Eu, Sansão

Juízes 13:1-16:31

Este não é um artigo triunfalista.

Ele é muito humano, existencial, duro, pesado… realista.

Se gosta de finais felizes, hoje, este não é seu lugar.

Todos nós conhecemos a história de Sansão. Ela é tão necessária quanto a de José no Egito.

Mas esqueçamos todo o material introdutório.

Foquemos no último dia de vida dele. Deixemos voar um pouco a imaginação. Sem sentir a passagem, ela é apenas informação.

Depois

A última lembrança que ele tinha, estava bem gravada.

Não que ele tivesse alguma retina na qual gravar mais nada. Ele, um dos maiores juízes de Israel, tinha sido brutalmente cegado pelos seus inimigos.

Ele ainda ouvia os gritos de alegria dos filisteus quando isso ocorrera. Lembrava como, impotente, fora arrastado por quatro homens não muito fortes. A fronte lhe fora amarrada ao tronco. E o carrasco lhe extirpara brutalmente com uma tenaz incandescente os olhos de suas órbitas.

E logo veio o silêncio.

Não porque a turba entardecida não relinchasse vitoriosa após anos de serem vencidos por Sansão. Mas porque a dor que ele sentia era tão intensa que nenhum outro sentido conseguia operar bem.

Os anos de vitórias passaram por sua mente. As batalhas vencidas. O ter sido uma pessoa de coragem e respeito entre seu povo. O fato de sentir a presença de seu Criador no seu corpo de uma forma completamente distinta de qualquer outro humano. Os cuidados que os pais lhe dispensaram. Os afetos aos que fora exposto. As expectativas desde antes do ventre.

Tudo se perdera.

Nada agora fazia mais sentido.

Ele pensava: O que será que estou moendo? Trigo para os grandes? Cevada para os mais pobres? E qual seria a diferença?

O colocaram a fazer o trabalho de um animal de carga: moer, esmagar, triturar.

Desde o amanhecer ao entardecer o cada vez mais forte Sansão fazia apenas uma coisa: girar e girar. Empurrar e empurrar. Moer e moer.

Aquele que antes causava medo e pavor em qualquer guerreiro filisteu, agora era motivo de chacota para as crianças. Jogavam-lhe pedras. Riam dele. Cuspiam na face dele.

O importante era que o povo filisteu, dos mais ternos aos mais duros, soubesse que o grande juiz de Israel tinha sido derrotado.

O que mais dava se fosse cevada para os pobres ou trigo para os ricos!?

A situação se repetiria da mesma forma.

Dia após dia. Semana após semana. Lembrança após lembrança.

A pedra girava.

O pó subia.

O corpo obedecia.

Empurrar. Respirar. Girar.

Empurrar. Respirar. Girar.

E, enquanto a pedra voltava ao mesmo lugar, Sansão também voltava.

Voltava à mulher de Timna, àquela primeira mulher filisteia que seus olhos escolheram antes que seu espírito pudesse dizer não. Voltava ao enigma, à festa, à ira, às raposas incendiando os campos. Voltava às portas de Gaza carregadas nos ombros como se ninguém pudesse detê-lo.

Voltava ao corpo morto do leão e ao mel retirado de dentro dele. Àquilo que tocou, embora não devesse tocar. Àquilo que comeu, embora sua consagração exigisse separação.

Voltava à vingança. Sempre à vingança.

Um golpe exigia outro. Uma humilhação exigia uma resposta. Um inimigo derrubado nunca era suficiente.

E voltava a ela…

Voltava a Dalila. À insistência dela. À sua vaidade. À sua certeza de que poderia brincar com o perigo mais uma vez. E outra. E outra.

Até que, um dia, não restou mais força para brincar.

O pior era que ele sabia…

E o que ele sabia, era mais pesado que a pedra que ele girava dia após dia. Pois não o carregava do lado de fora, senão do lado de dentro.

Não era Dalila.

Não eram os filisteus.

Não eram seus pais.

Não era sua primeira mulher.

Não era seu povo.

Eles haviam participado. Tinham ferido, enganado, pressionado, traído. Mas nenhum deles havia colocado Sansão naquela prisão.

Ele sabia onde tudo começara.

Não no dia em que Dalila cortou seu cabelo.

Não no dia em que os filisteus o prenderam.

Não no dia em que lhe furaram os olhos.

Começara muito antes — cada vez que confundira força com invulnerabilidade; cada vez que confundira desejo com direito; cada vez que usara o chamado de Deus como se fosse propriedade sua.

Sansão não havia caído de uma só vez.

Havia descido degrau por degrau, chamando cada degrau de escolha.

Agora, cego, girava a pedra.

E a pedra não discutia com ele.

Não o seduzia.

Não o traía.

Não fugia.

Apenas voltava ao mesmo lugar.

Há um momento em que a vida deixa de ser aquilo que ainda podemos fazer e começa a ser também aquilo que já não podemos desfazer.

Sansão deve ter conhecido esse momento quando abriu os olhos e não viu nada.

Não havia mais juventude, força, liberdade. Não havia como voltar até Timna, apagar Gaza, retirar da boca palavras ditas, desfazer escolhas, recolocar os olhos nas órbitas. Havia apenas o som das correntes e o moinho girando. Uma volta. Outra volta. Outra.

Tenho pensado que algumas formas de arrependimento começam exatamente aí: quando finalmente entendemos que Deus pode nos perdoar sem nos devolver a vida que desperdiçamos.

O que fiz com o que recebi?

É possível culpar Dalila por muita coisa. Mas Dalila chegou tarde à história.

Antes dela já havia um homem acostumado a desejar e tomar, avançar e depois lidar com as consequências. Um homem separado desde o ventre, visitado pelo Espírito, extraordinariamente dotado — e incapaz de governar a si mesmo.

Essa é a parte que me assusta.

Porque eu recebi muito.

E não sei outra maneira honesta de dizer isto: desperdicei muito.

Chega um momento em que explicar a infância, as feridas, as pessoas que nos traíram e aquelas que nos abandonaram começa a parecer uma tentativa desesperada de encontrar alguém que divida conosco uma culpa que é nossa.

Davi pôde chorar, mas o menino morreu. Moisés pôde contemplar a terra, mas não entrou nela. Pedro saiu para a noite e chorou amargamente. Há coisas que o perdão de Deus cura diante da eternidade sem apagar da história.

O moinho

Talvez seja por isso que me incomode tanto certo cristianismo incapaz de permanecer diante da ruína.

Tudo precisa terminar bem. Deus vai restituir. Deus vai devolver. Você receberá sete vezes mais.

Talvez.

Mas Sansão não recebeu os olhos de volta.

Há perdas que não são ataques do Diabo. São consequências. Há portas que Deus talvez não reabra. Há anos que nenhuma oração recuperará. E chamar isso de falta de fé seria apenas acrescentar mentira ao pecado.

O moinho continua girando.

E talvez uma das experiências mais solitárias da existência seja perceber que quem está empurrando aquela pedra somos nós mesmos.

“Lembra-te de mim”

Então sobra uma oração.

Não: “Devolve-me tudo”.

Não: “Faz com que seja como antes”.

Sansão já sabia que não existia mais “antes”.

Sobra então uma pequena frase. Breve. Dura. Direta:

“Senhor Deus, lembra-te de mim.” (Juízes 16:28)

Talvez esta seja a oração possível quando já não temos argumentos.

Eu pequei.

Eu desperdicei.

Eu feri.

Eu não fui fiel ao que recebi.

E agora?

Não sei.

Essa talvez seja a resposta mais verdadeira que consigo oferecer.

Não sei o que Deus ainda fará com os restos da minha história. Não sei o que será devolvido e o que permanecerá perdido. Não sei se há novamente um púlpito, uma casa, um abraço, um filho, um amigo, ou somente algumas colunas diante de mim.

Sei apenas que ontem não existe mais.

Amanhã ainda não me foi dado.

E, por alguma misericórdia que não consigo explicar, ainda existe hoje.

Creio, mas não congrego

Quando não congregar parece fazer sentido

Ao longo da vida conheci várias pessoas e vários casais que decidiram não congregar. Tinham fé em Jesus, mas por diversas razões não congregavam. Alguns, inclusive, tinham vida devocional, professavam sua fé em Jesus para os outros, mas não congregavam. Ocasionalmente, visitavam uma ou outra igreja local ou distante, mas não mantinham comunhão com congregação nenhuma.

As razões são as mais variadas. E muitas delas bem compreensíveis.

Havia aqueles que tinham sido machucados profundamente e de forma injusta por um pastor, um diácono, ou um grupo de pessoas da congregação à que pertencia. Isso me faz lembrar do Salmos 55:12-14 que podemos resumir em quem convive comigo não é confiável. Outros textos nesse sentido podem ser Ezequiel 34:1-6 e João 10:11-13

Para outros, a liturgia parou de fazer sentido. Não mais comunicava alguma coisa significativa para sua vivencia.

Também lembro de casos em que sentiam não mais se encaixar em lugar nenhum. Iam aqui e acolá e sempre se sentiam como um peixe fora d’agua.

Lembro de outros que simplesmente se esgotaram por tanto conflito interno e desgaste.

E também conheço caso em que sucumbiram aos argumentos de amigos, famílias, ideias vindas de fora em que ser cristão era motivo de chacota e ridicularização.

E poderíamos citar outros casos como períodos de transição, doença, mudanças e outras circunstâncias que podem afastar alguém da comunidade.

Penso, então, que é perfeitamente compreensível alguém não frequentar uma congregação durante algum tempo pelas mais variadas razões.

O problema começa quando uma circunstância se transforma em convicção: “Eu creio em Cristo, mas não preciso pertencer ao seu povo

Às vezes é preciso sair daquela igreja

Nem todo afastamento da igreja institucional significa afastamento do Cristo. Há pastores que ferem, comunidades adoecidas e ambientes nos quais permanecer pode significar continuar sendo submetido a manipulação ou violência emocional e/ou espiritual.

Me resulta especialmente Ezequiel 34 neste sentido.

Se isto fosse uma pregação, caberiam várias divisões: 1-6; 7-10; 11-16; 17-19; 20-24 e 25-31.

Para os efeitos deste artigo, apenas consideraremos duas partes: 1-10 e 17-31.

Na segunda (Ezequiel 34:17-31) ela fala da responsabilidade da própria ovelha e o profeta diz que o próprio Deus irá “julgar entre uma e outra” e “eu mesmo julgarei entre ovelhas gordas e ovelhas magras”. Ou seja, parte da congregação é responsável pela fraqueza de outra parte.

Todavia, me interessa a primeira parte (Ezequiel 34:1-10). Os pastores estavam se aparentando a si mesmos enquanto as ovelhas se dispersavam. E, pior, essa dispersão a afastava não apenas da congregação, mas do próprio Criador.

Diz Ezequiel 34:6 “As minhas ovelhas andam desgarradas por todos os montes e por todo elevado outeiro”. Para o leitor ocasional isso significa que elas saíram a procurar outras pastagens, ou outros locais. E – se bem isso é verdade – quando vemos na Bíblia menção a lugares elevados, é uma referência indireta aos lugares de culto distintos dos locais de adoração a Deus.

Veja Números 33:51-52 em que Deus ordena destruir implementos religiosos cananeus “entre eles os lugares altos”.

Ou do rei mais sábio que a Bíblia registra e sucumbiu aos desejos terrenos. 2Reis 11:7 nos conta que Salomão construiu “lugares altos” para Quemos e Moloque, deuses estrangeiros.

Pessoalmente conheço pessoas que – por razões perfeitamente compreensíveis – abandonaram a congregação, mas depois se associaram com formas de crenças contrárias à fé cristã alicerçada na Bíblia. É disso que os “lugares altos” está falando.

Mas o que torna o texto veemente na sua linha argumentativa, é que a razão disso tudo é que os pastores cuidam apenas de si mesmos. v4-5: “Comeis a gordura, vesti-vos de lã e degolais o cevado; mas não aparentais as ovelhas. A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não buscastes; mas dominais sobre elas com rigor e dureza**”

Isso é violencia pastoral. Abuso. Violência. Manipulação.

Então, sair de uma congregação, pode ser necessário; concluir que não precisamos mais de uma comunidade é outra coisa.

A ferida explica o isolamento. A nova convicção explica a auto-proteção.

Se você é um pastor que dispersa ovelhas, volte ao seu chamado original (se é que ele é real). Dê uma olhada em Atos 20:28-30

O isolamento pode deixar de ser proteção e se transformar em autonomia.

Estar sozinho traz certas vantagens emocionais imediatas. Uma delas é que ninguém me contraria. Há uma certa tranquilidade em perceber que não há mais ninguém olhando para mim, se metendo na minha vida, perguntando particularidades, corrigindo algumas atitudes e crenças.

Também posso – com todos os recursos modernos – fazer um próprio cardápio de pregadores que gosto já que falam o que gosto. (2Timóteo 4:4) Eu consigo escolher a dieta espiritual a ser seguida e até ter uma definição própria de quais pecados considero importantes.

Monto, então uma “igreja” particular pela internet em que todos os “pastores” dizem exatamente aquilo que gosto de ouvir.

Atingi a paz. Alcancei o Nirvana. Minha alma não tem mais do que se preocupar.

Mas o Novo Testamento apresenta uma fé na qual não apenas conheço os outros (como na internet) senão que também sou conhecido. Nessa fé, servimos e somos servidos; corrigimos e somos corrigidos; suportamos e somos suportados.

Nos tempos que correm, esse tipo de lugar é muito desconfortável. E não precisa abandonar fisicamente a congregação para você não estar – de fato – em comunhão. Bem é possível entrar e sair de todos os cultos durante o ano e não conhecer nem ser conhecido por ninguém. A sociedade – cada vez mais individualista – nos ensina e incentiva a cada vez mais nos isolarmos e chama a isso “vida plena”, “empoderamento”, etc.

Por outro lado, erra quem pensa que isso tudo se deve só à modernidade.

A epístola aos Hebreus, escrita durante a segunda geração de cristãos estando em grande parte ainda vinculados com a religião judaica que era uma religião lícita para o império romano, levanta um ponto especialmente desconfortável: existem pessoas que velam por nós e diante das quais existe alguma forma de submissão (Hebreus 13:7, 17)

Evidentemente que isso não concede autoridade absoluta a nenhum pastor. A liberdade de consciência, crença e prática continua existindo porque somos plenamente responsáveis pelos nossos atos. Mesmo por aqueles que são reação a uma violação explicita da nossa pessoa.

Mas também não permite uma fé completamente autônoma. E esse é o ponto que tanto dói para quem – justificadamente – decidiu não se congregar mais.

Seguir Cristo significa identificar-se com seu povo.

A carta aos Hebreus resulta especialmente interessante neste contexto.

Os primeiros a crer em Jesus como Messias (Cristo) foram judeus. Eles não se viam como um projeto separado do povo judeu e sim como continuidade. Ou seja, participar do povo escolhido crendo num Messias que tinha sido prometido desde a antiguidade encaixava muito bem no Messias agora revelado e comprovadamente ressurrecto por muitas testemunhas.

Por outro lado, a religião judia – como já dizemos anteriormente – era uma religião lícita dentro do Império Romano. E haviam algumas características especiais que valem destacar, era a única monoteista e havia uma forma de convênio entre os romanos e os judeus em que aqueles toleravam a religião deles, contanto se fizessem orações pelo imperador. Isso tudo em uma região (a parte oriental do império) em que já haviam províncias que pediram permissão (29aC) para construir templos ligados ao culto ao governante. Essa prática iria se consolidar em todo o império para o final do primeiro século.

A epístola aos Hebreus, é escrita pelo menos no final do primeiro século. O próprio autor declara que tanto ele quanto os leitores não são testemunhas presenciais do ministério, morte e ressurreição de Jesus. (Hebreus 2:1 “importa que nos apeguemos … às verdades ouvidas”. Hebreus 4:2 “também a nós foram anunciadas as boas-novas”) Isto é, são pelo menos segunda geração de crentes em Jesus como Cristo (Messias)

Estes judeus crentes em Jesus não queriam se separar da comunhão judaica. E isso, no tempo em que viviam, fazia muito sentido. Arrolados à religião judaica e sendo tolerados pelos próprios judeus, se tornavam intocáveis pelo Império Romano.

Já se se identificassem como seguidores de Jesus como ser divino, e portanto fora da religião judaica, podiam ser enquadrados como revoltosos, pagãos e toda sorte de castigos pudendo chegar até a morte. É por isso que o autor diz em Hebreus 12:4,5 “Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue e estais esquecidos da exortação…

Se nós traçarmos uma linha do tempo as primeiras perseguições aos cristãos se remontam ao ano 70dC em que – depois da guerra entre judeus e romanos – as tensões entre judeus e cristãos aumentam e isso frequentemente repercute também nas comunidades cristãs. Depois disso, o movimento cristão passa a ser percebido com mais frequência como separado do judaísmo o que afeta como as autoridades locais tratavam os grupos.

E a coisa piora com Dominicano (81-96). É comum encontrar referências a repressões sob o domínio dele. Há tradição antiga como a de Eusébio associando o período a sofrimento e exílio de cristãos.

É mais ou menos aqui que a epístola aos Hebreus foi escrita. As coisas estavam ficando tensas para os cristãos. E estes judeus que tinham crido, estavam abandonado a congregação (Hebreus 10:24-25) e isso o faziam buscando evitar a morte (Hebreus 12:1,2) o que é uma razão fartamente compreensível.

Todo cristão (judeu ou não) sabia que as coisas estavam ficando pior. Para o tempo de Trajano (98-117) haviam já perseguições judiciais e políticas de procedimento bem estabelecidas. Ainda não há matança em massa como coisa disseminada, mas sim podemos afirmar que para o começo do segundo século já havia repressão real por decisão imperial implementada nas províncias.

Então, os destinatários da carta, sabiam claramente o custo de serem publicamente associados à fé e à comunidade cristã. Alguns cristãos haviam sofrido, perdido bens e sido expostos publicamente. O que hoje chamaríamos de cancelamento mas em versão mais bruta.

Nesse contexto, o “não deixemos de congregar-nos” de Hebreus 10:25 significa muitíssimo mais do que comparecer regularmente ao culto. É identificação comunitária pública.

Alguns poderiam ver aqui uma convocação ao martírio coletivo. Mas nada mais longe da realidade. Como cristãos amamos a vida. Mas a verdade que o evangelho revela é muito maior do que qualquer esquema religioso social. E justamente por isso não pode entrar em relações de compromisso ou de conveniência com qualquer outro tipo de manifestação espiritual.

Um paralelo cuidadoso e contemporâneo pode ser estabelecido.

Hoje é socialmente confortável dizer: “Tenho minha espiritualidade” Avançando um pouco mais, alguém poderia dizer “eu sigo Jesus” ou até “eu sigo Jesus com minhas próprias convicções”

Mais difícil é dizer: “Esses cristãos são o meu povo. Sim, eu pertenço a uma comunidade concreta e imperfeita”. Isso sim requer coragem e plena convicção para além do status quo.

Cristo não chama apenas indivíduos. Ele incorpora pessoas a um corpo. O seu corpo do qual ele é a cabeça. (Veja Hebreus 2:12 e 12:23; Efésios 1:22-23; Colossenses 1:18; 1Coríntios 12:12-27)

Congregação não é frequência; é vida compartilhada

A solução para “creio, mas não congrego” não é “então vá ao culto aos domingos”.

Há uma superficialidade e falta de convívio tremendo em apenas participar do culto. Alguém pode fazer isso sem faltar nunca durante quarenta anos e nem por isso fazer parte da congregação. Continuar praticamente sozinho. A única variante da expressão de “creio, mas não congrego” é que a pessoa crê, mas – de fato – não faz parte da congregação.

A minha avó materna morava na capital e com minha mãe íamos de vez em quando visita-la. Na rua perpendicular a meio quarteirão, havia uma escola de karatê. Eu devia ter uns 9 a 11 anos. Gostava muito de ir e ver eles praticarem essa arte marcial. Os gritos. Os movimentos sincronizados. O kimono. O tatami. O ambiente. O cheiro. Tudo ficou gravado na minha memória. Anos depois, quando eu tinha 17 anos, eu dava aulas de programação numa cidade vizinha à nossa. Tínhamos um intervalo de vinte minutos entre uma turma e a outra. Eu corria para ver uma de duas coisas: treino de karatê ou jogo de bochas.

Demais está dizer que não aprendi karatê nem a jogar bochas.

Ninguém fica fisicamente saudável por entrar na academia uma vez por semana, vestir a roupa adequada para fazer exercícios, levar um litro de água e sentar-se durante uma hora olhando outras pessoas se exercitarem e depois voltar para casa. A saúde exige uma vida na qual determinadas práticas se tornam habituais. E isso é difícil.

A comunidade cristã funciona de forma semelhante só que muito mais profunda.

Mas primeiro me permita apresentar umas ideias sobre a palavra comunhão. Essa palavra de origem latina (communio) deriva de com (isto é “juntamente”) e munis (ou seja, “encargo” ou “obrigação”) e se usa no sentido de “participação comum”, “ter algo em comum”. Uma forma fácil de lembrar o significado seria “comum união” ou “comum encargo”

Aqueles que cremos em Jesus como Deus encarnado e Messias (Cristo) compartilhamos muitas coisas. Óbvio que – pela natureza desta fé – ela exclui qualquer outro tipo de fé semelhante, parecida ou análoga. Os cristãos comungamos da fé exclusiva em Jesus como o único e suficiente salvador. Os cristãos (independente de rótulo institucional ou tradição cristã) fazemos parte de um mesmo corpo e temos um único mediador (1Timóteo 2:5; Efésios 4:4-6; 1 Coríntios 12:12-27)

Não existe forma possível de praticar comunhão sozinho. Vale apenas para evitar as agruras dos olhares de desagrado dos que não creem.

Oramos juntos. Carregamos cargas. Repartimos. Confessamos. Ensinamos. Somos corrigidos. Aprendemos. Perdoamos. Celebramos. Choramos. Servimos. Somos conhecidos.

Coisas estas que a sociedade sempre tem ensinado não serem oportunas para o indivíduo.

A salvação, logo, não é uma coisa apenas individual por mais que por aí comece. Ela é – sobretudo – comunitária.

É significativo que boa parte das instruções do Novo Testamento contenha a expressão “uns aos outros. Não há como pratica-las sozinho.

(Atos 2:42-47; Gálatas 6:2; Tiago 5:16)

Talvez a pergunta esteja errada

Ao perguntarmos se um cristão precisa ir à igreja, pode ser que tenhamos reduzido demais a questão. Como se tivéssemos colocado uma lupa sobre apenas uma parte do assunto.

Pode haver momentos em que não conseguimos congregar. Pode haver igrejas das quais nos é necessário sair. Pode haver feridas que levam tempo para cicatrizar. E nenhuma dessas situações deve ser tratada superficialmente ou com indiferença.

Todavia, existe uma outra pergunta: “É possível seguir por muito tempo aquele que nos fez parte de um corpo recusando-nos deliberadamente a viver como parte desse corpo?

A vida cristã relatada no Novo Testamento não parece conhecer uma fé permanentemente solitária.

Não porque Deus esteja fazendo controle de presença aos domingos, mas porque há dimensões inteiras da vida cristã que simplesmente não existem quando estamos sozinhos.

Não consigo carregar a carga “uns dos outros” sozinho.

Não consigo perdoar “uns aos outros” sozinho.

Não consigo confessar “uns aos outros” sozinho.

Nem consigo descobrir facilmente onde estou errado se todas as vozes que escuto foram escolhidas por mim.

Talvez congregar não seja simplesmente uma obrigação da vida cristã.

Talvez seja uma das maneiras pelas quais Cristo mantém viva e saudável a fé que dizemos ter nele.

Medo de crer

Crer é permitir que a palavra de Cristo tenha mais autoridade sobre nós do que aquilo que aprendemos a considerar verdadeiro, seguro e possível.

Túlio era um empregado bancário exemplar. Os últimos 20 anos os passou de agência em agência até que estabilizou naquela cidade. Formou família, teve filhos, ele e sua esposa criavam seus filhos de perto e com zelo. Criado numa família cristã de tradição evangélica frequentava a igreja local com a sua família. Domingos, Terças e sábados estavam presentes. Contribuía financeiramente, era diácono ativo. Internamente era um homem equilibrado. Sem dívidas. De boa reputação. Só tinha um medo danado de crer. Mas nem ele estava ciente disso.

O problema não é simplesmente acreditar.

Podemos acreditar em Jesus sem permitir que ele mexa profundamente naquilo em que já acreditávamos antes dele. Chegamos à fé carregando uma interpretação do mundo formada pela família, cultura, religião, experiência política. O problema começa quando Jesus contradiz algumas dessas certezas. Nesse momento descobrimos se cremos nele ou apenas conseguimos acomodá-lo dentro do que já acreditamos.

Pedro sobre as águas – quando a experiência diz que não pode ser.

O texto de Mateus 14:22-33 é bem conhecido. Em resumo: os discípulos estão num pequeno barco no meio do mar sob vento forte. Jesus se aproxima. Os discípulos o veem andando sobre as águas. Pedro pede para provar que é ele andando sobre as águas. Jesus o convida. Pedro vai. Caminha. Se assusta. Começa a afundar. Jesus lhe estende a mão e lhe disse “Homem de pequena fé, por que duvidaste?”

Pedro não é qualquer pessoa. Ele é um homem de meia idade que tinha por oficio pescador. Conhecia o mar. Ele tinha na sua experiência sobradas razões para permanecer no barco. Sabia claramente que não era possível para um homem andar sobre as águas.

Talvez exatamente por isso, ele pede para poder caminhar até Jesus como prova de que ele era quem aparentava – à distância – ser.

E talvez pelo mesmo motivo, Jesus não faz nenhum milagre, apenas fala “Vem”.

Uma única palavra.

Por alguns instantes, Pedro permite que essa palavra especifica de Jesus tenha mais peso que sua experiência. Depois olha novamente para aquilo que ele conhecia de longa data: vento, água, perigo. Teve medo. Começou a afundar.

Claro, como todo texto ele se mostra capaz de segurar uma reflexão alegórica. Poderíamos dizer que a água e o vento são os problemas e que o caminho sobre o mar é o caminho que estamos trilhando, isto é, nossa vida. E se bem isso soa muito bonito – e nós vamos acabar tirando uma lição moral ou espiritual disto, o relato é histórico e como tal deve ser tratado.

O fato é que o vento não começou quando Pedro teve medo. O vento, a água, as ondas, o barco, Jesus ao longe, os outros discípulos no barco. Tudo estava lá antes. Isso estava assim quando ele pulou a borda do barquinho e começou a andar sobre as águas até Jesus.

Então o que mudou? O conhecimento prévio entrou na mente dele e ele teve medo.

O medo tem essa particularidade de querer nos proteger de alguma coisa. Dizem que é melhor um covarde vivo do que um herói morto. (A Bíblia diz que “é melhor um cão vivo do que um leão morto” – Eclesiastes 9:4)

O conhecimento anterior à caminhada estava errado? Não. De fato foram esses dados os que o tinham ajudado muito na tarefa no mar, o qual demanda um grande respeito. Então a crença dele nessas experiências anteriores (pessoais ou não) não estava errada.

Dessa forma, há momentos em que crer significa admitir que nossa experiência é verdadeira, mas não tem a palavra final.

Nicodemos – Quando a religião não tem categoria para o que Deus está fazendo

Um outro texto bem conhecido e interessante para nosso ponto de hoje é João 3:1-15

“Bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus”. Essa foi a frase introdutória de Nicodemos naquela noite.

Nicodemos não é um incrédulo ignorante. É justamente seu conhecimento religioso que torna a conversa interessante. Eram dois mestres judeus sentados numa noite fresca conversando sobre suas crenças. Um diálogo de igual a igual em certo sentido. E seus conhecimentos não estavam errados. Jesus não os descarta. Só que ele vê uma sombra nisso tudo. Alguma coisa querendo aparecer atrás das palavras dele que não chegaram a cristalizar na primeira colocação de Nicodemos.

Jesus (na sua versão “Corte rápido Tramontina”) não perde a oportunidade e lhe propõe um dilema existencial que não pode ser respondido pela religião de Nicodemos: “aquele que não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”

Jesus fala de nascer de novo e Nicodemos tenta encaixar aquilo nas categorias que já possui: “Como pode um homem nascer, sendo velho?”

A pergunta de Nicodemos muito mais do que óbvia. O era naquela época e agora também. E a resposta – dentro do plano físico – continua sendo óbvia.

Todavia, da fonte de males que nos acometem, o corpo é o mais virtuoso. Já as aflições existenciais radicadas na alma precisam de um outro tipo de resposta.

Então, pare um pouco e analise: O dilema de Nicodemos naquela noite, não se assemelha ao nosso? Ele estava tentando compreender a novidade de Deus usando somente categorias religiosas que trouxe consigo. A bagagem.

Logo, às vezes nossa dificuldade para crer não vem da falta de religião, mas da dificuldade de admitir que Deus seja maior que nossa compreensão religiosa dele.

Pedro e os animais impuros – Quando Deus contradiz aquilo que aprendemos ser fidelidade

Este outro texto também é bem conhecido. Talvez não tanto quanto os outros, mas acho que se encaixa naqueles textos que merecem um segundo olhar (e qual não?) Atos 10:9-20

Diferente do Pedro de Mateus 14, aqui nos encontramos um Pedro diferente. Particularmente forte na fé. Já é apóstolo, já confessou a Cristo. Já recebeu o Espírito Santo. Já pregou corajosamente a Jesus. Já foi encarcerado. Já disse aquela frase célebre “é necessário obedecer a Deus antes que aos homens”.

Contudo, havia um pequeno pedaço de seu íntimo que ainda precisava ser iluminado. Ele precisa ter algumas crenças desmontadas.

Uma ideia que muito me perturbou durante anos é a transformação plena e instantânea de uma pessoa quando se converte. Todo meu conhecimento bíblico me levava a concluir que a transformação na hora da conversão é profunda, radical e duradoura. Isso, inevitavelmente, me colocava outras dúvidas no coração: quando me converti? será que de fato eu sou convertido? Minhas crenças precisavam ser desmontadas.

Então, quando Pedro ouve “levanta-te, mata e come” a resposta mais direta, correta, simples e natural que surge da sua cabeça está aliada ao conhecimento bíblico e à pratica de uma vida: “Nunca comi coisa alguma comum e imunda”.

Assim como aconteceu com a traição e na sua restauração, Pedro precisou de três visões redundantes (que nem as três negações ou as três perguntas sobre o amor) e uma voz clara e forte que colocava fim a uma época na vida dele (que nem o galo e que nem Jesus na praia), disse – nas últimas duas vezes – afirmava: “Não faças tu comum ao que Deus purificou”

Pedro, assim como Paulo perseguindo a igreja. Era firme nas suas convicções. Era fiel. Isso é fé hebraica na prática: fidelidade que torna quem crê parte do corpo. (“o justo pela sua fé [fidelidade] viverá” Habacuque 2:4)

Nota aos que já conhecem o texto: O grego “pistis” não consegue transportar todo o conceito do hebraico “emunāh” mesmo chegando muito perto. A palavra hebraica transmite fé, fidelidade ou firmeza/constância. Já “pistis” carrega mais fé no sentido de confiança e pode sim carregar algo de fidelidade ou aderência. Todavia, não esgota o termo hebraico, mesmo sendo o melhor termo no grego para expressar o hebraico sem recorrer a neologismos. O termo grego traz a ideia de um ato ou atitude de crer ao passo que o hebraico arrasta o conceito de firmeza, constância confiável. Logo, Romanos 1:17 – para Lutero e todo o mundo protestante e depois reformado e por extensão fundamentalistas e evangélicos – é lido como “O justo pela fé , viverá” (repare na vírgula. Com isso quero representar que em Paulo podemos entender que a pessoa chega à justiça a partir (“ἐκ”) da fé) ao ponto que Habacuque poderia ser lido “O justo, pela fé (fidelidade, constância) viverá” o que traz consequências profundas nos conceitos de justificação, redenção, salvação, etc. Aí surge o problema das traduções ao português. O que fazer? Ela é fiel ao texto literal original ou segue a linha interpretativa por entender que Paulo (de fé hebraica convertido a Jesus) escrevendo em grego segue a septuaginta? Eu sou da ideia que deve permanecer fiel ao texto original e cabe a nós – por meio da exegese e a hermenêutica – mostrar evidências claras dessa distinção em lugar de adotar a interpretação dos reformadores como sendo verdade absoluta. Mas isso tudo merece um outro artigo. Apenas baste dizer que salvação, justificação e redenção dependem de fé e se estendem à fé. Fora dela (e exclusivamente ela), nada feito.

Voltemos ao assunto de Pedro e sua visão.

Como estávamos dizendo: Pedro (assim como Paulo) estava sendo fiel ao seu conhecimento bíblico. A Lei lhe impedia comer coisas impuras, e ele era fiel nisso.

Mas as coisas tinham mudado. E os discípulos (e muitos de nós) não entendiam cabalmente do que se tratava isso tudo ao final.

Então, algumas das crenças que Deus precisa corrigir em nós são justamente aquelas que aprendemos a defender em nome dele.

Pedro repreendendo Jesus – Quando Cristo ameaça o Messias que queremos.

Leia o texto de Mateus 16:13-23. Eu sei que é conhecido. Mas com tudo o que você leu até aqui, há algumas coisas que devem saltar aos seus olhos agora mesmo que não seja o que eu vou dizer a continuação.

Este texto é muito íntimo, pessoal. Está o grupo pequeno de discípulos e Jesus. Acabam de chegar a Cesareia de Filipe. E o mestre judeu, seguindo a tradição dialética dos rabinos, inicia com uma pergunta: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” Ou seja o que as pessoas pensam ao respeito da minha pessoa? Quem sou eu na ideia deles?.

É óbvio que Jesus sabia o que as pessoas pensavam. Ele já mostrara isso em repetidas ocasiões por meio de diálogos, discursos e confrontação direta. Os seus discípulos sabiam que ele sabia. Logo, a pergunta apontava em outra direção. Uma mais íntima talvez.

E as respostas vieram, espontânea e estrepitosamente. “João o Batista”, “Elias”, “Jeremias”, “ou qualquer um dos profetas”.

Chegaram ao final das opções que conheciam e eu imagino que se fez um silêncio. Aquele que antecede a pergunta de verdade. Posso imaginar Jesus olhando a todos eles como quem está pronto a apresentar seu ponto mais sensível. Logo ele falou.

E vós, quem dizeis que eu sou?

Imagino mais silêncio. No olhar de Jesus a sinceridade de quem com a pergunta procura ensinar algo mais. E Pedro quebra o silêncio: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo

E eu, adivinha, imagino mais silêncio. Na cabeça dos outros judeus discípulos com certeza haviam pensamentos do tipo: “Enlouqueceu”. “É. O calor do deserto fritou os miolos dele. Chegou aqui com vegetação abundante e desandou de vez”. “Meu… ele está blasfemando”. “Como assim um indivíduo ser filho de YHWH?”

Jesus se volta para ele e lhe diz: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus.

Para os que gostam de estudar mais: a teologia natural – aquela que pretende se sustentar apenas da revelação não bíblica e que é obtida por meio dos sentidos – consegue chegar até a conclusão de que, tendo em vista o que a natureza revela, deve existir um deus criador. Paulo parece apontar nessa direção em Romanos 1:19-23ss. Já para entendê-lo como criador único e pessoal, é necessária a revelação especial: a Bíblia. Então, esse conhecimento geral, universal, ao alcance de qualquer indivíduo, serve – pela conduta que esse indivíduo tem depois – apenas para condená-lo. Já para abraçar a fé salvifica é necessária a revelação especial. (Cabe lembrar Romanos 2:12-15 e depois o vv16)

Voltando à declaração de Pedro, ela é tão grandiosa que é a divisora de águas do evangelho segundo São Mateus. Veja o início do 16:21: “Desde então começou Jesus…

Algo havia mudado. Algo tinha transformado profundamente o ministério de Jesus. De terem estado pelo menos dois anos em um platô bem conhecido, agora o mestre estava resoluto em ir para Jerusalém e ele sabia claramente o que o esperava em Jerusalém.

A mudança foi muito abrupta. Em especial para Pedro. Pedro amava Jesus – assim como os outros com exceção de Judas Iscariotes que estava no grupo nessa ocasião também. Nesse amor instou Jesus a praticar o que hoje a psicologia chama de auto-cuidado. “Senhor, tem compaixão de ti”.

Não havia dúvidas que Pedro estava plenamente ciente de que o panorama que Jesus pintara, não era nada confortável e acabava em morte. A parte da ressurreição ninguém entendia direito do que se tratava por mais que os fariseus e outros tinham introduzido essa noção havia já duzentos anos.

A resposta de Jesus deve ter ressoado no local afastado em que Pedro e Jesus estavam: “Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens.

Estupefacto deve ter ficado Pedro.

Há pouquinho Jesus tinha dito que ele era muitíssimo feliz porque o que falara tinha sido revelado pelo Pai que está nos céus. Agora, o que ele falara só manifestava conhecimento terreno das coisas. E Jesus o chamou de Adversário, Tentador, Acusador, Maligno

O que tinha acontecido?

Pedro aceitava que Jesus era o Messias (Cristo), mas rejeitava o que o próprio Messias tinha como missão e método.

Na ideia comum da época ao respeito do Messias se juntava tudo. O ungido por Deus para libertar o povo da opressão Romana e junto com isso as expectativas politico-militares ao redor dessa ideia de libertação.

É possível confessar corretamente o nome de Jesus e ainda tentar subordiná-lo ao mundo que gostaríamos que ele construísse.

Portanto, o medo de crer aparece quando queremos que Jesus confirme nossa visão de mundo, mas ele começa a julgá-la.

Conclusão

Quero voltar ao Pedro sobre as águas.

Vamos considerar a ideia de “sair do barco”

Não estamos falando de abandonar nossa família, tradição experiência, religião ou preferência política. Isso seria simplista demais. Essas coisas fazem parte da formação de quem somos e podem carregar muita verdade.

A questão é mais profunda, muito mais: nenhuma delas pode ocupar o lugar de Cristo

Pedro não descobriu que o vento era imaginário. Ele não estava na matrix e Neo veio a salvá-lo. O vento era real. O mar continuava perigoso. O barco era, humanamente, o local mais seguro para estar. E ele estava exatamente no lugar e na ação que queria: andar sobre as águas que nem Jesus.

O chamado era real.

Quem chamava era real.

Mas o medo, ou falta de fé como Jesus indica no versículo a seguir, se fez presente.

Todas suas crenças anteriores lhe passavam como um lastre. E o faziam afundar.

Seguir Jesus pode exigir que coloquemos os pés onde tudo aquilo que sempre soubemos dizia que não havia chão.

O tempo passa e vamos ficando velhos

Começo meu dia tomando essas pílulas. Ao final do dia, tenho mais quatro.

Tem uma música eternizada na voz da cantora argentina Mercedes Sosa que diz assim: “O tempo passa e vamos ficando velhos, e o amor não o reflito como ontem” (em tradução livre, que não consegue transmitir a ideia de “nos vamos poniendo viejos”).

O envelhecimento é uma experiência universal. Dizem que de nada temos segurança neste mundo a não ser da morte. Porém (como Spurgeon bem colocava) não há nada mais incerto do que a hora da morte. Então, se você está vivo (e não haveria outra forma de você estar lendo este artigo), o mais seguro é que você está envelhecendo e esse processo, se não interrompido por doença ou acidente, vai se prolongar alguns anos mais.

A velhice não chega de uma vez. Ela vai se instalando silenciosamente. De repente, vemos que não mais lembramos dos nomes. Que o corpo exige cuidado. Que os pais envelhecem e/ou morrem. Que alguns projetos deixam de ser sonhos e passam a ser lembranças.

O verdadeiro choque não é perder a juventude; é descobrir que o tempo já não parece infinito.

A juventude vive da ilusão da reversibilidade

Enquanto somos jovens, acreditamos que quase tudo pode ser perfeito. Como temos força, energia, vitalidade, o horizonte da vida parece largo e distante. E, pior ainda, reversível.

Pensamos que sempre haverá tempo para pedir perdão, reconstruir relacionamentos, mudar de profissão ou corrigir decisões. A maturidade revela que existem acontecimentos irreversíveis. O evangelho não promete devolver o passado; promete redimir pessoas que têm um passado. Redimir, simplificando, é comprar um escravo por um preço. Libertá-lo e levá-lo para um novo plano que, no caso de Jesus e a fé nele, significa o Reino. Aqui e agora. Outras palavras similares, mas que, embora não cheguem perto, servem para explicar o que estou querendo: Alforria, Emancipação. (Na emancipação/alforria que conhecemos, não foram criadas as condições sociais necessárias para que o emancipado conseguisse ter uma vida digna. Isso a redenção trata mais profundamente, e isso importa.)

A Bíblia não romantiza a velhice

Na realidade, a Bíblia não romantiza nada. Ela conta duas histórias de formas tocantes: a periférica, que é o relato de ações, decisões, observações, consequências das decisões — boas e ruins — e micro atos de redenção atingindo pessoas, famílias, povos. E também tem o relato principal, que é a redenção feita por Jesus na cruz, apontando para uma redenção até da criação. O importante aqui: Deus não abandona seus projetos.

Textos como Eclesiastes 12 descrevem com realismo a decadência do corpo. Salmo 90 ensina a contar os dias. João 21 mostra Jesus anunciando a Pedro a perda gradual da autonomia.

A Escritura honra os cabelos brancos, mas nunca trata a velhice como um prêmio automático nem como sinônimo de sabedoria. Baste ver o mundaréu de pessoas idosas carrancudas, raivosas, violentas, bravas com Deus e com o mundo, vivendo num inconformismo e ressentimento que cabem bem na adolescência, mas não no final da vida.

As mudanças na vida, pode sim ser de ordem violenta ou instantânea – um AVC, uma paralisia, uma traição, o trabalho que se perde e muda tudo, enfim a lista é longa – mas as mudanças sobre as quais temos algum tipo de poder são demoradas e dolorosas. Por isso que, geralmente, negamos a necessidade de ajuda ou a importância de ver que, fazendo do mesmo jeito que sempre fizemos, não conseguiremos obter resultados diferentes.

Essas mudanças requerem não apenas um alvo sonhado. Precisam se transformar em um plano bem estabelecido. Não uma coisa do tipo “Daqui pra frente tudo será diferente”. Esse refrão que se repete ano após ano em certa TV pública já mostra, logo em fevereiro ou março, que não é verdade.

Consequências permanecem. Condenação, não.

A Bíblia está cheia de pessoas que pecaram, obtiveram o perdão de Deus e tiveram que continuar a viver com as consequências do seu pecado. Talvez o exemplo mais claro seja o de Davi.

Há uma idade em que descobrimos que não somos mais definidos pelos nossos maiores acertos nem pelos nossos maiores fracassos. Somos definidos pela graça com que Deus continua escrevendo a história apesar deles.

A história de Davi mostra que Deus perdoa sem apagar todas as consequências. Há perdas que permanecem até o fim da vida. Davi não perdeu apenas o filho que teve com Bate-Seba — a gravidez dela foi justamente o que levou Davi a mandar Urias para a linha de frente — mas também enfrentou uma fratura de integridade e desdobramentos prolongados na casa real.

No episódio de Bate-Seba, após Davi pecar, a Bíblia diz que o SENHOR enviou Natã a Davi (2 Samuel 12). Natã confronta Davi com uma parábola e, depois, anuncia diretamente as consequências: que a espada não se afastaria da casa de Davi e que o filho morreria, e que isso aconteceria “porquanto” Davi agiu daquele modo (2 Samuel 12:1-14).

Mesmo com isso, Davi não perdeu o reinado, e não foi “desqualificado” como rei diante de Deus: ele continuou sendo um dos líderes do povo judeu e, apesar das consequências, permaneceu no propósito divino.

Acho que poucos conseguimos entender a atitude de Davi ao se levantar do jejum assim que o menino morreu e ir celebrar um banquete. Para o observador ocasional, isso soa a psicopatia, ou pelo menos a desinteresse. Geralmente o que se espera é que se faça luto após a morte. Ele não. Menos mal que temos a explicação bíblica. Por isso sugiro a leitura inteira do episódio.

O cristão idoso pode carregar cicatrizes profundas sem continuar vivendo como condenado. E isso é realmente libertador. Romanos 8 e 1 Coríntios 4 mostram que a palavra final sobre nossa vida pertence a Cristo, não à culpa nem aos aplausos.

O envelhecimento desmonta a ilusão de autossuficiência

A maior perda talvez não seja a força física, mas a autonomia. O corpo deixa de obedecer, a memória falha, outras pessoas passam a cuidar de nós, a privacidade e a independência deixam de ser um bem extremamente prezado e zelado para virar moeda de barganha com a manutenção da vida.

Descobrimos que nunca fomos realmente independentes; apenas conseguíamos esconder nossa dependência. Agora já não. A velhice se torna uma espécie de humildade compulsória.

Por exemplo, o modo como Jesus descreve o futuro de Pedro mostra que dependência nem sempre é escolhida: em vez de Pedro seguir o caminho que queria, haveria um tempo em que ele seria levado “para onde não queres”. O corpo — e, por extensão, a vontade — deixa de ser o centro do governo, e a vida passa a ser conduzida por um chamado que o ultrapassa. Assim, a fragilidade não aparece apenas como falha; ela vira lugar de comunhão com a graça e com a missão, porque o “eu” já não sustenta sozinho o peso do caminho.

A igreja local deveria ser o lugar onde a fragilidade encontra comunhão

À medida que a dependência cresce, torna-se ainda mais necessária uma comunidade capaz de acolher confissão, arrependimento, luto e limitações.


Não se engane, até o mais perdido dos pecadores precisa de confissão. Há um livro publicado recentemente sobre os franco-atiradores ocidentais em Sarajevo nos anos 1990. Tratarei disso num outro artigo.


Voltemos ao assunto do luto, confissões, limitações.

Em vez de acolher confissão, arrependimento, luto e limitações, muitas igrejas esperam que os mais velhos demonstrem estabilidade permanente. A comunhão dos santos deveria ser um bálsamo justamente quando já não há como voltar atrás.

E é nesse sentido que Maria, colocada sob os cuidados de João (João 19:26-27), é uma boa ilustração: ela é recebida, sustentada e amparada por alguém designado para não deixar a fragilidade isolada. Se até naquele momento, quando a vida de Jesus estava sendo levada, Maria não foi “largada”, mas entregue ao cuidado, então a igreja também deve aprender a fazer o mesmo com os seus idosos — não como favor, mas como expressão de amor que não depende da força de quem recebe.

Cristo dá sentido ao tempo que resta

A esperança cristã não consiste em recuperar a juventude nem em escapar da realidade. Consiste em descobrir que o tempo, mesmo quando nos tira as forças, oportunidades e autonomia, continua pertencendo a Deus. Cristo não elimina a finitude; ele impede que ela tenha a palavra final.

Agora, sem romantizar nem tornar doce a pílula do envelhecimento, vamos ancorar a reflexão em 2 Coríntios 4:16: “Ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia.” O corpo pode “deixar de obedecer”, mas a vida interior não fica sem governo: ela vai sendo rearrumada, dia após dia.

E o mesmo tom pastoral aparece em Isaías 46:4: “Até a vossa velhice eu sou o mesmo… eu vos sustentarei.” Deus não se afasta quando a capacidade diminui; Ele sustenta quando a dependência aumenta.

Por fim, o Salmo 71:9-18 coloca palavras num luto que é real: ele descreve envelhecimento e declínio, mas não cala o testemunho de amparo. A velhice pode doer — ainda assim, a mão que sustenta não muda.

O envelhecimento, porém, não é só finitude “gradual”; há dias em que chega uma espécie de noite interior. No Alzheimer, a memória se rompe, as palavras se perdem, e às vezes o cérebro já não parece alcançar os estímulos como antes. Nesses momentos, a promessa de Deus não é que a mente volte a funcionar, mas que Ele guarda em paz quem persevera.

Talvez chegue um dia em que nossa mente já não consiga permanecer firme nele. Não é mais uma capacidade cognitiva que a pessoa controla, é algo sustentado por amor: por oração, por presença, por leitura, por música, por cuidado paciente.

Quando chega o tempo em que “nem mais o cérebro parece responder”, ainda assim a comunhão pode acontecer por caminhos que atravessam o pensamento consciente: uma canção conhecida, o tom da voz, uma frase do evangelho dita com constância, uma oração sussurrada. Vi isso em pessoas que já não falavam por causa do Alzheimer, mas se comoviam — indo às lágrimas — quando o nome de Jesus era anunciado. Não era performance: era vida sustentada por graça, mesmo no limite.

Conclusão

Envelhecer é descobrir que existem decisões irreversíveis, perdas definitivas e limites que não podem ser negociados. É também perceber que nossa dignidade nunca esteve na força, na memória ou na capacidade de controlar a própria vida.

Há uma hora da vida em que já não podemos voltar atrás. Mas ainda podemos caminhar para a frente. Não porque o passado deixou de existir, nem porque as perdas deixaram de doer.

Caminhamos porque Cristo entrou na nossa história, inclusive naquela parte que nunca conseguiremos reescrever. O tempo continua passando. Continuaremos envelhecendo. Mas já não caminhamos rumo ao vazio. Caminhamos ao encontro daquele que prometeu: “Até a vossa velhice eu serei o mesmo… eu vos sustentarei.” (Isaías 46:4)

Jesus e a Inteligência Artificial

Há poucos dias aconteceu uma cena curiosa em nosso trabalho.

Grande parte de nosso fluxo de desenvolvimento já passa pela inteligência artificial. Ela sugere código, revisa trechos, aponta erros, organiza ideias. Então, de repente, acabaram os créditos da plataforma que estávamos usando. A renovação só aconteceria no dia seguinte.

Ficamos olhando um para o outro.

Não porque tivéssemos desaprendido a programar (embora já hajam evidencias de certo raquitismo mental). Mas porque, sem perceber, havíamos deixado de enxergar boa parte do caminho que o código percorria até chegar às nossas mãos. A ferramenta havia se tornado tão presente que já fazia parte da própria maneira como pensávamos.

Suspeito que isso acontecerá com toda a sociedade.


Pode ser que você não esteja ciente, mas a inteligência artificial foi alimentada com tudo o que a humanidade tem produzido de forma escrita ou gráfica ou qualquer outro meio que possa ser digitalizado. Hoje, quando ela responde a uma pergunta, o faz baseado nesse conhecimento. Além disso, ela usa fontes abertas na internet para continuar “aprendendo” e assim poder responder de forma atualizada.

Em 2026 atravessamos um umbral importante: mais do 50% do conteúdo de internet foi produzido pela inteligência artificial. Inevitavelmente isso nos leva a que a própria inteligência artificial vai estar produzindo conteúdo a partir de outro conteúdo que ela mesma produziu ou ajudou a produzir. Com isso a criatividade humana vai sendo deixada de lado pela facilidade do uso de conhecimento acumulado… sem mais produzir conteúdo relevante novo.

Voltemos ao texto


Ninguém hoje para para refletir sobre a eletricidade antes de acender uma lâmpada. Não pensamos na engenharia dos reservatórios, a altitude que devem estar para usar a força da gravidade, e outras coisas parecidas quando abrimos a torneira. Nem compreendemos toda a cadeia que permite um avião cruzar o oceano.

Simplesmente usamos.

Com a inteligência artificial acontecerá o mesmo.

Mas existe uma diferença importante.

A eletricidade não interpreta por nós. Assim como a água encanada não pensa por nós.

A inteligência artificial, de certo modo (e sem ser inteligência, apenas lógica muito rápida), interpreta. Resume. Organiza. Prioriza, Sugere. Ela toca justamente aquilo que consideramos mais humano: nossa capacidade de compreender, que por sua vez conecta com nossa capacidade criativa.

Talvez por isso ela nos obrigue a voltar a uma pergunta muito antiga.

Quando um intérprete da Lei perguntou a Jesus como herdaria a vida eterna, Jesus respondeu com duas perguntas:

“Então, Jesus lhe perguntou: Que está escrito na Lei? Como interpretas?” (Lucas 10.26, ARA)

Sempre me impressionou que Jesus não perguntasse apenas o que estava escrito. Ele perguntou como aquele homem lia.

O problema nunca foi apenas o texto. O problema é também o leitor.

Isso vale para a Bíblia. Vale para a história. Vale para a política. Vale para a própria inteligência artificial.

Não estamos apenas formando respostas. Estamos formando leitores.

Talvez seja justamente aqui que a igreja precise recuperar algo que foi perdendo ao longo do tempo.

Um amigo me perguntou recentemente se não tenho receio de que um projeto de inteligência artificial voltado para pregadores faça os cristãos pensarem menos.

Minha resposta foi desconfortável até para mim.

Talvez tenhamos desistido do pensamento crítico muito antes da inteligência artificial. Há muito tempo aprendemos a ler a Bíblia através dos comentários. Escolhemos autores que confirmem nossa tradição, nossa escola teológica, nossas preferências. Muitas vezes conhecemos melhor os intérpretes do que o próprio texto.

Calvinistas e arminianos (por não falar dos molinistas e outras correntes), por exemplo, frequentemente acusam um ao outro de forçar as Escrituras. Talvez ambos devessem começar pela mesma pergunta de Jesus:

“Como interpretas?”

Isso não significa desprezar a tradição.

Muito pelo contrário.

Pedro escreve que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação privada (2Pedro 1.20-21, ARA). Paulo afirma que o espírito dos profetas está sujeito aos próprios profetas (1Coríntios 14.32-33, ARA). A interpretação bíblica nunca foi uma experiência isolada, quase mística, entre um individuo e seu texto (de fato as seitas surgem assim). Sempre aconteceu na vida do povo de Deus, onde irmãos corrigem irmãos, gerações dialogam entre si e a própria Escritura julga nossas conclusões.

A revelação foi entregue à igreja, não ao indivíduo. Baste apenas considerar como a igreja resolveu a grande disparidade sobre a inclusão dos gentios no povo de Deus. Os apóstolos e presbíteros reuniram-se, ouviram diferentes testemunhos, examinaram as Escrituras e chegaram juntos a uma conclusão (Atos 15.1-29, ARA). Não foi uma solução de compromisso político, mas de comprometimento comum diante da ação de Deus e da sua Palavra. Sem aquele concílio, provavelmente nem você nem eu teríamos sido alcançados pelo evangelho da mesma forma.

Isso faz toda a diferença.

Recentemente ouvi Luis Felipe Pondé defender a volta da prova oral como elemento mitigador do uso das inteligências artificiais por parte dos alunos. Achei a ideia interessante. Uma prova escrita pode revelar que alguém organizou bem informações. Mas uma conversa revela algo mais profundo. Descobre rapidamente se aquele conhecimento virou carne ou continua sendo apenas repetição.

Talvez seja exatamente por isso que Jesus fazia tantas perguntas.

Ele não estava colecionando respostas.

Ele estava formando pessoas.

E pessoas não amadurecem apenas acumulando informação. Amadurecem quando precisam responder diante de alguém.

É curioso perceber que a própria inteligência artificial nos empurra de volta para essa necessidade. Ela pode resumir bibliotecas inteiras, comparar traduções, encontrar paralelos, organizar argumentos. Tudo isso tem enorme valor. Eu mesmo a utilizo diariamente.

Mas ela não pertence ao Corpo de Cristo (1Coríntios 12:12-27 ARA)

Ela não participa da comunhão dos santos.

Ela não visita um enfermo. Não acompanha um enlutado. Não reparte o pão. Não celebra a Ceia. Não caminha ao lado de alguém cuja fé está desmoronando.

Essas coisas continuam acontecendo entre pessoas.

Talvez seja esse o verdadeiro desafio do nosso tempo.

Não decidir se usaremos inteligência artificial. Lembre o que já aconteceu com a máquina a vapor, a máquina de escrever, o computador, o processador de texto, etc.

Nós a usaremos. De forma consciente ou não.

A pergunta é outra.

Continuaremos permitindo que a Palavra de Deus ocupe o centro (2Tim. 3:16-17; Hebreus 4.12, ARA), ou ela se tornará apenas mais uma voz entre comentários, algoritmos, vídeos, resumos e opiniões?

No fim, a tecnologia foi apenas o ponto de partida.

A pergunta continua sendo a mesma de dois mil anos atrás.]

Como interpretas?

Milagres do cotidiano

Toda passagem conhecida corre um risco

Via de regra, quando lemos uma passagem bíblica pela primeira vez, ou ouvimos uma primeira pregação sobre ela, formamos uma ideia a seu respeito. E, como costuma acontecer, a primeira impressão acaba ficando. Todos nós desenvolvemos um jeito de interpretar determinados textos das Escrituras. Talvez, mais tarde, voltemos a eles para tirar outras lições. Mas, depois que chegamos a uma conclusão, é muito difícil enxergar a mesma passagem de outra forma.

O que, normalmente, muda esse olhar? Às vezes, uma experiência de vida. Às vezes, o tempo. Outras vezes, novos aprendizados. Mas, sobretudo, a disposição de continuar buscando, sem se satisfazer com a primeira leitura. A primeira leitura é apenas a antessala de um banquete muito maior.

Talvez seja justamente isso que nos falte. Somos criaturas de hábito. E o hábito, quando chega à Bíblia, pode nos impedir de enxergar novas tonalidades do mesmo texto.

Uma dessas passagens é o início de João 6.

É um texto tão conhecido quanto a parábola do filho pródigo ou a crucificação de Jesus. E, quase sempre, terminamos na mesma conclusão: “Entregue a Jesus o pouco que você tem.”

Essa conclusão não está errada. Pelo contrário, faz justiça ao texto.

O problema é que, quando chegamos rápido demais à conclusão, deixamos de apreciar a paisagem.

Por que acreditar nessa história?

O relato da alimentação da multidão aparece nos quatro Evangelhos. Isso, por si só, já chama a atenção. Afinal, João é bastante diferente dos outros três evangelistas. Mateus, Marcos e Lucas são chamados de sinóticos porque seguem uma estrutura muito semelhante. João escreve de outra maneira.

E ele explica por quê.

No final do seu Evangelho, afirma que Jesus realizou muitos outros sinais que não foram registrados, “mas estes foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”.

Nada ali é ocasional.

João escolhe cuidadosamente os acontecimentos que narra. E não é por acaso que coloca a multiplicação dos pães antes do grande discurso sobre Jesus como o Pão da Vida.

Além disso, os Evangelhos foram escritos quando ainda havia muitas testemunhas vivas daqueles acontecimentos. Trinta anos haviam se passado desde a morte e ressurreição de Cristo. Era tempo suficiente para que os apóstolos percebessem a necessidade de registrar por escrito aquilo que a Igreja anunciava desde o princípio, mas ainda havia gente capaz de confirmar ou negar aqueles fatos.

Ou essa história aconteceu, ou ela seria uma mentira monumental.

Não existe muito espaço entre uma coisa e outra.

E uma comunidade que estava disposta a morrer por aquilo que anunciava dificilmente construiria sua mensagem sobre uma fábula tão facilmente desmentida.

Partindo, então, do pressuposto de que estamos diante de um fato verdadeiro, vale a pena observar alguns detalhes.

Quem preparou aquele almoço?

Jesus ensinava uma multidão enorme.

Falar ao ar livre para cinco mil pessoas já seria, por si só, um desafio extraordinário. Era preciso manter a atenção, fazer a mensagem chegar aos que estavam mais longe, não perder o fio da conversa.

Mas chega um momento em que surge uma preocupação muito simples.

Quem vai alimentar esse povo?

Jesus chama Filipe e pergunta onde poderiam comprar pão para tanta gente. O próprio texto explica que Jesus fazia isso para experimentá-lo, pois sabia muito bem o que faria.

As provações sempre são mais para nós do que para Deus. Não servem para provar nossa fidelidade a Ele. Servem para revelar a nós mesmos quem realmente somos.

Filipe olha para a situação e responde da maneira mais honesta possível. Nem duzentos denários — praticamente o salário de duzentos dias de trabalho — seriam suficientes para que cada pessoa recebesse um pequeno pedaço de pão.

Então André aparece.

E faz exatamente o que já havia feito no primeiro capítulo do Evangelho. Lá, ele encontra seu irmão Simão e o leva até Jesus. Agora encontra um menino e faz a mesma coisa.

“Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixes…”

João é o único evangelista que conta isso.

É o único que diz que os pães eram de cevada.

É o único que menciona o menino.

E isso desperta uma série de perguntas.

Quem preparou aquele lanche?

A mãe?

O próprio menino?

Quem pensou que ele passaria o dia fora e precisaria levar comida?

A cevada era o pão do povo simples. Não da miséria absoluta, mas da mesa cotidiana dos trabalhadores. E aqueles peixes provavelmente eram pequenos peixes salgados, usados mais como acompanhamento do que como alimento principal.

Era uma marmita comum.

Nada extraordinário.

E talvez seja justamente aí que mora o extraordinário.

O Deus que continua criando

Nós costumamos esperar que Deus intervenha suspendendo as leis da natureza.

Mas este sinal começa justamente com a natureza funcionando perfeitamente.

Houve chuva.

Houve terra.

Houve plantio.

Houve colheita.

Alguém moeu a cevada.

Alguém assou o pão.

Alguém pescou aqueles peixes.

Alguém preparou aquele almoço.

E só depois Jesus o tomou em suas mãos.

João chama esses acontecimentos de sinais.

E um sinal sempre aponta para alguma coisa maior.

Talvez este aponte justamente para o fato de que Deus não desistiu da sua criação.

Vivemos cercados por uma espiritualidade que parece desejar escapar do mundo. Como se a criação fosse apenas um lugar provisório do qual a alma precisa fugir.

O Evangelho aponta na direção contrária.

O Verbo se fez carne.

Deus entrou na criação.

E, diante daquela multidão, escolheu realizar um sinal utilizando exatamente aquilo que a própria criação havia produzido e que mãos humanas haviam preparado.

O Reino não começa destruindo o mundo.

Começa restaurando-o.

Por isso, talvez a grande lição desse texto não seja apenas entregar a Jesus o pouco que temos nas mãos.

Talvez seja aprender a olhar para o cotidiano com outros olhos.

Porque Deus continua fazendo o extraordinário a partir do ordinário.

Cinco pães de cevada.

Dois peixes.

Um menino anônimo.

Uma família que jamais imaginou que o almoço preparado naquela manhã faria parte da história da redenção.

Talvez seja justamente assim que Deus continua trabalhando.

E talvez nós estejamos procurando os seus milagres no lugar errado.

Quem a igreja deve julgar?

Há alguns assuntos que, ao longo dos anos, se tornaram praticamente proibidos dentro da igreja. Um deles é o julgamento. Basta alguém citar “não julgueis, para que não sejais julgados”, e parece que toda a conversa termina ali. Como se Jesus tivesse proibido qualquer forma de discernimento, qualquer forma de correção, qualquer forma de disciplina.

O problema é que a igreja acabou absorvendo muito mais da cultura ao seu redor do que imagina. Passamos a chamar de amor aquilo que a Escritura jamais chamou. Um amor que nunca confronta, nunca corrige, nunca chama ao arrependimento. Um amor que apenas acolhe. Mas esse não é o amor bíblico. O amor de Deus jamais é irresponsável. Ele é paciente, misericordioso e cheio de graça. Mas justamente por amar, ele também corrige.

Por isso a pergunta não é se a igreja pode julgar. A pergunta é outra: quem a igreja deve julgar?

Paulo responde de maneira surpreendente. “Pois que me importa julgar os de fora?” E, antes que alguém tire uma conclusão precipitada, ele mesmo explica. Quando escreveu para não se associarem com pessoas devassas, avaras, idólatras, maldizentes, bêbadas ou roubadoras, não estava falando dos que pertencem ao mundo. Porque, se fosse assim, diz ele, “seria necessário sair do mundo”.

Essa observação muda completamente a discussão.

O problema nunca foi conviver com pecadores. Se fosse esse o problema, Jesus jamais teria se sentado à mesa com publicanos e prostitutas. A igreja não foi enviada para fugir do mundo, mas para anunciar Cristo ao mundo.

Então de quem Paulo está falando?

Daquele que se diz irmão.

Daquele que deseja ser reconhecido como membro do corpo de Cristo, participa da comunhão da igreja, mas decidiu permanecer em rebeldia contra Cristo sem qualquer arrependimento.

A diferença não está na gravidade do pecado. Está na verdade da comunhão.

Porque o perdido normalmente sabe que está perdido.

O autoenganado acredita que encontrou a Cristo enquanto continua caminhando na direção oposta.

É justamente esse autoengano que a igreja não pode confirmar.

Mas para entendermos isso precisamos voltar um pouco.

Em Mateus 18, Jesus apresenta o caminho da disciplina. Se teu irmão pecar contra ti, vai falar com ele. Sozinho. Se ele ouvir, ganhaste teu irmão. Se não ouvir, leve testemunhas. Se ainda assim não ouvir, diga à igreja. Somente depois de percorrido todo esse caminho é que Jesus diz para tratá-lo como gentio e publicano.

Perceba que, desde o início, o objetivo nunca foi expulsar alguém.

O objetivo sempre foi ganhar o irmão.

A disciplina é o último recurso quando todas as tentativas de restauração fracassaram.

À primeira vista, parece um problema pessoal. Um irmão pecou contra outro irmão. Mas apenas à primeira vista.

Porque o Novo Testamento vai revelar que nenhum pecado dentro da igreja é apenas um problema entre duas pessoas.

Quando Saulo perseguia os cristãos, Jesus não perguntou: “Por que persegues a minha igreja?”

Perguntou: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”

A agressão contra o corpo foi tratada como uma agressão contra a própria cabeça.

Mais tarde, o próprio Paulo desenvolverá essa verdade. A igreja é o corpo de Cristo. Se um membro sofre, todos sofrem. Se um membro adoece, o corpo inteiro adoece. “Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça?” E aos coríntios ele escreve como quem sente “dores de parto” por aqueles irmãos.

Então a disciplina deixa de ser um conflito entre duas pessoas.

Ela passa a ser uma questão do próprio corpo de Cristo.

Quando um membro adoece, o restante do corpo não pode fingir que nada aconteceu. Também não pode amputá-lo por conveniência. O corpo mobiliza tudo o que possui para restaurá-lo.

É exatamente isso que acontece em 1 Coríntios 5.

A igreja estava orgulhosa de uma tolerância que Paulo considera incompatível com o evangelho. Um homem vivia publicamente em pecado, recusava-se ao arrependimento, e a igreja continuava tratando aquilo como se fosse apenas uma expressão da graça.

Paulo reage.

Não porque aquele homem estivesse além da graça.

Mas porque a igreja estava usando a graça para confirmar uma mentira.

Então ele ordena que aquele homem seja afastado da comunhão.

Esse talvez seja um dos textos mais duros do Novo Testamento.

Mas somente até lermos o motivo.

O objetivo não é destruí-lo.

Não é preservar a imagem da igreja.

Não é demonstrar superioridade moral.

É para que ele desperte.

É para que deixe de viver no pior estado espiritual possível: acreditar-se unido a Cristo enquanto rejeita, deliberadamente, o senhorio de Cristo.

A disciplina não rompe a comunhão.

Ela apenas torna visível uma ruptura que já aconteceu no coração.

Mas a história não termina aí.

Anos depois, escrevendo novamente aos coríntios, Paulo manda fazer o movimento inverso. Agora é tempo de consolar. É tempo de confirmar o amor. É tempo de receber novamente aquele irmão, para que não seja consumido por excessiva tristeza.

Independentemente de se tratar exatamente da mesma pessoa ou de outro caso, o princípio permanece idêntico.

O mesmo apóstolo que mandou afastar agora manda restaurar.

Porque o objetivo nunca foi perder alguém.

Foi sempre recuperá-lo.

É por isso que Hebreus afirma que Deus corrige a quem ama.

Não corrige porque deixou de amar.

Corrige justamente porque ama.

Talvez o maior erro da igreja contemporânea seja separar essas duas coisas.

Há igrejas que falam tanto de graça que abandonaram a disciplina.

Há igrejas que falam tanto de disciplina que esqueceram a graça.

O evangelho não permite nenhum desses extremos.

A igreja não disciplina porque se considera melhor.

Disciplina porque entende que um membro doente compromete todo o corpo.

E restaura porque entende que aquele mesmo membro continua sendo alvo do amor de Cristo.

No fim das contas, a marca do cristão nunca foi a perfeição.

Também não é o conhecimento bíblico, os dons espirituais ou a reputação.

A marca do cristão é o arrependimento.

Enquanto existe arrependimento, existe comunhão.

Quando ele desaparece, a igreja ama o suficiente para corrigir.

E, quando ele reaparece, ama o suficiente para restaurar.

É assim que Cristo trata o seu corpo. E é assim que o corpo de Cristo deve aprender a cuidar de si mesmo.

Onde Deus passa 8H por dia?

Talvez você nunca tenha parado para pensar, mas onde é que Deus passa oito horas por dia?

Obvio que sabemos que Deus é fora do tempo e o espaço. As duas coisas são obras dele, logo, ele não está sujeito a essas contingências. Contudo, toda vez que Deus precisa de interagir com o ser humano, ele o faz dentro do tempo e do espaço para e no qual o homem foi criado.

Com isso, a pergunta toma traços mais objetivos. Ao final de contas se seres angelicais têm suas manifestações dentro desse âmbito (como no livro de salmos 34:7 – deO anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra) ou quando Deus desce ao monte em meio ao fogo (Êxodo 19:18) ou quando Deus preenche o templo com sua presença num cenário histórico, geográfico, político real. (Isaías 6) por citar alguns exemplos.

Vale então a pergunta, Onde Deus passa oito horas por dia? Talvez alguns responderiam “na igreja” (supondo que a igreja é um lugar físico, por exemplo). Outros diriam “na igreja” (supondo que a igreja é uma coisa mística do além que não toca o cotidiano). Outros, diriam “em todos os lugares”. Outros, beirando o panteísmo ou manifestando plenamente ele: “em todas as coisas”

Mas a pergunta continua válida. Se olharmos para a vida de Jesus, a resposta é surpreendente.

Jesus trabalhou mais do que pregou

Existe uma diferença brutal no tempo que Jesus trabalhou (alguma coisa como 20 e alguns anos) e o que ele pregou (algo ao redor de três anos. Arredondando: 90% da vida dele a dedicou ao aprendizado e à vida profissional ao passo que pouco mais de 9% investiu no ministério.

Ele acompanhou ao seu padrasto aprendendo o oficio dele, o jeito de lidar com as pessoas, a forma de analisar os materiais, como trabalhar esse material para satisfazer o cliente. Deve ter passado fases boas e ruins. Prazo, Qualidade, Esforço, Cansaço.

Por que Deus decidiu manifestar seu filho dessa forma?

A divisão que inventamos

Sem perceber, aprendemos a dividir a vida em dois territórios: o sacro e o profano.

A “igreja” (que para muitos significa a construção física e não as pessoas como na Bíblia), mas – como vinha dizendo – a “igreja” virou um lugar sagrado. Seria o local de contato entre o terreno e o divino. Um pedaço de terreno santo em que se anda diferente, se fala diferente, se pensa diferente do que “no mundo”. E isso com maior ênfase nos domingos à noite durante 90 minutos num ritual que é repetido até o cansaço.

É verdade que na velha aliança (ou no velho testamento se quiser) havia uma separação rígida bem estabelecida. Em lugar das relações orgásticas que os povos praticavam, a proposta que Deus entregou aos povo hebreu quando o escolheu, incluía uma separação do santo com o sagrado que é nitidamente vista na sarça ardendo, no véu de Moises, na instituição do sacerdócio, na tenda da revelação durante o deserto, no templo de Salomão com toda sua glória e no segundo templo com todo aquele esplendor terreno que Herodes o Grande lhe deu.

No novo pacto. Na exata consumação do sacrifício sacerdotal perfeito, o véu do templo se rasgou. Mateus 27:51ss o descreve de forma esplêndida, com uns detalhes difíceis de aceitar ou acreditar mas completamente compatíveis com o que estava acontecendo: um novo reino (ocupando exatamente o mesmo tempo e espaço do reino anterior – Romanos 5:21ss) acabava de ser inaugurado e – diferentemente do pensamento popular – a redenção da criação completa tinha dado começo (não apenas da alma de alguns seres humanos)

Então, como dizia, esse novo pacto, ou aliança, ou testamento, ou era, é gradativamente percebido pelos primeiros discípulos e vai tomando vulto e se estendendo. Isso leva, obrigatoriamente, a ter que ler e interpretar de novo um monte de coisas, mas o que fica claro é que aquilo planejado, prometido e aguardado no antigo testamento se cristalizava agora no novo. E o que vemos nas cartas dos apóstolos e do autor do livro aos hebreus e dos discípulos dos apóstolos? Todos eles em suas cartas, tratam da vida comum porque é ali que a fé se torna concreta.

O trabalho revela quem realmente somos

Talvez Deus passe tantas horas conosco no trabalho porque é ali que as máscaras duram menos

Por um momento se imagine naqueles 90 minutos de culto comunitário localizado repetitivo. Não há surpresas, logo, não há renovação de pensamento. Também não há muito lugar para a impaciência, ou a mentira, ou o orgulho. Se eu lhe conheço apenas do domingo à noite, os dois vamos levar a impressão de que somos quase santos (não no sentido de chamados escolhidos, mas o de pessoas de conduta e pensamento ilibado)

Agora, deixe-me acompanhar você ao serviço alguns dias. Sem que você saiba que eu sou pastor evangélico ou seu irmão de fé. Apenas um colega novo de serviço. Ou ao contrário, você me acompanha ao meu serviço. Você que entrou a trabalhar no mesmo ambiente laboral que eu na segunda-feira que passou.

É lá onde vamos conhecer e dar a conhecer a paciência, o orgulho, a ambição, a mentira, a justiça, a generosidade, o perdão. O escritório, a oficina, a sala de aula ou a fábrica funcionam como laboratório da verdadeira santificação.

Não há mais distinção entre um local sagrado e outro profano. O que há é o Reino de Deus (ou o Reino dos Céus, depende de qual evangelista você gosta) avançando e as portas do hades sendo arrombadas pelo movimento dos filhos de Deus.

O trabalho nunca foi uma maldição

O Pecado tornou o trabalho pesado, não que o trabalho é uma invenção do Pecado. (Aviso para os navegantes, a distinção de usus-loquendi entre “pecado” – com minúsculo – e “Pecado” se deve a distinguir o primeiro como as decisões pessoais contra a vontade de Deus a passo que o segundo é o reino do pecado inaugurado com a queda do homem – Rom.5:12..)

O trabalho nunca foi castigo; foi plano original. Desde o princípio, Deus colocou o homem no jardim para o “cultivar e o guardar” (Gn 2:15) e lhe deu propósito para dominar e encher a terra (Gn 1:28). Os dois relatos da criação contêm essa mesma ideia.

O que se tornou castigo foi a frustração e a dor que entraram com a queda: “com sofrimento tirarás … o teu pão … no suor do teu rosto” (Gn.3:17-19), e até as dores de parto apontam para essa realidade da tribulação (Gn. 3:16). Por isso a criação geme “com dores de parto” (Rm 8:19-22) enquanto o próprio Deus não desiste dela: sua restauração continua até a consumação da “nova terra”, quando tudo é feito novo (Ap. 21:1-5). Assim, o reino aqui e agora, é continuação do plano original, e também na manifestação final haverá serviço no mundo renovado – não castigo (Ap 21:3-4; 22:3-5)

Antes da queda, então, já existiam cultivo, cuidado, criatividade, organização, responsabilidade. O mandato cultural vem antes do pecado. O cansaço é consequência da queda; o trabalho não.

E simplificando o último parágrafo grande (mas sem o qual eu estaria deixando em escuro sobre a visão bíblica): Trabalhar faz parte da imagem de Deus. Criamos porque fomos criados por um Criador.

Deus continua trabalhando

Jesus disse: “Meu Pai trabalha até agora. E eu também trabalho” (Jo 5:17) Essa frase não é brincadeira.

Entendemos que a Bíblia é a única regra de fé e prática. E também entendemos que é uma auto-revelação progressiva de deus nas vestes de experiência humana. Logo, se Jesus (manifestação máxima da palavra de Deus) está dizendo que as coisas são de um jeito, podemos descansar que é exatamente desse jeito e de nenhum outro por mais parecido que seja.

Deus não descansou da criação porque perdeu o interesse nela. Ele continua sustentando, governando, reconciliando e conduzindo a história. O trabalho digno é o reflexo desse Deus que permanece ativo.

Uma última olhada sobre a eternidade

Em parágrafos anteriores te cutuquei um pouco com a ideia de que a eternidade é um tempo/espaço de serviço. Deixei de molho porque talvez já era muito com aquilo de que o trabalho não é um castigo divino. Vem comigo agora a darmos uma olhada pela outra ponta da história.

Talvez nossa imaginação sobre o céu (como habitáculo de Deus e de onde a Jerusalem celestial desce) seja pequena demais.

Não é difícil encontrar as caricaturas limitantes de nuvens, anjinhos com asas, harpas, sorrisos tipo propaganda de gelatina ou margarina… enfim.

A Bíblia encerra seu relato com uma cidade, não com um jardim vazio. Há cultura, reis trazendo sua glória, serviço, criatividade, governo e plenitude. Não trabalharemos para sobreviver, mas porque a criação finalmente será aquilo que sempre deveria ter sido. O trabalho deixa de ser sobrevivência para voltar a ser alegria.

Finalmente

Talvez a pergunta nunca tenha sido como servir a Deus no trabalho.

Muitas vezes se ouvem histórias pseudo-gloriosas de pessoas que roubam seus patrões usando as horas de serviço para uma ação evangelista proselitista.

Outros têm entendido que “Levar Cristo para o escritório” é carregar um crucifixo ou ler a Bíblia em público. E outras coisas similares a estas.

É bem provável que não se trate em como Servir a Deus no trabalho, mas descobrir que Ele já está trabalhando ali muito antes de chegarmos e é bem provável que a única Bíblia que as pessoas leiam alguma vez na vida, seja apenas aquelas oito horas que passam junto com a gente no serviço

Como seria uma empresa onde Jesus trabalhasse oito horas por dia?


E, sendo ainda mais desconfortável: Será que ele já trabalha na sua?

Onde o cristão sangra

Onde o cristão sangra

Há dores para as quais a igreja parece não ter liturgia.

Em “007 O Mundo não é o Bastante” (ou “007 – O Mundo Não Chega” para os lusitanos) há um diálogo que ficou gravado em mim quando assisti:

Q (para Bond):
“Eu sempre tentei te ensinar duas coisas. Primeiro: nunca deixe que eles vejam você sangrar.”
Bond: “E a segunda?”
Q: “Tenha sempre um plano de fuga.”

Sem perceber muitas comunidades cristãs ensinam exatamente isso. Não em seus púlpitos, mas em suas culturas.

Não falamos de casamentos acabando, do filho que morreu, da depressão, da pornografia, da incredulidade, do adultério, do suicídio, da violência intrafamiliar, do adultério, da solidão. Simplesmente colocamos cara de paisagem e continuamos. Uns fazendo de conta que não sabem e outros não deixando perceber que estão sangrando. É uma fórmula para uma tempestade perfeita.

E isso não é porque Cristo não possa lidar com essas questões. Mas porque temos medo de como os irmãos lidarão. E dá para entender. O medo da fofoca institucionalizada (que eu sempre insisto, fica fácil condenar a mulher que fornicou e engravidou, ou os vícios visíveis, mas aquele que pratica fofoca sempre fica de fora. E isso não apenas numa denominação, mas em várias. Logo é estrutural, institucional), como vinha dizendo, o medo da fofoca institucionalizada faz com que a gente, quando enfrenta um problema de gente real, fique de bico calado ou quando abre o bico, encontra um vazio terrível que as igrejas – via de regra – nem consideram a possibilidade de buscar ajuda fora.

Ao final de contas, se Cristo satisfaz todas nossas necessidades, como é possível que o cristão chegue a cogitar sequer a ideia de lançar mão de um psicólogo? E eu respondo: da mesma forma que quando alguém tem um acidente e quebra uma perna a gente corre para a UPA e não para o templo a orar. Óbvio que se a mente desfalece ou quebra, precisamos de ajuda de outros – que nem os traumatologistas – conseguem enxergar a humanidade de forma transversal e não de forma unilateral ou vertical.

Se você, como cristão, permite que os outros vejam você sangrar, se expõe ao ridículo perante o grupo de pessoas que deveria ser o grupo mais seguro do mundo. Simplesmente porque o perdão, o amor, a solidariedade, o carregar com os fardos dos outros, é matéria “espiritual” como se fosse uma matéria “teórica” apenas.

Quando vemos pastores fracassando (como é o caso do acontecido em nossa cidade nos últimos meses) observamos o vazio que ocorre ao redor. Pessoas simplesmente saindo escandalizadas em lugar de ficarem firmes para curar. Nisso, como me explicava um colega esta semana, as igrejas que têm uma estrutura episcopal (isto é, hierárquica) correm com certa vantagem perante as que tem um governo congregacional (ou mais descentralizado/representativo).

Perante o abismo que nosso irmão enfrenta, nos retraímos como se tivesse lepra.

Se a psicologia a psicanálises e outras correntes de tratamento similares tem cada vez mais presença e usabilidade acontece por duas coisas:

Primeiro porque Deus assim o permitiu porque “as coisas reveladas pertencem aos homens”, logo, nenhum avanço humano pode se dizer que é um avanço meramente humano. Tivemos a permissão e a vontade de Deus colocada naquilo de alguma forma.

Segundo porque parte da igreja acabou desenvolvendo uma espiritualidade que sabe falar sobre a eternidade, mas tem dificuldades para permanecer ao lado de quem está afundando hoje. Ou seja, a “teologia do escapismo”, das coisas apenas espirituais, centradas em si mesmas e vivendo apenas para si – ou seja – a própria instituição e não a sociedade para a qual deve ser luz e sal. Ela deixou de se interessar no ser humano a não ser para fazer número ou assentir “espiritualmente” (novamente no sentido de “teórico” vs “prático”) com um conjunto de ideias que, no melhor dos casos, responde a perguntas que ela fez e respondeu no século XVI

Escrevo isso porque já descobri mais de uma vez o que significa atravessar uma dor profunda quase sozinho. Em momentos diferentes da minha vida, esperei que a igreja soubesse como cuidar. Na maior parte das vezes, ela simplesmente não soube. Não houve perseguição. Houve ausência.

A igreja não falha porque é má. Ela falha porque foi treinada para responder perguntas e não para permanecer ao lado de quem sofre.

Jesus nunca teve medo de tocar em quem sangrava

E ele próprio sangrava (diferente do conselho de Q para Bond)

A mulher do fluxo de sangue. O leproso Lázaro, que já cheirava mal. Pedro, depois da negação. Tomé, depois da dúvida.

Cristo nunca exigiu que alguém escondesse a ferida para então aproximar-se dele.

E todos foram transformados depois do seu toque.

E talvez o título afirmativo de “Onde o cristão sangra” pudesse ser transformado em uma pergunta: “Por que construimos comunidades onde esconder o sangue parece mais seguro do que mostrá-lo, se seguimos justamente um Senhor que decidiu não esconder suas próprias feridas?

Será que temos aprendido a anunciar um salvador que recebe pecadores enquanto construímos comunidades onde pecadores precisam esconder o próprio sangue?

Estamos discutindo pastores ou sacerdotes?

Recentemente publicaram um artigo sob o título “Batistas do Sul votam a favor de aprovar uma proibição formal de igrejas com pastoras.” A AP diz que os Batistas do Sul votaram para avançar uma proibição formal, não que ela já tenha sido definitivamente incorporada. A emenda ainda precisa de nova aprovação por maioria de dois terços no próximo encontro anual. Isso importa porque, em 2024, uma tentativa semelhante recebeu maioria, mas não alcançou os dois terços necessários.

O título, por si só, já nos leva à bem conhecida discussão de se uma mulher pode ou não ser pastora. O problema com isso é que – assim como o verniz colocado sobre as imagens da Idade Média para protegê-las nos impede de ver suas verdadeiras cores e detalhes – assim essa discussão nos distancia de uma questão de fundo que me parece muitíssimo mais relevante à identidade cristã, evangélica em geral e batista em particular.

Quando eu estava no seminário me perguntaram se eu era favorável ou contrário ao pastorado feminino. Lembro desse dia com grata satisfação. Respondi que o que precisávamos era entender de forma clara o que era ser pastor.

Se pastor é quem prega aos domingos, ministra a ceia, realiza casamentos, apresenta crianças, conduz funerais e batiza convertidos, então talvez estejamos discutindo menos sobre pastores e mais sobre sacerdotes.

E se estamos discutindo sobre sacerdotes, já não estamos mais discutindo o Novo Testamento.

Não pretendo criticar nem defender a posição da Convenção Batista do Sul. Aqueles que pertencem a igrejas episcopais não fazem ideia de como é nossa relação com o aparato convencional. Mas baste apenas dizer que não é de hierarquia. Uma convenção é uma grande concentração de igrejas autônomas que buscam pactuar – de igual para igual – ações e orçamentos coordenados para conseguir atingir alvos maiores do que uma congregação sozinha poderia. A SBC de fato não governa as igrejas locais como uma hierarquia episcopal. Mas ela pode declarar que uma igreja não está mais em “cooperação amigável” e excluí-la da Convenção.

O que sim pretendo, é olhar embaixo do tapete. Num ponto mais escorregadio e até amargo que, ao discutirmos apenas se pode ou não pode, deixamos de olhar … por pura conveniência.

Sendo que os evangélicos em geral e os batistas em particular frisamos que não há mais autoridade em questão de doutrina fé e ordem do que a própria Bíblia, então vamos levantar alguns pontos incômodos:

  1. Jesus nunca ordena um “clero” nos moldes posteriores.
  2. O Novo Testamento fala muito mais de dons do que de cargos.
  3. O pastor (poimén) aparece como cuidador do rebanho.
  4. O episcopado parece mais ligado à supervisão.
  5. O presbítero à maturidade.
  6. Os dons de ensino, profecia, evangelismo e serviço circulam por toda a comunidade.

Então surge uma pergunta: O que distingue um pastor de um discípulo maduro?

E essa pergunta é que nem quando brincamos de colocar peças de dominó em pé… empurra uma e caem as outras. Porque olha só:

  1. Por que o pastor deve ser o único a batizar? (base bíblica para isso… qual?)
  2. Filipe não era apóstolo e batizou o eunuco.
  3. Paulo diz que Cristo não o enviou prioritariamente para batizar.
  4. Por que o discipulador não poderia batizar? É inferior ao pastor?
  5. E batismo não é uma mais uma ordenança e sim um sacramento que só pode ser ministrado por certas pessoas apenas?
  6. E o mesmo se pode dizer da ceia
  7. Mas e sobre o início e o final da vida?

Quantas mulheres ao longo da história não fizeram essas mesmas coisas sem nunca receberem um “título”?

Talvez você queira lembrar de algumas missionárias ou cristãs fiéis que – em situação limite – agiram.

Mas vamos para o contexto bíblico. Entre os exemplos mais incômodos para nossa organização posterior está Priscila (Atos 18; Romanos 16:3-5; 1 Coríntios 16:19) Ela cooperou na missão, recebeu a igreja em casa e , junto com Áquila, explicou com mais precisão o caminho de Deus a Apolo.

Febe, serviu a igreja em Cencreia e apoiou os missionários (Rom. 16:1-2). Foi ela quem provavelmente levou a carta aos Romanos. Isso é muito significativo pois como portadora, pode ter sido também sua primeira leitora, representante e intérprete perante a igreja de Roma.

Júnia, foi cristã antes de Paulo, sofreu prisão por Cristo e é chamada por Paulo de notável entre os apóstolos — expressão que muitos entendem como reconhecimento apostólico, embora haja debate sobre se significa ‘notável entre os apóstolos’ ou ‘bem conhecida pelos apóstolos’. (Rom 16:7)

E as mulheres da ressurreição. Primeiras testemunhas e anunciadoras da ressurreição. Que irônico! Aquelas que num contexto em que o testemunho feminino era frequentemente desvalorizado, foram as escolhidas para anunciar a mensagem mais importante da humanidade.

Então, anunciação das boas novas, testemunho público da ressurreição, ensino bíblico mais preciso, discipulado teológico, cooperação missionária, hospitalidade e abertura da casa para a igreja, sustento financeiro da missão, serviço diaconal, proteção de obreiros, representação de uma carta apostólica, possível interpretação comunitária da mensagem recebida, sofrimento por Cristo, prisão por causa do evangelho e reconhecimento entre os trabalhadores apostólicos — tudo isso aparece nas mãos de mulheres no Novo Testamento.

A pergunta não pode ser apenas: “elas tinham o título?”. A pergunta mais honesta é: “elas exerceram funções ministeriais reais?”. E a resposta bíblica é desconfortavelmente clara: sim. Elas anunciaram, ensinaram, discipularam, serviram, sustentaram, hospedaram igrejas, cooperaram na missão, sofreram pelo evangelho e foram reconhecidas por Paulo e pelos evangelistas como participantes reais da obra de Deus.

E aqui aparece uma pergunta que muitas mulheres missionárias — inclusive entre nós, batistas — poderiam fazer com razão: quantas mulheres já exerceram, na prática, funções ministeriais que depois foram negadas a elas em título?

Quantas ensinaram, discipularam, evangelizaram, abriram suas casas para a igreja, acompanharam novos convertidos, sustentaram a missão, consolaram enlutados, cuidaram de enfermos, formaram líderes e mantiveram comunidades inteiras de pé sem jamais receber o reconhecimento correspondente?

E, saindo do âmbito batista, quantas mulheres, ao longo da história cristã, especialmente em contextos de missão, perseguição, isolamento ou escassez de obreiros, se viram diante de situações limite nas quais a vida espiritual da comunidade não podia simplesmente esperar pela chegada de um ministro homem?

Esse é o ponto incômodo: quando certas práticas são tratadas como se dependessem necessariamente de uma figura clerical autorizada, precisamos perguntar se essa exigência nasce claramente do Novo Testamento ou se nasce de uma organização eclesiástica posterior.

No mínimo, a resposta exige mais humildade. Porque, se o Novo Testamento apresenta mulheres anunciando, ensinando, servindo, hospedando igrejas, sustentando missionários, interpretando a fé e cooperando na expansão do evangelho, então não podemos reduzir a discussão a títulos. Antes de perguntar quem pode receber determinado nome, precisamos perguntar quem, de fato, já foi chamado por Deus para servir — e quem nós decidimos reconhecer.

Talvez o problema não seja apenas que não conseguimos decidir se uma mulher pode ser pastora. Talvez o problema seja que já não sabemos muito bem o que um pastor é.

Enquanto discutimos quem pode ocupar o cargo, esquecemos de perguntar qual era o propósito do dom. E quando os cargos se tornam mais importantes do que os dons, homens e mulheres acabam disputando algo que Cristo talvez nunca tenha pretendido construir daquela maneira.

Essa é a questão que não queremos enfrentar.