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Eu, Sansão

Juízes 13:1-16:31

Este não é um artigo triunfalista.

Ele é muito humano, existencial, duro, pesado… realista.

Se gosta de finais felizes, hoje, este não é seu lugar.

Todos nós conhecemos a história de Sansão. Ela é tão necessária quanto a de José no Egito.

Mas esqueçamos todo o material introdutório.

Foquemos no último dia de vida dele. Deixemos voar um pouco a imaginação. Sem sentir a passagem, ela é apenas informação.

Depois

A última lembrança que ele tinha, estava bem gravada.

Não que ele tivesse alguma retina na qual gravar mais nada. Ele, um dos maiores juízes de Israel, tinha sido brutalmente cegado pelos seus inimigos.

Ele ainda ouvia os gritos de alegria dos filisteus quando isso ocorrera. Lembrava como, impotente, fora arrastado por quatro homens não muito fortes. A fronte lhe fora amarrada ao tronco. E o carrasco lhe extirpara brutalmente com uma tenaz incandescente os olhos de suas órbitas.

E logo veio o silêncio.

Não porque a turba entardecida não relinchasse vitoriosa após anos de serem vencidos por Sansão. Mas porque a dor que ele sentia era tão intensa que nenhum outro sentido conseguia operar bem.

Os anos de vitórias passaram por sua mente. As batalhas vencidas. O ter sido uma pessoa de coragem e respeito entre seu povo. O fato de sentir a presença de seu Criador no seu corpo de uma forma completamente distinta de qualquer outro humano. Os cuidados que os pais lhe dispensaram. Os afetos aos que fora exposto. As expectativas desde antes do ventre.

Tudo se perdera.

Nada agora fazia mais sentido.

Ele pensava: O que será que estou moendo? Trigo para os grandes? Cevada para os mais pobres? E qual seria a diferença?

O colocaram a fazer o trabalho de um animal de carga: moer, esmagar, triturar.

Desde o amanhecer ao entardecer o cada vez mais forte Sansão fazia apenas uma coisa: girar e girar. Empurrar e empurrar. Moer e moer.

Aquele que antes causava medo e pavor em qualquer guerreiro filisteu, agora era motivo de chacota para as crianças. Jogavam-lhe pedras. Riam dele. Cuspiam na face dele.

O importante era que o povo filisteu, dos mais ternos aos mais duros, soubesse que o grande juiz de Israel tinha sido derrotado.

O que mais dava se fosse cevada para os pobres ou trigo para os ricos!?

A situação se repetiria da mesma forma.

Dia após dia. Semana após semana. Lembrança após lembrança.

A pedra girava.

O pó subia.

O corpo obedecia.

Empurrar. Respirar. Girar.

Empurrar. Respirar. Girar.

E, enquanto a pedra voltava ao mesmo lugar, Sansão também voltava.

Voltava à mulher de Timna, àquela primeira mulher filisteia que seus olhos escolheram antes que seu espírito pudesse dizer não. Voltava ao enigma, à festa, à ira, às raposas incendiando os campos. Voltava às portas de Gaza carregadas nos ombros como se ninguém pudesse detê-lo.

Voltava ao corpo morto do leão e ao mel retirado de dentro dele. Àquilo que tocou, embora não devesse tocar. Àquilo que comeu, embora sua consagração exigisse separação.

Voltava à vingança. Sempre à vingança.

Um golpe exigia outro. Uma humilhação exigia uma resposta. Um inimigo derrubado nunca era suficiente.

E voltava a ela…

Voltava a Dalila. À insistência dela. À sua vaidade. À sua certeza de que poderia brincar com o perigo mais uma vez. E outra. E outra.

Até que, um dia, não restou mais força para brincar.

O pior era que ele sabia…

E o que ele sabia, era mais pesado que a pedra que ele girava dia após dia. Pois não o carregava do lado de fora, senão do lado de dentro.

Não era Dalila.

Não eram os filisteus.

Não eram seus pais.

Não era sua primeira mulher.

Não era seu povo.

Eles haviam participado. Tinham ferido, enganado, pressionado, traído. Mas nenhum deles havia colocado Sansão naquela prisão.

Ele sabia onde tudo começara.

Não no dia em que Dalila cortou seu cabelo.

Não no dia em que os filisteus o prenderam.

Não no dia em que lhe furaram os olhos.

Começara muito antes — cada vez que confundira força com invulnerabilidade; cada vez que confundira desejo com direito; cada vez que usara o chamado de Deus como se fosse propriedade sua.

Sansão não havia caído de uma só vez.

Havia descido degrau por degrau, chamando cada degrau de escolha.

Agora, cego, girava a pedra.

E a pedra não discutia com ele.

Não o seduzia.

Não o traía.

Não fugia.

Apenas voltava ao mesmo lugar.

Há um momento em que a vida deixa de ser aquilo que ainda podemos fazer e começa a ser também aquilo que já não podemos desfazer.

Sansão deve ter conhecido esse momento quando abriu os olhos e não viu nada.

Não havia mais juventude, força, liberdade. Não havia como voltar até Timna, apagar Gaza, retirar da boca palavras ditas, desfazer escolhas, recolocar os olhos nas órbitas. Havia apenas o som das correntes e o moinho girando. Uma volta. Outra volta. Outra.

Tenho pensado que algumas formas de arrependimento começam exatamente aí: quando finalmente entendemos que Deus pode nos perdoar sem nos devolver a vida que desperdiçamos.

O que fiz com o que recebi?

É possível culpar Dalila por muita coisa. Mas Dalila chegou tarde à história.

Antes dela já havia um homem acostumado a desejar e tomar, avançar e depois lidar com as consequências. Um homem separado desde o ventre, visitado pelo Espírito, extraordinariamente dotado — e incapaz de governar a si mesmo.

Essa é a parte que me assusta.

Porque eu recebi muito.

E não sei outra maneira honesta de dizer isto: desperdicei muito.

Chega um momento em que explicar a infância, as feridas, as pessoas que nos traíram e aquelas que nos abandonaram começa a parecer uma tentativa desesperada de encontrar alguém que divida conosco uma culpa que é nossa.

Davi pôde chorar, mas o menino morreu. Moisés pôde contemplar a terra, mas não entrou nela. Pedro saiu para a noite e chorou amargamente. Há coisas que o perdão de Deus cura diante da eternidade sem apagar da história.

O moinho

Talvez seja por isso que me incomode tanto certo cristianismo incapaz de permanecer diante da ruína.

Tudo precisa terminar bem. Deus vai restituir. Deus vai devolver. Você receberá sete vezes mais.

Talvez.

Mas Sansão não recebeu os olhos de volta.

Há perdas que não são ataques do Diabo. São consequências. Há portas que Deus talvez não reabra. Há anos que nenhuma oração recuperará. E chamar isso de falta de fé seria apenas acrescentar mentira ao pecado.

O moinho continua girando.

E talvez uma das experiências mais solitárias da existência seja perceber que quem está empurrando aquela pedra somos nós mesmos.

“Lembra-te de mim”

Então sobra uma oração.

Não: “Devolve-me tudo”.

Não: “Faz com que seja como antes”.

Sansão já sabia que não existia mais “antes”.

Sobra então uma pequena frase. Breve. Dura. Direta:

“Senhor Deus, lembra-te de mim.” (Juízes 16:28)

Talvez esta seja a oração possível quando já não temos argumentos.

Eu pequei.

Eu desperdicei.

Eu feri.

Eu não fui fiel ao que recebi.

E agora?

Não sei.

Essa talvez seja a resposta mais verdadeira que consigo oferecer.

Não sei o que Deus ainda fará com os restos da minha história. Não sei o que será devolvido e o que permanecerá perdido. Não sei se há novamente um púlpito, uma casa, um abraço, um filho, um amigo, ou somente algumas colunas diante de mim.

Sei apenas que ontem não existe mais.

Amanhã ainda não me foi dado.

E, por alguma misericórdia que não consigo explicar, ainda existe hoje.

Yo, Sansón

Jueces 13:1-16:31

Este no es un artículo triunfalista.

Es muy humano, existencial, duro, pesado… realista.

Si te gustan los finales felices, hoy, este no es tu lugar.

Todos conocemos la historia de Sansón. Es tan necesaria como la de José en Egipto.

Pero olvidemos todo el material introductorio.

Enfoquémonos en el último día de su vida. Dejemos volar un poco la imaginación. Sin sentir el paso del tiempo, es solo información.

Después

El último recuerdo que tenía, estaba bien grabado.

No es que tuviera alguna retina en la cual grabar más nada. Él, uno de los mayores jueces de Israel, había sido brutalmente cegado por sus enemigos.

Todavía escuchaba los gritos de alegría de los filisteos cuando eso ocurrió. Recordaba cómo, impotente, fue arrastrado por cuatro hombres no muy fuertes. La frente le fue amarrada al tronco. Y el verdugo le extirpó brutalmente con una tenaza incandescente los ojos de sus órbitas.

Y luego vino el silencio.

No porque la turba entardecida no relinchara victoriosa tras años de ser vencidos por Sansón. Sino porque el dolor que sentía era tan intenso que ningún otro sentido lograba operar bien.

Los años de victorias pasaron por su mente. Las batallas ganadas. El haber sido una persona de coraje y respeto entre su pueblo. El hecho de sentir la presencia de su Creador en su cuerpo de una forma completamente distinta a cualquier otro humano. Los cuidados que sus padres le dispensaron. Los afectos a los que fue expuesto. Las expectativas desde antes del vientre.

Todo se había perdido.

Nada ahora tenía sentido.

Él pensaba: ¿Qué será lo que estoy moliendo? ¿Trigo para los grandes? ¿Cebada para los más pobres? ¿Y cuál sería la diferencia?

Lo pusieron a hacer el trabajo de un animal de carga: moler, aplastar, triturar.

Desde el amanecer hasta el atardecer el cada vez más fuerte Sansón hacía solo una cosa: girar y girar. Empujar y empujar. Moler y moler.

Aquel que antes causaba miedo y pavor en cualquier guerrero filisteo, ahora era motivo de burla para los niños. Le tiraban piedras. Se reían de él. Le escupían en la cara.

Lo importante era que el pueblo filisteo, desde los más tiernos hasta los más duros, supiera que el gran juez de Israel había sido derrotado.

¿Qué más daba si era cebada para los pobres o trigo para los ricos?

La situación se repetiría de la misma forma.

Día tras día. Semana tras semana. Recuerdo tras recuerdo.

La piedra giraba.

El polvo subía.

El cuerpo obedecía.

Empujar. Respirar. Girar.

Empujar. Respirar. Girar.

Y, mientras la piedra volvía al mismo lugar, Sansón también volvía.

Volvía a la mujer de Timna, a aquella primera mujer filistea que sus ojos eligieron antes de que su espíritu pudiera decir no. Volvía al enigma, a la fiesta, a la ira, a los zorros incendiando los campos. Volvía a las puertas de Gaza cargadas en los hombros como si nadie pudiera detenerlo.

Volvía al cuerpo muerto del león y a la miel retirada de dentro de él. A aquello que tocó, aunque no debía tocar. A aquello que comió, aunque su consagración exigía separación.

Volvía a la venganza. Siempre a la venganza.

Un golpe exigía otro. Una humillación exigía una respuesta. Un enemigo derribado nunca era suficiente.

Y volvía a ella…

Volvía a Dalila. A la insistencia de ella. A su vanidad. A su certeza de que podía jugar con el peligro una vez más. Y otra. Y otra.

Hasta que, un día, no quedó más fuerza para jugar.

Lo peor era que él sabía…

Y lo que él sabía, era más pesado que la piedra que giraba día tras día. Pues no lo cargaba del lado de afuera, sino del lado de adentro.

No era Dalila.

No eran los filisteos.

No eran sus padres.

No era su primera mujer.

No era su pueblo.

Ellos habían participado. Habían herido, engañado, presionado, traicionado. Pero ninguno de ellos había puesto a Sansón en esa prisión.

Él sabía dónde todo había comenzado.

No el día en que Dalila cortó su cabello.

No el día en que los filisteos lo capturaron.

No el día en que le sacaron los ojos.

Comenzó mucho antes — cada vez que confundió fuerza con invulnerabilidad; cada vez que confundió deseo con derecho; cada vez que usó el llamado de Dios como si fuera propiedad suya.

Sansón no había caído de una sola vez.

Había descendido escalón por escalón, llamando a cada escalón elección.

Ahora, ciego, giraba la piedra.

Y la piedra no discutía con él.

No lo seducía.

No lo traicionaba.

No huía.

Solo volvía al mismo lugar.

Hay un momento en que la vida deja de ser aquello que aún podemos hacer y comienza a ser también aquello que ya no podemos deshacer.

Sansón debe haber conocido ese momento cuando abrió los ojos y no vio nada.

No había más juventud, fuerza, libertad. No había cómo volver hasta Timna, borrar Gaza, retirar de la boca palabras dichas, deshacer elecciones, recolocar los ojos en las órbitas. Había solo el sonido de las cadenas y el molino girando. Una vuelta. Otra vuelta. Otra.

He pensado que algunas formas de arrepentimiento comienzan exactamente ahí: cuando finalmente entendemos que Dios puede perdonarnos sin devolvernos la vida que desperdiciamos.

¿Qué hice con lo que recibí?

Es posible culpar a Dalila por muchas cosas. Pero Dalila llegó tarde a la historia.

Antes de ella ya había un hombre acostumbrado a desear y tomar, avanzar y luego lidiar con las consecuencias. Un hombre separado desde el vientre, visitado por el Espíritu, extraordinariamente dotado — e incapaz de gobernarse a sí mismo.

Esa es la parte que me asusta.

Porque yo recibí mucho.

Y no sé otra manera honesta de decir esto: desperdicié mucho.

Llega un momento en que explicar la infancia, las heridas, las personas que nos traicionaron y aquellas que nos abandonaron comienza a parecer un intento desesperado de encontrar a alguien que comparta con nosotros una culpa que es nuestra.

David pudo llorar, pero el niño murió. Moisés pudo contemplar la tierra, pero no entró en ella. Pedro salió a la noche y lloró amargamente. Hay cosas que el perdón de Dios cura ante la eternidad sin borrar de la historia.

El molino

Tal vez sea por eso que me incomoda tanto cierto cristianismo incapaz de permanecer ante la ruina.

Todo tiene que terminar bien. Dios va a restituir. Dios va a devolver. Recibirás siete veces más.

Tal vez.

Pero Sansón no recibió los ojos de vuelta.

Hay pérdidas que no son ataques del Diablo. Son consecuencias. Hay puertas que Dios tal vez no vuelva a abrir. Hay años que ninguna oración recuperará. Y llamar a eso falta de fe sería solo añadir mentira al pecado.

El molino sigue girando.

Y tal vez una de las experiencias más solitarias de la existencia sea darse cuenta de que quien está empujando esa piedra somos nosotros mismos.

“Acuérdate de mí”

Entonces queda una oración.

No: “Devuélveme todo”.

No: “Haz que sea como antes”.

Sansón ya sabía que no existía más “antes”.

Queda entonces una pequeña frase. Breve. Dura. Directa:

Señor Jehová, acuérdate ahora de mí, (Jueces 16:28)

Tal vez esta sea la oración posible cuando ya no tenemos argumentos.

Yo pequé.

Yo desperdicié.

Yo herí.

Yo no fui fiel a lo que recibí.

¿Y ahora?

No sé.

Esa tal vez sea la respuesta más verdadera que puedo ofrecer.

No sé qué hará Dios aún con los restos de mi historia. No sé qué será devuelto y qué permanecerá perdido. No sé si hay nuevamente un púlpito, una casa, un abrazo, un hijo, un amigo, o solamente algunas columnas frente a mí.

Solo sé que ayer ya no existe más.

Mañana aún no me ha sido dado.

Y, por alguna misericordia que no puedo explicar, todavía existe hoy.

I, Samson

Judges 13:1-16:31

This is not a triumphalist article.

It is deeply human, existential, harsh, heavy… realistic.

If you enjoy happy endings, today, this is not your place.

We all know the story of Samson. It is as necessary as that of Joseph in Egypt.

But let’s forget all the introductory material.

Let’s focus on his last day of life. Let our imagination soar a bit. Without feeling the passage, it’s just information.

After

The last memory he had was well imprinted.

Not that he had any retinas left on which to imprint anything. He, one of the greatest judges of Israel, had been brutally blinded by his enemies.

He could still hear the shouts of joy from the Philistines when it happened. He remembered how, helpless, he was dragged by four not very strong men. His forehead was tied to the trunk. And the executioner brutally gouged out his eyes with a red-hot iron.

And then came the silence.

Not because the evening crowd wasn’t braying victoriously after years of being defeated by Samson. But because the pain he felt was so intense that no other sense could function properly.

The years of victories passed through his mind. The battles won. Being a person of courage and respect among his people. The feeling of his Creator’s presence in his body in a way completely different from any other human. The care his parents gave him. The affections he was exposed to. The expectations since before the womb.

All was lost.

Nothing made sense anymore.

He thought: What am I grinding? Wheat for the great? Barley for the poor? And what difference would it make?

They put him to do the work of a beast of burden: grinding, crushing, pulverizing.

From dawn to dusk, the ever-stronger Samson did only one thing: turn and turn. Push and push. Grind and grind.

He who once instilled fear and dread in any Philistine warrior was now a laughingstock for the children. They threw stones at him. Laughed at him. Spat in his face.

The important thing was that the Philistine people, from the tenderest to the hardest, knew that the great judge of Israel had been defeated.

What did it matter if it was barley for the poor or wheat for the rich!?

The situation would repeat itself in the same way.

Day after day. Week after week. Memory after memory.

The stone turned.

The dust rose.

The body obeyed.

Push. Breathe. Turn.

Push. Breathe. Turn.

And as the stone returned to the same place, Samson also returned.

Returned to the woman of Timnah, to that first Philistine woman his eyes chose before his spirit could say no. Returned to the riddle, the feast, the wrath, the foxes setting the fields ablaze. Returned to the gates of Gaza carried on his shoulders as if no one could stop him.

Returned to the dead lion’s body and the honey taken from within it. To what he touched, though he should not have touched. To what he ate, though his consecration demanded separation.

Returned to vengeance. Always to vengeance.

One blow demanded another. One humiliation demanded a response. One fallen enemy was never enough.

And he returned to her…

Returned to Delilah. To her insistence. To his vanity. To his certainty that he could play with danger once more. And again. And again.

Until one day, there was no strength left to play.

The worst part was that he knew…

And what he knew was heavier than the stone he turned day after day. For he did not carry it on the outside, but on the inside.

It wasn’t Delilah.

It wasn’t the Philistines.

It wasn’t his parents.

It wasn’t his first wife.

It wasn’t his people.

They had participated. They had hurt, deceived, pressured, betrayed. But none of them had put Samson in that prison.

He knew where it all began.

Not the day Delilah cut his hair.

Not the day the Philistines captured him.

Not the day they gouged out his eyes.

It began long before — each time he confused strength with invulnerability; each time he confused desire with right; each time he used God’s calling as if it were his own possession.

Samson had not fallen all at once.

He had descended step by step, calling each step a choice.

Now, blind, he turned the stone.

And the stone did not argue with him.

Did not seduce him.

Did not betray him.

Did not flee.

It just returned to the same place.

There comes a moment when life ceases to be what we can still do and begins to be also what we can no longer undo.

Samson must have known that moment when he opened his eyes and saw nothing.

There was no more youth, strength, freedom. There was no way to go back to Timnah, erase Gaza, take back spoken words, undo choices, put eyes back in their sockets. There was only the sound of chains and the mill turning. One turn. Another turn. Another.

I have thought that some forms of repentance begin exactly there: when we finally understand that God can forgive us without restoring the life we’ve squandered.

What Did I Do with What I Received?

It is possible to blame Delilah for many things. But Delilah arrived late in the story.

Before her, there was already a man accustomed to desiring and taking, advancing and then dealing with the consequences. A man set apart from the womb, visited by the Spirit, extraordinarily gifted — and incapable of governing himself.

That is the part that frightens me.

Because I have received much.

And I know no other honest way to say this: I have squandered much.

There comes a moment when explaining childhood, wounds, the people who betrayed us and those who abandoned us begins to seem like a desperate attempt to find someone to share with us a guilt that is ours.

David could weep, but the child died. Moses could view the land, but did not enter it. Peter went out into the night and wept bitterly. There are things that God’s forgiveness heals before eternity without erasing from history.

The Mill

Perhaps that is why I am so troubled by a certain Christianity incapable of standing before ruin.

Everything must end well. God will restore. God will return. You will receive seven times more.

Perhaps.

But Samson did not get his eyes back.

There are losses that are not attacks of the Devil. They are consequences. There are doors that God may not reopen. There are years that no prayer will recover. And to call this a lack of faith would be merely to add falsehood to sin.

The mill keeps turning.

And perhaps one of the loneliest experiences of existence is realizing that the one pushing that stone is ourselves.

“Remember Me”

Then there remains a prayer.

Not: “Give me everything back.”

Not: “Make it like it was before.”

Samson already knew there was no more “before.”

So there remains a small phrase. Brief. Harsh. Direct:

“Sovereign Lord, remember me.” (Judges 16:28)

Perhaps this is the possible prayer when we have no more arguments.

I have sinned.

I have squandered.

I have hurt.

I have not been faithful to what I received.

And now?

I don’t know.

That may be the truest answer I can offer.

I don’t know what God will still do with the remnants of my story. I don’t know what will be returned and what will remain lost. I don’t know if there is again a pulpit, a home, a hug, a child, a friend, or just some columns before me.

I only know that yesterday no longer exists.

Tomorrow has not yet been given to me.

And, by some mercy I cannot explain, today still exists.

Creo, pero no congrego

Cuando no congregarse parece tener sentido

A lo largo de la vida conocí a varias personas y parejas que decidieron no congregarse. Tenían fe en Jesús, pero por diversas razones no se congregaban. Algunos, incluso, tenían vida devocional, profesaban su fe en Jesús a los demás, pero no se congregaban. Ocasionalmente, visitaban una u otra iglesia local o distante, pero no mantenían comunión con ninguna congregación.

Las razones son las más variadas. Y muchas de ellas bien comprensibles.

Había quienes habían sido heridos profundamente e injustamente por un pastor, un diácono, o un grupo de personas de la congregación a la que pertenecían. Esto me recuerda al Salmo 55:12-14 que podemos resumir en que quien convive conmigo no es confiable. Otros textos en este sentido pueden ser Ezequiel 34:1-6 y Juan 10:11-13.

Para otros, la liturgia dejó de tener sentido. Ya no comunicaba algo significativo para su vivencia.

También recuerdo casos en los que sentían que ya no encajaban en ningún lugar. Iban de aquí para allá y siempre se sentían como un pez fuera del agua.

Recuerdo otros que simplemente se agotaron por tanto conflicto interno y desgaste.

Y también conozco casos en los que sucumbieron a los argumentos de amigos, familias, ideas venidas de fuera en las que ser cristiano era motivo de burla y ridiculización.

Y podríamos citar otros casos como períodos de transición, enfermedad, cambios y otras circunstancias que pueden alejar a alguien de la comunidad.

Pienso, entonces, que es perfectamente comprensible que alguien no asista a una congregación durante algún tiempo por las más variadas razones.

El problema comienza cuando una circunstancia se transforma en convicción: “Yo creo en Cristo, pero no necesito pertenecer a su pueblo”.

A veces es necesario salir de esa iglesia

No todo alejamiento de la iglesia institucional significa alejamiento de Cristo. Hay pastores que hieren, comunidades enfermas y ambientes en los cuales permanecer puede significar seguir siendo sometido a manipulación o violencia emocional y/o espiritual.

Me resulta especialmente relevante Ezequiel 34 en este sentido.

Si esto fuera una prédica, cabrían varias divisiones: 1-6; 7-10; 11-16; 17-19; 20-24 y 25-31.

Para los efectos de este artículo, solo consideraremos dos partes: 1-10 y 17-31.

En la segunda (Ezequiel 34:17-31) habla de la responsabilidad de la propia oveja y el profeta dice que el propio Dios “juzgará entre una y otra” y “yo mismo juzgaré entre ovejas gordas y ovejas flacas”. O sea, parte de la congregación es responsable por la debilidad de otra parte.

Sin embargo, me interesa la primera parte (Ezequiel 34:1-10). Los pastores estaban cuidando de sí mismos mientras las ovejas se dispersaban. Y, peor aún, esa dispersión las alejaba no solo de la congregación, sino del propio Creador.

Dice Ezequiel 34:6 “”mis ovejas por todos los montes, y en todo collado alto”“. Para el lector ocasional esto significa que salieron a buscar otros pastos, u otros lugares. Y – si bien esto es cierto – cuando vemos en la Biblia mención a lugares elevados, es una referencia indirecta a los lugares de culto distintos de los lugares de adoración a Dios.

Veamos Números 33:51-52 en que Dios ordena destruir implementos religiosos cananeos “entre ellos los lugares altos”.

O del rey más sabio que la Biblia registra y sucumbió a los deseos terrenales. 2 Reyes 11:7 nos cuenta que Salomón construyó “lugares altos” para Quemos y Moloc, dioses extranjeros.

Personalmente conozco personas que – por razones perfectamente comprensibles – abandonaron la congregación, pero luego se asociaron con formas de creencias contrarias a la fe cristiana fundamentada en la Biblia. Es de esto que los “lugares altos” están hablando.

Pero lo que hace que el texto sea vehemente en su línea argumentativa, es que la razón de todo esto es que los pastores cuidan solo de sí mismos. v4-5: “Coméis la grosura, os vestís de la lana y degolláis lo engordado; mas no apacentáis las ovejas. La débil no fortalecisteis, la enferma no curasteis, la perniquebrada no vendasteis, la descarriada no volvisteis a traer, ni buscasteis la perdida; sino que os habéis enseñoreado de ellas con dureza y con violencia**”.

Eso es violencia pastoral. Abuso. Violencia. Manipulación.

Entonces, salir de una congregación, puede ser necesario; concluir que no necesitamos más de una comunidad es otra cosa.

La herida explica el aislamiento. La nueva convicción explica la auto-protección.

Si vos sos un pastor que dispersa ovejas, volvé a tu llamado original (si es que es real). Echá un vistazo a Hechos 20:28-30.

El aislamiento puede dejar de ser protección y transformarse en autonomía.

Estar solo trae ciertas ventajas emocionales inmediatas. Una de ellas es que nadie me contradice. Hay una cierta tranquilidad en percibir que ya no hay nadie más mirándome, metiéndose en mi vida, preguntando particularidades, corrigiendo algunas actitudes y creencias.

También puedo – con todos los recursos modernos – hacer un propio menú de predicadores que me gustan ya que dicen lo que me gusta. (2 Timoteo 4:4) Puedo elegir la dieta espiritual a seguir e incluso tener una definición propia de cuáles pecados considero importantes.

Armo, entonces, una “iglesia” particular por internet en la que todos los “pastores” dicen exactamente aquello que me gusta escuchar.

Alcancé la paz. Alcancé el Nirvana. Mi alma ya no tiene de qué preocuparse.

Pero el Nuevo Testamento presenta una fe en la cual no solo conozco a los demás (como en internet) sino que también soy conocido. En esa fe, servimos y somos servidos; corregimos y somos corregidos; soportamos y somos soportados.

En los tiempos que corren, ese tipo de lugar es muy incómodo. Y no hace falta abandonar físicamente la congregación para no estar – de hecho – en comunión. Bien es posible entrar y salir de todos los cultos durante el año y no conocer ni ser conocido por nadie. La sociedad – cada vez más individualista – nos enseña e incentiva a cada vez más aislarnos y llama a eso “vida plena”, “empoderamiento”, etc.

Por otro lado, se equivoca quien piensa que todo esto se debe solo a la modernidad.

La epístola a los Hebreos, escrita durante la segunda generación de cristianos estando en gran parte aún vinculados con la religión judía que era una religión lícita para el imperio romano, levanta un punto especialmente incómodo: existen personas que velan por nosotros y ante las cuales existe alguna forma de sumisión (Hebreos 13:7, 17).

Evidentemente que esto no concede autoridad absoluta a ningún pastor. La libertad de conciencia, creencia y práctica continúa existiendo porque somos plenamente responsables por nuestros actos. Incluso por aquellos que son reacción a una violación explícita de nuestra persona.

Pero tampoco permite una fe completamente autónoma. Y ese es el punto que tanto duele para quien – justificadamente – decidió no congregarse más.

Seguir a Cristo significa identificarse con su pueblo.

La carta a los Hebreos resulta especialmente interesante en este contexto.

Los primeros en creer en Jesús como Mesías (Cristo) fueron judíos. No se veían como un proyecto separado del pueblo judío sino como continuidad. O sea, participar del pueblo elegido creyendo en un Mesías que había sido prometido desde la antigüedad encajaba muy bien en el Mesías ahora revelado y comprobablemente resucitado por muchos testigos.

Por otro lado, la religión judía – como ya dijimos anteriormente – era una religión lícita dentro del Imperio Romano. Y había algunas características especiales que vale destacar, era la única monoteísta y había una forma de convenio entre los romanos y los judíos en que aquellos toleraban la religión de estos, siempre que hicieran oraciones por el emperador. Todo esto en una región (la parte oriental del imperio) en que ya había provincias que pidieron permiso (29 a.C.) para construir templos ligados al culto al gobernante. Esta práctica se consolidaría en todo el imperio para finales del primer siglo.

La epístola a los Hebreos, es escrita al menos a finales del primer siglo. El propio autor declara que tanto él como los lectores no son testigos presenciales del ministerio, muerte y resurrección de Jesús. (Hebreos 2:1 “”es necesario que con más diligencia atendamos a las cosas que hemos oído”“. Hebreos 4:2 “”también a nosotros se nos ha anunciado la buena nueva”“) Esto es, son al menos segunda generación de creyentes en Jesús como Cristo (Mesías).

Estos judíos creyentes en Jesús no querían separarse de la comunión judía. Y eso, en el tiempo en que vivían, tenía mucho sentido. Inscritos en la religión judía y siendo tolerados por los propios judíos, se volvían intocables por el Imperio Romano.

Ya si se identificaban como seguidores de Jesús como ser divino, y por lo tanto fuera de la religión judía, podían ser considerados revoltosos, paganos y toda suerte de castigos pudiendo llegar hasta la muerte. Es por eso que el autor dice en Hebreos 12:4-5 “Ora, en vuestra lucha contra el pecado, aún no habéis resistido hasta la sangre y estáis olvidados de la exhortación…

Si trazamos una línea de tiempo las primeras persecuciones a los cristianos se remontan al año 70 d.C. en que – después de la guerra entre judíos y romanos – las tensiones entre judíos y cristianos aumentan y esto frecuentemente repercute también en las comunidades cristianas. Después de eso, el movimiento cristiano pasa a ser percibido con más frecuencia como separado del judaísmo lo que afecta cómo las autoridades locales trataban a los grupos.

Y la cosa empeora con Domiciano (81-96). Es común encontrar referencias a represiones bajo su dominio. Hay tradición antigua como la de Eusebio asociando el período a sufrimiento y exilio de cristianos.

Es más o menos aquí que la epístola a los Hebreos fue escrita. Las cosas estaban poniéndose tensas para los cristianos. Y estos judíos que habían creído, estaban abandonando la congregación (Hebreos 10:24-25) y eso lo hacían buscando evitar la muerte (Hebreos 12:4-5), lo que es una razón ampliamente comprensible.

Todo cristiano (judío o no) sabía que las cosas estaban empeorando. Para el tiempo de Trajano (98-117) ya había persecuciones judiciales y políticas de procedimiento bien establecidas. Aún no hay matanza en masa como cosa diseminada, pero sí podemos afirmar que para el comienzo del segundo siglo ya había represión real por decisión imperial implementada en las provincias.

Entonces, los destinatarios de la carta, sabían claramente el costo de ser públicamente asociados a la fe y a la comunidad cristiana. Algunos cristianos habían sufrido, perdido bienes y sido expuestos públicamente. Lo que hoy llamaríamos cancelación pero en versión más bruta.

En ese contexto, el “no dejando de congregarnos” de Hebreos 10:25 significa muchísimo más que asistir regularmente al culto. Es identificación comunitaria pública.

Algunos podrían ver aquí una convocatoria al martirio colectivo. Pero nada más lejos de la realidad. Como cristianos amamos la vida. Pero la verdad que el evangelio revela es mucho mayor que cualquier esquema religioso social. Y justamente por eso no puede entrar en relaciones de compromiso o de conveniencia con cualquier otro tipo de manifestación espiritual.

Un paralelo cuidadoso y contemporáneo puede establecerse.

Hoy es socialmente cómodo decir: “Tengo mi espiritualidad”. Avanzando un poco más, alguien podría decir “yo sigo a Jesús” o incluso “yo sigo a Jesús con mis propias convicciones”.

Más difícil es decir: “Esos cristianos son mi pueblo. Sí, pertenezco a una comunidad concreta e imperfecta”. Eso sí requiere coraje y plena convicción más allá del status quo.

Cristo no llama solo a individuos. Él incorpora personas a un cuerpo. Su cuerpo del cual él es la cabeza. (Vean Hebreos 2:12 y 12:23; Efesios 1:22-23; Colosenses 1:18; 1 Corintios 12:12-27)

Congregación no es frecuencia; es vida compartida

La solución para “creo, pero no congrego” no es “entonces andá al culto los domingos”.

Hay una superficialidad y falta de convivencia tremenda en solo participar del culto. Alguien puede hacer eso sin faltar nunca durante cuarenta años y ni por eso formar parte de la congregación. Seguir prácticamente solo. La única variante de la expresión de “creo, pero no congrego” es que la persona cree, pero – de hecho – no forma parte de la congregación.

Mi abuela materna vivía en la capital y con mi madre íbamos de vez en cuando a visitarla. En la calle perpendicular a medio cuadra, había una escuela de karate. Yo debía tener unos 9 a 11 años. Me gustaba mucho ir y verlos practicar ese arte marcial. Los gritos. Los movimientos sincronizados. El kimono. El tatami. El ambiente. El olor. Todo quedó grabado en mi memoria. Años después, cuando tenía 17 años, daba clases de programación en una ciudad vecina a la nuestra. Teníamos un intervalo de veinte minutos entre una clase y la otra. Corría para ver una de dos cosas: entrenamiento de karate o juego de bochas.

De más está decir que no aprendí karate ni a jugar bochas.

Nadie se mantiene físicamente saludable por entrar al gimnasio una vez por semana, ponerse la ropa adecuada para hacer ejercicios, llevar un litro de agua y sentarse durante una hora mirando a otras personas ejercitarse y luego volver a casa. La salud exige una vida en la cual determinadas prácticas se vuelven habituales. Y eso es difícil.

La comunidad cristiana funciona de forma similar solo que mucho más profunda.

Pero primero permitime presentar unas ideas sobre la palabra comunión. Esa palabra de origen latino (communio) deriva de com (es decir “juntamente”) y munis (o sea, “encargo” u “obligación”) y se usa en el sentido de “participación común”, “tener algo en común”. Una forma fácil de recordar el significado sería “común unión” o “común encargo”.

Aquellos que creemos en Jesús como Dios encarnado y Mesías (Cristo) compartimos muchas cosas. Obvio que – por la naturaleza de esta fe – ella excluye cualquier otro tipo de fe semejante, parecida o análoga. Los cristianos comulgamos de la fe exclusiva en Jesús como el único y suficiente salvador. Los cristianos (independientemente de rótulo institucional o tradición cristiana) formamos parte de un mismo cuerpo y tenemos un único mediador (1 Timoteo 2:5; Efesios 4:4-6; 1 Corintios 12:12-27).

No existe forma posible de practicar comunión solo. Vale solo para evitar las dificultades de las miradas de desagrado de los que no creen.

Oramos juntos. Cargamos cargas. Repartimos. Confesamos. Enseñamos. Somos corregidos. Aprendemos. Perdonamos. Celebramos. Lloramos. Servimos. Somos conocidos.

Cosas estas que la sociedad siempre ha enseñado que no son oportunas para el individuo.

La salvación, entonces, no es una cosa solo individual por más que por ahí empiece. Ella es – sobre todo – comunitaria.

Es significativo que buena parte de las instrucciones del Nuevo Testamento contenga la expresión “unos a otros”. No hay forma de practicarlas solo.

(Hechos 2:42-47; Gálatas 6:2; Santiago 5:16)

Tal vez la pregunta esté equivocada

Al preguntarnos si un cristiano necesita ir a la iglesia, puede que hayamos reducido demasiado la cuestión. Como si hubiéramos puesto una lupa sobre solo una parte del asunto.

Puede haber momentos en que no conseguimos congregarnos. Puede haber iglesias de las que nos es necesario salir. Puede haber heridas que llevan tiempo para cicatrizar. Y ninguna de esas situaciones debe ser tratada superficialmente o con indiferencia.

Sin embargo, existe otra pregunta: “¿Es posible seguir por mucho tiempo a aquel que nos hizo parte de un cuerpo negándonos deliberadamente a vivir como parte de ese cuerpo?

La vida cristiana relatada en el Nuevo Testamento no parece conocer una fe permanentemente solitaria.

No porque Dios esté haciendo control de presencia los domingos, sino porque hay dimensiones enteras de la vida cristiana que simplemente no existen cuando estamos solos.

No puedo cargar la carga “unos de otros” solo.

No puedo perdonar “unos a otros” solo.

No puedo confesar “unos a otros” solo.

Ni puedo descubrir fácilmente dónde estoy equivocado si todas las voces que escucho fueron elegidas por mí.

Tal vez congregarse no sea simplemente una obligación de la vida cristiana.

Tal vez sea una de las maneras por las cuales Cristo mantiene viva y saludable la fe que decimos tener en él.

I Believe, but I Don’t Belong to a Congregation

When Not Belonging Seems to Make Sense

Throughout my life, I’ve met various individuals and couples who chose not to belong to a congregation. They had faith in Jesus, but for various reasons, they were not part of a congregation. Some even maintained a devotional life, professed their faith in Jesus to others, but were not part of a congregation. Occasionally, they would visit a local or distant church, but they did not maintain fellowship with any congregation.

The reasons are varied. And many of them are quite understandable.

There were those who had been deeply and unjustly hurt by a pastor, a deacon, or a group of people from the congregation they belonged to. This reminds me of Psalm 55:12-14, which we can summarize as saying those who live with me are not trustworthy. Other texts in this sense might be Ezekiel 34:1-6 and John 10:11-13.

For others, the liturgy stopped making sense. It no longer communicated anything significant to their lives.

I also remember cases where they felt they no longer fit in anywhere. They would go here and there and always feel like a fish out of water.

I recall others who simply became exhausted from so much internal conflict and weariness.

And I know of cases where they succumbed to the arguments of friends, family, ideas from outside where being a Christian was a reason for mockery and ridicule.

We could also mention other cases like periods of transition, illness, changes, and other circumstances that can distance someone from the community.

I think, then, that it is perfectly understandable for someone not to be part of a congregation for a while for various reasons.

The problem begins when a circumstance turns into a conviction: “I believe in Christ, but I don’t need to belong to His people.”

Sometimes You Need to Leave That Church

Not every departure from the institutional church means a departure from Christ. There are pastors who wound, sick communities, and environments where staying may mean continuing to be subjected to manipulation or emotional and/or spiritual violence.

Ezekiel 34 resonates with me in this regard.

If this were a sermon, there would be several divisions: 1-6; 7-10; 11-16; 17-19; 20-24 and 25-31.

For the purposes of this article, we will only consider two parts: 1-10 and 17-31.

In the second part (Ezekiel 34:17-31), it speaks of the responsibility of the sheep themselves, and the prophet says that God Himself will “judge between one sheep and another” and “I will judge between the fat sheep and the lean sheep.” In other words, part of the congregation is responsible for the weakness of another part.

However, I am interested in the first part (Ezekiel 34:1-10). The shepherds were tending to themselves while the sheep were scattered. And worse, this dispersion distanced them not only from the congregation but from the Creator Himself.

Ezekiel 34:6 says, “”My sheep wandered over all the mountains and on every high hill.”” To the casual reader, this means they went looking for other pastures or other places. And—while this is true—when we see mentions of high places in the Bible, it is an indirect reference to places of worship distinct from the places of worship to God.

See Numbers 33:51-52, where God commands the destruction of Canaanite religious implements “among them the high places.”

Or the wisest king recorded in the Bible who succumbed to earthly desires. 2 Kings 11:7 tells us that Solomon built “high places” for Chemosh and Molech, foreign gods.

Personally, I know people who—for perfectly understandable reasons—left the congregation but later associated with beliefs contrary to the Christian faith grounded in the Bible. This is what the “high places” are talking about.

But what makes the text vehement in its line of argument is that the reason for all this is that the shepherds care only for themselves. Verses 4-5: “You eat the curds, clothe yourselves with the wool and slaughter the choice animals, but you do not care for the flock. You have not strengthened the weak or healed the sick or bound up the injured. You have not brought back the strays or searched for the lost. You have ruled them harshly and brutally.

This is pastoral violence. Abuse. Violence. Manipulation.

So, leaving a congregation may be necessary; concluding that we no longer need a community is another matter.

The wound explains the isolation. The new conviction explains the self-protection.

If you are a pastor who scatters sheep, return to your original calling (if it is real). Take a look at Acts 20:28-30.

Isolation Can Cease to Be Protection and Turn into Autonomy

Being alone brings certain immediate emotional advantages. One of them is that no one contradicts me. There is a certain tranquility in realizing that there is no one else looking at me, meddling in my life, asking personal questions, correcting some attitudes and beliefs.

I can also—with all modern resources—create my own menu of preachers I like since they say what I like. (2 Timothy 4:4) I can choose the spiritual diet to follow and even have my own definition of which sins I consider important.

I then set up a personal “church” on the internet where all the “pastors” say exactly what I like to hear.

I have achieved peace. I have reached Nirvana. My soul has nothing more to worry about.

But the New Testament presents a faith in which I not only know others (as on the internet) but am also known. In this faith, we serve and are served; we correct and are corrected; we bear with and are borne with.

In these times, such a place is very uncomfortable. And you don’t have to physically leave the congregation to not be—in fact—in fellowship. It is quite possible to enter and leave all the services throughout the year and not know or be known by anyone. Society—increasingly individualistic—teaches and encourages us to isolate ourselves more and more and calls it “full life,” “empowerment,” etc.

On the other hand, it is wrong to think that all this is only due to modernity.

The epistle to the Hebrews, written during the second generation of Christians, still largely linked to the Jewish religion, which was a legal religion for the Roman Empire, raises a particularly uncomfortable point: there are people who watch over us and before whom there is some form of submission (Hebrews 13:7, 17).

Evidently, this does not grant absolute authority to any pastor. The freedom of conscience, belief, and practice continues to exist because we are fully responsible for our actions. Even for those that are a reaction to an explicit violation of our person.

But it also does not allow for a completely autonomous faith. And that is the point that hurts so much for those who—justifiably—decided not to belong anymore.

Following Christ Means Identifying with His People

The letter to the Hebrews is particularly interesting in this context.

The first to believe in Jesus as the Messiah (Christ) were Jews. They did not see themselves as a separate project from the Jewish people but as a continuation. That is, participating in the chosen people by believing in a Messiah who had been promised since ancient times fit very well with the Messiah now revealed and proven resurrected by many witnesses.

On the other hand, the Jewish religion—as we mentioned earlier—was a legal religion within the Roman Empire. And there were some special characteristics worth highlighting: it was the only monotheistic religion, and there was a form of covenant between the Romans and the Jews in which the former tolerated their religion, provided they made prayers for the emperor. All this in a region (the eastern part of the empire) where there were already provinces that had requested permission (29 BC) to build temples linked to the cult of the ruler. This practice would consolidate throughout the empire by the end of the first century.

The epistle to the Hebrews is written at least by the end of the first century. The author himself declares that both he and the readers are not eyewitnesses of the ministry, death, and resurrection of Jesus. (Hebrews 2:1 “We must pay the most careful attention, therefore, to what we have heard”. Hebrews 4:2 “For we also have had the good news proclaimed to us…”) That is, they are at least the second generation of believers in Jesus as Christ (Messiah).

These Jewish believers in Jesus did not want to separate from Jewish fellowship. And this, in the time they lived, made a lot of sense. Enrolled in the Jewish religion and being tolerated by the Jews themselves, they became untouchable by the Roman Empire.

But if they identified as followers of Jesus as a divine being, and therefore outside the Jewish religion, they could be classified as rebels, pagans, and subject to all sorts of punishments, potentially leading to death. That is why the author says in Hebrews 12:4-5, “In your struggle against sin, you have not yet resisted to the point of shedding your blood. And have you completely forgotten this word of encouragement…

If we trace a timeline, the first persecutions of Christians date back to 70 AD, when—after the war between Jews and Romans—tensions between Jews and Christians increased, and this often also affected Christian communities. After that, the Christian movement began to be perceived more frequently as separate from Judaism, which affected how local authorities treated the groups.

And things worsened with Domitian (81-96). It is common to find references to repressions under his rule. There is ancient tradition, such as that of Eusebius, associating the period with suffering and exile of Christians.

It is around this time that the epistle to the Hebrews was written. Things were getting tense for Christians. And these Jews who had believed were abandoning the congregation (Hebrews 10:24-25), and they did so seeking to avoid death (Hebrews 12:4-5), which is a perfectly understandable reason.

Every Christian (Jewish or not) knew that things were getting worse. By the time of Trajan (98-117), there were already judicial persecutions and well-established procedural policies. There was not yet widespread mass killing, but we can affirm that by the beginning of the second century, there was real repression by imperial decision implemented in the provinces.

So, the recipients of the letter clearly knew the cost of being publicly associated with the faith and the Christian community. Some Christians had suffered, lost possessions, and been publicly exposed. What we would today call cancel culture but in a cruder version.

In this context, the “not giving up meeting together” of Hebrews 10:25 means much more than regularly attending worship. It is public community identification.

Some might see here a call to collective martyrdom. But nothing could be further from the truth. As Christians, we love life. But the truth that the gospel reveals is much greater than any social religious scheme. And precisely for this reason, it cannot enter into relations of compromise or convenience with any other type of spiritual manifestation.

A careful and contemporary parallel can be drawn.

Today it is socially comfortable to say: “I have my spirituality.” Advancing a little further, someone might say, “I follow Jesus” or even “I follow Jesus with my own convictions.”

More difficult is to say: “These Christians are my people. Yes, I belong to a concrete and imperfect community.” That indeed requires courage and full conviction beyond the status quo.

Christ does not call only individuals. He incorporates people into a body. His body, of which He is the head. (See Hebrews 2:12 and 12:23; Ephesians 1:22-23; Colossians 1:18; 1 Corinthians 12:12-27)

Congregation Is Not Attendance; It’s Shared Life

The solution to “I believe, but I don’t belong” is not “then go to church on Sundays.”

There is a tremendous superficiality and lack of fellowship in merely attending worship. Someone can do this without missing a single Sunday for forty years and still not be part of the congregation. Continuing practically alone. The only variant of the expression “I believe, but I don’t belong” is that the person believes but—in fact—is not part of the congregation.

My maternal grandmother lived in the capital, and with my mother, we would occasionally visit her. On the perpendicular street half a block away, there was a karate school. I must have been about 9 to 11 years old. I loved going and watching them practice this martial art. The shouts. The synchronized movements. The kimono. The tatami. The environment. The smell. Everything was etched in my memory. Years later, when I was 17, I taught programming classes in a neighboring city to ours. We had a twenty-minute break between one class and the next. I would run to see one of two things: karate training or a game of bocce.

Needless to say, I didn’t learn karate or how to play bocce.

No one becomes physically healthy by entering the gym once a week, wearing the appropriate exercise clothes, bringing a liter of water, and sitting for an hour watching other people exercise and then going home. Health requires a life in which certain practices become habitual. And that is difficult.

The Christian community works similarly, only much deeper.

But first, let me present some ideas about the word communion. This word of Latin origin (communio) derives from com (meaning “together”) and munis (meaning “charge” or “obligation”) and is used in the sense of “common participation,” “having something in common.” An easy way to remember the meaning would be “common union” or “common charge.”

Those of us who believe in Jesus as God incarnate and Messiah (Christ) share many things. Obviously, due to the nature of this faith, it excludes any other type of similar, resembling, or analogous faith. Christians share the exclusive faith in Jesus as the only and sufficient savior. Christians (regardless of institutional label or Christian tradition) are part of the same body and have one mediator (1 Timothy 2:5; Ephesians 4:4-6; 1 Corinthians 12:12-27).

There is no possible way to practice communion alone. It only serves to avoid the hardships of the disapproving looks of non-believers.

We pray together. We bear burdens. We share. We confess. We teach. We are corrected. We learn. We forgive. We celebrate. We weep. We serve. We are known.

These are things that society has always taught are not appropriate for the individual.

Salvation, therefore, is not just an individual thing, as much as it begins there. It is—above all—communal.

It is significant that much of the New Testament’s instructions contain the expression “one another.” There is no way to practice them alone.

(Acts 2:42-47; Galatians 6:2; James 5:16)

Perhaps the Question Is Wrong

When we ask if a Christian needs to go to church, we may have reduced the issue too much. As if we had placed a magnifying glass over only one part of the subject.

There may be times when we cannot belong. There may be churches from which we need to leave. There may be wounds that take time to heal. And none of these situations should be treated superficially or with indifference.

However, there is another question: “Is it possible to follow for a long time the one who made us part of a body while deliberately refusing to live as part of that body?

The Christian life described in the New Testament does not seem to know a permanently solitary faith.

Not because God is taking attendance on Sundays, but because there are entire dimensions of the Christian life that simply do not exist when we are alone.

I cannot bear the burden “of one another” alone.

I cannot forgive “one another” alone.

I cannot confess “to one another” alone.

Nor can I easily discover where I am wrong if all the voices I hear were chosen by me.

Perhaps belonging is not simply an obligation of the Christian life.

Perhaps it is one of the ways Christ keeps alive and healthy the faith we claim to have in Him.

Creio, mas não congrego

Quando não congregar parece fazer sentido

Ao longo da vida conheci várias pessoas e vários casais que decidiram não congregar. Tinham fé em Jesus, mas por diversas razões não congregavam. Alguns, inclusive, tinham vida devocional, professavam sua fé em Jesus para os outros, mas não congregavam. Ocasionalmente, visitavam uma ou outra igreja local ou distante, mas não mantinham comunhão com congregação nenhuma.

As razões são as mais variadas. E muitas delas bem compreensíveis.

Havia aqueles que tinham sido machucados profundamente e de forma injusta por um pastor, um diácono, ou um grupo de pessoas da congregação à que pertencia. Isso me faz lembrar do Salmos 55:12-14 que podemos resumir em quem convive comigo não é confiável. Outros textos nesse sentido podem ser Ezequiel 34:1-6 e João 10:11-13

Para outros, a liturgia parou de fazer sentido. Não mais comunicava alguma coisa significativa para sua vivencia.

Também lembro de casos em que sentiam não mais se encaixar em lugar nenhum. Iam aqui e acolá e sempre se sentiam como um peixe fora d’agua.

Lembro de outros que simplesmente se esgotaram por tanto conflito interno e desgaste.

E também conheço caso em que sucumbiram aos argumentos de amigos, famílias, ideias vindas de fora em que ser cristão era motivo de chacota e ridicularização.

E poderíamos citar outros casos como períodos de transição, doença, mudanças e outras circunstâncias que podem afastar alguém da comunidade.

Penso, então, que é perfeitamente compreensível alguém não frequentar uma congregação durante algum tempo pelas mais variadas razões.

O problema começa quando uma circunstância se transforma em convicção: “Eu creio em Cristo, mas não preciso pertencer ao seu povo

Às vezes é preciso sair daquela igreja

Nem todo afastamento da igreja institucional significa afastamento do Cristo. Há pastores que ferem, comunidades adoecidas e ambientes nos quais permanecer pode significar continuar sendo submetido a manipulação ou violência emocional e/ou espiritual.

Me resulta especialmente Ezequiel 34 neste sentido.

Se isto fosse uma pregação, caberiam várias divisões: 1-6; 7-10; 11-16; 17-19; 20-24 e 25-31.

Para os efeitos deste artigo, apenas consideraremos duas partes: 1-10 e 17-31.

Na segunda (Ezequiel 34:17-31) ela fala da responsabilidade da própria ovelha e o profeta diz que o próprio Deus irá “julgar entre uma e outra” e “eu mesmo julgarei entre ovelhas gordas e ovelhas magras”. Ou seja, parte da congregação é responsável pela fraqueza de outra parte.

Todavia, me interessa a primeira parte (Ezequiel 34:1-10). Os pastores estavam se aparentando a si mesmos enquanto as ovelhas se dispersavam. E, pior, essa dispersão a afastava não apenas da congregação, mas do próprio Criador.

Diz Ezequiel 34:6 “As minhas ovelhas andam desgarradas por todos os montes e por todo elevado outeiro”. Para o leitor ocasional isso significa que elas saíram a procurar outras pastagens, ou outros locais. E – se bem isso é verdade – quando vemos na Bíblia menção a lugares elevados, é uma referência indireta aos lugares de culto distintos dos locais de adoração a Deus.

Veja Números 33:51-52 em que Deus ordena destruir implementos religiosos cananeus “entre eles os lugares altos”.

Ou do rei mais sábio que a Bíblia registra e sucumbiu aos desejos terrenos. 2Reis 11:7 nos conta que Salomão construiu “lugares altos” para Quemos e Moloque, deuses estrangeiros.

Pessoalmente conheço pessoas que – por razões perfeitamente compreensíveis – abandonaram a congregação, mas depois se associaram com formas de crenças contrárias à fé cristã alicerçada na Bíblia. É disso que os “lugares altos” está falando.

Mas o que torna o texto veemente na sua linha argumentativa, é que a razão disso tudo é que os pastores cuidam apenas de si mesmos. v4-5: “Comeis a gordura, vesti-vos de lã e degolais o cevado; mas não aparentais as ovelhas. A fraca não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não buscastes; mas dominais sobre elas com rigor e dureza**”

Isso é violencia pastoral. Abuso. Violência. Manipulação.

Então, sair de uma congregação, pode ser necessário; concluir que não precisamos mais de uma comunidade é outra coisa.

A ferida explica o isolamento. A nova convicção explica a auto-proteção.

Se você é um pastor que dispersa ovelhas, volte ao seu chamado original (se é que ele é real). Dê uma olhada em Atos 20:28-30

O isolamento pode deixar de ser proteção e se transformar em autonomia.

Estar sozinho traz certas vantagens emocionais imediatas. Uma delas é que ninguém me contraria. Há uma certa tranquilidade em perceber que não há mais ninguém olhando para mim, se metendo na minha vida, perguntando particularidades, corrigindo algumas atitudes e crenças.

Também posso – com todos os recursos modernos – fazer um próprio cardápio de pregadores que gosto já que falam o que gosto. (2Timóteo 4:4) Eu consigo escolher a dieta espiritual a ser seguida e até ter uma definição própria de quais pecados considero importantes.

Monto, então uma “igreja” particular pela internet em que todos os “pastores” dizem exatamente aquilo que gosto de ouvir.

Atingi a paz. Alcancei o Nirvana. Minha alma não tem mais do que se preocupar.

Mas o Novo Testamento apresenta uma fé na qual não apenas conheço os outros (como na internet) senão que também sou conhecido. Nessa fé, servimos e somos servidos; corrigimos e somos corrigidos; suportamos e somos suportados.

Nos tempos que correm, esse tipo de lugar é muito desconfortável. E não precisa abandonar fisicamente a congregação para você não estar – de fato – em comunhão. Bem é possível entrar e sair de todos os cultos durante o ano e não conhecer nem ser conhecido por ninguém. A sociedade – cada vez mais individualista – nos ensina e incentiva a cada vez mais nos isolarmos e chama a isso “vida plena”, “empoderamento”, etc.

Por outro lado, erra quem pensa que isso tudo se deve só à modernidade.

A epístola aos Hebreus, escrita durante a segunda geração de cristãos estando em grande parte ainda vinculados com a religião judaica que era uma religião lícita para o império romano, levanta um ponto especialmente desconfortável: existem pessoas que velam por nós e diante das quais existe alguma forma de submissão (Hebreus 13:7, 17)

Evidentemente que isso não concede autoridade absoluta a nenhum pastor. A liberdade de consciência, crença e prática continua existindo porque somos plenamente responsáveis pelos nossos atos. Mesmo por aqueles que são reação a uma violação explicita da nossa pessoa.

Mas também não permite uma fé completamente autônoma. E esse é o ponto que tanto dói para quem – justificadamente – decidiu não se congregar mais.

Seguir Cristo significa identificar-se com seu povo.

A carta aos Hebreus resulta especialmente interessante neste contexto.

Os primeiros a crer em Jesus como Messias (Cristo) foram judeus. Eles não se viam como um projeto separado do povo judeu e sim como continuidade. Ou seja, participar do povo escolhido crendo num Messias que tinha sido prometido desde a antiguidade encaixava muito bem no Messias agora revelado e comprovadamente ressurrecto por muitas testemunhas.

Por outro lado, a religião judia – como já dizemos anteriormente – era uma religião lícita dentro do Império Romano. E haviam algumas características especiais que valem destacar, era a única monoteista e havia uma forma de convênio entre os romanos e os judeus em que aqueles toleravam a religião deles, contanto se fizessem orações pelo imperador. Isso tudo em uma região (a parte oriental do império) em que já haviam províncias que pediram permissão (29aC) para construir templos ligados ao culto ao governante. Essa prática iria se consolidar em todo o império para o final do primeiro século.

A epístola aos Hebreus, é escrita pelo menos no final do primeiro século. O próprio autor declara que tanto ele quanto os leitores não são testemunhas presenciais do ministério, morte e ressurreição de Jesus. (Hebreus 2:1 “importa que nos apeguemos … às verdades ouvidas”. Hebreus 4:2 “também a nós foram anunciadas as boas-novas”) Isto é, são pelo menos segunda geração de crentes em Jesus como Cristo (Messias)

Estes judeus crentes em Jesus não queriam se separar da comunhão judaica. E isso, no tempo em que viviam, fazia muito sentido. Arrolados à religião judaica e sendo tolerados pelos próprios judeus, se tornavam intocáveis pelo Império Romano.

Já se se identificassem como seguidores de Jesus como ser divino, e portanto fora da religião judaica, podiam ser enquadrados como revoltosos, pagãos e toda sorte de castigos pudendo chegar até a morte. É por isso que o autor diz em Hebreus 12:4,5 “Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue e estais esquecidos da exortação…

Se nós traçarmos uma linha do tempo as primeiras perseguições aos cristãos se remontam ao ano 70dC em que – depois da guerra entre judeus e romanos – as tensões entre judeus e cristãos aumentam e isso frequentemente repercute também nas comunidades cristãs. Depois disso, o movimento cristão passa a ser percebido com mais frequência como separado do judaísmo o que afeta como as autoridades locais tratavam os grupos.

E a coisa piora com Dominicano (81-96). É comum encontrar referências a repressões sob o domínio dele. Há tradição antiga como a de Eusébio associando o período a sofrimento e exílio de cristãos.

É mais ou menos aqui que a epístola aos Hebreus foi escrita. As coisas estavam ficando tensas para os cristãos. E estes judeus que tinham crido, estavam abandonado a congregação (Hebreus 10:24-25) e isso o faziam buscando evitar a morte (Hebreus 12:1,2) o que é uma razão fartamente compreensível.

Todo cristão (judeu ou não) sabia que as coisas estavam ficando pior. Para o tempo de Trajano (98-117) haviam já perseguições judiciais e políticas de procedimento bem estabelecidas. Ainda não há matança em massa como coisa disseminada, mas sim podemos afirmar que para o começo do segundo século já havia repressão real por decisão imperial implementada nas províncias.

Então, os destinatários da carta, sabiam claramente o custo de serem publicamente associados à fé e à comunidade cristã. Alguns cristãos haviam sofrido, perdido bens e sido expostos publicamente. O que hoje chamaríamos de cancelamento mas em versão mais bruta.

Nesse contexto, o “não deixemos de congregar-nos” de Hebreus 10:25 significa muitíssimo mais do que comparecer regularmente ao culto. É identificação comunitária pública.

Alguns poderiam ver aqui uma convocação ao martírio coletivo. Mas nada mais longe da realidade. Como cristãos amamos a vida. Mas a verdade que o evangelho revela é muito maior do que qualquer esquema religioso social. E justamente por isso não pode entrar em relações de compromisso ou de conveniência com qualquer outro tipo de manifestação espiritual.

Um paralelo cuidadoso e contemporâneo pode ser estabelecido.

Hoje é socialmente confortável dizer: “Tenho minha espiritualidade” Avançando um pouco mais, alguém poderia dizer “eu sigo Jesus” ou até “eu sigo Jesus com minhas próprias convicções”

Mais difícil é dizer: “Esses cristãos são o meu povo. Sim, eu pertenço a uma comunidade concreta e imperfeita”. Isso sim requer coragem e plena convicção para além do status quo.

Cristo não chama apenas indivíduos. Ele incorpora pessoas a um corpo. O seu corpo do qual ele é a cabeça. (Veja Hebreus 2:12 e 12:23; Efésios 1:22-23; Colossenses 1:18; 1Coríntios 12:12-27)

Congregação não é frequência; é vida compartilhada

A solução para “creio, mas não congrego” não é “então vá ao culto aos domingos”.

Há uma superficialidade e falta de convívio tremendo em apenas participar do culto. Alguém pode fazer isso sem faltar nunca durante quarenta anos e nem por isso fazer parte da congregação. Continuar praticamente sozinho. A única variante da expressão de “creio, mas não congrego” é que a pessoa crê, mas – de fato – não faz parte da congregação.

A minha avó materna morava na capital e com minha mãe íamos de vez em quando visita-la. Na rua perpendicular a meio quarteirão, havia uma escola de karatê. Eu devia ter uns 9 a 11 anos. Gostava muito de ir e ver eles praticarem essa arte marcial. Os gritos. Os movimentos sincronizados. O kimono. O tatami. O ambiente. O cheiro. Tudo ficou gravado na minha memória. Anos depois, quando eu tinha 17 anos, eu dava aulas de programação numa cidade vizinha à nossa. Tínhamos um intervalo de vinte minutos entre uma turma e a outra. Eu corria para ver uma de duas coisas: treino de karatê ou jogo de bochas.

Demais está dizer que não aprendi karatê nem a jogar bochas.

Ninguém fica fisicamente saudável por entrar na academia uma vez por semana, vestir a roupa adequada para fazer exercícios, levar um litro de água e sentar-se durante uma hora olhando outras pessoas se exercitarem e depois voltar para casa. A saúde exige uma vida na qual determinadas práticas se tornam habituais. E isso é difícil.

A comunidade cristã funciona de forma semelhante só que muito mais profunda.

Mas primeiro me permita apresentar umas ideias sobre a palavra comunhão. Essa palavra de origem latina (communio) deriva de com (isto é “juntamente”) e munis (ou seja, “encargo” ou “obrigação”) e se usa no sentido de “participação comum”, “ter algo em comum”. Uma forma fácil de lembrar o significado seria “comum união” ou “comum encargo”

Aqueles que cremos em Jesus como Deus encarnado e Messias (Cristo) compartilhamos muitas coisas. Óbvio que – pela natureza desta fé – ela exclui qualquer outro tipo de fé semelhante, parecida ou análoga. Os cristãos comungamos da fé exclusiva em Jesus como o único e suficiente salvador. Os cristãos (independente de rótulo institucional ou tradição cristã) fazemos parte de um mesmo corpo e temos um único mediador (1Timóteo 2:5; Efésios 4:4-6; 1 Coríntios 12:12-27)

Não existe forma possível de praticar comunhão sozinho. Vale apenas para evitar as agruras dos olhares de desagrado dos que não creem.

Oramos juntos. Carregamos cargas. Repartimos. Confessamos. Ensinamos. Somos corrigidos. Aprendemos. Perdoamos. Celebramos. Choramos. Servimos. Somos conhecidos.

Coisas estas que a sociedade sempre tem ensinado não serem oportunas para o indivíduo.

A salvação, logo, não é uma coisa apenas individual por mais que por aí comece. Ela é – sobretudo – comunitária.

É significativo que boa parte das instruções do Novo Testamento contenha a expressão “uns aos outros. Não há como pratica-las sozinho.

(Atos 2:42-47; Gálatas 6:2; Tiago 5:16)

Talvez a pergunta esteja errada

Ao perguntarmos se um cristão precisa ir à igreja, pode ser que tenhamos reduzido demais a questão. Como se tivéssemos colocado uma lupa sobre apenas uma parte do assunto.

Pode haver momentos em que não conseguimos congregar. Pode haver igrejas das quais nos é necessário sair. Pode haver feridas que levam tempo para cicatrizar. E nenhuma dessas situações deve ser tratada superficialmente ou com indiferença.

Todavia, existe uma outra pergunta: “É possível seguir por muito tempo aquele que nos fez parte de um corpo recusando-nos deliberadamente a viver como parte desse corpo?

A vida cristã relatada no Novo Testamento não parece conhecer uma fé permanentemente solitária.

Não porque Deus esteja fazendo controle de presença aos domingos, mas porque há dimensões inteiras da vida cristã que simplesmente não existem quando estamos sozinhos.

Não consigo carregar a carga “uns dos outros” sozinho.

Não consigo perdoar “uns aos outros” sozinho.

Não consigo confessar “uns aos outros” sozinho.

Nem consigo descobrir facilmente onde estou errado se todas as vozes que escuto foram escolhidas por mim.

Talvez congregar não seja simplesmente uma obrigação da vida cristã.

Talvez seja uma das maneiras pelas quais Cristo mantém viva e saudável a fé que dizemos ter nele.

Medo de crer

Crer é permitir que a palavra de Cristo tenha mais autoridade sobre nós do que aquilo que aprendemos a considerar verdadeiro, seguro e possível.

Túlio era um empregado bancário exemplar. Os últimos 20 anos os passou de agência em agência até que estabilizou naquela cidade. Formou família, teve filhos, ele e sua esposa criavam seus filhos de perto e com zelo. Criado numa família cristã de tradição evangélica frequentava a igreja local com a sua família. Domingos, Terças e sábados estavam presentes. Contribuía financeiramente, era diácono ativo. Internamente era um homem equilibrado. Sem dívidas. De boa reputação. Só tinha um medo danado de crer. Mas nem ele estava ciente disso.

O problema não é simplesmente acreditar.

Podemos acreditar em Jesus sem permitir que ele mexa profundamente naquilo em que já acreditávamos antes dele. Chegamos à fé carregando uma interpretação do mundo formada pela família, cultura, religião, experiência política. O problema começa quando Jesus contradiz algumas dessas certezas. Nesse momento descobrimos se cremos nele ou apenas conseguimos acomodá-lo dentro do que já acreditamos.

Pedro sobre as águas – quando a experiência diz que não pode ser.

O texto de Mateus 14:22-33 é bem conhecido. Em resumo: os discípulos estão num pequeno barco no meio do mar sob vento forte. Jesus se aproxima. Os discípulos o veem andando sobre as águas. Pedro pede para provar que é ele andando sobre as águas. Jesus o convida. Pedro vai. Caminha. Se assusta. Começa a afundar. Jesus lhe estende a mão e lhe disse “Homem de pequena fé, por que duvidaste?”

Pedro não é qualquer pessoa. Ele é um homem de meia idade que tinha por oficio pescador. Conhecia o mar. Ele tinha na sua experiência sobradas razões para permanecer no barco. Sabia claramente que não era possível para um homem andar sobre as águas.

Talvez exatamente por isso, ele pede para poder caminhar até Jesus como prova de que ele era quem aparentava – à distância – ser.

E talvez pelo mesmo motivo, Jesus não faz nenhum milagre, apenas fala “Vem”.

Uma única palavra.

Por alguns instantes, Pedro permite que essa palavra especifica de Jesus tenha mais peso que sua experiência. Depois olha novamente para aquilo que ele conhecia de longa data: vento, água, perigo. Teve medo. Começou a afundar.

Claro, como todo texto ele se mostra capaz de segurar uma reflexão alegórica. Poderíamos dizer que a água e o vento são os problemas e que o caminho sobre o mar é o caminho que estamos trilhando, isto é, nossa vida. E se bem isso soa muito bonito – e nós vamos acabar tirando uma lição moral ou espiritual disto, o relato é histórico e como tal deve ser tratado.

O fato é que o vento não começou quando Pedro teve medo. O vento, a água, as ondas, o barco, Jesus ao longe, os outros discípulos no barco. Tudo estava lá antes. Isso estava assim quando ele pulou a borda do barquinho e começou a andar sobre as águas até Jesus.

Então o que mudou? O conhecimento prévio entrou na mente dele e ele teve medo.

O medo tem essa particularidade de querer nos proteger de alguma coisa. Dizem que é melhor um covarde vivo do que um herói morto. (A Bíblia diz que “é melhor um cão vivo do que um leão morto” – Eclesiastes 9:4)

O conhecimento anterior à caminhada estava errado? Não. De fato foram esses dados os que o tinham ajudado muito na tarefa no mar, o qual demanda um grande respeito. Então a crença dele nessas experiências anteriores (pessoais ou não) não estava errada.

Dessa forma, há momentos em que crer significa admitir que nossa experiência é verdadeira, mas não tem a palavra final.

Nicodemos – Quando a religião não tem categoria para o que Deus está fazendo

Um outro texto bem conhecido e interessante para nosso ponto de hoje é João 3:1-15

“Bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus”. Essa foi a frase introdutória de Nicodemos naquela noite.

Nicodemos não é um incrédulo ignorante. É justamente seu conhecimento religioso que torna a conversa interessante. Eram dois mestres judeus sentados numa noite fresca conversando sobre suas crenças. Um diálogo de igual a igual em certo sentido. E seus conhecimentos não estavam errados. Jesus não os descarta. Só que ele vê uma sombra nisso tudo. Alguma coisa querendo aparecer atrás das palavras dele que não chegaram a cristalizar na primeira colocação de Nicodemos.

Jesus (na sua versão “Corte rápido Tramontina”) não perde a oportunidade e lhe propõe um dilema existencial que não pode ser respondido pela religião de Nicodemos: “aquele que não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”

Jesus fala de nascer de novo e Nicodemos tenta encaixar aquilo nas categorias que já possui: “Como pode um homem nascer, sendo velho?”

A pergunta de Nicodemos muito mais do que óbvia. O era naquela época e agora também. E a resposta – dentro do plano físico – continua sendo óbvia.

Todavia, da fonte de males que nos acometem, o corpo é o mais virtuoso. Já as aflições existenciais radicadas na alma precisam de um outro tipo de resposta.

Então, pare um pouco e analise: O dilema de Nicodemos naquela noite, não se assemelha ao nosso? Ele estava tentando compreender a novidade de Deus usando somente categorias religiosas que trouxe consigo. A bagagem.

Logo, às vezes nossa dificuldade para crer não vem da falta de religião, mas da dificuldade de admitir que Deus seja maior que nossa compreensão religiosa dele.

Pedro e os animais impuros – Quando Deus contradiz aquilo que aprendemos ser fidelidade

Este outro texto também é bem conhecido. Talvez não tanto quanto os outros, mas acho que se encaixa naqueles textos que merecem um segundo olhar (e qual não?) Atos 10:9-20

Diferente do Pedro de Mateus 14, aqui nos encontramos um Pedro diferente. Particularmente forte na fé. Já é apóstolo, já confessou a Cristo. Já recebeu o Espírito Santo. Já pregou corajosamente a Jesus. Já foi encarcerado. Já disse aquela frase célebre “é necessário obedecer a Deus antes que aos homens”.

Contudo, havia um pequeno pedaço de seu íntimo que ainda precisava ser iluminado. Ele precisa ter algumas crenças desmontadas.

Uma ideia que muito me perturbou durante anos é a transformação plena e instantânea de uma pessoa quando se converte. Todo meu conhecimento bíblico me levava a concluir que a transformação na hora da conversão é profunda, radical e duradoura. Isso, inevitavelmente, me colocava outras dúvidas no coração: quando me converti? será que de fato eu sou convertido? Minhas crenças precisavam ser desmontadas.

Então, quando Pedro ouve “levanta-te, mata e come” a resposta mais direta, correta, simples e natural que surge da sua cabeça está aliada ao conhecimento bíblico e à pratica de uma vida: “Nunca comi coisa alguma comum e imunda”.

Assim como aconteceu com a traição e na sua restauração, Pedro precisou de três visões redundantes (que nem as três negações ou as três perguntas sobre o amor) e uma voz clara e forte que colocava fim a uma época na vida dele (que nem o galo e que nem Jesus na praia), disse – nas últimas duas vezes – afirmava: “Não faças tu comum ao que Deus purificou”

Pedro, assim como Paulo perseguindo a igreja. Era firme nas suas convicções. Era fiel. Isso é fé hebraica na prática: fidelidade que torna quem crê parte do corpo. (“o justo pela sua fé [fidelidade] viverá” Habacuque 2:4)

Nota aos que já conhecem o texto: O grego “pistis” não consegue transportar todo o conceito do hebraico “emunāh” mesmo chegando muito perto. A palavra hebraica transmite fé, fidelidade ou firmeza/constância. Já “pistis” carrega mais fé no sentido de confiança e pode sim carregar algo de fidelidade ou aderência. Todavia, não esgota o termo hebraico, mesmo sendo o melhor termo no grego para expressar o hebraico sem recorrer a neologismos. O termo grego traz a ideia de um ato ou atitude de crer ao passo que o hebraico arrasta o conceito de firmeza, constância confiável. Logo, Romanos 1:17 – para Lutero e todo o mundo protestante e depois reformado e por extensão fundamentalistas e evangélicos – é lido como “O justo pela fé , viverá” (repare na vírgula. Com isso quero representar que em Paulo podemos entender que a pessoa chega à justiça a partir (“ἐκ”) da fé) ao ponto que Habacuque poderia ser lido “O justo, pela fé (fidelidade, constância) viverá” o que traz consequências profundas nos conceitos de justificação, redenção, salvação, etc. Aí surge o problema das traduções ao português. O que fazer? Ela é fiel ao texto literal original ou segue a linha interpretativa por entender que Paulo (de fé hebraica convertido a Jesus) escrevendo em grego segue a septuaginta? Eu sou da ideia que deve permanecer fiel ao texto original e cabe a nós – por meio da exegese e a hermenêutica – mostrar evidências claras dessa distinção em lugar de adotar a interpretação dos reformadores como sendo verdade absoluta. Mas isso tudo merece um outro artigo. Apenas baste dizer que salvação, justificação e redenção dependem de fé e se estendem à fé. Fora dela (e exclusivamente ela), nada feito.

Voltemos ao assunto de Pedro e sua visão.

Como estávamos dizendo: Pedro (assim como Paulo) estava sendo fiel ao seu conhecimento bíblico. A Lei lhe impedia comer coisas impuras, e ele era fiel nisso.

Mas as coisas tinham mudado. E os discípulos (e muitos de nós) não entendiam cabalmente do que se tratava isso tudo ao final.

Então, algumas das crenças que Deus precisa corrigir em nós são justamente aquelas que aprendemos a defender em nome dele.

Pedro repreendendo Jesus – Quando Cristo ameaça o Messias que queremos.

Leia o texto de Mateus 16:13-23. Eu sei que é conhecido. Mas com tudo o que você leu até aqui, há algumas coisas que devem saltar aos seus olhos agora mesmo que não seja o que eu vou dizer a continuação.

Este texto é muito íntimo, pessoal. Está o grupo pequeno de discípulos e Jesus. Acabam de chegar a Cesareia de Filipe. E o mestre judeu, seguindo a tradição dialética dos rabinos, inicia com uma pergunta: “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” Ou seja o que as pessoas pensam ao respeito da minha pessoa? Quem sou eu na ideia deles?.

É óbvio que Jesus sabia o que as pessoas pensavam. Ele já mostrara isso em repetidas ocasiões por meio de diálogos, discursos e confrontação direta. Os seus discípulos sabiam que ele sabia. Logo, a pergunta apontava em outra direção. Uma mais íntima talvez.

E as respostas vieram, espontânea e estrepitosamente. “João o Batista”, “Elias”, “Jeremias”, “ou qualquer um dos profetas”.

Chegaram ao final das opções que conheciam e eu imagino que se fez um silêncio. Aquele que antecede a pergunta de verdade. Posso imaginar Jesus olhando a todos eles como quem está pronto a apresentar seu ponto mais sensível. Logo ele falou.

E vós, quem dizeis que eu sou?

Imagino mais silêncio. No olhar de Jesus a sinceridade de quem com a pergunta procura ensinar algo mais. E Pedro quebra o silêncio: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo

E eu, adivinha, imagino mais silêncio. Na cabeça dos outros judeus discípulos com certeza haviam pensamentos do tipo: “Enlouqueceu”. “É. O calor do deserto fritou os miolos dele. Chegou aqui com vegetação abundante e desandou de vez”. “Meu… ele está blasfemando”. “Como assim um indivíduo ser filho de YHWH?”

Jesus se volta para ele e lhe diz: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus.

Para os que gostam de estudar mais: a teologia natural – aquela que pretende se sustentar apenas da revelação não bíblica e que é obtida por meio dos sentidos – consegue chegar até a conclusão de que, tendo em vista o que a natureza revela, deve existir um deus criador. Paulo parece apontar nessa direção em Romanos 1:19-23ss. Já para entendê-lo como criador único e pessoal, é necessária a revelação especial: a Bíblia. Então, esse conhecimento geral, universal, ao alcance de qualquer indivíduo, serve – pela conduta que esse indivíduo tem depois – apenas para condená-lo. Já para abraçar a fé salvifica é necessária a revelação especial. (Cabe lembrar Romanos 2:12-15 e depois o vv16)

Voltando à declaração de Pedro, ela é tão grandiosa que é a divisora de águas do evangelho segundo São Mateus. Veja o início do 16:21: “Desde então começou Jesus…

Algo havia mudado. Algo tinha transformado profundamente o ministério de Jesus. De terem estado pelo menos dois anos em um platô bem conhecido, agora o mestre estava resoluto em ir para Jerusalém e ele sabia claramente o que o esperava em Jerusalém.

A mudança foi muito abrupta. Em especial para Pedro. Pedro amava Jesus – assim como os outros com exceção de Judas Iscariotes que estava no grupo nessa ocasião também. Nesse amor instou Jesus a praticar o que hoje a psicologia chama de auto-cuidado. “Senhor, tem compaixão de ti”.

Não havia dúvidas que Pedro estava plenamente ciente de que o panorama que Jesus pintara, não era nada confortável e acabava em morte. A parte da ressurreição ninguém entendia direito do que se tratava por mais que os fariseus e outros tinham introduzido essa noção havia já duzentos anos.

A resposta de Jesus deve ter ressoado no local afastado em que Pedro e Jesus estavam: “Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens.

Estupefacto deve ter ficado Pedro.

Há pouquinho Jesus tinha dito que ele era muitíssimo feliz porque o que falara tinha sido revelado pelo Pai que está nos céus. Agora, o que ele falara só manifestava conhecimento terreno das coisas. E Jesus o chamou de Adversário, Tentador, Acusador, Maligno

O que tinha acontecido?

Pedro aceitava que Jesus era o Messias (Cristo), mas rejeitava o que o próprio Messias tinha como missão e método.

Na ideia comum da época ao respeito do Messias se juntava tudo. O ungido por Deus para libertar o povo da opressão Romana e junto com isso as expectativas politico-militares ao redor dessa ideia de libertação.

É possível confessar corretamente o nome de Jesus e ainda tentar subordiná-lo ao mundo que gostaríamos que ele construísse.

Portanto, o medo de crer aparece quando queremos que Jesus confirme nossa visão de mundo, mas ele começa a julgá-la.

Conclusão

Quero voltar ao Pedro sobre as águas.

Vamos considerar a ideia de “sair do barco”

Não estamos falando de abandonar nossa família, tradição experiência, religião ou preferência política. Isso seria simplista demais. Essas coisas fazem parte da formação de quem somos e podem carregar muita verdade.

A questão é mais profunda, muito mais: nenhuma delas pode ocupar o lugar de Cristo

Pedro não descobriu que o vento era imaginário. Ele não estava na matrix e Neo veio a salvá-lo. O vento era real. O mar continuava perigoso. O barco era, humanamente, o local mais seguro para estar. E ele estava exatamente no lugar e na ação que queria: andar sobre as águas que nem Jesus.

O chamado era real.

Quem chamava era real.

Mas o medo, ou falta de fé como Jesus indica no versículo a seguir, se fez presente.

Todas suas crenças anteriores lhe passavam como um lastre. E o faziam afundar.

Seguir Jesus pode exigir que coloquemos os pés onde tudo aquilo que sempre soubemos dizia que não havia chão.

Miedo de creer

Creer es permitir que la palabra de Cristo tenga más autoridad sobre nosotros que lo que aprendimos a considerar verdadero, seguro y posible.

Túlio era un empleado bancario ejemplar. Pasó los últimos 20 años de agencia en agencia hasta que se estableció en esa ciudad. Formó una familia, tuvo hijos, él y su esposa criaban a sus hijos de cerca y con esmero. Criado en una familia cristiana de tradición evangélica, asistía a la iglesia local con su familia. Domingos, martes y sábados estaban presentes. Contribuía económicamente, era un diácono activo. Internamente era un hombre equilibrado. Sin deudas. De buena reputación. Solo tenía un miedo tremendo de creer. Pero ni él estaba consciente de eso.

El problema no es simplemente creer.

Podemos creer en Jesús sin permitir que él modifique profundamente aquello en lo que ya creíamos antes de él. Llegamos a la fe cargando una interpretación del mundo formada por la familia, cultura, religión, experiencia política. El problema comienza cuando Jesús contradice algunas de esas certezas. En ese momento descubrimos si creemos en él o simplemente logramos acomodarlo dentro de lo que ya creíamos.

Pedro sobre las aguas – cuando la experiencia dice que no puede ser.

El texto de Mateo 14:22-33 es bien conocido. En resumen: los discípulos están en un pequeño barco en medio del mar bajo viento fuerte. Jesús se acerca. Los discípulos lo ven caminando sobre las aguas. Pedro pide para probar que es él caminando sobre las aguas. Jesús lo invita. Pedro va. Camina. Se asusta. Comienza a hundirse. Jesús le extiende la mano y le dice “Hombre de poca fe, ¿por qué dudaste?”

Pedro no es cualquier persona. Es un hombre de mediana edad que tenía por oficio pescador. Conocía el mar. Tenía en su experiencia sobradas razones para permanecer en el barco. Sabía claramente que no era posible para un hombre andar sobre las aguas.

Quizás exactamente por eso, él pide poder caminar hasta Jesús como prueba de que él era quien aparentaba – a la distancia – ser.

Y quizás por el mismo motivo, Jesús no hace ningún milagro, solo dice “Ven”.

Una única palabra.

Por algunos instantes, Pedro permite que esa palabra específica de Jesús tenga más peso que su experiencia. Luego mira nuevamente a aquello que conocía desde hace mucho: viento, agua, peligro. Tuvo miedo. Comenzó a hundirse.

Claro, como todo texto se muestra capaz de sostener una reflexión alegórica. Podríamos decir que el agua y el viento son los problemas y que el camino sobre el mar es el camino que estamos recorriendo, es decir, nuestra vida. Y aunque eso suena muy bonito – y vamos a acabar sacando una lección moral o espiritual de esto, el relato es histórico y como tal debe ser tratado.

El hecho es que el viento no comenzó cuando Pedro tuvo miedo. El viento, el agua, las olas, el barco, Jesús a lo lejos, los otros discípulos en el barco. Todo estaba allí antes. Así estaba cuando él saltó la borda del barquito y comenzó a andar sobre las aguas hasta Jesús.

Entonces, ¿qué cambió? El conocimiento previo entró en su mente y tuvo miedo.

El miedo tiene esa particularidad de querer protegernos de algo. Dicen que es mejor un cobarde vivo que un héroe muerto. (La Biblia dice que “mejor es perro vivo que león muerto” – Eclesiastés 9:4)

¿El conocimiento anterior a la caminata estaba equivocado? No. De hecho, esos datos fueron los que lo habían ayudado mucho en la tarea en el mar, el cual demanda un gran respeto. Entonces, la creencia de él en esas experiencias anteriores (personales o no) no estaba equivocada.

De esta forma, hay momentos en que creer significa admitir que nuestra experiencia es verdadera, pero no tiene la palabra final.

Nicodemo – Cuando la religión no tiene categoría para lo que Dios está haciendo

Otro texto bien conocido e interesante para nuestro punto de hoy es Juan 3:1-15

“Rabí, sabemos que has venido de Dios como maestro”. Esa fue la frase introductoria de Nicodemo aquella noche.

Nicodemo no es un incrédulo ignorante. Es justamente su conocimiento religioso lo que hace la conversación interesante. Eran dos maestros judíos sentados en una noche fresca conversando sobre sus creencias. Un diálogo de igual a igual en cierto sentido. Y sus conocimientos no estaban equivocados. Jesús no los descarta. Solo que él ve una sombra en todo eso. Algo queriendo aparecer detrás de sus palabras que no llegaron a cristalizar en la primera colocación de Nicodemo.

Jesús (en su versión “Corte rápido Tramontina”) no pierde la oportunidad y le propone un dilema existencial que no puede ser respondido por la religión de Nicodemo: “el que no naciere de nuevo, no puede ver el reino de Dios”

Jesús habla de nacer de nuevo y Nicodemo intenta encajar eso en las categorías que ya posee: “¿Cómo puede un hombre nacer, siendo viejo?”

La pregunta de Nicodemo es más que obvia. Lo era en aquella época y ahora también. Y la respuesta – dentro del plano físico – sigue siendo obvia.

Sin embargo, de la fuente de males que nos aquejan, el cuerpo es el más virtuoso. Ya las aflicciones existenciales radicadas en el alma necesitan otro tipo de respuesta.

Entonces, pará un poco y analizá: ¿El dilema de Nicodemo aquella noche, no se asemeja al nuestro? Él estaba intentando comprender la novedad de Dios usando solo categorías religiosas que trajo consigo. El equipaje.

Por lo tanto, a veces nuestra dificultad para creer no viene de la falta de religión, sino de la dificultad de admitir que Dios sea mayor que nuestra comprensión religiosa de él.

Pedro y los animales impuros – Cuando Dios contradice aquello que aprendimos ser fidelidad

Este otro texto también es bien conocido. Quizás no tanto como los otros, pero creo que se encaja en aquellos textos que merecen una segunda mirada (¿y cuál no?) Hechos 10:9-20

Diferente del Pedro de Mateo 14, aquí nos encontramos con un Pedro diferente. Particularmente fuerte en la fe. Ya es apóstol, ya confesó a Cristo. Ya recibió el Espíritu Santo. Ya predicó valientemente a Jesús. Ya fue encarcelado. Ya dijo aquella frase célebre “es necesario obedecer a Dios antes que a los hombres”.

Sin embargo, había un pequeño pedazo de su interior que aún necesitaba ser iluminado. Él necesita tener algunas creencias desmontadas.

Una idea que mucho me perturbó durante años es la transformación plena e instantánea de una persona cuando se convierte. Todo mi conocimiento bíblico me llevaba a concluir que la transformación en el momento de la conversión es profunda, radical y duradera. Eso, inevitablemente, me ponía otras dudas en el corazón: ¿cuándo me convertí? ¿será que de hecho soy convertido? Mis creencias necesitaban ser desmontadas.

Entonces, cuando Pedro oye “levántate, mata y come” la respuesta más directa, correcta, simple y natural que surge de su cabeza está aliada al conocimiento bíblico y a la práctica de una vida: “Nunca comí cosa alguna común e inmunda”.

Así como ocurrió con la traición y en su restauración, Pedro necesitó de tres visiones redundantes (que ni las tres negaciones o las tres preguntas sobre el amor) y una voz clara y fuerte que ponía fin a una época en su vida (que ni el gallo y que ni Jesús en la playa), dijo – en las últimas dos veces – afirmaba: “No llames tú común a lo que Dios purificó”

Pedro, así como Pablo persiguiendo la iglesia. Era firme en sus convicciones. Era fiel. Eso es fe hebraica en la práctica: fidelidad que hace que quien cree sea parte del cuerpo. (“el justo por su fe vivirá” Habacuc 2:4)

Nota a los que ya conocen el texto: El griego “pistis” no logra transportar todo el concepto del hebreo “emunāh” aunque se acerque mucho. La palabra hebrea transmite fe, fidelidad o firmeza/constancia. Ya “pistis” lleva más fe en el sentido de confianza y puede sí llevar algo de fidelidad o adherencia. Sin embargo, no agota el término hebreo, aunque sea el mejor término en el griego para expresar el hebreo sin recurrir a neologismos. El término griego trae la idea de un acto o actitud de creer mientras que el hebreo arrastra el concepto de firmeza, constancia confiable. Por lo tanto, Romanos 1:17 – para Lutero y todo el mundo protestante y luego reformado y por extensión fundamentalistas y evangélicos – se lee como “El justo por la fe , vivirá” (fijate en la coma. Con eso quiero representar que en Pablo podemos entender que la persona llega a la justicia a partir (“ἐκ”) de la fe) al punto que Habacuc podría ser leído “El justo, por la fe (fidelidad, constancia) vivirá” lo que trae consecuencias profundas en los conceptos de justificación, redención, salvación, etc. Ahí surge el problema de las traducciones al español. ¿Qué hacer? ¿Es fiel al texto literal original o sigue la línea interpretativa por entender que Pablo (de fe hebraica convertido a Jesús) escribiendo en griego sigue la septuaginta? Yo soy de la idea que debe permanecer fiel al texto original y nos corresponde a nosotros – por medio de la exégesis y la hermenéutica – mostrar evidencias claras de esa distinción en lugar de adoptar la interpretación de los reformadores como siendo verdad absoluta. Pero eso todo merece otro artículo. Solo basta decir que salvación, justificación y redención dependen de fe y se extienden a la fe. Fuera de ella (y exclusivamente ella), nada hecho.

Volvamos al asunto de Pedro y su visión.

Como estábamos diciendo: Pedro (así como Pablo) estaba siendo fiel a su conocimiento bíblico. La Ley le impedía comer cosas impuras, y él era fiel en eso.

Pero las cosas habían cambiado. Y los discípulos (y muchos de nosotros) no entendían cabalmente de qué se trataba eso todo al final.

Entonces, algunas de las creencias que Dios necesita corregir en nosotros son justamente aquellas que aprendimos a defender en su nombre.

Pedro reprendiendo a Jesús – Cuando Cristo amenaza al Mesías que queremos.

Leé el texto de Mateo 16:13-23. Yo sé que es conocido. Pero con todo lo que leíste hasta aquí, hay algunas cosas que deben saltar a tus ojos ahora mismo que no sea lo que voy a decir a continuación.

Este texto es muy íntimo, personal. Está el grupo pequeño de discípulos y Jesús. Acaban de llegar a Cesarea de Filipo. Y el maestro judío, siguiendo la tradición dialéctica de los rabinos, inicia con una pregunta: “¿Quién dicen los hombres que es el Hijo del Hombre?” O sea, ¿qué piensan las personas respecto a mi persona? ¿Quién soy yo en la idea de ellos?

Es obvio que Jesús sabía lo que las personas pensaban. Él ya había mostrado eso en repetidas ocasiones por medio de diálogos, discursos y confrontación directa. Sus discípulos sabían que él sabía. Luego, la pregunta apuntaba en otra dirección. Una más íntima quizás.

Y las respuestas vinieron, espontánea y estrepitosamente. “Juan el Bautista”, “Elías”, “Jeremías”, “o cualquiera de los profetas”.

Llegaron al final de las opciones que conocían y yo imagino que se hizo un silencio. Aquel que antecede a la pregunta de verdad. Puedo imaginar a Jesús mirando a todos ellos como quien está listo para presentar su punto más sensible. Luego él habló.

Y vosotros, ¿quién decís que soy yo?

Imagino más silencio. En la mirada de Jesús la sinceridad de quien con la pregunta busca enseñar algo más. Y Pedro rompe el silencio: “Tú eres el Cristo, el Hijo del Dios viviente

Y yo, adiviná, imagino más silencio. En la cabeza de los otros judíos discípulos con certeza había pensamientos del tipo: “Enloqueció”. “Sí. El calor del desierto le frió los sesos. Llegó aquí con vegetación abundante y desandó de una vez”. “Mi… está blasfemando”. “¿Cómo así un individuo ser hijo de YHWH?”

Jesús se vuelve hacia él y le dice: “Bienaventurado eres, Simón hijo de Jonás, porque no te lo reveló carne ni sangre, sino mi Padre que está en los cielos.

Para los que gustan de estudiar más: la teología natural – aquella que pretende sostenerse solo de la revelación no bíblica y que es obtenida por medio de los sentidos – logra llegar hasta la conclusión de que, teniendo en cuenta lo que la naturaleza revela, debe existir un dios creador. Pablo parece apuntar en esa dirección en Romanos 1:19-23ss. Ya para entenderlo como creador único y personal, es necesaria la revelación especial: la Biblia. Entonces, ese conocimiento general, universal, al alcance de cualquier individuo, sirve – por la conducta que ese individuo tiene después – solo para condenarlo. Ya para abrazar la fe salvadora es necesaria la revelación especial. (Cabe recordar Romanos 2:12-15 y luego el vv16)

Volviendo a la declaración de Pedro, ella es tan grandiosa que es la divisora de aguas del evangelio según San Mateo. Ve el inicio del 16:21: “Desde entonces comenzó Jesús…

Algo había cambiado. Algo había transformado profundamente el ministerio de Jesús. De haber estado al menos dos años en un plató bien conocido, ahora el maestro estaba resuelto en ir a Jerusalén y él sabía claramente lo que le esperaba en Jerusalén.

El cambio fue muy abrupto. En especial para Pedro. Pedro amaba a Jesús – así como los otros con excepción de Judas Iscariote que estaba en el grupo en esa ocasión también. En ese amor instó a Jesús a practicar lo que hoy la psicología llama autocuidado. “Señor, ten compasión de ti”.

No había dudas de que Pedro estaba plenamente consciente de que el panorama que Jesús pintara, no era nada confortable y acababa en muerte. La parte de la resurrección nadie entendía bien de qué se trataba por más que los fariseos y otros habían introducido esa noción hacía ya doscientos años.

La respuesta de Jesús debe haber resonado en el lugar apartado en que Pedro y Jesús estaban: “¡Quítate de delante de mí, Satanás! Me eres tropiezo, porque no pones la mira en las cosas de Dios, sino en las de los hombres.

Estupefacto debe haber quedado Pedro.

Hace poquito Jesús había dicho que él era muy feliz porque lo que había dicho había sido revelado por el Padre que está en los cielos. Ahora, lo que había dicho solo manifestaba conocimiento terrenal de las cosas. Y Jesús lo llamó Adversario, Tentador, Acusador, Maligno

¿Qué había pasado?

Pedro aceptaba que Jesús era el Mesías (Cristo), pero rechazaba lo que el propio Mesías tenía como misión y método.

En la idea común de la época respecto al Mesías se juntaba todo. El ungido por Dios para liberar al pueblo de la opresión Romana y junto con eso las expectativas político-militares alrededor de esa idea de liberación.

Es posible confesar correctamente el nombre de Jesús y aún intentar subordinarlo al mundo que nos gustaría que él construyera.

Por lo tanto, el miedo de creer aparece cuando queremos que Jesús confirme nuestra visión del mundo, pero él comienza a juzgarla.

Conclusión

Quiero volver a Pedro sobre las aguas.

Vamos a considerar la idea de “salir del barco”

No estamos hablando de abandonar nuestra familia, tradición, experiencia, religión o preferencia política. Eso sería demasiado simplista. Esas cosas forman parte de la formación de quienes somos y pueden llevar mucha verdad.

La cuestión es más profunda, mucho más: ninguna de ellas puede ocupar el lugar de Cristo

Pedro no descubrió que el viento era imaginario. No estaba en la matrix y Neo vino a salvarlo. El viento era real. El mar continuaba peligroso. El barco era, humanamente, el lugar más seguro para estar. Y él estaba exactamente en el lugar y en la acción que quería: andar sobre las aguas como Jesús.

El llamado era real.

Quien llamaba era real.

Pero el miedo, o falta de fe como Jesús indica en el versículo siguiente, se hizo presente.

Todas sus creencias anteriores le pasaban como un lastre. Y lo hacían hundirse.

Seguir a Jesús puede exigir que pongamos los pies donde todo aquello que siempre supimos decía que no había suelo.

Fear of Believing

Believing is allowing the word of Christ to hold more authority over us than what we’ve learned to consider true, safe, and possible.

Túlio was an exemplary bank employee. For the last 20 years, he moved from branch to branch until he settled in that city. He started a family, had children, and he and his wife raised them closely and diligently. Raised in a Christian family with an evangelical tradition, he attended the local church with his family. Sundays, Tuesdays, and Saturdays, they were present. He contributed financially and was an active deacon. Internally, he was a balanced man. Debt-free. Of good reputation. He just had a terrible fear of believing. But he wasn’t even aware of it.

The problem isn’t simply believing.

We can believe in Jesus without allowing Him to deeply alter what we believed before Him. We come to faith carrying an interpretation of the world shaped by family, culture, religion, and political experience. The problem begins when Jesus contradicts some of these certainties. At that moment, we discover if we truly believe in Him or if we merely accommodate Him within what we already believe.

Peter on the Water – When Experience Says It Can’t Be.

The passage from Matthew 14:22-33 is well-known. In short: the disciples are in a small boat in the middle of the sea under strong winds. Jesus approaches. The disciples see Him walking on the water. Peter asks to prove that it is Him walking on the water. Jesus invites him. Peter goes. Walks. Gets scared. Begins to sink. Jesus reaches out His hand and says, “You of little faith, why did you doubt?”

Peter is not just anyone. He is a middle-aged man whose profession was fishing. He knew the sea. He had ample reasons from his experience to stay in the boat. He knew clearly that it was not possible for a man to walk on water.

Perhaps precisely for this reason, he asks to walk to Jesus as proof that He was who He appeared to be—from a distance.

And perhaps for the same reason, Jesus performs no miracle, He simply says, “Come.”

One single word.

For a few moments, Peter allows this specific word from Jesus to carry more weight than his experience. Then he looks again at what he had long known: wind, water, danger. He was afraid. He began to sink.

Of course, like any text, it can hold an allegorical reflection. We could say that the water and wind are the problems and that the path over the sea is the path we are treading, that is, our life. And while this sounds very beautiful—and we will end up drawing a moral or spiritual lesson from it—the account is historical and should be treated as such.

The fact is, the wind didn’t start when Peter got scared. The wind, the water, the waves, the boat, Jesus in the distance, the other disciples in the boat. Everything was there before. It was like this when he jumped over the side of the little boat and began to walk on the water toward Jesus.

So what changed? Prior knowledge entered his mind, and he was afraid.

Fear has this peculiarity of wanting to protect us from something. They say it’s better to be a live coward than a dead hero. (The Bible says, “a live dog is better off than a dead lion” – Ecclesiastes 9:4)

Was the prior knowledge to the walk wrong? No. In fact, these data had greatly helped him in the task at sea, which demands great respect. So his belief in these previous experiences (personal or not) was not wrong.

Thus, there are moments when believing means admitting that our experience is true but does not have the final word.

Nicodemus – When Religion Has No Category for What God Is Doing

Another well-known and interesting text for our point today is John 3:1-15

“We know that you are a teacher who has come from God.” This was Nicodemus’s introductory phrase that night.

Nicodemus is not an ignorant unbeliever. It is precisely his religious knowledge that makes the conversation interesting. Two Jewish teachers sitting on a cool night discussing their beliefs. A dialogue of equals in a certain sense. And his knowledge was not wrong. Jesus does not dismiss it. But He sees a shadow in all this. Something wanting to appear behind Nicodemus’s words that did not crystallize in his first statement.

Jesus (in His “Tramontina Quick Cut” version) does not miss the opportunity and proposes an existential dilemma that cannot be answered by Nicodemus’s religion: “No one can see the kingdom of God unless they are born again.”

Jesus speaks of being born again, and Nicodemus tries to fit it into the categories he already possesses: “How can someone be born when they are old?”

Nicodemus’s question is much more than obvious. It was then and is now. And the answer—within the physical realm—remains obvious.

However, from the source of evils that afflict us, the body is the most virtuous. Existential afflictions rooted in the soul need another type of answer.

So, pause and analyze: Isn’t Nicodemus’s dilemma that night similar to ours? He was trying to understand God’s novelty using only the religious categories he brought with him. The baggage.

Thus, sometimes our difficulty in believing does not come from a lack of religion, but from the difficulty of admitting that God is greater than our religious understanding of Him.

Peter and the Unclean Animals – When God Contradicts What We Learned as Faithfulness

This other text is also well-known. Perhaps not as much as the others, but I think it fits into those texts that deserve a second look (and which doesn’t?) Acts 10:9-20

Unlike the Peter of Matthew 14, here we find a different Peter. Particularly strong in faith. He is already an apostle, has already confessed Christ. He has already received the Holy Spirit. He has already boldly preached Jesus. He has already been imprisoned. He has already said that famous phrase “We must obey God rather than human beings.”

However, there was a small part of his inner self that still needed to be enlightened. He needed to have some beliefs dismantled.

An idea that troubled me for years is the full and instant transformation of a person when they convert. All my biblical knowledge led me to conclude that the transformation at the moment of conversion is deep, radical, and lasting. This inevitably raised other doubts in my heart: When did I convert? Am I truly converted? My beliefs needed to be dismantled.

So, when Peter hears “Get up, Peter. Kill and eat,” the most direct, correct, simple, and natural response that arises from his head is allied to biblical knowledge and the practice of a lifetime: “I have never eaten anything impure or unclean.”

Just as it happened with the betrayal and his restoration, Peter needed three redundant visions (like the three denials or the three questions about love) and a clear and strong voice that put an end to an era in his life (like the rooster and like Jesus on the beach), said—in the last two times—affirmed: “Do not call anything impure that God has made clean.”

Peter, like Paul persecuting the church, was firm in his convictions. He was faithful. This is Hebrew faith in practice: faithfulness that makes the believer part of the body. (“the righteous person will live by his faithfulness” Habakkuk 2:4)

Note to those who already know the text: The Greek “pistis” cannot fully convey the concept of the Hebrew “emunāh” even though it comes very close. The Hebrew word conveys faith, faithfulness, or firmness/constancy. “Pistis” carries more faith in the sense of trust and can indeed carry something of faithfulness or adherence. However, it does not exhaust the Hebrew term, even being the best term in Greek to express the Hebrew without resorting to neologisms. The Greek term brings the idea of an act or attitude of believing, while the Hebrew drags the concept of firmness, reliable constancy. Thus, Romans 1:17—for Luther and the entire Protestant world and later Reformed and by extension fundamentalists and evangelicals—is read as “The righteous will live by faith ,” (note the comma. With this, I want to represent that in Paul we can understand that the person reaches righteousness from (“ἐκ”) faith) to the point that Habakkuk could be read “The righteous, by faith (faithfulness, constancy) will live” which brings profound consequences in the concepts of justification, redemption, salvation, etc. Then arises the problem of translations into Portuguese. What to do? Is it faithful to the original literal text or does it follow the interpretative line by understanding that Paul (of Hebrew faith converted to Jesus) writing in Greek follows the Septuagint? I am of the idea that it should remain faithful to the original text, and it is up to us—through exegesis and hermeneutics—to show clear evidence of this distinction instead of adopting the reformers’ interpretation as absolute truth. But all this deserves another article. Suffice it to say that salvation, justification, and redemption depend on faith and extend to faith. Outside of it (and exclusively it), nothing is done.

Returning to the subject of Peter and his vision.

As we were saying: Peter (like Paul) was being faithful to his biblical knowledge. The Law forbade him from eating unclean things, and he was faithful in this.

But things had changed. And the disciples (and many of us) did not fully understand what this was all about in the end.

So, some of the beliefs that God needs to correct in us are precisely those we learned to defend in His name.

Peter Rebuking Jesus – When Christ Threatens the Messiah We Want

Read the text of Matthew 16:13-23. I know it is known. But with everything you’ve read so far, there are some things that should jump out at you now, even if it’s not what I’m going to say next.

This text is very intimate, personal. It’s the small group of disciples and Jesus. They have just arrived at Caesarea Philippi. And the Jewish teacher, following the dialectical tradition of the rabbis, begins with a question: “Who do people say the Son of Man is?” In other words, what do people think about me? Who am I in their idea?

It’s obvious that Jesus knew what people thought. He had shown this repeatedly through dialogues, speeches, and direct confrontation. His disciples knew that He knew. So the question pointed in another direction. A more intimate one perhaps.

And the answers came, spontaneously and noisily. “John the Baptist,” “Elijah,” “Jeremiah,” “or one of the prophets.”

They reached the end of the options they knew, and I imagine there was a silence. The one that precedes the real question. I can imagine Jesus looking at all of them as if ready to present His most sensitive point. Then He spoke.

But what about you? Who do you say I am?

I imagine more silence. In Jesus’s gaze, the sincerity of one who with the question seeks to teach something more. And Peter breaks the silence: “You are the Messiah, the Son of the living God.

And I, guess what, imagine more silence. In the minds of the other Jewish disciples, there were certainly thoughts like: “He’s gone mad.” “Yeah. The desert heat fried his brains. He got here with abundant vegetation and completely lost it.” “Man… he’s blaspheming.” “How can an individual be the son of YHWH?”

Jesus turns to him and says: “Blessed are you, Simon son of Jonah, for this was not revealed to you by flesh and blood, but by my Father in heaven.

For those who like to study more: natural theology—that which intends to sustain itself only from non-biblical revelation and is obtained through the senses—can reach the conclusion that, considering what nature reveals, there must be a creator god. Paul seems to point in this direction in Romans 1:19-23ff. But to understand Him as the unique and personal creator, special revelation is necessary: the Bible. So, this general, universal knowledge, accessible to any individual, serves—by the conduct that this individual has afterward—only to condemn him. But to embrace saving faith, special revelation is necessary. (Remember Romans 2:12-15 and then vv16)

Returning to Peter’s declaration, it is so grand that it is the watershed of the Gospel according to Saint Matthew. See the beginning of 16:21: “From that time on Jesus began…

Something had changed. Something had profoundly transformed Jesus’s ministry. Having been at least two years on a well-known plateau, now the Master was resolute in going to Jerusalem, and He knew clearly what awaited Him in Jerusalem.

The change was very abrupt. Especially for Peter. Peter loved Jesus—as did the others except for Judas Iscariot, who was in the group on this occasion as well. In that love, he urged Jesus to practice what psychology today calls self-care. “Never, Lord!” he said. “This shall never happen to you!

There was no doubt that Peter was fully aware that the panorama Jesus painted was nothing comfortable and ended in death. The part about the resurrection, no one understood right what it was about, even though the Pharisees and others had introduced this notion two hundred years earlier.

Jesus’s response must have echoed in the secluded place where Peter and Jesus were: “Get behind me, Satan! You are a stumbling block to me; you do not have in mind the concerns of God, but merely human concerns.

Peter must have been stunned.

Just a little while ago, Jesus had said that he was very blessed because what he had spoken had been revealed by the Father in heaven. Now, what he had spoken only manifested earthly knowledge of things. And Jesus called him Adversary, Tempter, Accuser, Evil One

What had happened?

Peter accepted that Jesus was the Messiah (Christ), but rejected what the Messiah Himself had as mission and method.

In the common idea of the time regarding the Messiah, everything was combined. The one anointed by God to free the people from Roman oppression and along with that the political-military expectations around this idea of liberation.

It is possible to correctly confess the name of Jesus and still try to subordinate Him to the world we would like Him to build.

Therefore, the fear of believing appears when we want Jesus to confirm our worldview, but He begins to judge it.

Conclusion

I want to return to Peter on the water.

Let’s consider the idea of “getting out of the boat.”

We are not talking about abandoning our family, tradition, experience, religion, or political preference. That would be too simplistic. These things are part of the formation of who we are and can carry much truth.

The issue is deeper, much more: none of them can take the place of Christ

Peter did not discover that the wind was imaginary. He was not in the matrix, and Neo came to save him. The wind was real. The sea remained dangerous. The boat was, humanly, the safest place to be. And he was exactly in the place and action he wanted: walking on the water like Jesus.

The call was real.

The one calling was real.

But fear, or lack of faith as Jesus indicates in the following verse, made itself present.

All his previous beliefs passed through him like ballast. And they made him sink.

Following Jesus may require us to place our feet where everything we’ve always known said there was no ground.

O tempo passa e vamos ficando velhos

Começo meu dia tomando essas pílulas. Ao final do dia, tenho mais quatro.

Tem uma música eternizada na voz da cantora argentina Mercedes Sosa que diz assim: “O tempo passa e vamos ficando velhos, e o amor não o reflito como ontem” (em tradução livre, que não consegue transmitir a ideia de “nos vamos poniendo viejos”).

O envelhecimento é uma experiência universal. Dizem que de nada temos segurança neste mundo a não ser da morte. Porém (como Spurgeon bem colocava) não há nada mais incerto do que a hora da morte. Então, se você está vivo (e não haveria outra forma de você estar lendo este artigo), o mais seguro é que você está envelhecendo e esse processo, se não interrompido por doença ou acidente, vai se prolongar alguns anos mais.

A velhice não chega de uma vez. Ela vai se instalando silenciosamente. De repente, vemos que não mais lembramos dos nomes. Que o corpo exige cuidado. Que os pais envelhecem e/ou morrem. Que alguns projetos deixam de ser sonhos e passam a ser lembranças.

O verdadeiro choque não é perder a juventude; é descobrir que o tempo já não parece infinito.

A juventude vive da ilusão da reversibilidade

Enquanto somos jovens, acreditamos que quase tudo pode ser perfeito. Como temos força, energia, vitalidade, o horizonte da vida parece largo e distante. E, pior ainda, reversível.

Pensamos que sempre haverá tempo para pedir perdão, reconstruir relacionamentos, mudar de profissão ou corrigir decisões. A maturidade revela que existem acontecimentos irreversíveis. O evangelho não promete devolver o passado; promete redimir pessoas que têm um passado. Redimir, simplificando, é comprar um escravo por um preço. Libertá-lo e levá-lo para um novo plano que, no caso de Jesus e a fé nele, significa o Reino. Aqui e agora. Outras palavras similares, mas que, embora não cheguem perto, servem para explicar o que estou querendo: Alforria, Emancipação. (Na emancipação/alforria que conhecemos, não foram criadas as condições sociais necessárias para que o emancipado conseguisse ter uma vida digna. Isso a redenção trata mais profundamente, e isso importa.)

A Bíblia não romantiza a velhice

Na realidade, a Bíblia não romantiza nada. Ela conta duas histórias de formas tocantes: a periférica, que é o relato de ações, decisões, observações, consequências das decisões — boas e ruins — e micro atos de redenção atingindo pessoas, famílias, povos. E também tem o relato principal, que é a redenção feita por Jesus na cruz, apontando para uma redenção até da criação. O importante aqui: Deus não abandona seus projetos.

Textos como Eclesiastes 12 descrevem com realismo a decadência do corpo. Salmo 90 ensina a contar os dias. João 21 mostra Jesus anunciando a Pedro a perda gradual da autonomia.

A Escritura honra os cabelos brancos, mas nunca trata a velhice como um prêmio automático nem como sinônimo de sabedoria. Baste ver o mundaréu de pessoas idosas carrancudas, raivosas, violentas, bravas com Deus e com o mundo, vivendo num inconformismo e ressentimento que cabem bem na adolescência, mas não no final da vida.

As mudanças na vida, pode sim ser de ordem violenta ou instantânea – um AVC, uma paralisia, uma traição, o trabalho que se perde e muda tudo, enfim a lista é longa – mas as mudanças sobre as quais temos algum tipo de poder são demoradas e dolorosas. Por isso que, geralmente, negamos a necessidade de ajuda ou a importância de ver que, fazendo do mesmo jeito que sempre fizemos, não conseguiremos obter resultados diferentes.

Essas mudanças requerem não apenas um alvo sonhado. Precisam se transformar em um plano bem estabelecido. Não uma coisa do tipo “Daqui pra frente tudo será diferente”. Esse refrão que se repete ano após ano em certa TV pública já mostra, logo em fevereiro ou março, que não é verdade.

Consequências permanecem. Condenação, não.

A Bíblia está cheia de pessoas que pecaram, obtiveram o perdão de Deus e tiveram que continuar a viver com as consequências do seu pecado. Talvez o exemplo mais claro seja o de Davi.

Há uma idade em que descobrimos que não somos mais definidos pelos nossos maiores acertos nem pelos nossos maiores fracassos. Somos definidos pela graça com que Deus continua escrevendo a história apesar deles.

A história de Davi mostra que Deus perdoa sem apagar todas as consequências. Há perdas que permanecem até o fim da vida. Davi não perdeu apenas o filho que teve com Bate-Seba — a gravidez dela foi justamente o que levou Davi a mandar Urias para a linha de frente — mas também enfrentou uma fratura de integridade e desdobramentos prolongados na casa real.

No episódio de Bate-Seba, após Davi pecar, a Bíblia diz que o SENHOR enviou Natã a Davi (2 Samuel 12). Natã confronta Davi com uma parábola e, depois, anuncia diretamente as consequências: que a espada não se afastaria da casa de Davi e que o filho morreria, e que isso aconteceria “porquanto” Davi agiu daquele modo (2 Samuel 12:1-14).

Mesmo com isso, Davi não perdeu o reinado, e não foi “desqualificado” como rei diante de Deus: ele continuou sendo um dos líderes do povo judeu e, apesar das consequências, permaneceu no propósito divino.

Acho que poucos conseguimos entender a atitude de Davi ao se levantar do jejum assim que o menino morreu e ir celebrar um banquete. Para o observador ocasional, isso soa a psicopatia, ou pelo menos a desinteresse. Geralmente o que se espera é que se faça luto após a morte. Ele não. Menos mal que temos a explicação bíblica. Por isso sugiro a leitura inteira do episódio.

O cristão idoso pode carregar cicatrizes profundas sem continuar vivendo como condenado. E isso é realmente libertador. Romanos 8 e 1 Coríntios 4 mostram que a palavra final sobre nossa vida pertence a Cristo, não à culpa nem aos aplausos.

O envelhecimento desmonta a ilusão de autossuficiência

A maior perda talvez não seja a força física, mas a autonomia. O corpo deixa de obedecer, a memória falha, outras pessoas passam a cuidar de nós, a privacidade e a independência deixam de ser um bem extremamente prezado e zelado para virar moeda de barganha com a manutenção da vida.

Descobrimos que nunca fomos realmente independentes; apenas conseguíamos esconder nossa dependência. Agora já não. A velhice se torna uma espécie de humildade compulsória.

Por exemplo, o modo como Jesus descreve o futuro de Pedro mostra que dependência nem sempre é escolhida: em vez de Pedro seguir o caminho que queria, haveria um tempo em que ele seria levado “para onde não queres”. O corpo — e, por extensão, a vontade — deixa de ser o centro do governo, e a vida passa a ser conduzida por um chamado que o ultrapassa. Assim, a fragilidade não aparece apenas como falha; ela vira lugar de comunhão com a graça e com a missão, porque o “eu” já não sustenta sozinho o peso do caminho.

A igreja local deveria ser o lugar onde a fragilidade encontra comunhão

À medida que a dependência cresce, torna-se ainda mais necessária uma comunidade capaz de acolher confissão, arrependimento, luto e limitações.


Não se engane, até o mais perdido dos pecadores precisa de confissão. Há um livro publicado recentemente sobre os franco-atiradores ocidentais em Sarajevo nos anos 1990. Tratarei disso num outro artigo.


Voltemos ao assunto do luto, confissões, limitações.

Em vez de acolher confissão, arrependimento, luto e limitações, muitas igrejas esperam que os mais velhos demonstrem estabilidade permanente. A comunhão dos santos deveria ser um bálsamo justamente quando já não há como voltar atrás.

E é nesse sentido que Maria, colocada sob os cuidados de João (João 19:26-27), é uma boa ilustração: ela é recebida, sustentada e amparada por alguém designado para não deixar a fragilidade isolada. Se até naquele momento, quando a vida de Jesus estava sendo levada, Maria não foi “largada”, mas entregue ao cuidado, então a igreja também deve aprender a fazer o mesmo com os seus idosos — não como favor, mas como expressão de amor que não depende da força de quem recebe.

Cristo dá sentido ao tempo que resta

A esperança cristã não consiste em recuperar a juventude nem em escapar da realidade. Consiste em descobrir que o tempo, mesmo quando nos tira as forças, oportunidades e autonomia, continua pertencendo a Deus. Cristo não elimina a finitude; ele impede que ela tenha a palavra final.

Agora, sem romantizar nem tornar doce a pílula do envelhecimento, vamos ancorar a reflexão em 2 Coríntios 4:16: “Ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia.” O corpo pode “deixar de obedecer”, mas a vida interior não fica sem governo: ela vai sendo rearrumada, dia após dia.

E o mesmo tom pastoral aparece em Isaías 46:4: “Até a vossa velhice eu sou o mesmo… eu vos sustentarei.” Deus não se afasta quando a capacidade diminui; Ele sustenta quando a dependência aumenta.

Por fim, o Salmo 71:9-18 coloca palavras num luto que é real: ele descreve envelhecimento e declínio, mas não cala o testemunho de amparo. A velhice pode doer — ainda assim, a mão que sustenta não muda.

O envelhecimento, porém, não é só finitude “gradual”; há dias em que chega uma espécie de noite interior. No Alzheimer, a memória se rompe, as palavras se perdem, e às vezes o cérebro já não parece alcançar os estímulos como antes. Nesses momentos, a promessa de Deus não é que a mente volte a funcionar, mas que Ele guarda em paz quem persevera.

Talvez chegue um dia em que nossa mente já não consiga permanecer firme nele. Não é mais uma capacidade cognitiva que a pessoa controla, é algo sustentado por amor: por oração, por presença, por leitura, por música, por cuidado paciente.

Quando chega o tempo em que “nem mais o cérebro parece responder”, ainda assim a comunhão pode acontecer por caminhos que atravessam o pensamento consciente: uma canção conhecida, o tom da voz, uma frase do evangelho dita com constância, uma oração sussurrada. Vi isso em pessoas que já não falavam por causa do Alzheimer, mas se comoviam — indo às lágrimas — quando o nome de Jesus era anunciado. Não era performance: era vida sustentada por graça, mesmo no limite.

Conclusão

Envelhecer é descobrir que existem decisões irreversíveis, perdas definitivas e limites que não podem ser negociados. É também perceber que nossa dignidade nunca esteve na força, na memória ou na capacidade de controlar a própria vida.

Há uma hora da vida em que já não podemos voltar atrás. Mas ainda podemos caminhar para a frente. Não porque o passado deixou de existir, nem porque as perdas deixaram de doer.

Caminhamos porque Cristo entrou na nossa história, inclusive naquela parte que nunca conseguiremos reescrever. O tempo continua passando. Continuaremos envelhecendo. Mas já não caminhamos rumo ao vazio. Caminhamos ao encontro daquele que prometeu: “Até a vossa velhice eu serei o mesmo… eu vos sustentarei.” (Isaías 46:4)