Entre o sambódromo e o trono: quem é o verdadeiro Senhor?

O Carnaval de 2026 no Rio homenageia um presidente em exercício com desfile completo e um boneco de 22 metros. Ao mesmo tempo, o país amarga novo recorde negativo no índice de corrupção e vê escândalos financeiros bilionários com conexões políticas suspeitas. Festa e frustração. Exaltação e desconfiança. O cenário é perfeito para uma pergunta antiga: quem é o nosso salvador?

N. T. Wright insiste que, no século I, declarar “Jesus é Senhor” não era frase devocional privada. Era afirmação pública e politicamente carregada. O título kyrios, Senhor, competia com “César é senhor”. Proclamar Jesus como Rei era subversivo porque relativizava todo poder imperial.

Hoje não temos César. Temos líderes carismáticos, promessas de redenção nacional, discursos de combate à pobreza ou à corrupção. Mudam os nomes, não a dinâmica. Jeremias 17.5 é brutalmente direto: “Maldito o homem que confia no homem e faz da carne o seu braço.” A Bíblia não proíbe ação política. Ela proíbe esperança messiânica mal direcionada.

O problema não é o Carnaval como expressão cultural. O problema é quando a celebração desliza para culto à personalidade. Quando o boneco gigante vira ícone de expectativa salvífica. Quando a narrativa política assume tons de redenção final. Salmo 146.3 corta o excesso: “Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação.”

Wright lembra que o Reino de Deus não é fuga do mundo. É o projeto de Deus de colocar o mundo nos trilhos por meio de Jesus. Isso inclui justiça econômica, cuidado com os pobres, denúncia da corrupção. Mas o Reino não se identifica plenamente com nenhum partido ou presidente. Confundir governo com Reino é idolatria sofisticada.

João 6.15 mostra Jesus recusando ser feito rei à força. O povo queria um messias útil, funcional, alinhado às expectativas nacionais. Ele se retira. Não aceita o trono moldado pela ansiedade popular. A cruz redefine o que é realeza.

Filipenses 3.20 declara: “Nossa cidadania está nos céus.” Isso não significa alienação política. Significa lealdade última. A igreja vive no Brasil, vota, participa, critica, propõe. Mas sua esperança não depende da curva de popularidade de ninguém.

E há algo ainda mais desconcertante. Apocalipse 5 apresenta o Cordeiro como digno de honra, glória e poder. Não é o leão político, não é o gestor eficiente, não é o líder carismático. É o Cordeiro que foi morto. O centro do poder divino é sacrificial, não espetacular.

Isso julga tanto o culto acrítico quanto o cinismo seletivo. Exaltar um líder como redentor é idolatria. Demonizar todos e lavar as mãos é fuga moral. O Reino confronta ambos. Ele exige justiça concreta e, ao mesmo tempo, impede que absolutizemos qualquer projeto humano.

Entre o sambódromo e o trono de Deus, a igreja precisa de lucidez. Celebrar cultura sem divinizar líderes. Engajar-se politicamente sem perder a consciência de que todo governante é provisório. Lembrar que o verdadeiro Senhor não desfila em carro alegórico, mas reina a partir da cruz e do túmulo vazio.

O Brasil precisa de justiça. Mas precisa, antes de tudo, de uma igreja que saiba quem é o seu Rei.

Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.