Esses dias, ouvindo o Pr.Thiago fazendo uma referência a João 2:24 ele fez uma pergunta extremamente interessante que para mim, já seria o título de uma série de três sermões pelo menos: “Jesus, se confia a você?”
Essa simples pergunta envolve muitas coisas concernentes à encarnação, ao conhecimento de Jesus e à natureza humana que – distinto do que muitos pensam – não faz referência no trecho à natureza prejudicada pelo pecado, senão àquela que era em Adão antes da queda. Enfim… Muita coisa. Sem querer abusar do espaço que tenho aqui, vou tentar cutucar essas áreas não para trazer respostas, mas sim para levantar boas perguntas que o façam refletir e se posicionar melhor.
Os últimos três versículos do capítulo 2 do evangelho de João, são bem interessantes. O resumo é simples: muitos viram os milagres que Jesus fazia e passavam a crer nele. Por outro lado, Jesus não se confiava a eles, pois os conhecia bem e ninguém precisava ensinar-lhe o que havia dentro do homem “pois ele bem sabia o que havia no homem”
Sobre confiar/crer
Em nossa língua fazemos distinção entre confiar e crer. E isso é bom, pois as coisas ficam mais claras. Porém, para deixar que a riqueza do texto flua, devemos retroceder um pouco e ver que João apenas tinha pisteo – em grego – para expressar as duas ideias.
Então, quando no 23 ele diz que as pessoas “criam nele”, João está usando o mesmo verbo que quando no 24 diz que Jesus no se “confiava a eles”. A diferença parece pouca, mas é profunda. Crer numa pessoa é bem menos intenso que confiar-se a uma pessoa. Repare, você pode até crer num candidato político, mas não se confiaria a ele. Isso o deixamos para a pessoa com a qual nos casamos.
Algumas traduções, por simplificar, acabam não trazendo essa ideia de “não se confiava a eles” e em seu lugar trazem algo como “não confiava neles”. É parecido, mas não é o mesmo. E é por isso que a pergunta do Thiago é extremamente reveladora.
Para mim, “confiar-se a” tem uma ilustração bem clara naquele que se joga do palco de costas aguardando que o público o segure. Já “crer neles” é mais como um quadro societário. Você confia, mas na realidade confia mais no contrato que há entre as partes que nas partes em si.
Uma pergunta incômoda
É possível crer em Jesus, mas mesmo assim não ser alguém a quem Jesus se confia?
A razão que João dá para que esse tipo de coisas aconteça é que “conhecia a todos”. E ainda acrescenta “ele bem sabia o que havia no homem”. Aí chegamos num ponto que a cristologia faz purê nossa lógica. Isso, porque enquanto queremos defender -corretamente- a divindade de Jesus, não conseguimos assumir que Jesus era plenamente ser humano.
Ou dito de outra forma, Jesus conhecia o homem porque era Deus ou porque era Homem?
Talvez a resposta cristã seja desconfortavelmente dupla. Jesus conhece o homem porque Deus o conhece. E conhece o homem porque se tornou homem. Não conhece a humanidade apenas de fora, como Criador. A conhece também de dentro, como participante.
Jesus – como Paulo explica, é o último Adão (1Co 15:45). Então, assim como Adão pôde ser tentado, e fracassou em sua fidelidade o Criador e com a criatura, assim também o homem comum e corrente poderia se-lo. E pior agora sob a influência do Pecado (ref.Rom.5:12ss)
E avançando mais nessa ideia, se a humanidade de Jesus não foi real, então suas tentações não foram reais. E se estas não foram reais, Hebreus perde grande parte de sua força assim como os evangelhos.
Jesus conhecia o homem porque ele próprio era homem. Não um homem caído, escravizado pelo pecado, mas um Homem como Deus o havia imaginado desde o princípio. Então ele sabia o que já tinha acontecido e o que poderia acontecer. Isso sem sequer falar da cegueira e escravidão que o Pecado proporciona (da qual o próprio Jesus estava livre). Ou dito de outra forma, Adão não caiu porque havia nele uma natureza pecaminosa. Caiu porque era uma criatura livre e imatura. O pecado entrou quando essa liberdade foi usada contra aquele para quem ela havia sido dada.
Jesus, o Messias, conhece a instabilidade humana não porque a compartilha, mas porque a contempla sem as ilusões produzidas pelo pecado.
Admirar a Jesus ou segui-lo?
Jesus sabia distinguir entre a fé que nasce do encanto momentâneo e a fé que permanece quando os sinais cessam. A gente pode se beneficiar de sua presença sem por isso se render ao seu senhorio. Podemos querer o que ele pode fazer em lugar de desejar o próprio Cristo.
Muitos dos que “creram nele” do versículo 2 desaparecerão ao longo do evangelho. Alguns se escandalizarão e outros o abandonarão. Finalmente por certo que outros pedirão sua morte. O entusiasmo inicial não era garantia de profundidade como na parábola do semeador.
E, se formos honestos, isso nos atinge de perto. E, pelo nosso próprio bem, precisamos ser honesto com as questões eternas.
Podemos nos aproximar de Jesus movidos por interesse, medo, necessidade, fascínio. Podemos frequentar uma igreja, conhecer a Bíblia, e até defender a fé, sem jamais nos tornarmos pessoas seguras para as quais Jesus possa confiar seus caminhos.
Jesus se confia àqueles que já não precisam usar Deus para sustentar a própria imagem. Isso acaba sendo uma vida dupla. Uma coisa na comunidade de fé, outra nos negócios, na intimidade.
Ele se confia àqueles que aprenderam a verdade simples e dolorosa de que o coração humano é mais ambíguo do que a gente gostaria de admitir. Àqueles que, em vez de impressioná-lo com promessas grandiosas, apenas dizem: “Senhor, tu sabes todas as coisas”
Talvez o verdadeiro sinal de maturidade cristã não seja o quanto afirmamos confiar em Jesus ao ponto de nos chamar de “amigos”. Talvez seja o quanto nossa vida se tornou um lugar onde ele possa confiar.