Recentemente publicaram um artigo sob o título “Batistas do Sul votam a favor de aprovar uma proibição formal de igrejas com pastoras.” A AP diz que os Batistas do Sul votaram para avançar uma proibição formal, não que ela já tenha sido definitivamente incorporada. A emenda ainda precisa de nova aprovação por maioria de dois terços no próximo encontro anual. Isso importa porque, em 2024, uma tentativa semelhante recebeu maioria, mas não alcançou os dois terços necessários.
O título, por si só, já nos leva à bem conhecida discussão de se uma mulher pode ou não ser pastora. O problema com isso é que – assim como o verniz colocado sobre as imagens da Idade Média para protegê-las nos impede de ver suas verdadeiras cores e detalhes – assim essa discussão nos distancia de uma questão de fundo que me parece muitíssimo mais relevante à identidade cristã, evangélica em geral e batista em particular.
Quando eu estava no seminário me perguntaram se eu era favorável ou contrário ao pastorado feminino. Lembro desse dia com grata satisfação. Respondi que o que precisávamos era entender de forma clara o que era ser pastor.
Se pastor é quem prega aos domingos, ministra a ceia, realiza casamentos, apresenta crianças, conduz funerais e batiza convertidos, então talvez estejamos discutindo menos sobre pastores e mais sobre sacerdotes.
E se estamos discutindo sobre sacerdotes, já não estamos mais discutindo o Novo Testamento.
Não pretendo criticar nem defender a posição da Convenção Batista do Sul. Aqueles que pertencem a igrejas episcopais não fazem ideia de como é nossa relação com o aparato convencional. Mas baste apenas dizer que não é de hierarquia. Uma convenção é uma grande concentração de igrejas autônomas que buscam pactuar – de igual para igual – ações e orçamentos coordenados para conseguir atingir alvos maiores do que uma congregação sozinha poderia. A SBC de fato não governa as igrejas locais como uma hierarquia episcopal. Mas ela pode declarar que uma igreja não está mais em “cooperação amigável” e excluí-la da Convenção.
O que sim pretendo, é olhar embaixo do tapete. Num ponto mais escorregadio e até amargo que, ao discutirmos apenas se pode ou não pode, deixamos de olhar … por pura conveniência.
Sendo que os evangélicos em geral e os batistas em particular frisamos que não há mais autoridade em questão de doutrina fé e ordem do que a própria Bíblia, então vamos levantar alguns pontos incômodos:
- Jesus nunca ordena um “clero” nos moldes posteriores.
- O Novo Testamento fala muito mais de dons do que de cargos.
- O pastor (poimén) aparece como cuidador do rebanho.
- O episcopado parece mais ligado à supervisão.
- O presbítero à maturidade.
- Os dons de ensino, profecia, evangelismo e serviço circulam por toda a comunidade.
Então surge uma pergunta: O que distingue um pastor de um discípulo maduro?
E essa pergunta é que nem quando brincamos de colocar peças de dominó em pé… empurra uma e caem as outras. Porque olha só:
- Por que o pastor deve ser o único a batizar? (base bíblica para isso… qual?)
- Filipe não era apóstolo e batizou o eunuco.
- Paulo diz que Cristo não o enviou prioritariamente para batizar.
- Por que o discipulador não poderia batizar? É inferior ao pastor?
- E batismo não é uma mais uma ordenança e sim um sacramento que só pode ser ministrado por certas pessoas apenas?
- E o mesmo se pode dizer da ceia
- Mas e sobre o início e o final da vida?
Quantas mulheres ao longo da história não fizeram essas mesmas coisas sem nunca receberem um “título”?
Talvez você queira lembrar de algumas missionárias ou cristãs fiéis que – em situação limite – agiram.
Mas vamos para o contexto bíblico. Entre os exemplos mais incômodos para nossa organização posterior está Priscila (Atos 18; Romanos 16:3-5; 1 Coríntios 16:19) Ela cooperou na missão, recebeu a igreja em casa e , junto com Áquila, explicou com mais precisão o caminho de Deus a Apolo.
Febe, serviu a igreja em Cencreia e apoiou os missionários (Rom. 16:1-2). Foi ela quem provavelmente levou a carta aos Romanos. Isso é muito significativo pois como portadora, pode ter sido também sua primeira leitora, representante e intérprete perante a igreja de Roma.
Júnia, foi cristã antes de Paulo, sofreu prisão por Cristo e é chamada por Paulo de notável entre os apóstolos — expressão que muitos entendem como reconhecimento apostólico, embora haja debate sobre se significa ‘notável entre os apóstolos’ ou ‘bem conhecida pelos apóstolos’. (Rom 16:7)
E as mulheres da ressurreição. Primeiras testemunhas e anunciadoras da ressurreição. Que irônico! Aquelas que num contexto em que o testemunho feminino era frequentemente desvalorizado, foram as escolhidas para anunciar a mensagem mais importante da humanidade.
Então, anunciação das boas novas, testemunho público da ressurreição, ensino bíblico mais preciso, discipulado teológico, cooperação missionária, hospitalidade e abertura da casa para a igreja, sustento financeiro da missão, serviço diaconal, proteção de obreiros, representação de uma carta apostólica, possível interpretação comunitária da mensagem recebida, sofrimento por Cristo, prisão por causa do evangelho e reconhecimento entre os trabalhadores apostólicos — tudo isso aparece nas mãos de mulheres no Novo Testamento.
A pergunta não pode ser apenas: “elas tinham o título?”. A pergunta mais honesta é: “elas exerceram funções ministeriais reais?”. E a resposta bíblica é desconfortavelmente clara: sim. Elas anunciaram, ensinaram, discipularam, serviram, sustentaram, hospedaram igrejas, cooperaram na missão, sofreram pelo evangelho e foram reconhecidas por Paulo e pelos evangelistas como participantes reais da obra de Deus.
E aqui aparece uma pergunta que muitas mulheres missionárias — inclusive entre nós, batistas — poderiam fazer com razão: quantas mulheres já exerceram, na prática, funções ministeriais que depois foram negadas a elas em título?
Quantas ensinaram, discipularam, evangelizaram, abriram suas casas para a igreja, acompanharam novos convertidos, sustentaram a missão, consolaram enlutados, cuidaram de enfermos, formaram líderes e mantiveram comunidades inteiras de pé sem jamais receber o reconhecimento correspondente?
E, saindo do âmbito batista, quantas mulheres, ao longo da história cristã, especialmente em contextos de missão, perseguição, isolamento ou escassez de obreiros, se viram diante de situações limite nas quais a vida espiritual da comunidade não podia simplesmente esperar pela chegada de um ministro homem?
Esse é o ponto incômodo: quando certas práticas são tratadas como se dependessem necessariamente de uma figura clerical autorizada, precisamos perguntar se essa exigência nasce claramente do Novo Testamento ou se nasce de uma organização eclesiástica posterior.
No mínimo, a resposta exige mais humildade. Porque, se o Novo Testamento apresenta mulheres anunciando, ensinando, servindo, hospedando igrejas, sustentando missionários, interpretando a fé e cooperando na expansão do evangelho, então não podemos reduzir a discussão a títulos. Antes de perguntar quem pode receber determinado nome, precisamos perguntar quem, de fato, já foi chamado por Deus para servir — e quem nós decidimos reconhecer.
Talvez o problema não seja apenas que não conseguimos decidir se uma mulher pode ser pastora. Talvez o problema seja que já não sabemos muito bem o que um pastor é.
Enquanto discutimos quem pode ocupar o cargo, esquecemos de perguntar qual era o propósito do dom. E quando os cargos se tornam mais importantes do que os dons, homens e mulheres acabam disputando algo que Cristo talvez nunca tenha pretendido construir daquela maneira.
Essa é a questão que não queremos enfrentar.