Pensar na existência humana leva — mais tarde ou mais cedo — a pensar em Deus. O homem até tenta escapar disso. Delegamos nossa origem a civilizações perdidas, alienígenas, multiversos, acidentes improváveis e qualquer outra coisa que nos permita adiar a pergunta fundamental: de onde tudo veio? Porque no fim das contas a pergunta continua ali. Persistente. Incômoda. Quase ofensiva. E os gregos antigos perceberam isso muito cedo. Diferente do que às vezes repetimos por aí, eles não chegaram à ideia de um único princípio criador por arrogância racionalista, mas por honestidade intelectual. A multiplicidade dos deuses parecia insuficiente para explicar a unidade do cosmos. Então Tales procura a origem de tudo na água. Heráclito fala do logos. Parmênides insiste que o ser precisa ser uno, eterno e não contraditório. Até que Aristóteles formula a ideia do “motor imóvel”: uma causa primeira não causada, fundamento último de tudo o que existe.
E honestamente? Eles estavam certos em muita coisa. Porque faz sentido imaginar que, se existe um Deus, ele precise ser único, eterno, perfeito e origem de todas as coisas. E justamente por ser perfeito, não poderia mudar. Afinal, se muda para melhor, então antes não era perfeito. Se muda para pior, deixa de ser perfeito. Até aqui a lógica é brilhante. O problema começa quando esse Deus filosófico encontra o Deus revelado nas Escrituras. Porque o Deus bíblico faz coisas muito inconvenientes filosoficamente. Ele se alegra. Se ira. Se entristece. Responde oração. Desce para ver Babel. Chora por Israel através dos profetas. E em Jesus… Deus sofre.
Durante séculos, a teologia cristã tentou lidar com essa tensão. Especialmente depois do encontro entre o cristianismo e o pensamento grego dentro do Império Romano. Agostinho de Hipona encontrou no neoplatonismo ferramentas importantes para defender a transcendência divina diante das heresias do seu tempo. E provavelmente escolheu o melhor caminho disponível. Mas junto com essas ferramentas entrou também uma ideia profundamente grega: a de um Deus absolutamente impassível. Incapaz de sofrer. Incapaz de ser afetado. O curioso é que muita gente hoje defende isso sem sequer perceber de onde veio. Faça um teste simples na sua igreja. Pergunte: “Deus muda?” Quase imediatamente alguém citará Tiago: “nele não há mudança nem sombra de variação”. E então, sem perceber, misturamos a fidelidade moral de Deus com uma espécie de imobilidade emocional absoluta.
Mas o Novo Testamento não parece constrangido em mostrar um Deus afetável. “Jesus chorou.” Talvez essa seja uma das frases mais destruidoras de toda a metafísica impassível clássica. Porque se Jesus é “a imagem exata do ser de Deus”, então seu choro não pode ser apenas teatro antropológico. Não pode ser mera encenação pedagógica para humanos emotivos. É revelação. Talvez tenhamos protegido Deus tanto do sofrimento que acabamos protegendo-o também do amor. Porque amor real inevitavelmente envolve vulnerabilidade relacional. O pai do filho pródigo sofre. O noivo de Oséias sofre. O Espírito pode ser entristecido. Jesus chora diante de Jerusalém. Não porque Deus tenha perdido controle do plano, mas porque o plano sempre foi relacionamento.
Séculos depois, Jonathan Edwards perceberia algo que boa parte da tradição excessivamente racionalizada havia começado a esquecer: os afetos não são inimigos da verdade. E aqui “afetos” não significa sentimentalismo barato. Edwards falava das inclinações profundas do coração. Dos amores que realmente movem a alma humana. O homem faz aquilo que ama. Talvez por isso ninguém se relacione com Deus apenas por conclusão lógica. A fé envolve desejo, encanto, temor, reverência, beleza, amor. Não amamos pouco. Amamos errado.
E talvez seja justamente por isso que a Bíblia insista tanto no coração humano. Porque no fim das contas o homem sempre se move na direção daquilo que ama. E talvez o fato de sermos criaturas tão profundamente afetivas diga mais sobre o Criador do que estivemos dispostos a admitir durante séculos.