Quando acertamos quem ele é — e erramos tudo o resto

Até Marcos 8:27-30, tudo é movimento, milagre, autoridade sendo demonstrada (mas ainda meio “ambígua”), curas, expulsão de demônios, ensino com autoridade. E as pessoas ficam tentando encaixar Jesus em categorias conhecidas: Elias, profeta, João Batista. Ou seja, é uma admiração sem compreensão. Manifestação de poder, mas sem definição clara. Quem é Jesus, ao final das contas?

Não é exagero dizer que o evangelho inteiro de Marcos gira ao redor dessa pergunta que acha sua resposta nas palavras de Pedro.

Depois deste ponto, o evangelho muda completamente. Jesus começa a falar abertamente sobre sofrimento, rejeição e morte. Se antes era “quem é esse?” agora é “o que significa segui-lo?”. A coisa não é mais sobre revelação de poder, mas revelação de propósito. Mas com um claro diferencial: esse propósito (e os caminhos que Jesus iria escolher) desmonta as expectativas de todo mundo. Inclusive a do próprio Pedro a seguir.

Pedro acerta o diagnóstico: “Tu és o Cristo”, mas erra o significado disso. Não há culpa nem intencionalidade nesse erro. Apenas a palavra estava prestes a ser preenchida com o conceito correto e não com o que, a través dos últimos séculos, as pessoas tinham imaginado que seria. Ele ainda pensa pela ótica humana: poder político, vitória visível, glória sem cruz.

Não é em vão que poucos versículos depois, Pedro seja chamado por Jesus de Satanás. Não por irrelevante, mas por ser representativo demais. Ele verbalizou o que todos estavam pensando e não se atreviam a dizer.

Então não, Pedro não é a cabeça da Igreja, mas é o primeiro a confessar corretamente quem é Jesus. Todavia, não entende como isso se desenrola. A Igreja não se sustenta na pessoa de Pedro, mas na realidade que ele declarou e que ele mesmo precisou aprender depois, na prática. E não de forma muito suave que se diga.

Agora voltemos a atenção a Jesus. Estamos justo no momento em que ele deixa de ser personagem para ser o Cristo. Enquanto ele é só personagem você admira, aprende, se emociona. Mas você continua no controle. Ele é referência, não senhor. Ele pode ser mestre, filosofo, amoroso, amigo, firme, confidente, instrutor, conselheiro e um sem número de coisas mais. Todas elas positivas. Mas não seu senhor. E é esse o ponto de virada.

Dá para encaixar Jesus na sua vida. Mas só se for como ele quer.

Quando ele é “o Cristo” todas essas funções que correspondem a uma personagem histórica acabam. Me acompanhe no seguinte pensamento: você pode admirar Napoleão, mas não tenta ajustar sua vida à vontade dele. O mesmo se aplica a Jesus. Se não há o empenho deliberado de ajustar seus pensamentos e condutas aos dele, não é seu senhor. É apenas uma personagem histórica passível de admiração

“Cristo” não é sobrenome – significa “ungido”. É função, identidade messiânica, centralidade histórica. E isso reorganiza tudo. Expectativas, planos, identidade.

E isso é bem incômodo. Talvez assentimos intelectualmente com a ideia. Talvez consentimos emocionalmente por medo da condenação eterna. Mas quando paramos para ver o que “o Cristo” demanda, a história muda completamente de perspectiva. Reconhecer Jesus como Cristo não traz conforto imediato; traz crise. Porque você percebe que o caminho dele não evita a cruz, mas passa por ela. Seguir a Cristo não é como uma religião na qual se adiciona um conjunto de ritos de crenças à vida. É reinterpretar toda a vida e tudo o que acontece à luz dele e seu conjunto de valores e princípios.

Antes de Marcos 8, as pessoas seguem Jesus porque ele faz sentido. Se encaixa dentro de todas as categorias que o senso comum do momento impõe. Depois de Marcos 8, só continua quem aceita que ele nem sempre vai fazer sentido. Mas ainda assim é “o Cristo”

E agora, vai fazer como?

Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

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