O Deus dos afetos.

Pensar na existência humana, leva – mais tarde ou mais cedo – a pensar em Deus. Isso porque em algum momento o ser pensante (que existe e não pode negar estar existindo) é compelido a pensar na sua origem. Como bons delegados de responsabilidade, a mente aparentemente interessada de forma genuina no assunto, mas obstinadamente entregue a negar a existência de um ser criador, delega isso a uma civilização anterior, extinta ou visitantes alheios à bolha azul chamada de “Mundo”.

Isso, só faz atrasar ou dispersar a solução do problema último: de onde surgimos? Não apenas como seres biológicos que ultimamente está fartamente provado que a probabilidade de que as condições para a vida biológica como a conhecemos se dessem é tão remota que ultrapassam o limite não já do possível mas também do plausível. Essa forma de pensar, nos leva sempre a adiar a solução da causa primeira (ou a preocupação última como Tillich bem poderia dizer) colocando-a sempre distante seja no tempo ou no espaço ou numa combinação de ambos.

Justamente o big-bang (ou sua forma mais correta: a grande expansão) nos coloca perante um limite fundamental: o tempo e espaço tiveram um ponto de inicio. Uma singularidade. Algo irrepetível. E justamente por lidarmos com eventos não observáveis diretamente em sua totalidade, continuamos no campo dos modelos e interpretações cosmológicas. Com humildade e respeito, isso se chama de “teoria”.

Dentro das teorias de origem, as mitologias nórdicas, gregas, egípcias, mesopotâmicas, os relatos judaico-cristãos, as cosmogonias indígenas, o hinduísmo, o taoismo e até mesmo os modelos cosmológicos modernos tentam responder a mesma pergunta primordial: de onde tudo veio?

Talvez um dos capítulos mais interessantes esteja nas mitologias gregas – sim, no plural – e no surgimento da filosofia clássica. Sócrates, posteriormente acusado de impiedade e condenado à morte por Atenas, não inaugura sozinho essa ruptura intelectual. Ele é resultado de uma longa tradição de pensadores que começaram a substituir explicações puramente míticas por princípios racionais.

Os gregos não chegaram à ideia de unidade por arrogância racionalista, mas pela tentativa honesta de encontrar coerência no cosmos. A multiplicidade dos deuses não parecia suficiente para explicar a ordem universal. Então Tales procura o princípio de tudo na água. Heráclito fala do logos e do fluxo constante das coisas. Parmênides reage afirmando que o ser precisa ser uno, eterno e não contraditório. Platão transporta essa busca para o mundo das formas perfeitas. Aristóteles formula o conceito do motor imóvel: uma causa primeira, não causada, fundamento último do movimento e da existência.

Sócrates (anterior a Platão) surge dentro dessa tradição de investigação racional, questionando os deuses antropomórficos da religião popular ateniense e deslocando o debate para princípios mais universais da verdade, da ética e do ser.

Então, num sentido bem elástico do conceito “Monoteista” podemos afirmar que Aristoteles era sim monoteista (ou melhor: proto-monoteísta filosófico). E Aristoteles, por sua vez, foi mentor ou tutor intelectual/filosófico durante a adolescência de Alexandre o Grande (uns trezentos anos antes de Jesus). Então – com certas liberdades – poderiamos chegar a cogitar que o encontro do judaismo com o mundo grego (anos antes dos Romanos) foi um confronto com vieses monoteistas. (Não estou dizendo que os gregos eram monoteistas. Estou dizendo que certos pensadores gregos, sem mais ferramental que a observação chegaram à conclusão que a origem de tudo só pode ter origem num único ser que não tem origem. O motor inicial que por nada é movido)


Lembro quando estava no seminário no Uruguai e a pergunta do professor de teologia logo no primeiro semestre (para ser defendida primeiro por escrito e depois de forma oral) era “Quem pode fazer teologia?”

Minha resposta (que é a mesma que mantenho hoje) foi: todo mundo faz teologia. Se teologia é o estudo ou discurso sobre o divino, logo, até o ateu está fazendo teologia.


Voltemos ao nosso assunto. Então, era de se esperar que duas teologia tão similares produzissem alguma coisa em conjunto. Nada mais longe da realidade. Como dizem por aí, parecido não é o mesmo. E – se você para para pensar – o encontro dessas duas civilizações é o que dá origem ao que chamamos de “Mundo Ocidental” (Por favor, assista https://youtu.be/NEsgGT2pwEA?si=UT3F0PoKybkX9WQb para maiores esclarescimentos desse grande estuário)

Esses dois monoteísmos compartilham pouco entre si. Fora o nome – por força técnica, poderiamos falar da causa primeira como ponto em comum. Mas aí, logo aí, já começam as divisões. As duas tratam do mesmo assunto, mas as duas chegam ao monoteismo por caminhos diferentes e cada um deles com seu valor.

Talvez, no contexto bíblico, o argumento a favor da teologia natural, ou seja, aquela que se faz apenas pela observação das coisas criadas que acabam – para o observador atento – por levar a uma causa original, tenha seu lugar de destaque com o apóstolo Paulo ao dizer “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas...” Romanos 1:20

Para mim, essa é uma referência direta de reconhecimento de um romano-judeu (Paulo era um judeu que tinha a cidadania romana por nascimento e era fortemente afetado pela cultura Grega) ao que havia de melhor no pensamento grego sobre a divindade. Repare, as coisas de Deus (por exemplo, poder eterno e divindade) são invisíveis a olho nu, mas são claramente vistas pelas coisas criadas. Ou seja, o velho argumento de que o relógio demanda um relojoeiro e não o acaso.

A teologia monoteista grega, como estamos tentando demonstrar, faz toda gala do que hoje chamamos de “Teologia Natural”. Ou seja, a que surge da observação da natureza. E ela tem um rol importantíssimo para quem pare essa loucura que chamamos vida, e contemple um pouco. (Talvez por isso cada vez estamos mais ocupados e enredados com “fazer” em lugar de “contemplar”)

O problema, é que a outra teologia, como trem avassalador, está lastreada em outro tipo de coisa. A teologia hebreia, está baseada num ato de escolha, formação e auto-revelação divina paulatina e crescente. Ou seja, as duas vias se cruzam, mas são de natureza distinta. Certos filósofos gregos, por experimentação chegaram a entender que, de haver um deus, deveria ser único, original, causador de tudo e – principalmente – imutável. Nada o poderia afetar.

Pensemos um momento nisso. Para que uma coisa seja origem do ser, não pode ser coisa. Tem que ser “ser“. Você pode produzir uma pedra no rim, mas essa mesma pedra não pode fazer um bebê. Por outro lado, para esse ser poder ser a causa de tudo, deve ser perfeito. D´outra forma nem sequer a idealização do perfeito poderia existir, já que apenas um ser perfeito pode produzir outras coisas que são mais ou menos perfeitas, mas um ser imperfeito não poderia – por muito que tentasse – produzir um ser perfeito contudo pudesse produzir uma coisa perfeita ou que lembrasse a mesma.

Agora, se esse ser que é causa de todo o restante é perfeito, ele não pode ser alterado do seu estado de perfeição. Se ele é alterado para melhor, então não era perfeito. Já se é alterado para pior, então ele deixa de ser perfeito e alguma outra coisa (que não poderia existir porque teria que ser substancialmente idêntica ao ser perfeito que acaba de não mais ser) deveria ocupar seu lugar.

Logo, os gregos acertaram em cheio de que: se existe um deus deve ser apenas um e apenas ele ser causa de tudo e todos. Mas o que acontece quando esse trem se encontra com o outro trem do monoteísmo ao qual se chega por auto-revelação do divino? Esse ser criador perfeito e causa de todo, pode ter afeto? Pode sequer sentir alguma coisa?

O trem que vem em direção igual e contrária nos fala de um Deus que fica irado, que se alegra, que se arrepende de coisas que fez, que se entristece com as atitudes dos seus seres criados, mas que se alegra com sua companhia. E isso, meu querido leitor, vai necessariamente a bater de frente com as ideias fixistas gregas clássicas.

Para abreviar a história — não porque ela seja pouco importante, mas porque nosso caminho aqui aponta para outro lugar — podemos resumir dizendo que aqueles primeiros séculos foram marcados por tensão constante entre o mundo judaico, o pensamento grego e o poder romano. Então surge Jesus, dentro desse contexto: um judeu do primeiro século que seus discípulos passam a proclamar como o próprio Deus encarnado.

Depois de sua morte e ressurreição, o movimento cristão continua crescendo lentamente apesar das perseguições periódicas. Cerca de trezentos anos mais tarde, já no início do século IV, o cristianismo havia deixado de ser um pequeno grupo marginal e alcançava uma parcela significativa da população do Império Romano — embora os números exatos sejam discutidos pelos historiadores.

Constantino percebe essa mudança. Em 313, juntamente com Licínio, publica o Édito de Milão, garantindo liberdade religiosa aos cristãos e encerrando oficialmente as perseguições imperiais. Mais tarde, já no final do século IV, Teodósio I tornaria o cristianismo niceno a religião oficial do Império Romano através do Édito de Tessalônica.

Nesse contexto surge Agostinho de Hipona — mais tarde conhecido como Santo Agostinho — provavelmente uma das figuras mais influentes de toda a formação intelectual do cristianismo ocidental. Séculos depois seria reconhecido como um dos quatro grandes doutores da Igreja Latina.

Agostinho não escrevia no conforto de uma biblioteca isolada do mundo. Ele escrevia em meio a conflitos reais, tentando responder a problemas teológicos que ameaçavam a própria compreensão cristã de Deus, do homem e da salvação.

Entre essas disputas, duas se destacam especialmente.

De um lado, o maniqueísmo — religião à qual o próprio Agostinho havia aderido antes de sua conversão — ensinava uma espécie de dualismo cósmico, no qual bem e mal existiam como princípios quase equivalentes e eternos em conflito permanente. O universo seria resultado dessa tensão entre duas forças fundamentais.

Do outro lado, o pelagianismo afirmava que o ser humano, mesmo após a queda, preservava capacidade moral suficiente para responder positivamente ao chamado divino por sua própria vontade. O pecado teria ferido o homem, mas não destruído profundamente sua liberdade moral. Pelágio não negava a graça de Deus em absoluto — como às vezes se caricatura — mas entendia essa graça muito mais como auxílio, instrução, exemplo e revelação do que como uma intervenção absolutamente necessária para libertar uma vontade escravizada pelo pecado.

Agostinho reage de forma quase oposta. Para ele, depois da queda, o ser humano não apenas se inclina ao mal: ele está incapacitado de voltar-se verdadeiramente para Deus sem ação prévia da própria graça divina. A vontade continua existindo, mas profundamente adoecida. O homem ainda escolhe — mas escolhe sempre dentro dos limites de uma natureza corrompida. Em outras palavras: o problema não é ausência de vontade, mas incapacidade moral de desejar o bem último.

Mas isso é farinha de outro saco.

Para que o assunto não fique pendente: o pelagianismo acabava minimizando três coisas importantes para Agostinho e para boa parte da tradição cristã posterior: os efeitos radicais da queda, a escravidão da vontade humana ao pecado e a necessidade absoluta da graça preveniente. Séculos mais tarde, Jacobus Arminius tentaria navegar esse mesmo problema de forma mais equilibrada, preservando a necessidade da graça sem transformar o ser humano num simples objeto passivo da salvação.

Não que para Agostinho não houvessem atos civis bons. O ser humano (mesmo o mais perdido dos pecadores) ainda poderia amar seus filhos, construir cidades, escrever poesia, se sacrificar por alguma causa boa. Mas não consegue mover-se corretamente para Deus si só. Chega de modernismo por enquanto.

Diante disso, o neo-platonismo acabou funcionando para Agostinho quase como uma ferramenta intelectual de emergência. Não porque fosse idêntico ao cristianismo — claramente não era — mas porque oferecia categorias filosóficas mais compatíveis com a ideia de um Deus supremo, transcendente, origem de todo ser e de todo bem. Isso também não torna Agostinho um anti-herói. Mas na luta que lhe tocou travar em defesa da soteriologia, ele precisou escolher. Lembre que ele falava assim sobre Platão: “o mais próximo do cristianismo entre os pagãos”. O neoplatonismo acabou servindo a Agostinho como ponte filosófica para poder conversar com a intelectualidade do império Romano. E ele escolheu bem o lado.

O problema é que, junto com essas ferramentas, certas ideias gregas também entraram silenciosamente pela porta dos fundos. Entre elas, a noção de um Deus absolutamente impassível, incapaz de sofrer, ser afetado ou experimentar qualquer espécie de mudança relacional. E talvez seja justamente aqui que comece uma das tensões mais profundas entre o Deus da metafísica clássica e o Deus revelado nas Escrituras.

Faça um pequeno exercicio na sua comunidade ou com seus conhecidos. Pergunte simplesmente “Deus muda?” ou pior, “Podemos afetar Deus com nossas ações?”

Um texto – aliás talvez o único – que venha na cabeça dos seus interlocutores será o de “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação.” Tiago 1:17

E – não havendo categorias – se dá por sentado que não qualquer mudança no Criador. Trazendo assim – sem saber – ecos das posturas dos filósofos gregos que mencionávamos antes. Uma forma simples de resolver esse embroglio é que essencial e moralmente Deus não muda. Mas que ele sim tem mudado – e muito – no seu jeito de lidar com o Ser Humano.

Esse é um complicador. Não tanto pelo texto, mas pela herança que a negociação de Agostinho com o neo-platonismo trouxe para dentro da areia da teologia cristã. Lutamos então, não com categorias bíblicas, mas com categorias e definições alheias à escrituras e estranhas à revelação do próprio Deus para com seu povo escolhido ao longo de séculos.

O Deus bíblico faz coisas muito inconvenientes filosoficamente. Sem medo às acusações de antropopatismo em que a Bíblia frequentemente descreve Deus usando linguagem humana, preciso insistir em que a Biblia uma e outra vez insiste em um deus que de fato é Deus. E que tem afetos para além de meras figuras linguisticas. Especialmente ao atribuir-Lhe emoções como alegria, ira ou tristeza, vemos que Deus muda de atitude (se arrepende). Ele se ira. Ele ama. Ele responde oração. Ele desce para ver Babel. Ele chora por Israel por meio dos profetas. E em Jesus… ah… em Jesus, Deus sofre.

Se Jesus era apenas um “faz de conta” então tudo o que cremos do sofrimento (e das alegrias) de Jesus durante sua vida na terra não passam de pantomima. Se ele estava apenas se comportando como um ser humano perfeito, então era apenas um Deus disfarçado e um grande impostor. A grande conclusão à que os discípulos chegaram após a ressurreição era que Jesus é Deus. Ou para dize-lo de forma mais forte: Deus é Jesus.

Jesus não era um corpo adotado durante um período e abandonado para sofrer na cruz. Era ele mesmo, Deus, havendo tomado forma de carne e deixando de lado seus atributos não comunicáveis de lado assumindo plenamente a condição humana sem deixar de ser quem era. Claro, sem pecado pois o pecado não faz parte da figura original do ser humano. Um novo começo. Ou como diria Irineu de Lião na sua teoria da recapitulação: Uma nova cabeça [para uma nova criação].

João recolhe muito bem o anseio de mais de um de nós no seu capítulo 14: “Replicou-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.” João 14:8 Fala a verdade. Se você pudesse ter acesso direto a Deus. Ao criador. Ao origem de tudo. Ao moto original. Àquele que não tem igual. Àquele que não pode ser substituído…. fala a verdade. Isso não seria suficiente para cair de joelhos e esquecer todo teu orgulho e argumentos vazios que tu precisas para sustentar a narrativa de uma existência sem Deus? Não seria isso que te tiraria do torpor de uma vida vazia e sem sentido para finalmente encontrar a paz?

E qual é a resposta de Jesus à pergunta mais profunda e existencial que qualquer homem poderia fazer em qualquer época? A mais simples e reveladora de todas: “Disse-lhe Jesus: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” João 14:9

Para desmentir isso, você precisa chamar Jesus de mentiroso. E isso vai contra não apenas a auto-revelação bíblica, mas contra milhares de pessoas que “.. não podiam deixar de falar do que tinham visto e ouvido … ” (paráfrases de Atos 4:20)


O Novo Testamento não tem medo algum de mostrar um Deus que é afetado. E nisso, ele é plena continuidade do Antigo Testamento. Dois Pactos, Duas Alianças o mesmo Deus manifestado de formas bem distintas, mas com um elo comum: Os Afetos.

Jesus Chorou” talvez seja a frase mais simples e mais profunda da encarnação. É também a frase mais destruidora de toda a metafísica impassível aristotélica. Porque se Jesus, que é “a imagem exata do ser de Deus, chorou. Então o choro não é um acidente antropológico temporário. Uma prosopopeia para colocar bovino para adormecer. É revelação.

Talvez tenhamos protegido Deus tanto do sofrimento que acabamos protegendo-o também do amor.

Talvez o problema nunca tenha sido afirmar que Deus é perfeito. O problema foi imaginar perfeição como incapacidade de ser afetado. Porque o amor verdadeiro necessariamente implica vulnerabilidade relacional. Vejamos alguns exemplos:

O pai do filho pródigo. Sofre.

O noivo no livro de Oséias (e recomendo sua leitura). Sofre.

O Espirito Santo, pode ser entristecido.

Jesus, chora diante de Jerusalém.

Não porque Deus tenha perdido controle do plano, mas porque o plano era justamente “relacionamento” e relacionamento real sempre envolve afeto real.

Aristoteles queria proteger a perfeição; Agostinho queria proteger a transcendência; a tradição quis proteger Deus da mutabilidade; mas talvez, no processo, tenham protegido Deus também da vulnerabilidade do amor.


1) Pulemos Tomas de Aquino. Não porque não seja importante, mas porque o volume dele excede a capacidade de contenção de este pequeno conjunto de linhas e abriríamos mais vertentes. A qual delas mais interessantes.


2) Durante séculos tentamos proteger Deus da dor. Como se sofrer fosse indigno dele. Mas o evangelho, parece caminhar na direção oposta. A cruz não revela um Deus incapaz de ser afetado. Revela um Deus que ama profundamente demais para permanecer distante


3) Existem duas coisas que a Bíblia parece afirmar ao mesmo tempo. E – segundo minha opinião – não nos compete desmontar ou desfazer essa tensão, mas aplica-la como tal. Uma das coisas é “Deus age segundo um propósito eterno” (devo confessar aqui por pura honestidade intelectual que essa ideia me atrai muito) e a outra coisa é “Deus ama de forma viva, relacional, verdadeira”

O nosso problema começa quando tentamos transformar uma dessas coisas na negação da outra. Se tudo em Deus é apenas a execução fria de um decreto eterno, então o amor corre risco de virar apenas mecanismo. A cruz seria “o plano” apenas isso.

Mas o Novo Testamento não fala assim. Ele diz:

Deus amou o mundo de tal maneira

E não diz:

Deus executou consistentemente um protocolo metafísico eterno

Existe afeto ali. Existe desejo. Existe… entrega.


4) Pensamos nestas categorias: ou Deus age racionalmente ou Deus age afetivamente.

Mas talvez Deus não esteja dividido (assim como o homem é uma só coisa mesmo que possamos dividir para estudar)

Então, talvez o amor não seja um impulso irracional posterior ao ser divino. Como coisa adquirida ou monopolizada posteriormente a… sei lá. Fica complicado. Deus é eterno e se adquire alguma coisa “depois” de algo, então onde esse algo estava…

Talez o amor seja precisamente o que Deus eternamente é. João explode com tudo ao dizer “Deus é amor”. Se bem alguns entendem que amor é qualquer coisa parecida com libertinagem, ao passo que outros entendem que “Deus possui amor” … muito amor, mas apenas o possui….. A revelação diz que Deus “É “amor ]


5) A cruz não cria o amor de Deus. Ela o revela de uma forma singular (volte lá no topo no uso da palavra “singularidade”) dentro (isso diz muito mais do que consigo expressar em palavras) da história humana.


Jonathan Edwards entra quase como um eco tardio disso tudo. Um homem profundamente reformado, profundamente racional, mas que percebeu algo que muita teologia posterior a Agostinho tinham anestesiado: os afetos não são inimigos da verdade. São parte da própria maneira como fomos feitos para responder a Deus.

Talvez os afetos não sejam um defeito inferior da existência humana

Assim como quando andamos pela BR-116, todo cuidado aqui é pouco. “Afetos” em Edwards não é sentimentalismo Repare. Do outro lado do oceano, no velho mundo, o movimento era exatamente esse. Também não é “emoção passageira” e muito menos “histeria religiosa” coisas das quais, qualquer pessoa que leve a vida a sério deve fugir.

Para Edwards, “affections” (pobremente traduzida por afetos nas línguas neo-latinas) eram as inclinações profundas do coração. Agora. Para e pensa nisso. Não estamos falando de um Católico ou de um Protestante. Estamos falando de um Reformado. Sério… é um bom momento para ir lá fora espairecer.

Este homem era conhecido por andar muito a cavalo. E ele costumava pensar muito e se perder em suas cavilações. Contam que ele levava papeis e linha de costura. Anotava as ideias e as costurava no sobretudo dele. Era a esposa dela quem organizava isso tudo depois. Haja trabalho.

Fim da pausa.

Para Edwards (1703-1758) afetos são os amores que verdadeiramente movem a alma. Aquilo fundamental que movimenta a vontade. Dito de outra forma, ninguém se movimenta para coisa nenhuma apenas por ter concluído logicamente que aquele é um bom passo. A lógica tem seu papel, mas ele se movimenta porque ama algo.

Minha esposa (que é terapeuta) há alguns anos se referindo ao meu ministério ela disse “Obvio que para você não pesa. Você ama isso tudo”. E essa frase resume o pensamento de Edwards de uma forma brutal.

Séculos depois Freud, seu discípulo Jung, a neuro-ciência a psicologia cognitiva iriam redescobrir isso. Mas o próprio Edwards não é original na sua ideia. A Bíblia fala “a boca fala do que está cheio o coração.” Mateus 12:34 e também “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” Mateus 6:21

O ser humano, raramente é movido pela razão pura. Veja o que rola com grandes líderes políticos mundiais. Sério que você acha que algum deles se movimenta por pura razão? Considere Pondé, Karnal, Mosé, Cortella, Clóvis de Barros Filho. São eles movidos pela razão pura? Não… Há afetos, temores, e toda sorte de mundo subterrâneo oculto neles. A razão acaba fazendo parte do arcabouço comunicacional deles. Mas não é a razão que os move. A causa original é um afeto nem que seja o afeto à própria voz proferida em alto som.

Agora, Edwards não defendia um um Deus mutável emocionalmente. Ele continua dentro da tradição clássica em muitos aspectos. O que ele sim faz é reposicionar os afetos como parte essencial da espiritualidade humana. Friso a palavra “essencial” e “espiritualidade” aqui. Isso faz muita diferença: “Os afetos não são inimigos da verdade”

O homem não é movido apenas por ideias, mas por afetos. Eles se entrelaçam. E não poderia ser de outra forma. Por mais que adotemos um paradigma dicotômico (corpo e espírito) ou tricotômico (corpo, alma e espirito) é inegável que apenas podemos fazer essa divisão aos efeitos do estudo. A morte prova esse ponto. Do mesmo jeito, razão e afeto estão intrinsicamente mesclados mas que geralmente damos mais atenção a um que a outro ou entendemos ser mais importante um do que outro.

Então eis a essencialidade da espiritualidade humana: os afetos fazem parte inseparável dela. Porque ao tentar separar ela, você acaba tendo apenas uma parte oca, morta.

O ser humano faz aquilo que ama. (E o contrario nem sempre é verdadeiro. Viva a ambivalência)

Talvez por isso Edwards tenha percebido algo que muita teologia excessivamente racionalizada começava a esquecer: ninguém se relaciona com Deus apenas por conclusão lógica. A própria fé envolve desejo, encanto, temor, amor, alegria, reverência e beleza.

Ou dito de outra forma: você nunca na vida vai convencer ninguém sobre ser Deus a causa única da existência humana. Ou a pessoa ama a Deus ou o detesta. As duas coisas fará com todas suas forças, com todo seu coração e com toda sua alma. Daí que alguns – se dizendo cristãos – podem fazer rituais pagãos. Porque não há afetos envolvidos na relação com Deus, seu criador, apenas razão, conveniência, sociedade.

O problema do ser humano não seria apenas ignorância intelectual, mas desordem afetiva. Não amamos pouco. Amamos errado.

E talvez seja justamente aqui que a cruz deixa de ser apenas um mecanismo jurídico eterno e passe a revelar algo muito mais profundo: que o próprio fundamento da realidade não é indiferença, mas amor.


E o “Deus dos afetos” do título, onde fica?

Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” Efésios 2:10

E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Gênesis 1:27

Talvez seja justamente por isso que a Bíblia insista tanto no coração humano.

Porque no fim das contas, o homem sempre se move na direção daquilo que ama.

E talvez o fato de sermos criaturas tão profundamente afetivas diga mais sobre o Criador do que estivemos dispostos a admitir durante séculos.

Afinal, o fruto raramente cai longe da árvore.

Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.