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Onde o cristão sangra

Onde o cristão sangra

Há dores para as quais a igreja parece não ter liturgia.

Em “007 O Mundo não é o Bastante” (ou “007 – O Mundo Não Chega” para os lusitanos) há um diálogo que ficou gravado em mim quando assisti:

Q (para Bond):
“Eu sempre tentei te ensinar duas coisas. Primeiro: nunca deixe que eles vejam você sangrar.”
Bond: “E a segunda?”
Q: “Tenha sempre um plano de fuga.”

Sem perceber muitas comunidades cristãs ensinam exatamente isso. Não em seus púlpitos, mas em suas culturas.

Não falamos de casamentos acabando, do filho que morreu, da depressão, da pornografia, da incredulidade, do adultério, do suicídio, da violência intrafamiliar, do adultério, da solidão. Simplesmente colocamos cara de paisagem e continuamos. Uns fazendo de conta que não sabem e outros não deixando perceber que estão sangrando. É uma fórmula para uma tempestade perfeita.

E isso não é porque Cristo não possa lidar com essas questões. Mas porque temos medo de como os irmãos lidarão. E dá para entender. O medo da fofoca institucionalizada (que eu sempre insisto, fica fácil condenar a mulher que fornicou e engravidou, ou os vícios visíveis, mas aquele que pratica fofoca sempre fica de fora. E isso não apenas numa denominação, mas em várias. Logo é estrutural, institucional), como vinha dizendo, o medo da fofoca institucionalizada faz com que a gente, quando enfrenta um problema de gente real, fique de bico calado ou quando abre o bico, encontra um vazio terrível que as igrejas – via de regra – nem consideram a possibilidade de buscar ajuda fora.

Ao final de contas, se Cristo satisfaz todas nossas necessidades, como é possível que o cristão chegue a cogitar sequer a ideia de lançar mão de um psicólogo? E eu respondo: da mesma forma que quando alguém tem um acidente e quebra uma perna a gente corre para a UPA e não para o templo a orar. Óbvio que se a mente desfalece ou quebra, precisamos de ajuda de outros – que nem os traumatologistas – conseguem enxergar a humanidade de forma transversal e não de forma unilateral ou vertical.

Se você, como cristão, permite que os outros vejam você sangrar, se expõe ao ridículo perante o grupo de pessoas que deveria ser o grupo mais seguro do mundo. Simplesmente porque o perdão, o amor, a solidariedade, o carregar com os fardos dos outros, é matéria “espiritual” como se fosse uma matéria “teórica” apenas.

Quando vemos pastores fracassando (como é o caso do acontecido em nossa cidade nos últimos meses) observamos o vazio que ocorre ao redor. Pessoas simplesmente saindo escandalizadas em lugar de ficarem firmes para curar. Nisso, como me explicava um colega esta semana, as igrejas que têm uma estrutura episcopal (isto é, hierárquica) correm com certa vantagem perante as que tem um governo congregacional (ou mais descentralizado/representativo).

Perante o abismo que nosso irmão enfrenta, nos retraímos como se tivesse lepra.

Se a psicologia a psicanálises e outras correntes de tratamento similares tem cada vez mais presença e usabilidade acontece por duas coisas:

Primeiro porque Deus assim o permitiu porque “as coisas reveladas pertencem aos homens”, logo, nenhum avanço humano pode se dizer que é um avanço meramente humano. Tivemos a permissão e a vontade de Deus colocada naquilo de alguma forma.

Segundo porque parte da igreja acabou desenvolvendo uma espiritualidade que sabe falar sobre a eternidade, mas tem dificuldades para permanecer ao lado de quem está afundando hoje. Ou seja, a “teologia do escapismo”, das coisas apenas espirituais, centradas em si mesmas e vivendo apenas para si – ou seja – a própria instituição e não a sociedade para a qual deve ser luz e sal. Ela deixou de se interessar no ser humano a não ser para fazer número ou assentir “espiritualmente” (novamente no sentido de “teórico” vs “prático”) com um conjunto de ideias que, no melhor dos casos, responde a perguntas que ela fez e respondeu no século XVI

Escrevo isso porque já descobri mais de uma vez o que significa atravessar uma dor profunda quase sozinho. Em momentos diferentes da minha vida, esperei que a igreja soubesse como cuidar. Na maior parte das vezes, ela simplesmente não soube. Não houve perseguição. Houve ausência.

A igreja não falha porque é má. Ela falha porque foi treinada para responder perguntas e não para permanecer ao lado de quem sofre.

Jesus nunca teve medo de tocar em quem sangrava

E ele próprio sangrava (diferente do conselho de Q para Bond)

A mulher do fluxo de sangue. O leproso Lázaro, que já cheirava mal. Pedro, depois da negação. Tomé, depois da dúvida.

Cristo nunca exigiu que alguém escondesse a ferida para então aproximar-se dele.

E todos foram transformados depois do seu toque.

E talvez o título afirmativo de “Onde o cristão sangra” pudesse ser transformado em uma pergunta: “Por que construimos comunidades onde esconder o sangue parece mais seguro do que mostrá-lo, se seguimos justamente um Senhor que decidiu não esconder suas próprias feridas?

Será que temos aprendido a anunciar um salvador que recebe pecadores enquanto construímos comunidades onde pecadores precisam esconder o próprio sangue?

Estamos discutindo pastores ou sacerdotes?

Recentemente publicaram um artigo sob o título “Batistas do Sul votam a favor de aprovar uma proibição formal de igrejas com pastoras.” A AP diz que os Batistas do Sul votaram para avançar uma proibição formal, não que ela já tenha sido definitivamente incorporada. A emenda ainda precisa de nova aprovação por maioria de dois terços no próximo encontro anual. Isso importa porque, em 2024, uma tentativa semelhante recebeu maioria, mas não alcançou os dois terços necessários.

O título, por si só, já nos leva à bem conhecida discussão de se uma mulher pode ou não ser pastora. O problema com isso é que – assim como o verniz colocado sobre as imagens da Idade Média para protegê-las nos impede de ver suas verdadeiras cores e detalhes – assim essa discussão nos distancia de uma questão de fundo que me parece muitíssimo mais relevante à identidade cristã, evangélica em geral e batista em particular.

Quando eu estava no seminário me perguntaram se eu era favorável ou contrário ao pastorado feminino. Lembro desse dia com grata satisfação. Respondi que o que precisávamos era entender de forma clara o que era ser pastor.

Se pastor é quem prega aos domingos, ministra a ceia, realiza casamentos, apresenta crianças, conduz funerais e batiza convertidos, então talvez estejamos discutindo menos sobre pastores e mais sobre sacerdotes.

E se estamos discutindo sobre sacerdotes, já não estamos mais discutindo o Novo Testamento.

Não pretendo criticar nem defender a posição da Convenção Batista do Sul. Aqueles que pertencem a igrejas episcopais não fazem ideia de como é nossa relação com o aparato convencional. Mas baste apenas dizer que não é de hierarquia. Uma convenção é uma grande concentração de igrejas autônomas que buscam pactuar – de igual para igual – ações e orçamentos coordenados para conseguir atingir alvos maiores do que uma congregação sozinha poderia. A SBC de fato não governa as igrejas locais como uma hierarquia episcopal. Mas ela pode declarar que uma igreja não está mais em “cooperação amigável” e excluí-la da Convenção.

O que sim pretendo, é olhar embaixo do tapete. Num ponto mais escorregadio e até amargo que, ao discutirmos apenas se pode ou não pode, deixamos de olhar … por pura conveniência.

Sendo que os evangélicos em geral e os batistas em particular frisamos que não há mais autoridade em questão de doutrina fé e ordem do que a própria Bíblia, então vamos levantar alguns pontos incômodos:

  1. Jesus nunca ordena um “clero” nos moldes posteriores.
  2. O Novo Testamento fala muito mais de dons do que de cargos.
  3. O pastor (poimén) aparece como cuidador do rebanho.
  4. O episcopado parece mais ligado à supervisão.
  5. O presbítero à maturidade.
  6. Os dons de ensino, profecia, evangelismo e serviço circulam por toda a comunidade.

Então surge uma pergunta: O que distingue um pastor de um discípulo maduro?

E essa pergunta é que nem quando brincamos de colocar peças de dominó em pé… empurra uma e caem as outras. Porque olha só:

  1. Por que o pastor deve ser o único a batizar? (base bíblica para isso… qual?)
  2. Filipe não era apóstolo e batizou o eunuco.
  3. Paulo diz que Cristo não o enviou prioritariamente para batizar.
  4. Por que o discipulador não poderia batizar? É inferior ao pastor?
  5. E batismo não é uma mais uma ordenança e sim um sacramento que só pode ser ministrado por certas pessoas apenas?
  6. E o mesmo se pode dizer da ceia
  7. Mas e sobre o início e o final da vida?

Quantas mulheres ao longo da história não fizeram essas mesmas coisas sem nunca receberem um “título”?

Talvez você queira lembrar de algumas missionárias ou cristãs fiéis que – em situação limite – agiram.

Mas vamos para o contexto bíblico. Entre os exemplos mais incômodos para nossa organização posterior está Priscila (Atos 18; Romanos 16:3-5; 1 Coríntios 16:19) Ela cooperou na missão, recebeu a igreja em casa e , junto com Áquila, explicou com mais precisão o caminho de Deus a Apolo.

Febe, serviu a igreja em Cencreia e apoiou os missionários (Rom. 16:1-2). Foi ela quem provavelmente levou a carta aos Romanos. Isso é muito significativo pois como portadora, pode ter sido também sua primeira leitora, representante e intérprete perante a igreja de Roma.

Júnia, foi cristã antes de Paulo, sofreu prisão por Cristo e é chamada por Paulo de notável entre os apóstolos — expressão que muitos entendem como reconhecimento apostólico, embora haja debate sobre se significa ‘notável entre os apóstolos’ ou ‘bem conhecida pelos apóstolos’. (Rom 16:7)

E as mulheres da ressurreição. Primeiras testemunhas e anunciadoras da ressurreição. Que irônico! Aquelas que num contexto em que o testemunho feminino era frequentemente desvalorizado, foram as escolhidas para anunciar a mensagem mais importante da humanidade.

Então, anunciação das boas novas, testemunho público da ressurreição, ensino bíblico mais preciso, discipulado teológico, cooperação missionária, hospitalidade e abertura da casa para a igreja, sustento financeiro da missão, serviço diaconal, proteção de obreiros, representação de uma carta apostólica, possível interpretação comunitária da mensagem recebida, sofrimento por Cristo, prisão por causa do evangelho e reconhecimento entre os trabalhadores apostólicos — tudo isso aparece nas mãos de mulheres no Novo Testamento.

A pergunta não pode ser apenas: “elas tinham o título?”. A pergunta mais honesta é: “elas exerceram funções ministeriais reais?”. E a resposta bíblica é desconfortavelmente clara: sim. Elas anunciaram, ensinaram, discipularam, serviram, sustentaram, hospedaram igrejas, cooperaram na missão, sofreram pelo evangelho e foram reconhecidas por Paulo e pelos evangelistas como participantes reais da obra de Deus.

E aqui aparece uma pergunta que muitas mulheres missionárias — inclusive entre nós, batistas — poderiam fazer com razão: quantas mulheres já exerceram, na prática, funções ministeriais que depois foram negadas a elas em título?

Quantas ensinaram, discipularam, evangelizaram, abriram suas casas para a igreja, acompanharam novos convertidos, sustentaram a missão, consolaram enlutados, cuidaram de enfermos, formaram líderes e mantiveram comunidades inteiras de pé sem jamais receber o reconhecimento correspondente?

E, saindo do âmbito batista, quantas mulheres, ao longo da história cristã, especialmente em contextos de missão, perseguição, isolamento ou escassez de obreiros, se viram diante de situações limite nas quais a vida espiritual da comunidade não podia simplesmente esperar pela chegada de um ministro homem?

Esse é o ponto incômodo: quando certas práticas são tratadas como se dependessem necessariamente de uma figura clerical autorizada, precisamos perguntar se essa exigência nasce claramente do Novo Testamento ou se nasce de uma organização eclesiástica posterior.

No mínimo, a resposta exige mais humildade. Porque, se o Novo Testamento apresenta mulheres anunciando, ensinando, servindo, hospedando igrejas, sustentando missionários, interpretando a fé e cooperando na expansão do evangelho, então não podemos reduzir a discussão a títulos. Antes de perguntar quem pode receber determinado nome, precisamos perguntar quem, de fato, já foi chamado por Deus para servir — e quem nós decidimos reconhecer.

Talvez o problema não seja apenas que não conseguimos decidir se uma mulher pode ser pastora. Talvez o problema seja que já não sabemos muito bem o que um pastor é.

Enquanto discutimos quem pode ocupar o cargo, esquecemos de perguntar qual era o propósito do dom. E quando os cargos se tornam mais importantes do que os dons, homens e mulheres acabam disputando algo que Cristo talvez nunca tenha pretendido construir daquela maneira.

Essa é a questão que não queremos enfrentar.

EUA consagrado

Dois dias antes da escrita deste artigo, teve lugar uma cerimónia bem interessante nos Estados Unidos da América: A Consagração dos EUA ao Sagrado Coração de Jesus

O ato é especialmente relevante quando se aproximam as celebrações pelos 250 anos da independência desse pais. Óbvio que isso gerou tensões políticas (às vezes esquecemos que Estado e Igreja ocupam o mesmo espaço) em que certos quadros podem ler como idolatria ao Estado e outros um sinal de auto-afirmação nacionalista.

Quando uma nação diz pertencer a Cristo, a primeira pergunta talvez não seja se isso é bonito, solene, ou comovente. O que me vem à mente é “Será que a nação sabe o que está dizendo?”

Não se pode negar que há algo profundamente correto em reconhecer que Cristo é o Senhor das nações. Quando lemos o Salmo 2 nos damos conta que os povos não são vistos como entidades autónomas diante de Deus. Como se cada império pudesse – de alguma forma – escrever sua própria verdade e depois pedir que a divindade carimbe o documento. No Salmo 2, as nações se agitam, os reis conspiram, os poderosos imaginam coisas vãs, mas o Filho (isto é, o Ungido, o Cristo) permanece como aquele a quem foi dado o domínio.

Em Daniel podemos observar algo semelhante: o Filho do Homem recebe autoridade, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o servem. Alguém lembrou de Apocalipse aí?

A Bíblia nunca tratou a política como um território neutro, onde Cristo não entra. O problema é outro. O problema é quando Cristo entra apenas para decorar a sala.

Por isso, uma consagração nacional pode ser oração ou pode ser teatro. Pode ser arrependimento ou pode ser religião civil. Pode ser uma forma de dizer “Senhor, julga-nos, corrige-nos, cura-nos, desmonta nossas mentiras, expõe nossos ídolos”. Mas também pode virar uma forma elegante de dizer “Senhor, confirma o que já somos, abençoa nossas bandeiras, protege nossos interesses e chama de Reino aquilo que é apenas projeto de poder”


Lembro que, nos anos antes de vir para o Brasil, muito se falava de “consagrar a nação para Deus”. “Brasil é do Senhor Jesus!”. “Bendita é a nação cujo deus é o Senhor” e outras frases e versículos repetidos como refrão. Tivemos também os que diziam que Deus tinha tirado o cetro dos EUA e entregue ao Brasil.

Mais de trinta anos se passaram. Somos – pelas estatísticas do IBGE – 26% da população evangélicos e 56,7% católicos. E o pais é um desastre politicamente falando e isso num ambiente democrático livre; ou seja, pura escolha nossa.

Quando o império romano promulgou o Edito de Milão (313 dC pelos imperadores Constantino e Licínio, estabelecendo total tolerância religiosa) o povo cristão era apenas 5% da população do império.

Há alguma coisa que não fecha. Continuemos.


Como vínhamos dizendo, há uma diferença – e não é pequena – entre oração e teatro.

Barth provavelmente desconfiaria de qualquer tentativa de transformar Jesus num símbolo útil para a identidade nacional. Cristo – diria ele – é a Palavra de Deus (em ref a Heb.1:2ss) e não a linguagem religiosa de uma cultura. Ele não vem para legitimar uma nação; vem para submetê-la à sua graça e ao seu juizo e se há uma coisa que o ser humano não gosta é a submissão.

Tillich diria algo parecido por outro caminho: quando a pátria, a segurança nacional, a ideologia ou a identidade coletiva ocupam o lugar de preocupação última, já não estamos diante de patriotismo, mas de idolatria. E idolatria política continua sendo idolatria, mesmo quando aprende a falar com vocabulário cristão.

Paulo, escrevendo aos filipenses, lembra que a nossa cidadania está nos céus. Isso não significava desprezo pela terra, nem fuga da história. Significava que a comunidade cristã vivia dentro do império, mas não pertencia finalmente ao império. Tinha endereço, língua, impostos e responsabilidades públicas, mas sua lealdade última estava em outro Senhor. N.T.Wright insiste muito nisso: o Reino de Deus não é uma espiritualidade privada, mas a soberania de Jesus ressucitado invadindo o mundo real. Justamente por isso, nenhuma nação pode ser absoluta.

Então, sim, podemos amar nossa pátria. Podemos – e devemos – orar por ela. Podemos pedir justiça, verdade, reconciliação, cuidado com os pobres, proteção dos vulneráveis e cura das ferias sociais. Mas não podemos chamar isso de consagração se o que queremos é apenas um Cristo domesticado, útil, ornamental.

Consagrar uma nação a Cristo, se a frase ainda quiser significar alguma coisa, é reconhecer que ela não pertence a si mesma. E isso vale para os Estados Unidos, para o Brasil, para qualquer povo. Cristo é Senhor das nações. Mas ele não é capelão de nossas vaidades nacionais.

Moral sem religião?

Cristãos e [outros religiosos] não cristãos cometem o mesmo erro: acham que a vida cristã é necessária para uma vida moral. Ou dito de outro modo: sem Deus na vida, o ser humano é um ser imoral.

A prova mais simples de que isso não é verdade é que, na medida em que o tempo passa, você vai conhecendo pessoas que não são cristãs, mas têm uma conduta moral elevada. Aí surge a pergunta, se o evangelho não está relacionado com a boa moral e os bons costumes, para que serve se ajustar ao padrão de vida proposto por ele?

Muita gente entende o evangelho como um mecanismo para produzir pessoas corretas: boas esposas, maridos fiéis, trabalhadores honestos, cidadãos decentes, pessoas educadas e controladas. E isso não está de todo errado. Mas o problema com essa visão é que ser cristão quase se resume a ter uma ética aceitável.

Um pagão, por outro lado, pode amar a família, cumprir contratos, sacrificar-se pelos filhos e viver com integridade. Filosofias humanas conseguem produzir disciplina, domínio próprio e até virtudes impressionantes. O próprio apóstolo Paulo diz que, quanto à justiça da Lei, era irrepreensível ante de conhecer Cristo.

Voltamos na pergunta: se o evangelho não é necessário para produzir moralidade, então para que serve?

O problema humano, segundo o evangelho, não é simplesmente falta de moral. É autonomia. É senhorio. Isto é, o próprio ser humano quer ocupar o centro. Quer definir o bem e o mal a partir de si mesmo. Que viver como referência última da própria existência. Isso pode acontecer tanto num libertino quanto num homem extremamente virtuoso.

Quando pegamos um homem ou mulher com pensamento crítico e esta pessoa começa a enxergar que entre os de dentro e os de fora não há tanta diferença, é plenamente compreensível que a instituição chamada igreja se torne obsoleta, absurda ou um fardo insustentável já que muitas delas não mais vivem o evangelho do reino, mas apenas o da moralidade e o da filosofia de vida.

O evangelho não é – definitivamente – uma filosofia de vida. Repare, Jesus não aparece no Novo Testamento como apenas um mestre moral. Quando a primeira e segunda geração de cristãos muitos anos após a ressurreição e assunção de Jesus precisam pensar nele, a palavra que o descreve é kyriossenhor. Os evangelhos, escritos pelo menos 30 anos depois da sua ressurreição recolhem exatamente esse olhar: Existe um novo reino e Jesus é o rei legítimo.

O evangelho é o anúncio de que o verdadeiro Rei chegou.

Então a pergunta central deixa de ser: “Você é uma boa pessoa?”. E passa a ser: “Quem reina sobre você?”

Agora. Pare e seja honesto com você mesmo. Ninguém precisa saber. Mas não é verdade que a segunda pergunta é mais incómoda que a primeira? Se você é um ateu ou um cristão nominal ou um praticante de qualquer religião que não esteja alinhada com a proposta do evangelho, não é verdade que dá vontade de jogar tudo fora? Dá raiva, né? Esse é o miolo do assunto: o ser humano quer ser seu próprio rei. Não interessa o ponto geográfico, a situação social, a etnia à que pertence ou as crenças recebidas dos pais: todo ser humano quer ser seu próprio fiel da balança.

Me acompanhe um pouco mais, por favor.

Alguém pode ser moralmente admirável e ainda assim viver completamente fechado em si mesmo, sustentando o próprio ego, a própria glória, a própria autonomia. Um homem pode deixar de ser um pecador escandaloso e virar apenas um rei moralmente elegante.

A moralidade consegue conter impulsos, organizar comportamento e tornar a convivência humana possível. O Reino faz algo muito mais profundo: ele reconcilia o homem com Deus e reinsere a criação sob o governo legítimo de Cristo.

Por isso o evangelho fala tanto em uma nova criação, novo homem, novo aeon (era), estar “em Cristo”. Não se trata apenas de copiar ensinamentos éticos. Mas de participar de uma nova realidade inaugurada nele.

O Reino não vem apenas produzir indivíduos mais comportados. Ele vem restaurar comunhão, pertencimento e direção. O homem não foi criado apenas para viver corretamente, mas para viver reconciliado.

Então o evangelho não anuncia somente: “você pode melhorar”

Ele anuncia “você pode voltar ao verdadeiro Rei”

Talvez por isso que Jesus tenha tido conflitos tão profundos com os homens mais corretos de sua época. Porque a moralidade, embora boa e necessária, pode se tornar também um esconderijo sofisticado para uma independência humana.

O Deus que responde

Aquele dia tinha sido esgotador depois da caminhada. Estradas empoeiradas, conversas, decisões, gente, calor, cansaço. Paulo foi dormir. Dizem que sonhamos sobre o que vivemos durante o dia. Só que com Paulo foi mais do que um sonho, foi uma visão: um homem da Macedônia lhe rogava: “Passa à Macedônia e ajuda-nos” (Atos 16:9).

É difícil não imaginar o peso daquele pedido. O texto não diz o nome do homem. Não diz sua profissão, idade ou condição. Apenas sua necessidade. “Ajuda-nos.” Mas ajuda em quê? Roma já havia construído estradas. Filipos era uma cidade importante. Havia comércio, exército, estabilidade relativa, influência cultural grega e poder romano. Ainda assim, alguma coisa faltava. Alguma coisa naquele homem continuava clamando apesar da prosperidade do império.

Talvez porque existam necessidades que nenhum império consegue resolver.

E aqui o texto de Atos abre uma pequena fresta histórica quase sem parecer perceber o que está fazendo. Filipos não era uma cidade qualquer. Ali havia memória de guerra, de conquista e de Roma. Décadas antes, a famosa batalha de Filipos ajudou a consolidar o caminho para o Império Romano como o mundo o conheceria. Era colônia romana. Cidade de veteranos militares. Pequena Roma fora de Roma. Homens enviados não para irem a Roma, mas para serem Roma em Filipos.

E talvez seja justamente por isso que o clamor daquele homem seja tão impressionante.

Porque o mundo já havia lhe dado César.
Já havia lhe dado cultura.
Já havia lhe dado espada, estradas e civilização.
Mas ainda lhe faltava alguma coisa.

Há uma angústia silenciosa atravessando o mundo antigo naquele momento. Gente que ouvira rumores sobre o Deus de Israel. Homens e mulheres cansados dos deuses que exigiam rituais mas não ofereciam esperança. Pessoas esperando — mesmo sem saber exatamente o quê — que algum tipo de redenção finalmente irrompesse na história. Como a corça suspira pelas correntes das águas, havia gente sedenta sem conseguir dar nome à própria sede.

Enquanto isso, Paulo tentava seguir outros caminhos. O próprio texto diz que ele desejava ir para certos lugares, mas era impedido. Até que a visão reorganiza tudo. De repente, não havia mais muitos caminhos possíveis. Havia um só. Sair da Ásia. Atravessar o mar. Ir em direção à Macedônia.

E então Lucas escreve quase sem emoção uma frase belíssima: “E, logo depois desta visão, procuramos partir para a Macedônia… fomos correndo em caminho direito para a Samotrácia”.

Fomos correndo.

Como se entendessem a urgência daquele clamor.

A primeira discípula mencionada ali não era miserável nem ignorante. Lídia comerciava púrpura, artigo caro no mundo antigo. O evangelho não caminhava apenas entre pobres financeiros ou gente sem instrução. Ele atravessava todo o espectro humano porque a necessidade humana atravessa todo o espectro humano.

E então o parêntese histórico volta a se fechar. Filipos continua romana. César continua no poder. As estradas continuam as mesmas. Mas agora algo novo havia chegado à cidade. Não pelas mãos de generais, mas de homens cansados que atravessaram o mar porque acreditaram ter ouvido o chamado do Espírito.

E talvez seja justamente isso o mais sobrenatural do texto.

Não a visão.
Não o sonho.
Não um raio caindo do céu como na famosa narrativa sobre Lutero.

O mais sobrenatural talvez seja o mover da alma humana.

Homens deixando seus caminhos para responder um chamado.
Gente cansada atravessando mares.
O coração humano sendo convencido a servir algo maior do que si mesmo.

Deus responde orações. Mas frequentemente sua resposta atravessa tempo, geografia, medo, discernimento e gente de carne e osso. Talvez por isso a resposta quase nunca seja imediata.

Talvez porque Deus tenha decidido agir — na maior parte do tempo — pela instrumentalidade dos seus servos.

E talvez seja por isso que exista tanta verdade naquela velha canção: falar com Deus muda alguma coisa em nós. Nem sempre porque os céus se abrem da maneira que esperamos, mas porque, às vezes, em algum lugar do mundo, Deus começa a mover alguém em direção ao nosso clamor.

O Deus Dos Afetos – Resumo

Pensar na existência humana leva — mais tarde ou mais cedo — a pensar em Deus. O homem até tenta escapar disso. Delegamos nossa origem a civilizações perdidas, alienígenas, multiversos, acidentes improváveis e qualquer outra coisa que nos permita adiar a pergunta fundamental: de onde tudo veio? Porque no fim das contas a pergunta continua ali. Persistente. Incômoda. Quase ofensiva. E os gregos antigos perceberam isso muito cedo. Diferente do que às vezes repetimos por aí, eles não chegaram à ideia de um único princípio criador por arrogância racionalista, mas por honestidade intelectual. A multiplicidade dos deuses parecia insuficiente para explicar a unidade do cosmos. Então Tales procura a origem de tudo na água. Heráclito fala do logos. Parmênides insiste que o ser precisa ser uno, eterno e não contraditório. Até que Aristóteles formula a ideia do “motor imóvel”: uma causa primeira não causada, fundamento último de tudo o que existe.

E honestamente? Eles estavam certos em muita coisa. Porque faz sentido imaginar que, se existe um Deus, ele precise ser único, eterno, perfeito e origem de todas as coisas. E justamente por ser perfeito, não poderia mudar. Afinal, se muda para melhor, então antes não era perfeito. Se muda para pior, deixa de ser perfeito. Até aqui a lógica é brilhante. O problema começa quando esse Deus filosófico encontra o Deus revelado nas Escrituras. Porque o Deus bíblico faz coisas muito inconvenientes filosoficamente. Ele se alegra. Se ira. Se entristece. Responde oração. Desce para ver Babel. Chora por Israel através dos profetas. E em Jesus… Deus sofre.

Durante séculos, a teologia cristã tentou lidar com essa tensão. Especialmente depois do encontro entre o cristianismo e o pensamento grego dentro do Império Romano. Agostinho de Hipona encontrou no neoplatonismo ferramentas importantes para defender a transcendência divina diante das heresias do seu tempo. E provavelmente escolheu o melhor caminho disponível. Mas junto com essas ferramentas entrou também uma ideia profundamente grega: a de um Deus absolutamente impassível. Incapaz de sofrer. Incapaz de ser afetado. O curioso é que muita gente hoje defende isso sem sequer perceber de onde veio. Faça um teste simples na sua igreja. Pergunte: “Deus muda?” Quase imediatamente alguém citará Tiago: “nele não há mudança nem sombra de variação”. E então, sem perceber, misturamos a fidelidade moral de Deus com uma espécie de imobilidade emocional absoluta.

Mas o Novo Testamento não parece constrangido em mostrar um Deus afetável. “Jesus chorou.” Talvez essa seja uma das frases mais destruidoras de toda a metafísica impassível clássica. Porque se Jesus é “a imagem exata do ser de Deus”, então seu choro não pode ser apenas teatro antropológico. Não pode ser mera encenação pedagógica para humanos emotivos. É revelação. Talvez tenhamos protegido Deus tanto do sofrimento que acabamos protegendo-o também do amor. Porque amor real inevitavelmente envolve vulnerabilidade relacional. O pai do filho pródigo sofre. O noivo de Oséias sofre. O Espírito pode ser entristecido. Jesus chora diante de Jerusalém. Não porque Deus tenha perdido controle do plano, mas porque o plano sempre foi relacionamento.

Séculos depois, Jonathan Edwards perceberia algo que boa parte da tradição excessivamente racionalizada havia começado a esquecer: os afetos não são inimigos da verdade. E aqui “afetos” não significa sentimentalismo barato. Edwards falava das inclinações profundas do coração. Dos amores que realmente movem a alma humana. O homem faz aquilo que ama. Talvez por isso ninguém se relacione com Deus apenas por conclusão lógica. A fé envolve desejo, encanto, temor, reverência, beleza, amor. Não amamos pouco. Amamos errado.

E talvez seja justamente por isso que a Bíblia insista tanto no coração humano. Porque no fim das contas o homem sempre se move na direção daquilo que ama. E talvez o fato de sermos criaturas tão profundamente afetivas diga mais sobre o Criador do que estivemos dispostos a admitir durante séculos.

O Deus dos afetos.

Pensar na existência humana, leva – mais tarde ou mais cedo – a pensar em Deus. Isso porque em algum momento o ser pensante (que existe e não pode negar estar existindo) é compelido a pensar na sua origem. Como bons delegados de responsabilidade, a mente aparentemente interessada de forma genuina no assunto, mas obstinadamente entregue a negar a existência de um ser criador, delega isso a uma civilização anterior, extinta ou visitantes alheios à bolha azul chamada de “Mundo”.

Isso, só faz atrasar ou dispersar a solução do problema último: de onde surgimos? Não apenas como seres biológicos que ultimamente está fartamente provado que a probabilidade de que as condições para a vida biológica como a conhecemos se dessem é tão remota que ultrapassam o limite não já do possível mas também do plausível. Essa forma de pensar, nos leva sempre a adiar a solução da causa primeira (ou a preocupação última como Tillich bem poderia dizer) colocando-a sempre distante seja no tempo ou no espaço ou numa combinação de ambos.

Justamente o big-bang (ou sua forma mais correta: a grande expansão) nos coloca perante um limite fundamental: o tempo e espaço tiveram um ponto de inicio. Uma singularidade. Algo irrepetível. E justamente por lidarmos com eventos não observáveis diretamente em sua totalidade, continuamos no campo dos modelos e interpretações cosmológicas. Com humildade e respeito, isso se chama de “teoria”.

Dentro das teorias de origem, as mitologias nórdicas, gregas, egípcias, mesopotâmicas, os relatos judaico-cristãos, as cosmogonias indígenas, o hinduísmo, o taoismo e até mesmo os modelos cosmológicos modernos tentam responder a mesma pergunta primordial: de onde tudo veio?

Talvez um dos capítulos mais interessantes esteja nas mitologias gregas – sim, no plural – e no surgimento da filosofia clássica. Sócrates, posteriormente acusado de impiedade e condenado à morte por Atenas, não inaugura sozinho essa ruptura intelectual. Ele é resultado de uma longa tradição de pensadores que começaram a substituir explicações puramente míticas por princípios racionais.

Os gregos não chegaram à ideia de unidade por arrogância racionalista, mas pela tentativa honesta de encontrar coerência no cosmos. A multiplicidade dos deuses não parecia suficiente para explicar a ordem universal. Então Tales procura o princípio de tudo na água. Heráclito fala do logos e do fluxo constante das coisas. Parmênides reage afirmando que o ser precisa ser uno, eterno e não contraditório. Platão transporta essa busca para o mundo das formas perfeitas. Aristóteles formula o conceito do motor imóvel: uma causa primeira, não causada, fundamento último do movimento e da existência.

Sócrates (anterior a Platão) surge dentro dessa tradição de investigação racional, questionando os deuses antropomórficos da religião popular ateniense e deslocando o debate para princípios mais universais da verdade, da ética e do ser.

Então, num sentido bem elástico do conceito “Monoteista” podemos afirmar que Aristoteles era sim monoteista (ou melhor: proto-monoteísta filosófico). E Aristoteles, por sua vez, foi mentor ou tutor intelectual/filosófico durante a adolescência de Alexandre o Grande (uns trezentos anos antes de Jesus). Então – com certas liberdades – poderiamos chegar a cogitar que o encontro do judaismo com o mundo grego (anos antes dos Romanos) foi um confronto com vieses monoteistas. (Não estou dizendo que os gregos eram monoteistas. Estou dizendo que certos pensadores gregos, sem mais ferramental que a observação chegaram à conclusão que a origem de tudo só pode ter origem num único ser que não tem origem. O motor inicial que por nada é movido)


Lembro quando estava no seminário no Uruguai e a pergunta do professor de teologia logo no primeiro semestre (para ser defendida primeiro por escrito e depois de forma oral) era “Quem pode fazer teologia?”

Minha resposta (que é a mesma que mantenho hoje) foi: todo mundo faz teologia. Se teologia é o estudo ou discurso sobre o divino, logo, até o ateu está fazendo teologia.


Voltemos ao nosso assunto. Então, era de se esperar que duas teologia tão similares produzissem alguma coisa em conjunto. Nada mais longe da realidade. Como dizem por aí, parecido não é o mesmo. E – se você para para pensar – o encontro dessas duas civilizações é o que dá origem ao que chamamos de “Mundo Ocidental” (Por favor, assista https://youtu.be/NEsgGT2pwEA?si=UT3F0PoKybkX9WQb para maiores esclarescimentos desse grande estuário)

Esses dois monoteísmos compartilham pouco entre si. Fora o nome – por força técnica, poderiamos falar da causa primeira como ponto em comum. Mas aí, logo aí, já começam as divisões. As duas tratam do mesmo assunto, mas as duas chegam ao monoteismo por caminhos diferentes e cada um deles com seu valor.

Talvez, no contexto bíblico, o argumento a favor da teologia natural, ou seja, aquela que se faz apenas pela observação das coisas criadas que acabam – para o observador atento – por levar a uma causa original, tenha seu lugar de destaque com o apóstolo Paulo ao dizer “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas...” Romanos 1:20

Para mim, essa é uma referência direta de reconhecimento de um romano-judeu (Paulo era um judeu que tinha a cidadania romana por nascimento e era fortemente afetado pela cultura Grega) ao que havia de melhor no pensamento grego sobre a divindade. Repare, as coisas de Deus (por exemplo, poder eterno e divindade) são invisíveis a olho nu, mas são claramente vistas pelas coisas criadas. Ou seja, o velho argumento de que o relógio demanda um relojoeiro e não o acaso.

A teologia monoteista grega, como estamos tentando demonstrar, faz toda gala do que hoje chamamos de “Teologia Natural”. Ou seja, a que surge da observação da natureza. E ela tem um rol importantíssimo para quem pare essa loucura que chamamos vida, e contemple um pouco. (Talvez por isso cada vez estamos mais ocupados e enredados com “fazer” em lugar de “contemplar”)

O problema, é que a outra teologia, como trem avassalador, está lastreada em outro tipo de coisa. A teologia hebreia, está baseada num ato de escolha, formação e auto-revelação divina paulatina e crescente. Ou seja, as duas vias se cruzam, mas são de natureza distinta. Certos filósofos gregos, por experimentação chegaram a entender que, de haver um deus, deveria ser único, original, causador de tudo e – principalmente – imutável. Nada o poderia afetar.

Pensemos um momento nisso. Para que uma coisa seja origem do ser, não pode ser coisa. Tem que ser “ser“. Você pode produzir uma pedra no rim, mas essa mesma pedra não pode fazer um bebê. Por outro lado, para esse ser poder ser a causa de tudo, deve ser perfeito. D´outra forma nem sequer a idealização do perfeito poderia existir, já que apenas um ser perfeito pode produzir outras coisas que são mais ou menos perfeitas, mas um ser imperfeito não poderia – por muito que tentasse – produzir um ser perfeito contudo pudesse produzir uma coisa perfeita ou que lembrasse a mesma.

Agora, se esse ser que é causa de todo o restante é perfeito, ele não pode ser alterado do seu estado de perfeição. Se ele é alterado para melhor, então não era perfeito. Já se é alterado para pior, então ele deixa de ser perfeito e alguma outra coisa (que não poderia existir porque teria que ser substancialmente idêntica ao ser perfeito que acaba de não mais ser) deveria ocupar seu lugar.

Logo, os gregos acertaram em cheio de que: se existe um deus deve ser apenas um e apenas ele ser causa de tudo e todos. Mas o que acontece quando esse trem se encontra com o outro trem do monoteísmo ao qual se chega por auto-revelação do divino? Esse ser criador perfeito e causa de todo, pode ter afeto? Pode sequer sentir alguma coisa?

O trem que vem em direção igual e contrária nos fala de um Deus que fica irado, que se alegra, que se arrepende de coisas que fez, que se entristece com as atitudes dos seus seres criados, mas que se alegra com sua companhia. E isso, meu querido leitor, vai necessariamente a bater de frente com as ideias fixistas gregas clássicas.

Para abreviar a história — não porque ela seja pouco importante, mas porque nosso caminho aqui aponta para outro lugar — podemos resumir dizendo que aqueles primeiros séculos foram marcados por tensão constante entre o mundo judaico, o pensamento grego e o poder romano. Então surge Jesus, dentro desse contexto: um judeu do primeiro século que seus discípulos passam a proclamar como o próprio Deus encarnado.

Depois de sua morte e ressurreição, o movimento cristão continua crescendo lentamente apesar das perseguições periódicas. Cerca de trezentos anos mais tarde, já no início do século IV, o cristianismo havia deixado de ser um pequeno grupo marginal e alcançava uma parcela significativa da população do Império Romano — embora os números exatos sejam discutidos pelos historiadores.

Constantino percebe essa mudança. Em 313, juntamente com Licínio, publica o Édito de Milão, garantindo liberdade religiosa aos cristãos e encerrando oficialmente as perseguições imperiais. Mais tarde, já no final do século IV, Teodósio I tornaria o cristianismo niceno a religião oficial do Império Romano através do Édito de Tessalônica.

Nesse contexto surge Agostinho de Hipona — mais tarde conhecido como Santo Agostinho — provavelmente uma das figuras mais influentes de toda a formação intelectual do cristianismo ocidental. Séculos depois seria reconhecido como um dos quatro grandes doutores da Igreja Latina.

Agostinho não escrevia no conforto de uma biblioteca isolada do mundo. Ele escrevia em meio a conflitos reais, tentando responder a problemas teológicos que ameaçavam a própria compreensão cristã de Deus, do homem e da salvação.

Entre essas disputas, duas se destacam especialmente.

De um lado, o maniqueísmo — religião à qual o próprio Agostinho havia aderido antes de sua conversão — ensinava uma espécie de dualismo cósmico, no qual bem e mal existiam como princípios quase equivalentes e eternos em conflito permanente. O universo seria resultado dessa tensão entre duas forças fundamentais.

Do outro lado, o pelagianismo afirmava que o ser humano, mesmo após a queda, preservava capacidade moral suficiente para responder positivamente ao chamado divino por sua própria vontade. O pecado teria ferido o homem, mas não destruído profundamente sua liberdade moral. Pelágio não negava a graça de Deus em absoluto — como às vezes se caricatura — mas entendia essa graça muito mais como auxílio, instrução, exemplo e revelação do que como uma intervenção absolutamente necessária para libertar uma vontade escravizada pelo pecado.

Agostinho reage de forma quase oposta. Para ele, depois da queda, o ser humano não apenas se inclina ao mal: ele está incapacitado de voltar-se verdadeiramente para Deus sem ação prévia da própria graça divina. A vontade continua existindo, mas profundamente adoecida. O homem ainda escolhe — mas escolhe sempre dentro dos limites de uma natureza corrompida. Em outras palavras: o problema não é ausência de vontade, mas incapacidade moral de desejar o bem último.

Mas isso é farinha de outro saco.

Para que o assunto não fique pendente: o pelagianismo acabava minimizando três coisas importantes para Agostinho e para boa parte da tradição cristã posterior: os efeitos radicais da queda, a escravidão da vontade humana ao pecado e a necessidade absoluta da graça preveniente. Séculos mais tarde, Jacobus Arminius tentaria navegar esse mesmo problema de forma mais equilibrada, preservando a necessidade da graça sem transformar o ser humano num simples objeto passivo da salvação.

Não que para Agostinho não houvessem atos civis bons. O ser humano (mesmo o mais perdido dos pecadores) ainda poderia amar seus filhos, construir cidades, escrever poesia, se sacrificar por alguma causa boa. Mas não consegue mover-se corretamente para Deus si só. Chega de modernismo por enquanto.

Diante disso, o neo-platonismo acabou funcionando para Agostinho quase como uma ferramenta intelectual de emergência. Não porque fosse idêntico ao cristianismo — claramente não era — mas porque oferecia categorias filosóficas mais compatíveis com a ideia de um Deus supremo, transcendente, origem de todo ser e de todo bem. Isso também não torna Agostinho um anti-herói. Mas na luta que lhe tocou travar em defesa da soteriologia, ele precisou escolher. Lembre que ele falava assim sobre Platão: “o mais próximo do cristianismo entre os pagãos”. O neoplatonismo acabou servindo a Agostinho como ponte filosófica para poder conversar com a intelectualidade do império Romano. E ele escolheu bem o lado.

O problema é que, junto com essas ferramentas, certas ideias gregas também entraram silenciosamente pela porta dos fundos. Entre elas, a noção de um Deus absolutamente impassível, incapaz de sofrer, ser afetado ou experimentar qualquer espécie de mudança relacional. E talvez seja justamente aqui que comece uma das tensões mais profundas entre o Deus da metafísica clássica e o Deus revelado nas Escrituras.

Faça um pequeno exercicio na sua comunidade ou com seus conhecidos. Pergunte simplesmente “Deus muda?” ou pior, “Podemos afetar Deus com nossas ações?”

Um texto – aliás talvez o único – que venha na cabeça dos seus interlocutores será o de “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.” Tiago 1:17

E – não havendo categorias – se dá por sentado que não qualquer mudança no Criador. Trazendo assim – sem saber – ecos das posturas dos filósofos gregos que mencionávamos antes. Uma forma simples de resolver esse embroglio é que essencial e moralmente Deus não muda. Mas que ele sim tem mudado – e muito – no seu jeito de lidar com o Ser Humano.

Esse é um complicador. Não tanto pelo texto, mas pela herança que a negociação de Agostinho com o neo-platonismo trouxe para dentro da areia da teologia cristã. Lutamos então, não com categorias bíblicas, mas com categorias e definições alheias à escrituras e estranhas à revelação do próprio Deus para com seu povo escolhido ao longo de séculos.

O Deus bíblico faz coisas muito inconvenientes filosoficamente. Sem medo às acusações de antropopatismo em que a Bíblia frequentemente descreve Deus usando linguagem humana, preciso insistir em que a Biblia uma e outra vez insiste em um deus que de fato é Deus. E que tem afetos para além de meras figuras linguisticas. Especialmente ao atribuir-Lhe emoções como alegria, ira ou tristeza, vemos que Deus muda de atitude (se arrepende). Ele se ira. Ele ama. Ele responde oração. Ele desce para ver Babel. Ele chora por Israel por meio dos profetas. E em Jesus… ah… em Jesus, Deus sofre.

Se Jesus era apenas um “faz de conta” então tudo o que cremos do sofrimento (e das alegrias) de Jesus durante sua vida na terra não passam de pantomima. Se ele estava apenas se comportando como um ser humano perfeito, então era apenas um Deus disfarçado e um grande impostor. A grande conclusão à que os discípulos chegaram após a ressurreição era que Jesus é Deus. Ou para dize-lo de forma mais forte: Deus é Jesus.

Jesus não era um corpo adotado durante um período e abandonado para sofrer na cruz. Era ele mesmo, Deus, havendo tomado forma de carne e deixando de lado seus atributos não comunicáveis de lado assumindo plenamente a condição humana sem deixar de ser quem era. Claro, sem pecado pois o pecado não faz parte da figura original do ser humano. Um novo começo. Ou como diria Irineu de Lião na sua teoria da recapitulação: Uma nova cabeça [para uma nova criação].

João recolhe muito bem o anseio de mais de um de nós no seu capítulo 14: “Replicou-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.” João 14:8 Fala a verdade. Se você pudesse ter acesso direto a Deus. Ao criador. Ao origem de tudo. Ao moto original. Àquele que não tem igual. Àquele que não pode ser substituído…. fala a verdade. Isso não seria suficiente para cair de joelhos e esquecer todo teu orgulho e argumentos vazios que tu precisas para sustentar a narrativa de uma existência sem Deus? Não seria isso que te tiraria do torpor de uma vida vazia e sem sentido para finalmente encontrar a paz?

E qual é a resposta de Jesus à pergunta mais profunda e existencial que qualquer homem poderia fazer em qualquer época? A mais simples e reveladora de todas: “Disse-lhe Jesus: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” João 14:9

Para desmentir isso, você precisa chamar Jesus de mentiroso. E isso vai contra não apenas a auto-revelação bíblica, mas contra milhares de pessoas que “.. não podiam deixar de falar do que tinham visto e ouvido … ” (paráfrases de Atos 4:20)


O Novo Testamento não tem medo algum de mostrar um Deus que é afetado. E nisso, ele é plena continuidade do Antigo Testamento. Dois Pactos, Duas Alianças o mesmo Deus manifestado de formas bem distintas, mas com um elo comum: Os Afetos.

Jesus Chorou” talvez seja a frase mais simples e mais profunda da encarnação. É também a frase mais destruidora de toda a metafísica impassível aristotélica. Porque se Jesus, que é “a imagem exata do ser de Deus, chorou. Então o choro não é um acidente antropológico temporário. Uma prosopopeia para colocar bovino para adormecer. É revelação.

Talvez tenhamos protegido Deus tanto do sofrimento que acabamos protegendo-o também do amor.

Talvez o problema nunca tenha sido afirmar que Deus é perfeito. O problema foi imaginar perfeição como incapacidade de ser afetado. Porque o amor verdadeiro necessariamente implica vulnerabilidade relacional. Vejamos alguns exemplos:

O pai do filho pródigo. Sofre.

O noivo no livro de Oséias (e recomendo sua leitura). Sofre.

O Espirito Santo, pode ser entristecido.

Jesus, chora diante de Jerusalém.

Não porque Deus tenha perdido controle do plano, mas porque o plano era justamente “relacionamento” e relacionamento real sempre envolve afeto real.

Aristoteles queria proteger a perfeição; Agostinho queria proteger a transcendência; a tradição quis proteger Deus da mutabilidade; mas talvez, no processo, tenham protegido Deus também da vulnerabilidade do amor.


1) Pulemos Tomas de Aquino. Não porque não seja importante, mas porque o volume dele excede a capacidade de contenção de este pequeno conjunto de linhas e abriríamos mais vertentes. A qual delas mais interessantes.


2) Durante séculos tentamos proteger Deus da dor. Como se sofrer fosse indigno dele. Mas o evangelho, parece caminhar na direção oposta. A cruz não revela um Deus incapaz de ser afetado. Revela um Deus que ama profundamente demais para permanecer distante


3) Existem duas coisas que a Bíblia parece afirmar ao mesmo tempo. E – segundo minha opinião – não nos compete desmontar ou desfazer essa tensão, mas aplica-la como tal. Uma das coisas é “Deus age segundo um propósito eterno” (devo confessar aqui por pura honestidade intelectual que essa ideia me atrai muito) e a outra coisa é “Deus ama de forma viva, relacional, verdadeira”

O nosso problema começa quando tentamos transformar uma dessas coisas na negação da outra. Se tudo em Deus é apenas a execução fria de um decreto eterno, então o amor corre risco de virar apenas mecanismo. A cruz seria “o plano” apenas isso.

Mas o Novo Testamento não fala assim. Ele diz:

Deus amou o mundo de tal maneira

E não diz:

Deus executou consistentemente um protocolo metafísico eterno

Existe afeto ali. Existe desejo. Existe… entrega.


4) Pensamos nestas categorias: ou Deus age racionalmente ou Deus age afetivamente.

Mas talvez Deus não esteja dividido (assim como o homem é uma só coisa mesmo que possamos dividir para estudar)

Então, talvez o amor não seja um impulso irracional posterior ao ser divino. Como coisa adquirida ou monopolizada posteriormente a… sei lá. Fica complicado. Deus é eterno e se adquire alguma coisa “depois” de algo, então onde esse algo estava…

Talez o amor seja precisamente o que Deus eternamente é. João explode com tudo ao dizer “Deus é amor”. Se bem alguns entendem que amor é qualquer coisa parecida com libertinagem, ao passo que outros entendem que “Deus possui amor” … muito amor, mas apenas o possui….. A revelação diz que Deus “É “amor ]


5) A cruz não cria o amor de Deus. Ela o revela de uma forma singular (volte lá no topo no uso da palavra “singularidade”) dentro (isso diz muito mais do que consigo expressar em palavras) da história humana.


Jonathan Edwards entra quase como um eco tardio disso tudo. Um homem profundamente reformado, profundamente racional, mas que percebeu algo que muita teologia posterior a Agostinho tinham anestesiado: os afetos não são inimigos da verdade. São parte da própria maneira como fomos feitos para responder a Deus.

Talvez os afetos não sejam um defeito inferior da existência humana

Assim como quando andamos pela BR-116, todo cuidado aqui é pouco. “Afetos” em Edwards não é sentimentalismo Repare. Do outro lado do oceano, no velho mundo, o movimento era exatamente esse. Também não é “emoção passageira” e muito menos “histeria religiosa” coisas das quais, qualquer pessoa que leve a vida a sério deve fugir.

Para Edwards, “affections” (pobremente traduzida por afetos nas línguas neo-latinas) eram as inclinações profundas do coração. Agora. Para e pensa nisso. Não estamos falando de um Católico ou de um Protestante. Estamos falando de um Reformado. Sério… é um bom momento para ir lá fora espairecer.

Este homem era conhecido por andar muito a cavalo. E ele costumava pensar muito e se perder em suas cavilações. Contam que ele levava papeis e linha de costura. Anotava as ideias e as costurava no sobretudo dele. Era a esposa dela quem organizava isso tudo depois. Haja trabalho.

Fim da pausa.

Para Edwards (1703-1758) afetos são os amores que verdadeiramente movem a alma. Aquilo fundamental que movimenta a vontade. Dito de outra forma, ninguém se movimenta para coisa nenhuma apenas por ter concluído logicamente que aquele é um bom passo. A lógica tem seu papel, mas ele se movimenta porque ama algo.

Minha esposa (que é terapeuta) há alguns anos se referindo ao meu ministério ela disse “Obvio que para você não pesa. Você ama isso tudo”. E essa frase resume o pensamento de Edwards de uma forma brutal.

Séculos depois Freud, seu discípulo Jung, a neuro-ciência a psicologia cognitiva iriam redescobrir isso. Mas o próprio Edwards não é original na sua ideia. A Bíblia fala “a boca fala do que está cheio o coração.” Mateus 12:34 e também “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” Mateus 6:21

O ser humano, raramente é movido pela razão pura. Veja o que rola com grandes líderes políticos mundiais. Sério que você acha que algum deles se movimenta por pura razão? Considere Pondé, Karnal, Mosé, Cortella, Clóvis de Barros Filho. São eles movidos pela razão pura? Não… Há afetos, temores, e toda sorte de mundo subterrâneo oculto neles. A razão acaba fazendo parte do arcabouço comunicacional deles. Mas não é a razão que os move. A causa original é um afeto nem que seja o afeto à própria voz proferida em alto som.

Agora, Edwards não defendia um um Deus mutável emocionalmente. Ele continua dentro da tradição clássica em muitos aspectos. O que ele sim faz é reposicionar os afetos como parte essencial da espiritualidade humana. Friso a palavra “essencial” e “espiritualidade” aqui. Isso faz muita diferença: “Os afetos não são inimigos da verdade”

O homem não é movido apenas por ideias, mas por afetos. Eles se entrelaçam. E não poderia ser de outra forma. Por mais que adotemos um paradigma dicotômico (corpo e espírito) ou tricotômico (corpo, alma e espirito) é inegável que apenas podemos fazer essa divisão aos efeitos do estudo. A morte prova esse ponto. Do mesmo jeito, razão e afeto estão intrinsicamente mesclados mas que geralmente damos mais atenção a um que a outro ou entendemos ser mais importante um do que outro.

Então eis a essencialidade da espiritualidade humana: os afetos fazem parte inseparável dela. Porque ao tentar separar ela, você acaba tendo apenas uma parte oca, morta.

O ser humano faz aquilo que ama. (E o contrario nem sempre é verdadeiro. Viva a ambivalência)

Talvez por isso Edwards tenha percebido algo que muita teologia excessivamente racionalizada começava a esquecer: ninguém se relaciona com Deus apenas por conclusão lógica. A própria fé envolve desejo, encanto, temor, amor, alegria, reverência e beleza.

Ou dito de outra forma: você nunca na vida vai convencer ninguém sobre ser Deus a causa única da existência humana. Ou a pessoa ama a Deus ou o detesta. As duas coisas fará com todas suas forças, com todo seu coração e com toda sua alma. Daí que alguns – se dizendo cristãos – podem fazer rituais pagãos. Porque não há afetos envolvidos na relação com Deus, seu criador, apenas razão, conveniência, sociedade.

O problema do ser humano não seria apenas ignorância intelectual, mas desordem afetiva. Não amamos pouco. Amamos errado.

E talvez seja justamente aqui que a cruz deixa de ser apenas um mecanismo jurídico eterno e passe a revelar algo muito mais profundo: que o próprio fundamento da realidade não é indiferença, mas amor.


E o “Deus dos afetos” do título, onde fica?

Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” Efésios 2:10

E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Gênesis 1:27

Talvez seja justamente por isso que a Bíblia insista tanto no coração humano.

Porque no fim das contas, o homem sempre se move na direção daquilo que ama.

E talvez o fato de sermos criaturas tão profundamente afetivas diga mais sobre o Criador do que estivemos dispostos a admitir durante séculos.

Afinal, o fruto raramente cai longe da árvore.

As ferramentas do pai

Há algo doloroso em perceber que certas ferramentas que nos ajudaram a sobreviver não conseguem mais nos ajudar a viver.

Talvez seja isso que existe por trás daquela fala de Jesus sobre vinho novo e odres velhos. Normalmente lemos o texto pensando em religião, tradição, estruturas espirituais. E tem isso também. Mas talvez exista algo mais íntimo ali. Mais doméstico. Mais silencioso. Porque às vezes os “odres velhos” são maneiras antigas de lidar com a vida. Formas herdadas. Reações aprendidas. Ferramentas emocionais que vieram dos nossos pais.

Nem sempre ruins. Nem sempre malignas. Apenas limitadas.

Sonhei com a caixa de ferramentas do meu pai.

Meu pai já morreu. Durante muito tempo, quando ele aparecia nos meus sonhos, vinha para me destruir. Gritava, perseguia, batia. Era como se dentro de mim ainda existisse um pai não reconciliado. Não exatamente ele, mas aquilo que ficou dele em mim. A sombra. A marca. A dor.

Mas os sonhos mudaram.

Desta vez ele apareceu vivo, colaborando comigo. Estávamos mexendo em um carro lindo, azul celeste, desses carros que parecem liberdade em forma de máquina. O carro era meu, mas o motor tinha problemas. Meu pai conseguiu fazê-lo funcionar usando as ferramentas dele. E isso importa. Porque as ferramentas dele serviram até certo ponto. Funcionaram para colocarem o carro em movimento.

Só que depois vieram problemas mais complexos. Parte elétrica. Alternador. Bateria. Ligações erradas. Eu tinha amigos comigo que entendiam de mecânica. Eu mesmo sabia algumas coisas. Mas não conseguíamos resolver. Faltava ferramenta. E no sonho isso era muito claro: o que tínhamos nas mãos não bastava para aquele carro.

Acho que a vida adulta é, em parte, descobrir isso sem odiar nossos pais.

E talvez exista humildade nisso. Porque algumas ferramentas novas eu não encontrei sozinho. Vieram através de gente que aprendeu a lidar com aquilo que a geração anterior apenas suportava. Parte do que tenho aprendido sobre raiva, dor, silêncio e afeto veio de conversas que meus pais nunca tiveram acesso para fazer. Psicólogos. Psiquiatras. Gente que muitos cristãos ainda olham com desconfiança, como se buscar ajuda fosse falta de fé. Mas talvez graça também seja isso: Deus nos alcançando através de pessoas que nos ajudam a enxergar aquilo que sozinhos não conseguimos.

Eles nos entregaram o que tinham. Ferramentas que talvez tenham servido para sobreviver ao mundo deles. Raiva. Rigidez. Silêncio. Controle. Medo. Defesa constante. E muitas vezes essas ferramentas realmente funcionaram. Mantiveram a família de pé. Colocaram o carro para andar.

Mas chega uma hora em que o motor da nossa própria vida exige outra coisa.

Não porque sejamos melhores que eles. Apenas porque estamos diante de problemas diferentes. Relações diferentes. Dores diferentes.

Há homens que aprenderam com o pai a engolir tudo até explodirem. Outros aprenderam a controlar tudo porque o caos era insuportável. Outros nunca aprenderam a nomear emoções porque ninguém antes deles soube fazê-lo. E então tentam amar usando ferramentas que serviam para guerra.

Talvez por isso tanta ruptura seja necessária.

Não ruptura para desprezar o passado. Nem para transformar os pais em vilões baratos da nossa história. Mas ruptura suficiente para que o vinho novo não arrebente o odre. Porque há coisas novas que Deus tenta formar em nós e que simplesmente não cabem mais nos velhos padrões.

Às vezes honrar os pais também significa parar de repetir certas coisas. Não por rebeldia. Por cura.

Quando acertamos quem ele é — e erramos tudo o resto

Até Marcos 8:27-30, tudo é movimento, milagre, autoridade sendo demonstrada (mas ainda meio “ambígua”), curas, expulsão de demônios, ensino com autoridade. E as pessoas ficam tentando encaixar Jesus em categorias conhecidas: Elias, profeta, João Batista. Ou seja, é uma admiração sem compreensão. Manifestação de poder, mas sem definição clara. Quem é Jesus, ao final das contas?

Não é exagero dizer que o evangelho inteiro de Marcos gira ao redor dessa pergunta que acha sua resposta nas palavras de Pedro.

Depois deste ponto, o evangelho muda completamente. Jesus começa a falar abertamente sobre sofrimento, rejeição e morte. Se antes era “quem é esse?” agora é “o que significa segui-lo?”. A coisa não é mais sobre revelação de poder, mas revelação de propósito. Mas com um claro diferencial: esse propósito (e os caminhos que Jesus iria escolher) desmonta as expectativas de todo mundo. Inclusive a do próprio Pedro a seguir.

Pedro acerta o diagnóstico: “Tu és o Cristo”, mas erra o significado disso. Não há culpa nem intencionalidade nesse erro. Apenas a palavra estava prestes a ser preenchida com o conceito correto e não com o que, a través dos últimos séculos, as pessoas tinham imaginado que seria. Ele ainda pensa pela ótica humana: poder político, vitória visível, glória sem cruz.

Não é em vão que poucos versículos depois, Pedro seja chamado por Jesus de Satanás. Não por irrelevante, mas por ser representativo demais. Ele verbalizou o que todos estavam pensando e não se atreviam a dizer.

Então não, Pedro não é a cabeça da Igreja, mas é o primeiro a confessar corretamente quem é Jesus. Todavia, não entende como isso se desenrola. A Igreja não se sustenta na pessoa de Pedro, mas na realidade que ele declarou e que ele mesmo precisou aprender depois, na prática. E não de forma muito suave que se diga.

Agora voltemos a atenção a Jesus. Estamos justo no momento em que ele deixa de ser personagem para ser o Cristo. Enquanto ele é só personagem você admira, aprende, se emociona. Mas você continua no controle. Ele é referência, não senhor. Ele pode ser mestre, filosofo, amoroso, amigo, firme, confidente, instrutor, conselheiro e um sem número de coisas mais. Todas elas positivas. Mas não seu senhor. E é esse o ponto de virada.

Dá para encaixar Jesus na sua vida. Mas só se for como ele quer.

Quando ele é “o Cristo” todas essas funções que correspondem a uma personagem histórica acabam. Me acompanhe no seguinte pensamento: você pode admirar Napoleão, mas não tenta ajustar sua vida à vontade dele. O mesmo se aplica a Jesus. Se não há o empenho deliberado de ajustar seus pensamentos e condutas aos dele, não é seu senhor. É apenas uma personagem histórica passível de admiração

“Cristo” não é sobrenome – significa “ungido”. É função, identidade messiânica, centralidade histórica. E isso reorganiza tudo. Expectativas, planos, identidade.

E isso é bem incômodo. Talvez assentimos intelectualmente com a ideia. Talvez consentimos emocionalmente por medo da condenação eterna. Mas quando paramos para ver o que “o Cristo” demanda, a história muda completamente de perspectiva. Reconhecer Jesus como Cristo não traz conforto imediato; traz crise. Porque você percebe que o caminho dele não evita a cruz, mas passa por ela. Seguir a Cristo não é como uma religião na qual se adiciona um conjunto de ritos de crenças à vida. É reinterpretar toda a vida e tudo o que acontece à luz dele e seu conjunto de valores e princípios.

Antes de Marcos 8, as pessoas seguem Jesus porque ele faz sentido. Se encaixa dentro de todas as categorias que o senso comum do momento impõe. Depois de Marcos 8, só continua quem aceita que ele nem sempre vai fazer sentido. Mas ainda assim é “o Cristo”

E agora, vai fazer como?

Autoridade que não reage

Mateus 21:28-32 e Lucas 15:11-32

Tem algo nessas parábolas que, se a gente leva a sério, começa a incomodar de um jeito meio difícil de explicar. Não é um incômodo barulhento, não é uma discordância teológica, dessas que a gente resolve escolhendo um lado. É mais silencioso. Vai ficando ali, como se o texto estivesse mostrando alguma coisa que a gente preferia não ver com tanta clareza.

Porque, no fundo, a gente está acostumado a um certo tipo de lógica. Se há autoridade, então há controle. Se alguém tem razão, então vai corrigir quem está errado. Se existe um pai, espera-se que ele conduza os filhos até o comportamento certo, de um jeito ou de outro.

Só que essas parábolas não seguem essa lógica.

Em Mateus, o pai diz: vai trabalhar hoje na vinha. Um responde que não quer. O outro diz que vai, mas não vai. E o texto não mostra o pai ajustando isso. Não há segunda fala, não há reforço, não há reação visível. A palavra foi dita, e fica ali.

Em Lucas, a coisa se abre ainda mais. Um filho pede a herança e vai embora. E o pai deixa. Não há tentativa de impedir, não há negociação. O outro filho permanece, mas não entra na alegria do pai, e também não é forçado a entrar. O pai se aproxima, conversa, mas não arrasta.

Isso cria uma tensão estranha.

Porque, olhando rápido, parece até falta de autoridade. Como se o pai estivesse abrindo mão de algo que deveria exercer. Mas, ficando um pouco mais, começa a aparecer outra coisa. Não é falta de autoridade. É outro tipo de autoridade.

Uma autoridade que não reage.

E isso é difícil de aceitar, porque o nosso jeito mais natural é justamente o contrário. A gente reage o tempo todo. Reage quando é contrariado, quando o outro não responde como deveria, quando algo sai do controle. E, quase sem perceber, a nossa ideia de autoridade vai sendo construída em cima dessa reação.

A gente corrige para manter ordem.
Pressiona para garantir resultado.
Insiste para evitar o erro do outro.

Existe sempre uma urgência por trás.

O pai das parábolas não parece carregado por essa urgência.

Ele fala com clareza, mas não entra em crise quando não é atendido. Ele sustenta o que é dele – a vinha, a casa – mas não usa isso para forçar o outro a se alinhar. E, ao mesmo tempo, ele não se afasta. Quando há retorno, ele se move. Quando há resistência, ele se aproxima. Mas não invade.

Isso vai desenhando uma coisa que não encaixa bem no nosso padrão.

Porque não é ausência.
Mas também não é controle.

É uma presença que não reage no automático.

E talvez seja isso que mais desestabiliza. Porque, em algum nível, todos nós ocupamos pequenos espaços de autoridade. Às vezes bem pequenos, quase imperceptíveis. Mas estão ali. Em casa, no trabalho, nas relações mais simples.

E nesses lugares, quase sempre, a gente funciona diferente.

A gente mede se está dando certo pela resposta do outro.
A gente se altera quando o outro não corresponde.
A gente tenta ajustar o comportamento alheio para recuperar alguma sensação de ordem.

Sem perceber, a autoridade vai ficando dependente da reação que ela provoca.

O pai das parábolas não depende disso.

Ele continua sendo quem é, mesmo quando o outro diz “não”.
Mesmo quando o outro vai embora.

E isso muda o peso da coisa.

Porque, de repente, não se trata mais de “como fazer o outro responder melhor”, mas de “como permanecer inteiro quando o outro não responde”.

Isso não é natural. Não vem automático. Não dá para transformar em técnica. Mas, uma vez que isso é visto, começa a aparecer de vez em quando.

Um pequeno intervalo antes de reagir.
Uma decisão de não apertar mais.
Uma firmeza que não precisa se provar.

São momentos curtos, quase imperceptíveis. Mas têm uma qualidade diferente.

Talvez seja assim que essas parábolas começam a sair do texto e entrar na vida. Não como algo que a gente aplica, mas como algo que, depois de visto, começa a deslocar o jeito como a gente vive – especialmente quando ninguém está olhando.

E aí a pergunta já não é mais sobre os filhos.

É sobre o tipo de autoridade que a gente exerce sem perceber.