un cuerpo en el cual los dones son diferentes, los servicios son diferentes, las operaciones son diferentes, pero el Espíritu y el Señor son los mismos (1 Co 12:4-6). Y va más allá: el ojo no puede decir a la mano “no te necesito” (1 Co 12:21).

La unidad del cuerpo depende justamente de que no sea una sola cosa repetida muchas veces.

Esto ya debería dejarnos un poco desconfiados de la idea de que la iglesia ideal sería aquella en que todas las comunidades locales pensaran, sirvieran y se organizaran exactamente de la misma forma.

Y hay aún una cuestión más profunda. La fe cristiana confiesa un Dios trino. Padre, Hijo y Espíritu Santo no son tres dioses, ni tres máscaras sucesivas de un mismo personaje. Dios es uno. Y, sin embargo, el lenguaje cristiano no elimina la distinción de las personas (Mt 28:19; 2 Co 13:14).

No estoy diciendo que las denominaciones son una imagen de la Trinidad. Sería forzar demasiado el argumento.

Estoy diciendo algo más simple: la diferencia no es, por sí sola, una ofensa a la unidad.

En la creación hay diferencia. En el cuerpo hay diferencia. En los dones hay diferencia. Entre los apóstoles había diferencia. Y, al final, Juan aún ve delante del Cordero una multitud de pueblos, tribus y lenguas (Ap 7:9).

Curiosamente, la eternidad no parece resolver la diversidad borrándola.

Tal vez nuestro problema no sea haber demasiada diferencia.

Tal vez sea que hemos desaprendido a convivir con la diferencia sin transformarla en amenaza.

Unity Without Monotony

Unity Without Monotony

Have you noticed creation? Isn’t it beautiful?

Sometimes I wonder what it must have been like before the fall, since Paul says all creation was subjected to frustration and groans for redemption (Romans 8:19-22). Yet, diversity still stands before us.

Psalm 104 looks at this multiplicity and exclaims, “How many are your works, Lord! In wisdom you made them all” (Psalm 104:24). Proverbs says the Lord founded the earth with wisdom (Proverbs 3:19). Variety doesn’t show up as noise. It appears as the Creator’s handiwork.

And then we come to a text that has always seemed beautiful to me and, in a sense, even amusing: “So God created mankind in his own image, in the image of God he created them; male and female he created them” (Genesis 1:27).

I don’t know two human expressions more evidently distinct than male and female.

And yet, both fall under the same statement: image of God.

Unity of origin. Equal dignity. Real distinction.

Perhaps we should hold onto this combination.

We have a curious inclination towards uniformity. Fashion comes in waves. Houses start to look alike. Cars lose features that once allowed you to recognize a brand from afar. Churches do this too. A model seems to work, and soon everyone starts singing the same, talking the same, organizing the same, lighting the same, preaching the same.

There’s no inherent sin in resembling someone.

But there’s a difference between learning and disappearing.

Paul speaks of a body where the gifts are different, the services are different, the workings are different, but the Spirit and the Lord are the same (1 Corinthians 12:4-6). And he goes further: the eye cannot say to the hand, “I don’t need you” (1 Corinthians 12:21).

The unity of the body depends precisely on it not being just one thing repeated many times.

This should already make us a bit skeptical of the idea that the ideal church would be one where all local communities think, serve, and organize exactly the same way.

And there’s an even deeper issue. The Christian faith confesses a triune God. Father, Son, and Holy Spirit are not three gods, nor three successive masks of the same character. God is one. And yet, Christian language doesn’t eliminate the distinction of persons (Matthew 28:19; 2 Corinthians 13:14).

I’m not saying denominations are an image of the Trinity. That would be stretching the argument too far.

I’m saying something simpler: difference is not, in itself, an offense to unity.

In creation, there is difference. In the body, there is difference. In the gifts, there is difference. Among the apostles, there was difference. And in the end, John still sees before the Lamb a multitude of nations, tribes, and languages (Revelation 7:9).

Curiously, eternity doesn’t seem to resolve diversity by erasing it.

Perhaps our issue isn’t too much difference.

Perhaps it’s that we’ve forgotten how to live with difference without turning it into a threat.

Quando a diferença ocupa o centro

Quando a diferença ocupa o centro

A divisão em capítulos ajuda muito a localizar um texto bíblico, mas às vezes atrapalha o raciocínio. Em 1 Coríntios isso acontece com facilidade. Lemos o capítulo 1, chegamos à discussão sobre Paulo, Apolo e Cefas, viramos a página e parece que Paulo começou outro assunto.

Não começou.

Depois de perguntar se Cristo está dividido, Paulo segue falando da cruz. “A palavra da cruz é loucura para os que perecem” (1Co 1:18). Judeus pedem sinais, gregos procuram sabedoria, mas ele anuncia Cristo crucificado (1Co 1:22-24). E quando chega ao capítulo 3, as facções reaparecem: “quando alguém diz: Eu sou de Paulo; e outro: Eu sou de Apolo, não sois carnais?” (1Co 3:4).

O raciocínio está inteiro.

A cruz desmonta os critérios humanos de grandeza. Eloquência, prestígio, inteligência, carisma, influência: tudo isso pode ser útil. O problema começa quando deixa de ser serviço e vira centro.

Paulo conhecia o risco. Era homem instruído, formado aos pés de Gamaliel (At 22:3). Poderia apoiar sua autoridade na formação, na história, na capacidade argumentativa. Em vez disso, diz que decidiu saber entre os coríntios “Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co 2:2).

Não porque pensar fosse pecado. Seria uma leitura bastante estranha de Paulo.

Mas porque até uma coisa boa consegue tomar um lugar que não é dela.

É exatamente por isso que a discussão sobre denominações costuma dar errado dos dois lados. De um lado, há quem trate sua tradição como se fosse a própria forma final do cristianismo. A igreja certa, a teologia certa, a liturgia certa, a leitura certa, a música certa. O sobrenome eclesiástico começa a funcionar quase como prova de fidelidade a Cristo.

Do outro, há quem trate toda identidade como suspeita e imagine que abolir os nomes resolveria o problema.

Não resolve.

Corinto não tinha batistas, luteranos, presbiterianos ou pentecostais. E conseguiu produzir facções muito bem sem nenhuma dessas placas.

O coração humano não precisa de estatuto denominacional para competir.

É aí que o texto de Paulo incomoda mais do que parece. O problema não está primeiro na existência de diferenças, mas naquilo que fazemos com elas. Paulo não nega que ele plantou e Apolo regou. Ele nega que qualquer um dos dois possa receber a glória pelo crescimento.

“Deus é quem dá o crescimento” (1Co 3:7).

Essa frase deveria ser suficientemente ofensiva para todos nós.

Porque ela põe no lugar tanto o pastor famoso quanto a denominação histórica, tanto a igreja que cresce quanto a igreja que se orgulha de não crescer, tanto o intelectual quanto o anti-intelectual, tanto o tradicional quanto o moderno.

Nenhum deles é o centro.

A cruz é.

Talvez a pergunta não seja, então, se podemos ter identidades. Talvez seja se nossas identidades ainda conseguem ajoelhar-se diante de Cristo sem exigir que ele se pareça conosco.

Cuando la diferencia ocupa el centro

Cuando la diferencia ocupa el centro

La división en capítulos ayuda mucho a localizar un texto bíblico, pero a veces entorpece el razonamiento. En 1 Corintios esto pasa con facilidad. Leemos el capítulo 1, llegamos a la discusión sobre Pablo, Apolos y Cefas, damos vuelta la página y parece que Pablo empezó otro tema.

No empezó.

Después de preguntar si Cristo está dividido, Pablo sigue hablando de la cruz. “La palabra de la cruz es locura a los que se pierden” (1Co 1:18). Los judíos piden señales, los griegos buscan sabiduría, pero él anuncia a Cristo crucificado (1Co 1:22-24). Y cuando llega al capítulo 3, las facciones reaparecen: “cuando uno dice: Yo soy de Pablo; y otro: Yo soy de Apolos, ¿no sois carnales?” (1Co 3:4).

El razonamiento está entero.

La cruz desarma los criterios humanos de grandeza. Elocuencia, prestigio, inteligencia, carisma, influencia: todo eso puede ser útil. El problema empieza cuando deja de ser servicio y se convierte en centro.

Pablo conocía el riesgo. Era un hombre instruido, formado a los pies de Gamaliel (Hch 22:3). Podría haber apoyado su autoridad en la formación, en la historia, en la capacidad argumentativa. En vez de eso, dice que decidió saber entre los corintios “a Jesucristo, y a éste crucificado” (1Co 2:2).

No porque pensar fuera pecado. Sería una lectura bastante extraña de Pablo.

Sino porque hasta una cosa buena puede ocupar un lugar que no le corresponde.

Es exactamente por eso que la discusión sobre denominaciones suele salir mal de ambos lados. Por un lado, hay quienes tratan su tradición como si fuera la forma final del cristianismo. La iglesia correcta, la teología correcta, la liturgia correcta, la lectura correcta, la música correcta. El apellido eclesiástico empieza a funcionar casi como prueba de fidelidad a Cristo.

Por otro lado, hay quienes tratan toda identidad como sospechosa e imaginan que abolir los nombres resolvería el problema.

No lo resuelve.

Corinto no tenía bautistas, luteranos, presbiterianos o pentecostales. Y logró producir facciones muy bien sin ninguna de esas placas.

El corazón humano no necesita estatuto denominacional para competir.

Es ahí donde el texto de Pablo incomoda más de lo que parece. El problema no está primero en la existencia de diferencias, sino en lo que hacemos con ellas. Pablo no niega que él plantó y Apolos regó. Niega que cualquiera de los dos pueda recibir la gloria por el crecimiento.

“Dios es quien da el crecimiento” (1Co 3:7).

Esa frase debería ser lo suficientemente ofensiva para todos nosotros.

Porque pone en su lugar tanto al pastor famoso como a la denominación histórica, tanto a la iglesia que crece como a la iglesia que se enorgullece de no crecer, tanto al intelectual como al anti-intelectual, tanto al tradicional como al moderno.

Ninguno de ellos es el centro.

La cruz lo es.

Tal vez la pregunta no sea, entonces, si podemos tener identidades. Tal vez sea si nuestras identidades aún pueden arrodillarse ante Cristo sin exigir que él se parezca a nosotros.

When Difference Takes Center Stage

When Difference Takes Center Stage

Dividing a biblical text into chapters is quite helpful for locating passages, but sometimes it disrupts the flow of thought. In 1 Corinthians, this happens easily. We read chapter 1, get to the discussion about Paul, Apollos, and Cephas, turn the page, and it seems like Paul has started a new topic.

He hasn’t.

After asking if Christ is divided, Paul continues speaking about the cross. “For the message of the cross is foolishness to those who are perishing” (1 Corinthians 1:18). Jews demand signs, Greeks look for wisdom, but he preaches Christ crucified (1 Corinthians 1:22-24). And when he reaches chapter 3, the factions reappear: “For when one says, ‘I follow Paul,’ and another, ‘I follow Apollos,’ are you not mere human beings?” (1 Corinthians 3:4).

The argument is all there.

The cross dismantles human criteria for greatness. Eloquence, prestige, intelligence, charisma, influence: all these can be useful. The problem begins when they stop being service and become the center.

Paul knew the risk. He was an educated man, trained at the feet of Gamaliel (Acts 22:3). He could have based his authority on his education, his history, his argumentative skills. Instead, he says he decided to know nothing among the Corinthians “except Jesus Christ and him crucified” (1 Corinthians 2:2).

Not because thinking was a sin. That would be a rather strange reading of Paul.

But because even a good thing can take a place that isn’t its own.

That’s exactly why discussions about denominations usually go wrong on both sides. On one side, there are those who treat their tradition as if it were the final form of Christianity itself. The right church, the right theology, the right liturgy, the right reading, the right music. The ecclesiastical surname starts functioning almost as proof of fidelity to Christ.

On the other, there are those who treat all identity as suspect and imagine that abolishing names would solve the problem.

It doesn’t.

Corinth didn’t have Baptists, Lutherans, Presbyterians, or Pentecostals. And it managed to produce factions just fine without any of those labels.

The human heart doesn’t need denominational bylaws to compete.

This is where Paul’s text is more unsettling than it seems. The problem isn’t first in the existence of differences, but in what we do with them. Paul doesn’t deny that he planted and Apollos watered. He denies that either of them can receive the glory for the growth.

“Only God, who makes things grow” (1 Corinthians 3:7).

That sentence should be sufficiently offensive for all of us.

Because it puts both the famous pastor and the historic denomination in their place, both the church that grows and the church that prides itself on not growing, both the intellectual and the anti-intellectual, both the traditional and the modern.

None of them is the center.

The cross is.

Perhaps the question isn’t whether we can have identities. Perhaps it’s whether our identities can still kneel before Christ without demanding that he look like us.