Dois dias antes da escrita deste artigo, teve lugar uma cerimónia bem interessante nos Estados Unidos da América: A Consagração dos EUA ao Sagrado Coração de Jesus
O ato é especialmente relevante quando se aproximam as celebrações pelos 250 anos da independência desse pais. Óbvio que isso gerou tensões políticas (às vezes esquecemos que Estado e Igreja ocupam o mesmo espaço) em que certos quadros podem ler como idolatria ao Estado e outros um sinal de auto-afirmação nacionalista.
Quando uma nação diz pertencer a Cristo, a primeira pergunta talvez não seja se isso é bonito, solene, ou comovente. O que me vem à mente é “Será que a nação sabe o que está dizendo?”
Não se pode negar que há algo profundamente correto em reconhecer que Cristo é o Senhor das nações. Quando lemos o Salmo 2 nos damos conta que os povos não são vistos como entidades autónomas diante de Deus. Como se cada império pudesse – de alguma forma – escrever sua própria verdade e depois pedir que a divindade carimbe o documento. No Salmo 2, as nações se agitam, os reis conspiram, os poderosos imaginam coisas vãs, mas o Filho (isto é, o Ungido, o Cristo) permanece como aquele a quem foi dado o domínio.
Em Daniel podemos observar algo semelhante: o Filho do Homem recebe autoridade, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o servem. Alguém lembrou de Apocalipse aí?
A Bíblia nunca tratou a política como um território neutro, onde Cristo não entra. O problema é outro. O problema é quando Cristo entra apenas para decorar a sala.
Por isso, uma consagração nacional pode ser oração ou pode ser teatro. Pode ser arrependimento ou pode ser religião civil. Pode ser uma forma de dizer “Senhor, julga-nos, corrige-nos, cura-nos, desmonta nossas mentiras, expõe nossos ídolos”. Mas também pode virar uma forma elegante de dizer “Senhor, confirma o que já somos, abençoa nossas bandeiras, protege nossos interesses e chama de Reino aquilo que é apenas projeto de poder”
Lembro que, nos anos antes de vir para o Brasil, muito se falava de “consagrar a nação para Deus”. “Brasil é do Senhor Jesus!”. “Bendita é a nação cujo deus é o Senhor” e outras frases e versículos repetidos como refrão. Tivemos também os que diziam que Deus tinha tirado o cetro dos EUA e entregue ao Brasil.
Mais de trinta anos se passaram. Somos – pelas estatísticas do IBGE – 26% da população evangélicos e 56,7% católicos. E o pais é um desastre politicamente falando e isso num ambiente democrático livre; ou seja, pura escolha nossa.
Quando o império romano promulgou o Edito de Milão (313 dC pelos imperadores Constantino e Licínio, estabelecendo total tolerância religiosa) o povo cristão era apenas 5% da população do império.
Há alguma coisa que não fecha. Continuemos.
Como vínhamos dizendo, há uma diferença – e não é pequena – entre oração e teatro.
Barth provavelmente desconfiaria de qualquer tentativa de transformar Jesus num símbolo útil para a identidade nacional. Cristo – diria ele – é a Palavra de Deus (em ref a Heb.1:2ss) e não a linguagem religiosa de uma cultura. Ele não vem para legitimar uma nação; vem para submetê-la à sua graça e ao seu juizo e se há uma coisa que o ser humano não gosta é a submissão.
Tillich diria algo parecido por outro caminho: quando a pátria, a segurança nacional, a ideologia ou a identidade coletiva ocupam o lugar de preocupação última, já não estamos diante de patriotismo, mas de idolatria. E idolatria política continua sendo idolatria, mesmo quando aprende a falar com vocabulário cristão.
Paulo, escrevendo aos filipenses, lembra que a nossa cidadania está nos céus. Isso não significava desprezo pela terra, nem fuga da história. Significava que a comunidade cristã vivia dentro do império, mas não pertencia finalmente ao império. Tinha endereço, língua, impostos e responsabilidades públicas, mas sua lealdade última estava em outro Senhor. N.T.Wright insiste muito nisso: o Reino de Deus não é uma espiritualidade privada, mas a soberania de Jesus ressucitado invadindo o mundo real. Justamente por isso, nenhuma nação pode ser absoluta.
Então, sim, podemos amar nossa pátria. Podemos – e devemos – orar por ela. Podemos pedir justiça, verdade, reconciliação, cuidado com os pobres, proteção dos vulneráveis e cura das ferias sociais. Mas não podemos chamar isso de consagração se o que queremos é apenas um Cristo domesticado, útil, ornamental.
Consagrar uma nação a Cristo, se a frase ainda quiser significar alguma coisa, é reconhecer que ela não pertence a si mesma. E isso vale para os Estados Unidos, para o Brasil, para qualquer povo. Cristo é Senhor das nações. Mas ele não é capelão de nossas vaidades nacionais.