Eu, Jonas

E repentinamente, tudo ficou escuro.

O barulho ensurdecedor das ondas desapareceu. O vento frio, os gritos dos homens, o convés debaixo dos meus pés — tudo sumiu. Primeiro veio a água. Depois, uma escuridão tão completa que eu já não sabia onde terminava meu corpo e começava aquilo que me cercava.

Havia sons. Poucos. Estranhos. Sons que eu não sabia identificar.

Tentei gritar.

Ninguém respondeu.

Então percebi uma coisa ainda mais incompreensível: eu estava vivo.

Tudo o que sabia sobre o mar me dizia que, a essa altura, deveria estar morto. Bem morto. Mas não estava.

Talvez eu soubesse porque ainda sentia a roupa encharcada grudada no corpo. Talvez pelo medo. Talvez porque imaginamos que os mortos não sintam solidão. Ou sim sentem?

Não sei.

Só sei que estava vivo e não tinha como explicar isso.

Então me ajoelhei como pude. Me curvei perante o meu criador. E orei.

Não como aquela repetição litúrgica e vazia que conhecia decor. Mas com o coração. Com todo meu ser.

Chorei. Implorei. Clamei pela misericórdia àquele que vive por sempre. Porque além de vivo, me sentia expulso da sua presença. Não havia como ir mais fundo. Mais longe.

Então de lá, decidi fazer o óbvio: voltar meu olhar para o Criador. Na escuridão. No silêncio. Sem nada a não ser minha voz. Me voltei com tudo e com nada ao mesmo tempo para o meu Criador. 

Foram dias assim.

E por mais que eu não podia ir mais fundo nem mais longe, mesmo assim, a angustia subia e tudo o preenchia. E eu orava. E era arrebatado pela sua misericórdia. A sua compaixão era tão palpável quanto a escuridão que me cercava. 

E eu passei a conhecer um outro tipo de paz. Em escuridão. Em angustia. Em paz. Não tinha eu como reverter minha situação. Mas a paz do meu Criador estava aí. E eu a desfrutava.

Tão repentinamente como entrara nessa situação, fui devolvido à terra firme.

Nunca o sol me pareceu tão radiante nem o céu tão azul.

As palavras de Jó não saíam da minha cabeça: “Eu sei que o meu Redentor vive”. O fato de eu estar vivo era – para mim, naquele momento – a prova de que meu Criador estava vivo e era misericordioso. Sim, se havia uma coisa que sabia de antes, mas agora a tinha experimentado era sua misericórdia.

Se eu tinha sido lançado às profundezas do mar não era senão pela minha negligencia, pelo meu desatino, pela minha desobediência, pelo meu confronto com aquele que me chamara para ir à cidade grande.

E lá estava eu na praia. Sozinho. Meus pensamentos e eu. Só. Apenas desfrutando a bênção de poder ver.

Porém, também podia ouvir. Então ele me chamou de novo. A mesma coisa que semanas atrás: “Vá à grande cidade de Nínive e pregue contra ela a mensagem que lhe darei”.

Nínive era uma cidade importante. A economia da região passava por lá. E era enorme. Três dias eram necessários para poder atravessa-la.

Me aproximei por um caminho que passava por uma pequena colina antes de entrar na cidade à distância. Sentei para observá-la. Era realmente grande. Enorme. E com um movimento de gente que eu não tinha visto antes. 

Então obedeci o Criador. Mensagem simples: “daqui a quarenta dias Nínive será destruída”. Sem muitas explicações. Sem maiores frases do que essa. A destruição da cidade estava decretada. A data da execução da sua pena estava prescrita já. E eu já sabia que eles não se arrependeriam. Então, para que alongar a mensagem? Uma frase simples e direta bastava.

E aí aconteceu uma coisa que eu não entendia. Ou talvez, sim entendia mas me negava a aceitar. 

Como era possível que esse povo parasse e se arrependesse com uma frase tão simples? É verdade que os pecados deles estavam escancarados. Mas eles conseguiam chegar a esse nível de reconhecimento? Eu não acreditava! Como assim que se arrependiam!?

E pior, não foi uma coisa que veio de cima para baixo. Primeiro foram as pessoas comuns. Os obreiros. Os mercadores. Todas as pessoas, das mais importantes às mais singelas proclamavam jejum assim que a mensagem ia chegando. 

Era incrível. E olha que dos três dias que precisava para percorrer a cidade, eu apenas fiz o primeiro deles.

As noticias chegaram ao Rei.

Eu, embrutecido que estava, falei: pronto, agora sim vai chegar quem coloque ordem nisso tudo e a cidade volte a ser o que era e assim poderá ser destruída como o merece. Porque, gente, se havia alguém que merecia ser destruída era essa povo.  Oh sim! Como o mereciam! Até Deus estava de acordo comigo. Não foi para isso que me chamou?

Mas não. O rei proclamou jejum. E não era pouca coisa não. Todo ser vivo devia fazer jejum. As vestes lindas, suaves e vistosas deviam ser trocadas por outras toscas de pano que machucavam a pele. 

Para além disso, ele ordenou que se abandonasse a violência e os maus caminhos. Isso sim confirmava minha tese! Até o rei da cidade não apenas sabia da barbaridade em que vivia Nínive, ele era conivente e agora…. e agora!?   agora ele também se arrependia e com ele a cidade inteira.

Ahh que raiva! Que dor na boca do estómago! Que sabor amargo na minha boca!

Como assim que até o rei se arrependia!?  Ah não, eu não queria nem ver o que o Criador iria fazer. Eu o conhecia. 

Esse coração mole dele. Vou te contar. 

Furioso fiquei.

Estava tão raivoso e embrutecido que cacei um lugar solitário para orar. E lhe disse: “Está vendo!? É por isso que eu não queria vir. Lembra quando eu estava tranquilo em casa? Então, foi exatamente por isso que decidi fugir para Társis. E você o sabe muito bem. Eu te conheço. Sei desse teu coração propenso a perdoar. Sei que você promete castigar, mas depois muda de ideia. Estou farto disso tudo! Me mata. Vai. Chega. Arranca minha vida. Não pode ser pior do que viver!”

Tinha muito mais a falar para Ele. Mas a raiva me deixava cego, gago, embaralhado. 

Tudo bem ele usar de misericórdia comigo e me resgatar de dentro daquele peixe enorme no fundo do mar. Mas a esses daqui!? Que tipo de brincadeira bizarra é essa.

Não conseguia falar mais nada. Um nó na garganta se me formou. As lágrimas rolavam dos meus olhos. Não podia acreditar uma coisa dessas. Melhor, não podia aceitar porque eu o conhecia. Sabia que ele era assim.

Então, ouvi nitidamente a voz dele. Não a tinha ouvido no grande peixe. Mas agora lá estava essa voz mansa dele de novo. Ele me perguntou: “Você tem alguma razão para essa fúria?”

O deixei sem resposta. Preferi largar ele para lá sem lhe dizer ao menos uma frase. Não merecia. Mais uma vez ele me desapontara. E não porque – insisto – não o conhecesse. Mas porque eu esperava que sua justiça sobressaísse desta vez em lugar da sua misericórdia. 

Tudo bem ele ser misericordioso com os do seu povo escolhido, mas com estes!? Brincadeira. Só podia ser brincadeira. 

Optei por lhe fazer o vazio.

Então terminei de atravessar a cidade. Me assentei distante e no alto. Fiz um tapume para evitar um pouco o vento seco enquanto aguardava o que – de fato – ia acontecer com a cidade. Por um lado eu gradava esperança que o arrependimento deles fosse pura enganação. E pelo outro esperava que o Criador destruísse tudo como prometera.

E esperei.

Então o meu Criador, na sua misericórdia, fez brotar uma planta para que o sol não batesse tão forte na minha cabeça. Oh como fiquei feliz. Sim, eu podia me juntar a Jó e dizer mais uma vez “eu sei que meu redentor vive”. Ele me cuidava. Ele me sustentava. Com toda certeza ele me amava.

Fui dormir tranquilo. Na doce esperança que o julgamento do Criador se abatesse sobre a cidade de uma vez por todas. Ao final das contas, Deus tinha mostrado sua bondade para comigo. Amanhã poderia ser o dia dele mostrar o juízo sobre esses outros.

Ao outro dia acordei e vi que uma lagarta tinha acabado com a planta e esta se secara. Estava nascendo o sol e junto com ele se formara um vento forte, seco, quente. O dia prometia.

Quem sabe e isso tudo não era parte da destruição que Deus estava trazendo sobre essa gentalha!  Quem sabe e não ia eu poder assistir de camarote tudo o que ia vir! Se o dia começava assim, o que seria para o meio dia?

Mas o calor não parava de aumentar. E a cidade parecia continuar normal. Meus olhos pararam de distinguir a realidade da imaginação. E sentia quase desmaiando. 

Cheguei à conclusão que o melhor era morrer. Ah… sim… nada como a morte para poder resolver tudo de uma vez. 

Então voltei a orar. Não lhe tinha voltado a dirigir a palavra desde aquele dia. Dessa vez não andei com voltas. Simplesmente lhe disse que para mim a morte era melhor que a vida. Não havia necessidade de dizer mais nada. Já tinha gasto saliva demais com ele. Era apenas um último favor que eu estava pedindo. Simples. Eficiente. A minha morte. Nada mais fazia sentido!!!

E então ele de novo me perguntou a mesma coisa. Bom, ou pelo menos quase a mesma. Como se não tivéssemos tido aquele tempo de silêncio: “Você tem alguma razão para estar tão furioso por causa da planta?”

Eu não podia acreditar. Só podia ser provocação. Ele que tudo o sabe. Por que perguntaria uma coisa dessas de novo?

Ele não tem necessidade que ninguém lhe ensine nem lhe instrua pois ele é fonte de todo conhecimento e sabedoria. Nada há que aconteça sem que ele saiba. Que tipo de pergunta era essa!!?? 

Então eu lhe disse “SIM!!!!! TEEEENHO!!!!!. E estou furioso. Tão furioso que apenas a morte me parece apetecível!” 


Olhando no espelho de Jonas

Há alguns passagens que gostaria de alinhar com o relato de Jonas. A história de Jonas é bem conhecida. Mas geralmente passamos por alto algo que – pessoalmente – me parece muito relevante. Parece que o objetivo final de Deus não era apenas Nínive e sim o profeta. 

Todas as falas de Deus feitas a Jonas se podem agrupar em duas: a) instruções – que na realidade é apenas uma: anunciar a Nínive que seu tempo chegou. b) perguntas retóricas. São três perguntas que Deus faz para Jonas. As primeiras duas colocam de relevo que Jonas não tinha razão para essa fúria toda. E a terceira abre para uma conclusão bem simples: Assim como Jonas teve dó da planta, não deveria Deus ter pena desse povo todo na sua ignorância?

O material em Jonas é abundante e dá para muitas coisas. 

Mas me deixa apenas fisgar uma característica de Jonas para depois vermos juntos sua dor.

Jonas conhecia Deus. Não era um conhecimento intelectual apenas. Era algo mais visceral. Ao ponto tal que sabia como seria o comportamento de Deus nessa situação. Repare que Deus não contradiz esse conhecimento. Parece como se Deus dissesse: exatamente, esse sou eu. Claro, isso não quer dizer que Jonas conhecesse plenamente Deus. Isso é impossível. Mas tinha o suficiente conhecimento de Deus como para entender para onde ia a história. 

Jonas não é pego de surpresa por Deus nesse ponto. E ali vemos uma virtude da leitura completa de um texto curto como o de Jonas já que encontramos isso em Jonas 4:2 ou seja, quase no final do livro. Então é válido dizer que esse conhecimento de Deus se deixa ver na raiva de Jonas. A raiva nasce do desapontamento. Há uma expectativa frustrada. A fuga de Jonas não parece estar ancorada no medo e sim nessa vida frustrada com Deus. 

Toda a raiva de Jonas não é apenas uma reação a um resultado político ou externo; ela é dirigida a Deus, cuja ação frustra aquilo que Jonas considerava que era justo acontecer. A ambivalência existencial do ser humano torna perfeitamente possível que haja na mesma pessoa sentimentos positivos em relação a Deus coexistindo com ressentimento ou raiva. Uma coisa não nega a outra. A raiva interna não invalida a crença no Criador.

E uma das coisas frustrantes do livro de Jonas é exatamente que essa raiva paira no texto inteiro, mas não há transformação da mesma. 

Isso me faz lembrar de Mateus 25:14-30. O servo displicente enterra seu talento. Por falta de conhecimento do seu Senhor? Não. Exatamente pelo contrario. Mais uma vez, Jesus – na sua parábola – não contradiz aquele conhecimento. Faz parte da revelação. Sim: O Senhor colhe onde não plantou (ou você tem visto Jesus – que persiste em forma humana e está assentado à direita de Deus – sarando, pregando, expulsando demônios?) Então o conhecimento estava certo, a emoção e a ação não. 

E também me leva a pensar no irmão do filho pródigo. (Lucas 15:25-32) Conhecia ele seu pai? Em certo sentido sim. Sabia o quanto tinha custado formar aquilo tudo. Mesmo talvez querendo usufruir um pouco do que era seu por direito não o fez. Por que? por falta de conhecimento? Não. Sabia do custo. Sabia da dor do pai pelo irmão mais novo. O conhecimento estava certo. As emoções e as ações não. 

E o que mais me toca: Mateus 18:21-35. O servo recebe o perdão de uma dívida impagável. Quando chega a vez dele de fazer o mesmo com um servo menor, não o faz. Ele conhecia o que era perdão. O tinha acabado de experimentar. Conseguia aplicar para o seu conservo? não. Conhecimento certo. Ação e emoção não.

Jonas conhecia o Senhor. O servo displicente também. O irmão do filho pródigo de igual modo. E não é diferente com o servo da dívida enorme.

Óbvio que o conhecimento deles é parcial. Isso já foi estabelecido. Mas me surpreende nos quatro relatos o espaço vago entre o que é da possibilidade da ação de Deus e o lugar da ação humana. Ou dito de uma outra forma: alguma particularidade do Senhor conheciam. E essa particularidade a conheciam de forma até profunda poderíamos dizer. Porém, esse conhecimento não se traduzia em ter o mesmo coração do Senhor. Sim, eram conhecimentos parciais. Mas achamos que deveriam ter sido suficientes para alterar suas emoções e condutas. 

Não o foram.

Todas essas histórias tem esse toque amargo no final. Alguém não entendeu como funciona a coisa.

E – na Bíblia – deve ser assim. Não é Hollywood. 

Deve ficar claro que a mesma mensagem produz efeitos diferentes nas pessoas. A mesma ação de Deus provoca coisas distintas dentro de cada um de nós. 

Não se trata, então, de conhecimento intelectual. 

E pior, não se trata de falta de experiência.

A angustia mais profunda desses textos é que essas pessoas passaram perto da verdade eterna. E não conseguiram ser tocados por ela.

Jonas tinha tudo para ser uma pessoa feliz. Almejava a morte porque conhecia o seu Senhor, mas não o entendia com o coração. 

Da próxima vez que o Senhor o faça chorar; não corra.

No concreto, não no etéreo

No concreto, não no etéreo

É muito bonito imaginar como deveriam ser as coisas.

Uma única Igreja, sem placas, sem divisões, sem histórias de ruptura, sem disputas doutrinárias, sem diferenças de governo, batismo, ceia, liturgia ou missão. A ideia tem sua beleza. Jesus mesmo ora para que seus discípulos sejam um (Jo 17:20-23).

Só que nós existimos deste lado da eternidade.

E, deste lado da eternidade, a Igreja precisa existir no concreto.

O Novo Testamento não conhece apenas uma Igreja abstrata. Conhece igrejas em Corinto, Éfeso, Filipos, Tessalônica. Conhece presbíteros sendo estabelecidos (At 14:23; Tt 1:5), responsabilidades sendo atribuídas (At 6:1-6), conflitos sendo tratados e decisões sendo tomadas (At 15:1-29).

Igreja concreta precisa decidir.

Quem ensina? Como governa? Como recebe novos membros? Como batiza? Como celebra a Ceia? Como disciplina? Como entende os dons? Como se relaciona com o Estado? Como lida com dinheiro? Como envia missionários?

Em algum momento, a bela frase “somos apenas cristãos” precisa sentar numa mesa e votar alguma coisa.

E aí começam as diferenças.

Talvez esse seja um dos motivos pelos quais a ideia de abolir denominações costuma soar tão sedutora quando somos jovens. O tempo parece infinito, as decisões parecem reversíveis e temos uma convicção impressionante de que nosso ponto de vista — e o de quem concorda conosco — é o correto, puro, equilibrado e sensato.

Descartes já tirava sarro disso ao observar que nada parece tão bem distribuído quanto o bom senso: todo mundo acha que recebeu o suficiente.

A história da Igreja é um ótimo antídoto contra essa segurança.

Pensemos apenas em luteranos, presbiterianos e batistas. Nenhum desses movimentos surgiu porque alguém acordou numa terça-feira com vontade de inventar uma marca nova. A Reforma luterana atravessou conflito político, excomunhão e risco de morte. O presbiterianismo escocês se formou em meio a disputas religiosas e civis profundas. Os primeiros batistas ingleses enfrentaram perseguição por convicções que hoje muitos de nós consideramos banais, como liberdade de consciência e batismo de crentes.

Claro que há orgulho nessa história. Há pecado. Há teimosia. Há rupturas que talvez pudessem ter sido evitadas.

Mas reduzir tudo isso a “eles não conseguiram viver em unidade” é confortável demais para quem observa séculos depois, sentado numa cadeira que essas mesmas lutas ajudaram a tornar possível.

Denominações também são memória.

Elas guardam respostas que comunidades cristãs deram, em tempos e lugares concretos, a perguntas que não podiam simplesmente ignorar. Algumas respostas foram melhores. Outras, piores. Algumas precisam ser corrigidas. Outras merecem ser preservadas justamente porque custaram caro.

Por isso eu não tenho grande interesse numa igreja sem identidade.

Tenho interesse numa igreja cuja identidade saiba seu lugar.

Paulo plantou. Apolo regou. Deus deu o crescimento (1Co 3:6).

Talvez uma denominação seja algo parecido: uma forma histórica, limitada e concreta de plantar ou regar dentro de uma obra que nunca lhe pertenceu.

O problema começa quando ela esquece disso.

Unidade sem monotonia

Unidade sem monotonia

Já reparou na criação? Não é linda?

Às vezes fico pensando como deveria ter sido antes da queda, já que Paulo diz que toda a criação foi sujeita à corrupção e geme aguardando redenção (Rm 8:19-22). Mesmo assim, a diversidade continua diante de nós.

O Salmo 104 olha para essa multiplicidade e exclama: “Quão numerosas são as tuas obras, Senhor! Fizeste todas elas com sabedoria” (Sl 104:24). Provérbios diz que o Senhor fundou a terra com sabedoria (Pv 3:19). A variedade não aparece como ruído. Aparece como obra do Criador.

E então chegamos a um texto que sempre me pareceu lindo e, em certo sentido, até engraçado: “Criou Deus o ser humano à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1:27).

Eu não conheço duas expressões humanas mais evidentemente distintas do que homem e mulher.

E, no entanto, ambos estão debaixo da mesma afirmação: imagem de Deus.

Unidade de origem. Igual dignidade. Distinção real.

Talvez devêssemos guardar essa combinação.

Nós temos uma inclinação curiosa à uniformização. Moda vem em ondas. Casas começam a se parecer. Carros perdem traços que antes permitiam reconhecer uma marca de longe. Igrejas também fazem isso. Um modelo parece funcionar e logo todo mundo começa a cantar parecido, falar parecido, organizar parecido, iluminar parecido, pregar parecido.

Não há pecado necessário em parecer com alguém.

Mas existe uma diferença entre aprender e desaparecer.

Paulo fala de um corpo no qual os dons são diferentes, os serviços são diferentes, as operações são diferentes, mas o Espírito e o Senhor são os mesmos (1Co 12:4-6). E vai além: o olho não pode dizer à mão “não preciso de você” (1Co 12:21).

A unidade do corpo depende justamente de ele não ser uma coisa só repetida muitas vezes.

Isso já deveria nos deixar um pouco desconfiados da ideia de que a igreja ideal seria aquela em que todas as comunidades locais pensassem, servissem e se organizassem exatamente da mesma forma.

E há ainda uma questão mais funda. A fé cristã confessa um Deus trino. Pai, Filho e Espírito Santo não são três deuses, nem três máscaras sucessivas de um mesmo personagem. Deus é um. E, no entanto, a linguagem cristã não elimina a distinção das pessoas (Mt 28:19; 2Co 13:13).

Não estou dizendo que as denominações são uma imagem da Trindade. Seria forçar demais o argumento.

Estou dizendo algo mais simples: diferença não é, por si só, uma ofensa à unidade.

Na criação há diferença. No corpo há diferença. Nos dons há diferença. Entre os apóstolos havia diferença. E, no fim, João ainda vê diante do Cordeiro uma multidão de povos, tribos e línguas (Ap 7:9).

Curiosamente, a eternidade não parece resolver a diversidade apagando-a.

Talvez o nosso problema não seja haver diferença demais.

Talvez seja termos desaprendido a conviver com diferença sem transformá-la em ameaça.

Quando a diferença ocupa o centro

Quando a diferença ocupa o centro

A divisão em capítulos ajuda muito a localizar um texto bíblico, mas às vezes atrapalha o raciocínio. Em 1 Coríntios isso acontece com facilidade. Lemos o capítulo 1, chegamos à discussão sobre Paulo, Apolo e Cefas, viramos a página e parece que Paulo começou outro assunto.

Não começou.

Depois de perguntar se Cristo está dividido, Paulo segue falando da cruz. “A palavra da cruz é loucura para os que perecem” (1Co 1:18). Judeus pedem sinais, gregos procuram sabedoria, mas ele anuncia Cristo crucificado (1Co 1:22-24). E quando chega ao capítulo 3, as facções reaparecem: “quando alguém diz: Eu sou de Paulo; e outro: Eu sou de Apolo, não sois carnais?” (1Co 3:4).

O raciocínio está inteiro.

A cruz desmonta os critérios humanos de grandeza. Eloquência, prestígio, inteligência, carisma, influência: tudo isso pode ser útil. O problema começa quando deixa de ser serviço e vira centro.

Paulo conhecia o risco. Era homem instruído, formado aos pés de Gamaliel (At 22:3). Poderia apoiar sua autoridade na formação, na história, na capacidade argumentativa. Em vez disso, diz que decidiu saber entre os coríntios “Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co 2:2).

Não porque pensar fosse pecado. Seria uma leitura bastante estranha de Paulo.

Mas porque até uma coisa boa consegue tomar um lugar que não é dela.

É exatamente por isso que a discussão sobre denominações costuma dar errado dos dois lados. De um lado, há quem trate sua tradição como se fosse a própria forma final do cristianismo. A igreja certa, a teologia certa, a liturgia certa, a leitura certa, a música certa. O sobrenome eclesiástico começa a funcionar quase como prova de fidelidade a Cristo.

Do outro, há quem trate toda identidade como suspeita e imagine que abolir os nomes resolveria o problema.

Não resolve.

Corinto não tinha batistas, luteranos, presbiterianos ou pentecostais. E conseguiu produzir facções muito bem sem nenhuma dessas placas.

O coração humano não precisa de estatuto denominacional para competir.

É aí que o texto de Paulo incomoda mais do que parece. O problema não está primeiro na existência de diferenças, mas naquilo que fazemos com elas. Paulo não nega que ele plantou e Apolo regou. Ele nega que qualquer um dos dois possa receber a glória pelo crescimento.

“Deus é quem dá o crescimento” (1Co 3:7).

Essa frase deveria ser suficientemente ofensiva para todos nós.

Porque ela põe no lugar tanto o pastor famoso quanto a denominação histórica, tanto a igreja que cresce quanto a igreja que se orgulha de não crescer, tanto o intelectual quanto o anti-intelectual, tanto o tradicional quanto o moderno.

Nenhum deles é o centro.

A cruz é.

Talvez a pergunta não seja, então, se podemos ter identidades. Talvez seja se nossas identidades ainda conseguem ajoelhar-se diante de Cristo sem exigir que ele se pareça conosco.

Está Cristo dividido?

Está Cristo dividido?

Nasci e cresci no meio evangélico batista do Uruguai. Há alguns meses, meu filho me dizia que seria praticamente impossível eu ser outra coisa além de batista. E alguma razão ele tem.

Minha formação, minha maneira de ler a Bíblia, minha experiência de igreja e até meu vocabulário foram profundamente moldados por esse ambiente. Mas isso nunca significou viver fechado dentro dele. Desde pequeno tive contato com pentecostais, católicos e igrejas livres. Mais tarde vieram menonitas, luteranos, valdenses, presbiterianos e outros. Talvez por isso a pergunta sempre tenha me parecido mais interessante do que incômoda: se fazemos parte de uma única Igreja, una em Cristo, por que tantas identidades?

A resposta mais rápida seria dizer que não deveriam existir.

E não é um argumento bobo.

Em Corinto, os da casa de Cloé procuraram Paulo porque a igreja estava rachando em preferências: “Eu sou de Paulo”, “eu sou de Apolo”, “eu sou de Cefas”, “eu sou de Cristo” (1Co 1:11-13). Não é difícil imaginar como isso funcionava. Paulo tinha sua história, sua formação e sua maneira de pensar. Apolo era eloquente e conhecedor das Escrituras (At 18:24). Pedro carregava outra trajetória, outro temperamento, outro modo de falar.

Se quisermos ser simplistas, é fácil resolver: todos abandonam suas preferências e pronto.

Só que Paulo não resolve assim.

Ele faz três perguntas: Cristo está dividido? Paulo foi crucificado por vocês? Vocês foram batizados em nome de Paulo? A resposta é não, não e não. O problema, portanto, não é que Paulo, Apolo e Cefas sejam diferentes. O problema é que essas diferenças começaram a disputar um lugar que não lhes pertence.

Logo depois, Paulo menciona que batizou poucos e retorna ao que entendia como seu chamado predominante: anunciar o evangelho (1Co 1:14-17). Ele distingue funções. Não faz de todas elas a mesma coisa. Mais tarde dirá com todas as letras: “Eu plantei; Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (1Co 3:6).

Um plantou. Outro regou.

É difícil ficar mais claro.

Paulo não apaga Apolo. Apolo não precisa se tornar Paulo para que a igreja seja uma. A diferença não é tratada como um defeito a ser corrigido. O defeito aparece quando uma diferença relativa vira identidade absoluta.

Isso muda um pouco a conversa sobre denominações.

Paulo não está falando delas, claro. Seria anacrônico fingir isso. Mas o texto já desmonta uma pressuposição importante: unidade não exige igualdade de temperamento, função, ênfase ou forma.

E talvez tenhamos feito uma confusão duradoura entre duas coisas que a Bíblia não confunde com tanta facilidade: diferença e divisão.

Diferença pode servir.

Divisão adora competir.

A primeira pode enriquecer o corpo. A segunda começa quando o corpo esquece quem é a cabeça.

Leia a série completa

  1. Está Cristo dividido?
  2. Quando a diferença ocupa o centro
  3. Unidade sem monotonia
  4. No concreto, não no etéreo

Denominações: para que tê-las?

Denominações: para que tê-las?

Há algo muito atraente na ideia de sermos simplesmente cristãos, sem placas, sem rótulos, sem divisões. Se Cristo é um só, por que tantas denominações?

Paulo encontrou algo parecido em Corinto. Uns diziam: “Eu sou de Paulo”; outros: “Eu sou de Apolo”; outros: “Eu sou de Cefas”; e havia ainda os que diziam: “Eu sou de Cristo” (1Co 1:11-13). Sua resposta é conhecida: Cristo não está dividido. Mas o interessante é o que Paulo não faz. Ele não apaga as diferenças entre Paulo e Apolo. Mais adiante dirá: “Eu plantei; Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (1Co 3:6).

Um plantou. Outro regou. Deus fez crescer.

Talvez o problema nunca tenha sido a diferença.

A criação inteira é feita de diferenças. O corpo é feito de membros diferentes. Os dons são diferentes. Os serviços são diferentes. Até diante do Cordeiro permanecem povos, tribos e línguas (Ap 7:9). Unidade, na Bíblia, não parece significar monotonia.

As denominações carregam pecados, rupturas, orgulho e muita história mal resolvida. Seria ingênuo negar isso. Mas também carregam memória, convicções, lutas, formas distintas de servir e perguntas que precisaram ser respondidas no concreto da vida da Igreja.

Talvez não precisemos escolher entre unidade e identidade.

Talvez precisemos apenas lembrar qual delas ocupa o centro.

Não Paulo. Não Apolo. Não a placa da igreja.

Cristo crucificado.

Este é o resumo introdutório de uma série de quatro artigos. Leia a série completa:

  1. Está Cristo dividido?
  2. Quando a diferença ocupa o centro
  3. Unidade sem monotonia
  4. No concreto, não no etéreo

Eu, Sansão

Juízes 13:1-16:31

Este não é um artigo triunfalista.

Ele é muito humano, existencial, duro, pesado… realista.

Se gosta de finais felizes, hoje, este não é seu lugar.

Todos nós conhecemos a história de Sansão. Ela é tão necessária quanto a de José no Egito.

Mas esqueçamos todo o material introdutório.

Foquemos no último dia de vida dele. Deixemos voar um pouco a imaginação. Sem sentir a passagem, ela é apenas informação.

Depois

A última lembrança que ele tinha, estava bem gravada.

Não que ele tivesse alguma retina na qual gravar mais nada. Ele, um dos maiores juízes de Israel, tinha sido brutalmente cegado pelos seus inimigos.

Ele ainda ouvia os gritos de alegria dos filisteus quando isso ocorrera. Lembrava como, impotente, fora arrastado por quatro homens não muito fortes. A fronte lhe fora amarrada ao tronco. E o carrasco lhe extirpara brutalmente com uma tenaz incandescente os olhos de suas órbitas.

E logo veio o silêncio.

Não porque a turba entardecida não relinchasse vitoriosa após anos de serem vencidos por Sansão. Mas porque a dor que ele sentia era tão intensa que nenhum outro sentido conseguia operar bem.

Os anos de vitórias passaram por sua mente. As batalhas vencidas. O ter sido uma pessoa de coragem e respeito entre seu povo. O fato de sentir a presença de seu Criador no seu corpo de uma forma completamente distinta de qualquer outro humano. Os cuidados que os pais lhe dispensaram. Os afetos aos que fora exposto. As expectativas desde antes do ventre.

Tudo se perdera.

Nada agora fazia mais sentido.

Ele pensava: O que será que estou moendo? Trigo para os grandes? Cevada para os mais pobres? E qual seria a diferença?

O colocaram a fazer o trabalho de um animal de carga: moer, esmagar, triturar.

Desde o amanhecer ao entardecer o cada vez mais forte Sansão fazia apenas uma coisa: girar e girar. Empurrar e empurrar. Moer e moer.

Aquele que antes causava medo e pavor em qualquer guerreiro filisteu, agora era motivo de chacota para as crianças. Jogavam-lhe pedras. Riam dele. Cuspiam na face dele.

O importante era que o povo filisteu, dos mais ternos aos mais duros, soubesse que o grande juiz de Israel tinha sido derrotado.

O que mais dava se fosse cevada para os pobres ou trigo para os ricos!?

A situação se repetiria da mesma forma.

Dia após dia. Semana após semana. Lembrança após lembrança.

A pedra girava.

O pó subia.

O corpo obedecia.

Empurrar. Respirar. Girar.

Empurrar. Respirar. Girar.

E, enquanto a pedra voltava ao mesmo lugar, Sansão também voltava.

Voltava à mulher de Timna, àquela primeira mulher filisteia que seus olhos escolheram antes que seu espírito pudesse dizer não. Voltava ao enigma, à festa, à ira, às raposas incendiando os campos. Voltava às portas de Gaza carregadas nos ombros como se ninguém pudesse detê-lo.

Voltava ao corpo morto do leão e ao mel retirado de dentro dele. Àquilo que tocou, embora não devesse tocar. Àquilo que comeu, embora sua consagração exigisse separação.

Voltava à vingança. Sempre à vingança.

Um golpe exigia outro. Uma humilhação exigia uma resposta. Um inimigo derrubado nunca era suficiente.

E voltava a ela…

Voltava a Dalila. À insistência dela. À sua vaidade. À sua certeza de que poderia brincar com o perigo mais uma vez. E outra. E outra.

Até que, um dia, não restou mais força para brincar.

O pior era que ele sabia…

E o que ele sabia, era mais pesado que a pedra que ele girava dia após dia. Pois não o carregava do lado de fora, senão do lado de dentro.

Não era Dalila.

Não eram os filisteus.

Não eram seus pais.

Não era sua primeira mulher.

Não era seu povo.

Eles haviam participado. Tinham ferido, enganado, pressionado, traído. Mas nenhum deles havia colocado Sansão naquela prisão.

Ele sabia onde tudo começara.

Não no dia em que Dalila cortou seu cabelo.

Não no dia em que os filisteus o prenderam.

Não no dia em que lhe furaram os olhos.

Começara muito antes — cada vez que confundira força com invulnerabilidade; cada vez que confundira desejo com direito; cada vez que usara o chamado de Deus como se fosse propriedade sua.

Sansão não havia caído de uma só vez.

Havia descido degrau por degrau, chamando cada degrau de escolha.

Agora, cego, girava a pedra.

E a pedra não discutia com ele.

Não o seduzia.

Não o traía.

Não fugia.

Apenas voltava ao mesmo lugar.

Há um momento em que a vida deixa de ser aquilo que ainda podemos fazer e começa a ser também aquilo que já não podemos desfazer.

Sansão deve ter conhecido esse momento quando abriu os olhos e não viu nada.

Não havia mais juventude, força, liberdade. Não havia como voltar até Timna, apagar Gaza, retirar da boca palavras ditas, desfazer escolhas, recolocar os olhos nas órbitas. Havia apenas o som das correntes e o moinho girando. Uma volta. Outra volta. Outra.

Tenho pensado que algumas formas de arrependimento começam exatamente aí: quando finalmente entendemos que Deus pode nos perdoar sem nos devolver a vida que desperdiçamos.

O que fiz com o que recebi?

É possível culpar Dalila por muita coisa. Mas Dalila chegou tarde à história.

Antes dela já havia um homem acostumado a desejar e tomar, avançar e depois lidar com as consequências. Um homem separado desde o ventre, visitado pelo Espírito, extraordinariamente dotado — e incapaz de governar a si mesmo.

Essa é a parte que me assusta.

Porque eu recebi muito.

E não sei outra maneira honesta de dizer isto: desperdicei muito.

Chega um momento em que explicar a infância, as feridas, as pessoas que nos traíram e aquelas que nos abandonaram começa a parecer uma tentativa desesperada de encontrar alguém que divida conosco uma culpa que é nossa.

Davi pôde chorar, mas o menino morreu. Moisés pôde contemplar a terra, mas não entrou nela. Pedro saiu para a noite e chorou amargamente. Há coisas que o perdão de Deus cura diante da eternidade sem apagar da história.

O moinho

Talvez seja por isso que me incomode tanto certo cristianismo incapaz de permanecer diante da ruína.

Tudo precisa terminar bem. Deus vai restituir. Deus vai devolver. Você receberá sete vezes mais.

Talvez.

Mas Sansão não recebeu os olhos de volta.

Há perdas que não são ataques do Diabo. São consequências. Há portas que Deus talvez não reabra. Há anos que nenhuma oração recuperará. E chamar isso de falta de fé seria apenas acrescentar mentira ao pecado.

O moinho continua girando.

E talvez uma das experiências mais solitárias da existência seja perceber que quem está empurrando aquela pedra somos nós mesmos.

“Lembra-te de mim”

Então sobra uma oração.

Não: “Devolve-me tudo”.

Não: “Faz com que seja como antes”.

Sansão já sabia que não existia mais “antes”.

Sobra então uma pequena frase. Breve. Dura. Direta:

“Senhor Deus, lembra-te de mim.” (Juízes 16:28)

Talvez esta seja a oração possível quando já não temos argumentos.

Eu pequei.

Eu desperdicei.

Eu feri.

Eu não fui fiel ao que recebi.

E agora?

Não sei.

Essa talvez seja a resposta mais verdadeira que consigo oferecer.

Não sei o que Deus ainda fará com os restos da minha história. Não sei o que será devolvido e o que permanecerá perdido. Não sei se há novamente um púlpito, uma casa, um abraço, um filho, um amigo, ou somente algumas colunas diante de mim.

Sei apenas que ontem não existe mais.

Amanhã ainda não me foi dado.

E, por alguma misericórdia que não consigo explicar, ainda existe hoje.

Creio, mas não congrego

Quando não congregar parece fazer sentido

Ao longo da vida conheci várias pessoas e vários casais que decidiram não congregar. Tinham fé em Jesus, mas por diversas razões não congregavam. Alguns, inclusive, tinham vida devocional, professavam sua fé em Jesus para os outros, mas não congregavam. Ocasionalmente, visitavam uma ou outra igreja local ou distante, mas não mantinham comunhão com congregação nenhuma.

As razões são as mais variadas. E muitas delas bem compreensíveis.

Havia aqueles que tinham sido machucados profundamente e de forma injusta por um pastor, um diácono, ou um grupo de pessoas da congregação à que pertencia. Isso me faz lembrar do Salmos 55:12-14 que podemos resumir em quem convive comigo não é confiável. Outros textos nesse sentido podem ser Ezequiel 34:1-6 e João 10:11-13

Para outros, a liturgia parou de fazer sentido. Não mais comunicava alguma coisa significativa para sua vivencia.

Também lembro de casos em que sentiam não mais se encaixar em lugar nenhum. Iam aqui e acolá e sempre se sentiam como um peixe fora d’agua.

Lembro de outros que simplesmente se esgotaram por tanto conflito interno e desgaste.

E também conheço caso em que sucumbiram aos argumentos de amigos, famílias, ideias vindas de fora em que ser cristão era motivo de chacota e ridicularização.

E poderíamos citar outros casos como períodos de transição, doença, mudanças e outras circunstâncias que podem afastar alguém da comunidade.

Penso, então, que é perfeitamente compreensível alguém não frequentar uma congregação durante algum tempo pelas mais variadas razões.

O problema começa quando uma circunstância se transforma em convicção: “Eu creio em Cristo, mas não preciso pertencer ao seu povo“

Às vezes é preciso sair daquela igreja

Nem todo afastamento da igreja institucional significa afastamento do Cristo. Há pastores que ferem, comunidades adoecidas e ambientes nos quais permanecer pode significar continuar sendo submetido a manipulação ou violência emocional e/ou espiritual.

Me resulta especialmente Ezequiel 34 neste sentido.

Se isto fosse uma pregação, caberiam várias divisões: 1-6; 7-10; 11-16; 17-19; 20-24 e 25-31.

Para os efeitos deste artigo, apenas consideraremos duas partes: 1-10 e 17-31.

Na segunda (Ezequiel 34:17-31) ela fala da responsabilidade da própria ovelha e o profeta diz que o próprio Deus irá “julgar entre uma e outra” e “eu mesmo julgarei entre ovelhas gordas e ovelhas magras”. Ou seja, parte da congregação é responsável pela fraqueza de outra parte.

Todavia, me interessa a primeira parte (Ezequiel 34:1-10). Os pastores estavam se aparentando a si mesmos enquanto as ovelhas se dispersavam. E, pior, essa dispersão a afastava não apenas da congregação, mas do próprio Criador.

Diz Ezequiel 34:6 “As minhas ovelhas andam desgarradas por todos os montes e por todo elevado outeiro”. Para o leitor ocasional isso significa que elas saíram a procurar outras pastagens, ou outros locais. E – se bem isso é verdade – quando vemos na Bíblia menção a lugares elevados, é uma referência indireta aos lugares de culto distintos dos locais de adoração a Deus.

Veja Números 33:51-52 em que Deus ordena destruir implementos religiosos cananeus “entre eles os lugares altos”.

Ou do rei mais sábio que a Bíblia registra e sucumbiu aos desejos terrenos. 2Reis 11:7 nos conta que Salomão construiu “lugares altos” para Quemos e Moloque, deuses estrangeiros.

Pessoalmente conheço pessoas que – por razões perfeitamente compreensíveis – abandonaram a congregação, mas depois se associaram com formas de crenças contrárias à fé cristã alicerçada na Bíblia. É disso que os “lugares altos” está falando.

Mas o que torna o texto veemente na sua linha argumentativa, é que a razão disso tudo é que os pastores cuidam apenas de si mesmos. v4-5: “Comeis a gordura, vesti-vos de lã e degolais o cevado; mas não aparentais as ovelhas. A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não buscastes; mas dominais sobre elas com rigor e dureza**”

Isso é violencia pastoral. Abuso. Violência. Manipulação.

Então, sair de uma congregação, pode ser necessário; concluir que não precisamos mais de uma comunidade é outra coisa.

A ferida explica o isolamento. A nova convicção explica a auto-proteção.

Se você é um pastor que dispersa ovelhas, volte ao seu chamado original (se é que ele é real). Dê uma olhada em Atos 20:28-30

O isolamento pode deixar de ser proteção e se transformar em autonomia.

Estar sozinho traz certas vantagens emocionais imediatas. Uma delas é que ninguém me contraria. Há uma certa tranquilidade em perceber que não há mais ninguém olhando para mim, se metendo na minha vida, perguntando particularidades, corrigindo algumas atitudes e crenças.

Também posso – com todos os recursos modernos – fazer um próprio cardápio de pregadores que gosto já que falam o que gosto. (2Timóteo 4:4) Eu consigo escolher a dieta espiritual a ser seguida e até ter uma definição própria de quais pecados considero importantes.

Monto, então uma “igreja” particular pela internet em que todos os “pastores” dizem exatamente aquilo que gosto de ouvir.

Atingi a paz. Alcancei o Nirvana. Minha alma não tem mais do que se preocupar.

Mas o Novo Testamento apresenta uma fé na qual não apenas conheço os outros (como na internet) senão que também sou conhecido. Nessa fé, servimos e somos servidos; corrigimos e somos corrigidos; suportamos e somos suportados.

Nos tempos que correm, esse tipo de lugar é muito desconfortável. E não precisa abandonar fisicamente a congregação para você não estar – de fato – em comunhão. Bem é possível entrar e sair de todos os cultos durante o ano e não conhecer nem ser conhecido por ninguém. A sociedade – cada vez mais individualista – nos ensina e incentiva a cada vez mais nos isolarmos e chama a isso “vida plena”, “empoderamento”, etc.

Por outro lado, erra quem pensa que isso tudo se deve só à modernidade.

A epístola aos Hebreus, escrita durante a segunda geração de cristãos estando em grande parte ainda vinculados com a religião judaica que era uma religião lícita para o império romano, levanta um ponto especialmente desconfortável: existem pessoas que velam por nós e diante das quais existe alguma forma de submissão (Hebreus 13:7, 17)

Evidentemente que isso não concede autoridade absoluta a nenhum pastor. A liberdade de consciência, crença e prática continua existindo porque somos plenamente responsáveis pelos nossos atos. Mesmo por aqueles que são reação a uma violação explicita da nossa pessoa.

Mas também não permite uma fé completamente autônoma. E esse é o ponto que tanto dói para quem – justificadamente – decidiu não se congregar mais.

Seguir Cristo significa identificar-se com seu povo.

A carta aos Hebreus resulta especialmente interessante neste contexto.

Os primeiros a crer em Jesus como Messias (Cristo) foram judeus. Eles não se viam como um projeto separado do povo judeu e sim como continuidade. Ou seja, participar do povo escolhido crendo num Messias que tinha sido prometido desde a antiguidade encaixava muito bem no Messias agora revelado e comprovadamente ressurrecto por muitas testemunhas.

Por outro lado, a religião judia – como já dizemos anteriormente – era uma religião lícita dentro do Império Romano. E haviam algumas características especiais que valem destacar, era a única monoteista e havia uma forma de convênio entre os romanos e os judeus em que aqueles toleravam a religião deles, contanto se fizessem orações pelo imperador. Isso tudo em uma região (a parte oriental do império) em que já haviam províncias que pediram permissão (29aC) para construir templos ligados ao culto ao governante. Essa prática iria se consolidar em todo o império para o final do primeiro século.

A epístola aos Hebreus, é escrita pelo menos no final do primeiro século. O próprio autor declara que tanto ele quanto os leitores não são testemunhas presenciais do ministério, morte e ressurreição de Jesus. (Hebreus 2:1 “importa que nos apeguemos … às verdades ouvidas”. Hebreus 4:2 “também a nós foram anunciadas as boas-novas”) Isto é, são pelo menos segunda geração de crentes em Jesus como Cristo (Messias)

Estes judeus crentes em Jesus não queriam se separar da comunhão judaica. E isso, no tempo em que viviam, fazia muito sentido. Arrolados à religião judaica e sendo tolerados pelos próprios judeus, se tornavam intocáveis pelo Império Romano.

Já se se identificassem como seguidores de Jesus como ser divino, e portanto fora da religião judaica, podiam ser enquadrados como revoltosos, pagãos e toda sorte de castigos pudendo chegar até a morte. É por isso que o autor diz em Hebreus 12:4,5 “Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue e estais esquecidos da exortação…

Se nós traçarmos uma linha do tempo as primeiras perseguições aos cristãos se remontam ao ano 70dC em que – depois da guerra entre judeus e romanos – as tensões entre judeus e cristãos aumentam e isso frequentemente repercute também nas comunidades cristãs. Depois disso, o movimento cristão passa a ser percebido com mais frequência como separado do judaísmo o que afeta como as autoridades locais tratavam os grupos.

E a coisa piora com Dominicano (81-96). É comum encontrar referências a repressões sob o domínio dele. Há tradição antiga como a de Eusébio associando o período a sofrimento e exílio de cristãos.

É mais ou menos aqui que a epístola aos Hebreus foi escrita. As coisas estavam ficando tensas para os cristãos. E estes judeus que tinham crido, estavam abandonado a congregação (Hebreus 10:24-25) e isso o faziam buscando evitar a morte (Hebreus 12:1,2) o que é uma razão fartamente compreensível.

Todo cristão (judeu ou não) sabia que as coisas estavam ficando pior. Para o tempo de Trajano (98-117) haviam já perseguições judiciais e políticas de procedimento bem estabelecidas. Ainda não há matança em massa como coisa disseminada, mas sim podemos afirmar que para o começo do segundo século já havia repressão real por decisão imperial implementada nas províncias.

Então, os destinatários da carta, sabiam claramente o custo de serem publicamente associados à fé e à comunidade cristã. Alguns cristãos haviam sofrido, perdido bens e sido expostos publicamente. O que hoje chamaríamos de cancelamento mas em versão mais bruta.

Nesse contexto, o “não deixemos de congregar-nos” de Hebreus 10:25 significa muitíssimo mais do que comparecer regularmente ao culto. É identificação comunitária pública.

Alguns poderiam ver aqui uma convocação ao martírio coletivo. Mas nada mais longe da realidade. Como cristãos amamos a vida. Mas a verdade que o evangelho revela é muito maior do que qualquer esquema religioso social. E justamente por isso não pode entrar em relações de compromisso ou de conveniência com qualquer outro tipo de manifestação espiritual.

Um paralelo cuidadoso e contemporâneo pode ser estabelecido.

Hoje é socialmente confortável dizer: “Tenho minha espiritualidade” Avançando um pouco mais, alguém poderia dizer “eu sigo Jesus” ou até “eu sigo Jesus com minhas próprias convicções”

Mais difícil é dizer: “Esses cristãos são o meu povo. Sim, eu pertenço a uma comunidade concreta e imperfeita”. Isso sim requer coragem e plena convicção para além do status quo.

Cristo não chama apenas indivíduos. Ele incorpora pessoas a um corpo. O seu corpo do qual ele é a cabeça. (Veja Hebreus 2:12 e 12:23; Efésios 1:22-23; Colossenses 1:18; 1Coríntios 12:12-27)

Congregação não é frequência; é vida compartilhada

A solução para “creio, mas não congrego” não é “então vá ao culto aos domingos”.

Há uma superficialidade e falta de convívio tremendo em apenas participar do culto. Alguém pode fazer isso sem faltar nunca durante quarenta anos e nem por isso fazer parte da congregação. Continuar praticamente sozinho. A única variante da expressão de “creio, mas não congrego” é que a pessoa crê, mas – de fato – não faz parte da congregação.

A minha avó materna morava na capital e com minha mãe íamos de vez em quando visita-la. Na rua perpendicular a meio quarteirão, havia uma escola de karatê. Eu devia ter uns 9 a 11 anos. Gostava muito de ir e ver eles praticarem essa arte marcial. Os gritos. Os movimentos sincronizados. O kimono. O tatami. O ambiente. O cheiro. Tudo ficou gravado na minha memória. Anos depois, quando eu tinha 17 anos, eu dava aulas de programação numa cidade vizinha à nossa. Tínhamos um intervalo de vinte minutos entre uma turma e a outra. Eu corria para ver uma de duas coisas: treino de karatê ou jogo de bochas.

Demais está dizer que não aprendi karatê nem a jogar bochas.

Ninguém fica fisicamente saudável por entrar na academia uma vez por semana, vestir a roupa adequada para fazer exercícios, levar um litro de água e sentar-se durante uma hora olhando outras pessoas se exercitarem e depois voltar para casa. A saúde exige uma vida na qual determinadas práticas se tornam habituais. E isso é difícil.

A comunidade cristã funciona de forma semelhante só que muito mais profunda.

Mas primeiro me permita apresentar umas ideias sobre a palavra comunhão. Essa palavra de origem latina (communio) deriva de com (isto é “juntamente”) e munis (ou seja, “encargo” ou “obrigação”) e se usa no sentido de “participação comum”, “ter algo em comum”. Uma forma fácil de lembrar o significado seria “comum união” ou “comum encargo”

Aqueles que cremos em Jesus como Deus encarnado e Messias (Cristo) compartilhamos muitas coisas. Óbvio que – pela natureza desta fé – ela exclui qualquer outro tipo de fé semelhante, parecida ou análoga. Os cristãos comungamos da fé exclusiva em Jesus como o único e suficiente salvador. Os cristãos (independente de rótulo institucional ou tradição cristã) fazemos parte de um mesmo corpo e temos um único mediador (1Timóteo 2:5; Efésios 4:4-6; 1 Coríntios 12:12-27)

Não existe forma possível de praticar comunhão sozinho. Vale apenas para evitar as agruras dos olhares de desagrado dos que não creem.

Oramos juntos. Carregamos cargas. Repartimos. Confessamos. Ensinamos. Somos corrigidos. Aprendemos. Perdoamos. Celebramos. Choramos. Servimos. Somos conhecidos.

Coisas estas que a sociedade sempre tem ensinado não serem oportunas para o indivíduo.

A salvação, logo, não é uma coisa apenas individual por mais que por aí comece. Ela é – sobretudo – comunitária.

É significativo que boa parte das instruções do Novo Testamento contenha a expressão “uns aos outros. Não há como pratica-las sozinho.

(Atos 2:42-47; Gálatas 6:2; Tiago 5:16)

Talvez a pergunta esteja errada

Ao perguntarmos se um cristão precisa ir à igreja, pode ser que tenhamos reduzido demais a questão. Como se tivéssemos colocado uma lupa sobre apenas uma parte do assunto.

Pode haver momentos em que não conseguimos congregar. Pode haver igrejas das quais nos é necessário sair. Pode haver feridas que levam tempo para cicatrizar. E nenhuma dessas situações deve ser tratada superficialmente ou com indiferença.

Todavia, existe uma outra pergunta: “É possível seguir por muito tempo aquele que nos fez parte de um corpo recusando-nos deliberadamente a viver como parte desse corpo?

A vida cristã relatada no Novo Testamento não parece conhecer uma fé permanentemente solitária.

Não porque Deus esteja fazendo controle de presença aos domingos, mas porque há dimensões inteiras da vida cristã que simplesmente não existem quando estamos sozinhos.

Não consigo carregar a carga “uns dos outros” sozinho.

Não consigo perdoar “uns aos outros” sozinho.

Não consigo confessar “uns aos outros” sozinho.

Nem consigo descobrir facilmente onde estou errado se todas as vozes que escuto foram escolhidas por mim.

Talvez congregar não seja simplesmente uma obrigação da vida cristã.

Talvez seja uma das maneiras pelas quais Cristo mantém viva e saudável a fé que dizemos ter nele.

Medo de crer

Crer é permitir que a palavra de Cristo tenha mais autoridade sobre nós do que aquilo que aprendemos a considerar verdadeiro, seguro e possível.

Túlio era um empregado bancário exemplar. Os últimos 20 anos os passou de agência em agência até que estabilizou naquela cidade. Formou família, teve filhos, ele e sua esposa criavam seus filhos de perto e com zelo. Criado numa família cristã de tradição evangélica frequentava a igreja local com a sua família. Domingos, Terças e sábados estavam presentes. Contribuía financeiramente, era diácono ativo. Internamente era um homem equilibrado. Sem dívidas. De boa reputação. Só tinha um medo danado de crer. Mas nem ele estava ciente disso.

O problema não é simplesmente acreditar.

Podemos acreditar em Jesus sem permitir que ele mexa profundamente naquilo em que já acreditávamos antes dele. Chegamos à fé carregando uma interpretação do mundo formada pela família, cultura, religião, experiência política. O problema começa quando Jesus contradiz algumas dessas certezas. Nesse momento descobrimos se cremos nele ou apenas conseguimos acomodá-lo dentro do que já acreditamos.

Pedro sobre as águas – quando a experiência diz que não pode ser.

O texto de Mateus 14:22-33 é bem conhecido. Em resumo: os discípulos estão num pequeno barco no meio do mar sob vento forte. Jesus se aproxima. Os discípulos o veem andando sobre as águas. Pedro pede para provar que é ele andando sobre as águas. Jesus o convida. Pedro vai. Caminha. Se assusta. Começa a afundar. Jesus lhe estende a mão e lhe disse “Homem de pequena fé, por que duvidaste?”

Pedro não é qualquer pessoa. Ele é um homem de meia idade que tinha por oficio pescador. Conhecia o mar. Ele tinha na sua experiência sobradas razões para permanecer no barco. Sabia claramente que não era possível para um homem andar sobre as águas.

Talvez exatamente por isso, ele pede para poder caminhar até Jesus como prova de que ele era quem aparentava – à distância – ser.

E talvez pelo mesmo motivo, Jesus não faz nenhum milagre, apenas fala “Vem”.

Uma única palavra.

Por alguns instantes, Pedro permite que essa palavra especifica de Jesus tenha mais peso que sua experiência. Depois olha novamente para aquilo que ele conhecia de longa data: vento, água, perigo. Teve medo. Começou a afundar.

Claro, como todo texto ele se mostra capaz de segurar uma reflexão alegórica. Poderíamos dizer que a água e o vento são os problemas e que o caminho sobre o mar é o caminho que estamos trilhando, isto é, nossa vida. E se bem isso soa muito bonito – e nós vamos acabar tirando uma lição moral ou espiritual disto, o relato é histórico e como tal deve ser tratado.

O fato é que o vento não começou quando Pedro teve medo. O vento, a água, as ondas, o barco, Jesus ao longe, os outros discípulos no barco. Tudo estava lá antes. Isso estava assim quando ele pulou a borda do barquinho e começou a andar sobre as águas até Jesus.

Então o que mudou? O conhecimento prévio entrou na mente dele e ele teve medo.

O medo tem essa particularidade de querer nos proteger de alguma coisa. Dizem que é melhor um covarde vivo do que um herói morto. (A Bíblia diz que “é melhor um cão vivo do que um leão morto” – Eclesiastes 9:4)

O conhecimento anterior à caminhada estava errado? Não. De fato foram esses dados os que o tinham ajudado muito na tarefa no mar, o qual demanda um grande respeito. Então a crença dele nessas experiências anteriores (pessoais ou não) não estava errada.

Dessa forma, há momentos em que crer significa admitir que nossa experiência é verdadeira, mas não tem a palavra final.

Nicodemos – Quando a religião não tem categoria para o que Deus está fazendo

Um outro texto bem conhecido e interessante para nosso ponto de hoje é João 3:1-15

“Bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus”. Essa foi a frase introdutória de Nicodemos naquela noite.

Nicodemos não é um incrédulo ignorante. É justamente seu conhecimento religioso que torna a conversa interessante. Eram dois mestres judeus sentados numa noite fresca conversando sobre suas crenças. Um diálogo de igual a igual em certo sentido. E seus conhecimentos não estavam errados. Jesus não os descarta. Só que ele vê uma sombra nisso tudo. Alguma coisa querendo aparecer atrás das palavras dele que não chegaram a cristalizar na primeira colocação de Nicodemos.

Jesus (na sua versão “Corte rápido Tramontina”) não perde a oportunidade e lhe propõe um dilema existencial que não pode ser respondido pela religião de Nicodemos: “aquele que não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”

Jesus fala de nascer de novo e Nicodemos tenta encaixar aquilo nas categorias que já possui: “Como pode um homem nascer, sendo velho?”

A pergunta de Nicodemos muito mais do que óbvia. O era naquela época e agora também. E a resposta – dentro do plano físico – continua sendo óbvia.

Todavia, da fonte de males que nos acometem, o corpo é o mais virtuoso. Já as aflições existenciais radicadas na alma precisam de um outro tipo de resposta.

Então, pare um pouco e analise: O dilema de Nicodemos naquela noite, não se assemelha ao nosso? Ele estava tentando compreender a novidade de Deus usando somente categorias religiosas que trouxe consigo. A bagagem.

Logo, às vezes nossa dificuldade para crer não vem da falta de religião, mas da dificuldade de admitir que Deus seja maior que nossa compreensão religiosa dele.

Pedro e os animais impuros – Quando Deus contradiz aquilo que aprendemos ser fidelidade

Este outro texto também é bem conhecido. Talvez não tanto quanto os outros, mas acho que se encaixa naqueles textos que merecem um segundo olhar (e qual não?) Atos 10:9-20

Diferente do Pedro de Mateus 14, aqui nos encontramos um Pedro diferente. Particularmente forte na fé. Já é apóstolo, já confessou a Cristo. Já recebeu o Espírito Santo. Já pregou corajosamente a Jesus. Já foi encarcerado. Já disse aquela frase célebre “é necessário obedecer a Deus antes que aos homens”.

Contudo, havia um pequeno pedaço de seu íntimo que ainda precisava ser iluminado. Ele precisa ter algumas crenças desmontadas.

Uma ideia que muito me perturbou durante anos é a transformação plena e instantânea de uma pessoa quando se converte. Todo meu conhecimento bíblico me levava a concluir que a transformação na hora da conversão é profunda, radical e duradoura. Isso, inevitavelmente, me colocava outras dúvidas no coração: quando me converti? será que de fato eu sou convertido? Minhas crenças precisavam ser desmontadas.

Então, quando Pedro ouve “levanta-te, mata e come” a resposta mais direta, correta, simples e natural que surge da sua cabeça está aliada ao conhecimento bíblico e à pratica de uma vida: “Nunca comi coisa alguma comum e imunda”.

Assim como aconteceu com a traição e na sua restauração, Pedro precisou de três visões redundantes (que nem as três negações ou as três perguntas sobre o amor) e uma voz clara e forte que colocava fim a uma época na vida dele (que nem o galo e que nem Jesus na praia), disse – nas últimas duas vezes – afirmava: “Não faças tu comum ao que Deus purificou”

Pedro, assim como Paulo perseguindo a igreja. Era firme nas suas convicções. Era fiel. Isso é fé hebraica na prática: fidelidade que torna quem crê parte do corpo. (“o justo pela sua fé [fidelidade] viverá” Habacuque 2:4)

Nota aos que já conhecem o texto: O grego “pistis” não consegue transportar todo o conceito do hebraico “emunāh” mesmo chegando muito perto. A palavra hebraica transmite fé, fidelidade ou firmeza/constância. Já “pistis” carrega mais fé no sentido de confiança e pode sim carregar algo de fidelidade ou aderência. Todavia, não esgota o termo hebraico, mesmo sendo o melhor termo no grego para expressar o hebraico sem recorrer a neologismos. O termo grego traz a ideia de um ato ou atitude de crer ao passo que o hebraico arrasta o conceito de firmeza, constância confiável. Logo, Romanos 1:17 – para Lutero e todo o mundo protestante e depois reformado e por extensão fundamentalistas e evangélicos – é lido como “O justo pela fé , viverá” (repare na vírgula. Com isso quero representar que em Paulo podemos entender que a pessoa chega à justiça a partir (“ἐκ”) da fé) ao ponto que Habacuque poderia ser lido “O justo, pela fé (fidelidade, constância) viverá” o que traz consequências profundas nos conceitos de justificação, redenção, salvação, etc. Aí surge o problema das traduções ao português. O que fazer? Ela é fiel ao texto literal original ou segue a linha interpretativa por entender que Paulo (de fé hebraica convertido a Jesus) escrevendo em grego segue a septuaginta? Eu sou da ideia que deve permanecer fiel ao texto original e cabe a nós – por meio da exegese e a hermenêutica – mostrar evidências claras dessa distinção em lugar de adotar a interpretação dos reformadores como sendo verdade absoluta. Mas isso tudo merece um outro artigo. Apenas baste dizer que salvação, justificação e redenção dependem de fé e se estendem à fé. Fora dela (e exclusivamente ela), nada feito.

Voltemos ao assunto de Pedro e sua visão.

Como estávamos dizendo: Pedro (assim como Paulo) estava sendo fiel ao seu conhecimento bíblico. A Lei lhe impedia comer coisas impuras, e ele era fiel nisso.

Mas as coisas tinham mudado. E os discípulos (e muitos de nós) não entendiam cabalmente do que se tratava isso tudo ao final.

Então, algumas das crenças que Deus precisa corrigir em nós são justamente aquelas que aprendemos a defender em nome dele.

Pedro repreendendo Jesus – Quando Cristo ameaça o Messias que queremos.

Leia o texto de Mateus 16:13-23. Eu sei que é conhecido. Mas com tudo o que você leu até aqui, há algumas coisas que devem saltar aos seus olhos agora mesmo que não seja o que eu vou dizer a continuação.

Este texto é muito íntimo, pessoal. Está o grupo pequeno de discípulos e Jesus. Acabam de chegar a Cesareia de Filipe. E o mestre judeu, seguindo a tradição dialética dos rabinos, inicia com uma pergunta: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” Ou seja o que as pessoas pensam ao respeito da minha pessoa? Quem sou eu na ideia deles?.

É óbvio que Jesus sabia o que as pessoas pensavam. Ele já mostrara isso em repetidas ocasiões por meio de diálogos, discursos e confrontação direta. Os seus discípulos sabiam que ele sabia. Logo, a pergunta apontava em outra direção. Uma mais íntima talvez.

E as respostas vieram, espontânea e estrepitosamente. “João o Batista”, “Elias”, “Jeremias”, “ou qualquer um dos profetas”.

Chegaram ao final das opções que conheciam e eu imagino que se fez um silêncio. Aquele que antecede a pergunta de verdade. Posso imaginar Jesus olhando a todos eles como quem está pronto a apresentar seu ponto mais sensível. Logo ele falou.

“E vós, quem dizeis que eu sou?“

Imagino mais silêncio. No olhar de Jesus a sinceridade de quem com a pergunta procura ensinar algo mais. E Pedro quebra o silêncio: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo“

E eu, adivinha, imagino mais silêncio. Na cabeça dos outros judeus discípulos com certeza haviam pensamentos do tipo: “Enlouqueceu”. “É. O calor do deserto fritou os miolos dele. Chegou aqui com vegetação abundante e desandou de vez”. “Meu… ele está blasfemando”. “Como assim um indivíduo ser filho de YHWH?”

Jesus se volta para ele e lhe diz: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus.“

Para os que gostam de estudar mais: a teologia natural – aquela que pretende se sustentar apenas da revelação não bíblica e que é obtida por meio dos sentidos – consegue chegar até a conclusão de que, tendo em vista o que a natureza revela, deve existir um deus criador. Paulo parece apontar nessa direção em Romanos 1:19-23ss. Já para entendê-lo como criador único e pessoal, é necessária a revelação especial: a Bíblia. Então, esse conhecimento geral, universal, ao alcance de qualquer indivíduo, serve – pela conduta que esse indivíduo tem depois – apenas para condená-lo. Já para abraçar a fé salvifica é necessária a revelação especial. (Cabe lembrar Romanos 2:12-15 e depois o vv16)

Voltando à declaração de Pedro, ela é tão grandiosa que é a divisora de águas do evangelho segundo São Mateus. Veja o início do 16:21: “Desde então começou Jesus…“

Algo havia mudado. Algo tinha transformado profundamente o ministério de Jesus. De terem estado pelo menos dois anos em um platô bem conhecido, agora o mestre estava resoluto em ir para Jerusalém e ele sabia claramente o que o esperava em Jerusalém.

A mudança foi muito abrupta. Em especial para Pedro. Pedro amava Jesus – assim como os outros com exceção de Judas Iscariotes que estava no grupo nessa ocasião também. Nesse amor instou Jesus a praticar o que hoje a psicologia chama de auto-cuidado. “Senhor, tem compaixão de ti”.

Não havia dúvidas que Pedro estava plenamente ciente de que o panorama que Jesus pintara, não era nada confortável e acabava em morte. A parte da ressurreição ninguém entendia direito do que se tratava por mais que os fariseus e outros tinham introduzido essa noção havia já duzentos anos.

A resposta de Jesus deve ter ressoado no local afastado em que Pedro e Jesus estavam: “Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens.“

Estupefacto deve ter ficado Pedro.

Há pouquinho Jesus tinha dito que ele era muitíssimo feliz porque o que falara tinha sido revelado pelo Pai que está nos céus. Agora, o que ele falara só manifestava conhecimento terreno das coisas. E Jesus o chamou de Adversário, Tentador, Acusador, Maligno

O que tinha acontecido?

Pedro aceitava que Jesus era o Messias (Cristo), mas rejeitava o que o próprio Messias tinha como missão e método.

Na ideia comum da época ao respeito do Messias se juntava tudo. O ungido por Deus para libertar o povo da opressão Romana e junto com isso as expectativas politico-militares ao redor dessa ideia de libertação.

É possível confessar corretamente o nome de Jesus e ainda tentar subordiná-lo ao mundo que gostaríamos que ele construísse.

Portanto, o medo de crer aparece quando queremos que Jesus confirme nossa visão de mundo, mas ele começa a julgá-la.

Conclusão

Quero voltar ao Pedro sobre as águas.

Vamos considerar a ideia de “sair do barco”

Não estamos falando de abandonar nossa família, tradição experiência, religião ou preferência política. Isso seria simplista demais. Essas coisas fazem parte da formação de quem somos e podem carregar muita verdade.

A questão é mais profunda, muito mais: nenhuma delas pode ocupar o lugar de Cristo

Pedro não descobriu que o vento era imaginário. Ele não estava na matrix e Neo veio a salvá-lo. O vento era real. O mar continuava perigoso. O barco era, humanamente, o local mais seguro para estar. E ele estava exatamente no lugar e na ação que queria: andar sobre as águas que nem Jesus.

O chamado era real.

Quem chamava era real.

Mas o medo, ou falta de fé como Jesus indica no versículo a seguir, se fez presente.

Todas suas crenças anteriores lhe passavam como um lastre. E o faziam afundar.

Seguir Jesus pode exigir que coloquemos os pés onde tudo aquilo que sempre soubemos dizia que não havia chão.

O tempo passa e vamos ficando velhos

Começo meu dia tomando essas pílulas. Ao final do dia, tenho mais quatro.

Tem uma música eternizada na voz da cantora argentina Mercedes Sosa que diz assim: “O tempo passa e vamos ficando velhos, e o amor não o reflito como ontem” (em tradução livre, que não consegue transmitir a ideia de “nos vamos poniendo viejos”).

O envelhecimento é uma experiência universal. Dizem que de nada temos segurança neste mundo a não ser da morte. Porém (como Spurgeon bem colocava) não há nada mais incerto do que a hora da morte. Então, se você está vivo (e não haveria outra forma de você estar lendo este artigo), o mais seguro é que você está envelhecendo e esse processo, se não interrompido por doença ou acidente, vai se prolongar alguns anos mais.

A velhice não chega de uma vez. Ela vai se instalando silenciosamente. De repente, vemos que não mais lembramos dos nomes. Que o corpo exige cuidado. Que os pais envelhecem e/ou morrem. Que alguns projetos deixam de ser sonhos e passam a ser lembranças.

O verdadeiro choque não é perder a juventude; é descobrir que o tempo já não parece infinito.

A juventude vive da ilusão da reversibilidade

Enquanto somos jovens, acreditamos que quase tudo pode ser perfeito. Como temos força, energia, vitalidade, o horizonte da vida parece largo e distante. E, pior ainda, reversível.

Pensamos que sempre haverá tempo para pedir perdão, reconstruir relacionamentos, mudar de profissão ou corrigir decisões. A maturidade revela que existem acontecimentos irreversíveis. O evangelho não promete devolver o passado; promete redimir pessoas que têm um passado. Redimir, simplificando, é comprar um escravo por um preço. Libertá-lo e levá-lo para um novo plano que, no caso de Jesus e a fé nele, significa o Reino. Aqui e agora. Outras palavras similares, mas que, embora não cheguem perto, servem para explicar o que estou querendo: Alforria, Emancipação. (Na emancipação/alforria que conhecemos, não foram criadas as condições sociais necessárias para que o emancipado conseguisse ter uma vida digna. Isso a redenção trata mais profundamente, e isso importa.)

A Bíblia não romantiza a velhice

Na realidade, a Bíblia não romantiza nada. Ela conta duas histórias de formas tocantes: a periférica, que é o relato de ações, decisões, observações, consequências das decisões — boas e ruins — e micro atos de redenção atingindo pessoas, famílias, povos. E também tem o relato principal, que é a redenção feita por Jesus na cruz, apontando para uma redenção até da criação. O importante aqui: Deus não abandona seus projetos.

Textos como Eclesiastes 12 descrevem com realismo a decadência do corpo. Salmo 90 ensina a contar os dias. João 21 mostra Jesus anunciando a Pedro a perda gradual da autonomia.

A Escritura honra os cabelos brancos, mas nunca trata a velhice como um prêmio automático nem como sinônimo de sabedoria. Baste ver o mundaréu de pessoas idosas carrancudas, raivosas, violentas, bravas com Deus e com o mundo, vivendo num inconformismo e ressentimento que cabem bem na adolescência, mas não no final da vida.

As mudanças na vida, pode sim ser de ordem violenta ou instantânea – um AVC, uma paralisia, uma traição, o trabalho que se perde e muda tudo, enfim a lista é longa – mas as mudanças sobre as quais temos algum tipo de poder são demoradas e dolorosas. Por isso que, geralmente, negamos a necessidade de ajuda ou a importância de ver que, fazendo do mesmo jeito que sempre fizemos, não conseguiremos obter resultados diferentes.

Essas mudanças requerem não apenas um alvo sonhado. Precisam se transformar em um plano bem estabelecido. Não uma coisa do tipo “Daqui pra frente tudo será diferente”. Esse refrão que se repete ano após ano em certa TV pública já mostra, logo em fevereiro ou março, que não é verdade.

Consequências permanecem. Condenação, não.

A Bíblia está cheia de pessoas que pecaram, obtiveram o perdão de Deus e tiveram que continuar a viver com as consequências do seu pecado. Talvez o exemplo mais claro seja o de Davi.

Há uma idade em que descobrimos que não somos mais definidos pelos nossos maiores acertos nem pelos nossos maiores fracassos. Somos definidos pela graça com que Deus continua escrevendo a história apesar deles.

A história de Davi mostra que Deus perdoa sem apagar todas as consequências. Há perdas que permanecem até o fim da vida. Davi não perdeu apenas o filho que teve com Bate-Seba — a gravidez dela foi justamente o que levou Davi a mandar Urias para a linha de frente — mas também enfrentou uma fratura de integridade e desdobramentos prolongados na casa real.

No episódio de Bate-Seba, após Davi pecar, a Bíblia diz que o SENHOR enviou Natã a Davi (2 Samuel 12). Natã confronta Davi com uma parábola e, depois, anuncia diretamente as consequências: que a espada não se afastaria da casa de Davi e que o filho morreria, e que isso aconteceria “porquanto” Davi agiu daquele modo (2 Samuel 12:1-14).

Mesmo com isso, Davi não perdeu o reinado, e não foi “desqualificado” como rei diante de Deus: ele continuou sendo um dos líderes do povo judeu e, apesar das consequências, permaneceu no propósito divino.

Acho que poucos conseguimos entender a atitude de Davi ao se levantar do jejum assim que o menino morreu e ir celebrar um banquete. Para o observador ocasional, isso soa a psicopatia, ou pelo menos a desinteresse. Geralmente o que se espera é que se faça luto após a morte. Ele não. Menos mal que temos a explicação bíblica. Por isso sugiro a leitura inteira do episódio.

O cristão idoso pode carregar cicatrizes profundas sem continuar vivendo como condenado. E isso é realmente libertador. Romanos 8 e 1 Coríntios 4 mostram que a palavra final sobre nossa vida pertence a Cristo, não à culpa nem aos aplausos.

O envelhecimento desmonta a ilusão de autossuficiência

A maior perda talvez não seja a força física, mas a autonomia. O corpo deixa de obedecer, a memória falha, outras pessoas passam a cuidar de nós, a privacidade e a independência deixam de ser um bem extremamente prezado e zelado para virar moeda de barganha com a manutenção da vida.

Descobrimos que nunca fomos realmente independentes; apenas conseguíamos esconder nossa dependência. Agora já não. A velhice se torna uma espécie de humildade compulsória.

Por exemplo, o modo como Jesus descreve o futuro de Pedro mostra que dependência nem sempre é escolhida: em vez de Pedro seguir o caminho que queria, haveria um tempo em que ele seria levado “para onde não queres”. O corpo — e, por extensão, a vontade — deixa de ser o centro do governo, e a vida passa a ser conduzida por um chamado que o ultrapassa. Assim, a fragilidade não aparece apenas como falha; ela vira lugar de comunhão com a graça e com a missão, porque o “eu” já não sustenta sozinho o peso do caminho.

A igreja local deveria ser o lugar onde a fragilidade encontra comunhão

À medida que a dependência cresce, torna-se ainda mais necessária uma comunidade capaz de acolher confissão, arrependimento, luto e limitações.


Não se engane, até o mais perdido dos pecadores precisa de confissão. Há um livro publicado recentemente sobre os franco-atiradores ocidentais em Sarajevo nos anos 1990. Tratarei disso num outro artigo.


Voltemos ao assunto do luto, confissões, limitações.

Em vez de acolher confissão, arrependimento, luto e limitações, muitas igrejas esperam que os mais velhos demonstrem estabilidade permanente. A comunhão dos santos deveria ser um bálsamo justamente quando já não há como voltar atrás.

E é nesse sentido que Maria, colocada sob os cuidados de João (João 19:26-27), é uma boa ilustração: ela é recebida, sustentada e amparada por alguém designado para não deixar a fragilidade isolada. Se até naquele momento, quando a vida de Jesus estava sendo levada, Maria não foi “largada”, mas entregue ao cuidado, então a igreja também deve aprender a fazer o mesmo com os seus idosos — não como favor, mas como expressão de amor que não depende da força de quem recebe.

Cristo dá sentido ao tempo que resta

A esperança cristã não consiste em recuperar a juventude nem em escapar da realidade. Consiste em descobrir que o tempo, mesmo quando nos tira as forças, oportunidades e autonomia, continua pertencendo a Deus. Cristo não elimina a finitude; ele impede que ela tenha a palavra final.

Agora, sem romantizar nem tornar doce a pílula do envelhecimento, vamos ancorar a reflexão em 2 Coríntios 4:16: “Ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia.” O corpo pode “deixar de obedecer”, mas a vida interior não fica sem governo: ela vai sendo rearrumada, dia após dia.

E o mesmo tom pastoral aparece em Isaías 46:4: “Até a vossa velhice eu sou o mesmo… eu vos sustentarei.” Deus não se afasta quando a capacidade diminui; Ele sustenta quando a dependência aumenta.

Por fim, o Salmo 71:9-18 coloca palavras num luto que é real: ele descreve envelhecimento e declínio, mas não cala o testemunho de amparo. A velhice pode doer — ainda assim, a mão que sustenta não muda.

O envelhecimento, porém, não é só finitude “gradual”; há dias em que chega uma espécie de noite interior. No Alzheimer, a memória se rompe, as palavras se perdem, e às vezes o cérebro já não parece alcançar os estímulos como antes. Nesses momentos, a promessa de Deus não é que a mente volte a funcionar, mas que Ele guarda em paz quem persevera.

Talvez chegue um dia em que nossa mente já não consiga permanecer firme nele. Não é mais uma capacidade cognitiva que a pessoa controla, é algo sustentado por amor: por oração, por presença, por leitura, por música, por cuidado paciente.

Quando chega o tempo em que “nem mais o cérebro parece responder”, ainda assim a comunhão pode acontecer por caminhos que atravessam o pensamento consciente: uma canção conhecida, o tom da voz, uma frase do evangelho dita com constância, uma oração sussurrada. Vi isso em pessoas que já não falavam por causa do Alzheimer, mas se comoviam — indo às lágrimas — quando o nome de Jesus era anunciado. Não era performance: era vida sustentada por graça, mesmo no limite.

Conclusão

Envelhecer é descobrir que existem decisões irreversíveis, perdas definitivas e limites que não podem ser negociados. É também perceber que nossa dignidade nunca esteve na força, na memória ou na capacidade de controlar a própria vida.

Há uma hora da vida em que já não podemos voltar atrás. Mas ainda podemos caminhar para a frente. Não porque o passado deixou de existir, nem porque as perdas deixaram de doer.

Caminhamos porque Cristo entrou na nossa história, inclusive naquela parte que nunca conseguiremos reescrever. O tempo continua passando. Continuaremos envelhecendo. Mas já não caminhamos rumo ao vazio. Caminhamos ao encontro daquele que prometeu: “Até a vossa velhice eu serei o mesmo… eu vos sustentarei.” (Isaías 46:4)