Cristãos e [outros religiosos] não cristãos cometem o mesmo erro: acham que a vida cristã é necessária para uma vida moral. Ou dito de outro modo: sem Deus na vida, o ser humano é um ser imoral.
A prova mais simples de que isso não é verdade é que, na medida em que o tempo passa, você vai conhecendo pessoas que não são cristãs, mas têm uma conduta moral elevada. Aí surge a pergunta, se o evangelho não está relacionado com a boa moral e os bons costumes, para que serve se ajustar ao padrão de vida proposto por ele?
Muita gente entende o evangelho como um mecanismo para produzir pessoas corretas: boas esposas, maridos fiéis, trabalhadores honestos, cidadãos decentes, pessoas educadas e controladas. E isso não está de todo errado. Mas o problema com essa visão é que ser cristão quase se resume a ter uma ética aceitável.
Um pagão, por outro lado, pode amar a família, cumprir contratos, sacrificar-se pelos filhos e viver com integridade. Filosofias humanas conseguem produzir disciplina, domínio próprio e até virtudes impressionantes. O próprio apóstolo Paulo diz que, quanto à justiça da Lei, era irrepreensível ante de conhecer Cristo.
Voltamos na pergunta: se o evangelho não é necessário para produzir moralidade, então para que serve?
O problema humano, segundo o evangelho, não é simplesmente falta de moral. É autonomia. É senhorio. Isto é, o próprio ser humano quer ocupar o centro. Quer definir o bem e o mal a partir de si mesmo. Que viver como referência última da própria existência. Isso pode acontecer tanto num libertino quanto num homem extremamente virtuoso.
Quando pegamos um homem ou mulher com pensamento crítico e esta pessoa começa a enxergar que entre os de dentro e os de fora não há tanta diferença, é plenamente compreensível que a instituição chamada igreja se torne obsoleta, absurda ou um fardo insustentável já que muitas delas não mais vivem o evangelho do reino, mas apenas o da moralidade e o da filosofia de vida.
O evangelho não é – definitivamente – uma filosofia de vida. Repare, Jesus não aparece no Novo Testamento como apenas um mestre moral. Quando a primeira e segunda geração de cristãos muitos anos após a ressurreição e assunção de Jesus precisam pensar nele, a palavra que o descreve é kyrios – senhor. Os evangelhos, escritos pelo menos 30 anos depois da sua ressurreição recolhem exatamente esse olhar: Existe um novo reino e Jesus é o rei legítimo.
O evangelho é o anúncio de que o verdadeiro Rei chegou.
Então a pergunta central deixa de ser: “Você é uma boa pessoa?”. E passa a ser: “Quem reina sobre você?”
Agora. Pare e seja honesto com você mesmo. Ninguém precisa saber. Mas não é verdade que a segunda pergunta é mais incómoda que a primeira? Se você é um ateu ou um cristão nominal ou um praticante de qualquer religião que não esteja alinhada com a proposta do evangelho, não é verdade que dá vontade de jogar tudo fora? Dá raiva, né? Esse é o miolo do assunto: o ser humano quer ser seu próprio rei. Não interessa o ponto geográfico, a situação social, a etnia à que pertence ou as crenças recebidas dos pais: todo ser humano quer ser seu próprio fiel da balança.
Me acompanhe um pouco mais, por favor.
Alguém pode ser moralmente admirável e ainda assim viver completamente fechado em si mesmo, sustentando o próprio ego, a própria glória, a própria autonomia. Um homem pode deixar de ser um pecador escandaloso e virar apenas um rei moralmente elegante.
A moralidade consegue conter impulsos, organizar comportamento e tornar a convivência humana possível. O Reino faz algo muito mais profundo: ele reconcilia o homem com Deus e reinsere a criação sob o governo legítimo de Cristo.
Por isso o evangelho fala tanto em uma nova criação, novo homem, novo aeon (era), estar “em Cristo”. Não se trata apenas de copiar ensinamentos éticos. Mas de participar de uma nova realidade inaugurada nele.
O Reino não vem apenas produzir indivíduos mais comportados. Ele vem restaurar comunhão, pertencimento e direção. O homem não foi criado apenas para viver corretamente, mas para viver reconciliado.
Então o evangelho não anuncia somente: “você pode melhorar”
Ele anuncia “você pode voltar ao verdadeiro Rei”
Talvez por isso que Jesus tenha tido conflitos tão profundos com os homens mais corretos de sua época. Porque a moralidade, embora boa e necessária, pode se tornar também um esconderijo sofisticado para uma independência humana.