Mateus 21:28-32 e Lucas 15:11-32
Tem algo nessas parábolas que, se a gente leva a sério, começa a incomodar de um jeito meio difícil de explicar. Não é um incômodo barulhento, não é uma discordância teológica, dessas que a gente resolve escolhendo um lado. É mais silencioso. Vai ficando ali, como se o texto estivesse mostrando alguma coisa que a gente preferia não ver com tanta clareza.
Porque, no fundo, a gente está acostumado a um certo tipo de lógica. Se há autoridade, então há controle. Se alguém tem razão, então vai corrigir quem está errado. Se existe um pai, espera-se que ele conduza os filhos até o comportamento certo, de um jeito ou de outro.
Só que essas parábolas não seguem essa lógica.
Em Mateus, o pai diz: vai trabalhar hoje na vinha. Um responde que não quer. O outro diz que vai, mas não vai. E o texto não mostra o pai ajustando isso. Não há segunda fala, não há reforço, não há reação visível. A palavra foi dita, e fica ali.
Em Lucas, a coisa se abre ainda mais. Um filho pede a herança e vai embora. E o pai deixa. Não há tentativa de impedir, não há negociação. O outro filho permanece, mas não entra na alegria do pai, e também não é forçado a entrar. O pai se aproxima, conversa, mas não arrasta.
Isso cria uma tensão estranha.
Porque, olhando rápido, parece até falta de autoridade. Como se o pai estivesse abrindo mão de algo que deveria exercer. Mas, ficando um pouco mais, começa a aparecer outra coisa. Não é falta de autoridade. É outro tipo de autoridade.
Uma autoridade que não reage.
E isso é difícil de aceitar, porque o nosso jeito mais natural é justamente o contrário. A gente reage o tempo todo. Reage quando é contrariado, quando o outro não responde como deveria, quando algo sai do controle. E, quase sem perceber, a nossa ideia de autoridade vai sendo construída em cima dessa reação.
A gente corrige para manter ordem.
Pressiona para garantir resultado.
Insiste para evitar o erro do outro.
Existe sempre uma urgência por trás.
O pai das parábolas não parece carregado por essa urgência.
Ele fala com clareza, mas não entra em crise quando não é atendido. Ele sustenta o que é dele – a vinha, a casa – mas não usa isso para forçar o outro a se alinhar. E, ao mesmo tempo, ele não se afasta. Quando há retorno, ele se move. Quando há resistência, ele se aproxima. Mas não invade.
Isso vai desenhando uma coisa que não encaixa bem no nosso padrão.
Porque não é ausência.
Mas também não é controle.
É uma presença que não reage no automático.
E talvez seja isso que mais desestabiliza. Porque, em algum nível, todos nós ocupamos pequenos espaços de autoridade. Às vezes bem pequenos, quase imperceptíveis. Mas estão ali. Em casa, no trabalho, nas relações mais simples.
E nesses lugares, quase sempre, a gente funciona diferente.
A gente mede se está dando certo pela resposta do outro.
A gente se altera quando o outro não corresponde.
A gente tenta ajustar o comportamento alheio para recuperar alguma sensação de ordem.
Sem perceber, a autoridade vai ficando dependente da reação que ela provoca.
O pai das parábolas não depende disso.
Ele continua sendo quem é, mesmo quando o outro diz “não”.
Mesmo quando o outro vai embora.
E isso muda o peso da coisa.
Porque, de repente, não se trata mais de “como fazer o outro responder melhor”, mas de “como permanecer inteiro quando o outro não responde”.
Isso não é natural. Não vem automático. Não dá para transformar em técnica. Mas, uma vez que isso é visto, começa a aparecer de vez em quando.
Um pequeno intervalo antes de reagir.
Uma decisão de não apertar mais.
Uma firmeza que não precisa se provar.
São momentos curtos, quase imperceptíveis. Mas têm uma qualidade diferente.
Talvez seja assim que essas parábolas começam a sair do texto e entrar na vida. Não como algo que a gente aplica, mas como algo que, depois de visto, começa a deslocar o jeito como a gente vive – especialmente quando ninguém está olhando.
E aí a pergunta já não é mais sobre os filhos.
É sobre o tipo de autoridade que a gente exerce sem perceber.