A fé institucional não sabe lidar com essa pergunta. Ela precisa manter Deus sempre presente, funcional, disponível — quase como um item do estatuto. Por isso, perguntas desse tipo soam perigosas. Subversivas. Já a fé existencial — a que vive no fio da navalha — não tem esse pudor. Ela pergunta porque precisa respirar. Cadê Deus no meio da tempestade? Esqueceu-se de mim? Esqueceu-se do seu povo? Do pacto?
O vale — ou o deserto — não é um acidente na formação cristã. É o caminho. É ali que a imagem de Cristo começa a tomar forma em nós, não como ideia, mas como carne. Sem deserto não existe João Batista. Sem deserto não há Jesus com ministério. Não há atalho espiritual aqui. Se não foi diferente com eles, não será conosco.
O deserto não oferece garantias. Não tem chão conhecido, não tem reservas, não tem atalhos e, muitas vezes, não tem Deus à mão. Pelo menos não o Deus funcional que aprendemos a acionar. A tempestade é parente próxima do deserto. E é nesse contexto que o grito emerge, cru, quase irreverente: “Não se te dá que morramos!?” Ou ainda: “Não te importa a nossa vida?” Ou, sem rodeios piedosos: “Valemos tão pouco assim?”
A Bíblia não foge dessas perguntas. Ela as preserva. Os salmos estão cheios delas. O evangelho não as censura. O problema nunca foi a pergunta — foi a nossa tentativa de domesticá-la.
Pensemos em Portugal. Semana passada, ventos de até 208 km/h castigaram o país. Muito antes disso, em 1755, Lisboa foi devastada por um terremoto que durou cerca de dez minutos. Dez minutos bastaram para desmontar uma cidade inteira, sem aviso prévio, sem liturgia de preparação. No século XVI, o território foi atingido por ao menos três grandes epidemias, entre elas a peste negra. Onde estava Deus nesses momentos? A pergunta não é moderna. É humana.
O Salmo 13 não tenta resolvê-la. Apenas a sustenta: “Até quando, ó Senhor? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto?” Essa é fé que respira. Fé que não foi anestesiada.
No fim, só há uma fé que vale a pena ser vivida: a que atravessa o desastre sem precisar fingir que ele não existe. Todo o resto é performance domingueira — bem ensaiada, bem iluminada, e completamente inútil quando o mar começa a entrar no barco.
A pergunta pode parecer vazia ou inútil. Em especial para quem já valoriza a escola bíblica ou para quem já descartou de todo o seu valor. Ou seja, os extremos.
Todavia, acredito que há uma gritante maioria de pessoas que — se pudessem exprimir suas dúvidas — perguntariam qual a utilidade ou importância da escola bíblica. Em especial são pessoas que não se contentam com a rotina ou que procuram na escola bíblica uma utilidade para além da repetição de assuntos em um ambiente seguro. Afinal, a Escritura nunca associa ensino à mera repetição, mas à transformação do entendimento e da prática (Rm 12.2).
A escola bíblica (dominical) surge no final do século XVIII, mais precisamente por volta de 1780, na Inglaterra, como uma resposta prática a um problema concreto: crianças e jovens sem acesso à educação básica, imersos em jornadas de trabalho exaustivas e sem qualquer formação moral ou intelectual. Antes de ser um “programa da igreja”, ela foi um gesto missionário, pedagógico e social — algo bastante coerente com a tradição bíblica, onde o ensino do povo sempre esteve ligado à vida concreta (Dt 6.6–9; Ne 8.1–8). Seu DNA não é entretenimento nem repetição mecânica de conteúdos, mas formação, letramento bíblico e construção de consciência cristã no mundo real. Quando a escola bíblica perde isso, ela não envelhece — ela se descaracteriza.
O que se vê em quase todas as versões da escola bíblica é uma visão apenas endocentrada, isto é, voltada quase exclusivamente para o mundo interno da igreja local. Fala-se muito de eternidade, santidade e salvação individual — temas legítimos — mas com pouco ou nenhum espaço para a missão divina de redimir a criação como um todo, missão esta claramente afirmada nas Escrituras (Gn 12.3; Sl 24.1; Rm 8.19–22).
Observar o mundo apenas pelo filtro do noticiário sensacionalista não comunica outra coisa senão um misto de impotência e indignação. Isso acontece porque o problema nos parece — como de fato é — maior que nossa capacidade individual de intervenção. A Bíblia, porém, não ignora essa tensão: reconhece que “o mundo jaz no maligno” (1Jo 5.19), mas também insiste que a luz não se retira diante das trevas — ela as confronta (Jo 1.5; Mt 5.14–16).
A escola bíblica, após sua apropriação indevida do âmbito missionário para o puramente doutrinário, precisa recuperar sua vocação original: não apenas conscientizar sobre a condição caída do mundo — algo que a imprensa já faz com eficiência — mas capacitar a igreja a discernir, planejar e agir em situações reais de perigo, desamparo e injustiça que estejam ao alcance da comunidade local. Isso é profundamente bíblico: fé que não se traduz em ação concreta é considerada morta (Tg 2.14–17), e a igreja primitiva entendia ensino, comunhão e cuidado como uma única realidade (At 2.42–47).
A pura repetição de fórmulas que funcionaram nos séculos XVI e XVII não faz mais do que alienar a igreja da realidade em que vive, afastando-a daquilo que a Escritura chama de missão de Deus: a restauração da criação. Como lembra N. T. Wright, trata-se de uma nova criação ex vetere, e não ex nihilo — uma recriação que parte do mundo já existente (2Co 5.17; Ap 21.1–5). A participação da igreja nessa reconstrução — social, cultural, ética, ambiental — não é um apêndice do evangelho, mas parte de sua própria lógica. Quando isso se perde, a escola bíblica deixa de ser formadora de discípulos e passa a ser apenas uma sofisticada forma de escapismo religioso.
Enquanto um seminário forma pastores e professores, a escola bíblica forma garis, psicólogos, mecânicos, enfermeiros, padeiros, advogados … para serem ministros do reino no escopo do reino. Ou seja, este mundo no qual vivemos e não na bolha eclesiástica. Por isso que ela merece ser dinâmica e não estática.
É nela que o método de correlação (invenção de Paul Tillich) acha talvez sua expressão mais condensada já que as perguntas últimas que a sociedade faz, a Bíblia responde à satisfação. Mas sem o treino adequado, é como címbalo que retine.
Há formas e formas de atravessar a vida. Uma delas é pelo empirismo: provar por si mesmo as nuances do caminho, em vez de admitir que a humanidade já atravessou vales parecidos, se não idênticos.
Existe uma dose de orgulho nisso. Mas também há algo de corajoso, de desbravador. O espírito empírico não se satisfaz com “experiências herdadas” em tudo. Se fizesse isso, nem viveria: a experiência humana não cabe em 70, 80, 90 anos de um único indivíduo.
E, ainda assim, ninguém vive só de empirismo. Sem tradição, você repete erros antigos achando que descobriu a pólvora. Sem experiência própria, você vira um catálogo ambulante de frases alheias.
Na espiritualidade acontece algo análogo.
Existe uma forma de viver a fé estática: “tudo já foi dito”, “tudo já foi vivido”, “o que falta dizer já está contido no que foi dito”. Nessa lógica, o novo é suspeito por definição. Se algo diferente do que “a família da fé” já viu aparece, então com certeza está errado. Como se o Espírito Santo tivesse se aposentado e deixado apenas um arquivo morto.
Chamemos isso, aqui, de fé dogmática quando ela vira postura de fechamento (não quando vira fidelidade).
Do outro lado do espectro há os que negam qualquer forma de dogma. Deus é o Deus dos impossíveis; então, compete a nós “descobrir” diariamente uma coisa inédita. As categorias teológicas, nesse ponto de vista, seriam algemas. Nosso Deus seria puro dinamismo: o surpreendente a cada instante — e o passado, no máximo, uma inspiração poética.
O problema é que esse “dinamismo” facilmente vira uma espiritualidade sem freio: hoje Deus disse A, amanhã Deus disse o contrário, e sempre há uma explicação “profética” para justificar a incoerência.
A Bíblia já manda frear isso: “não creiais em todo espírito; provai” (1Jo 4:1). E ainda: “examinai tudo, retende o bem” (1Ts 5:21). O teste não existe para apagar o Espírito, mas para impedir que a nossa ansiedade use o nome dele.
Colocando assim, parece fácil escolher um lado: ou cremos que tudo está pronto, ou cremos que toda geração precisa reinventar o Eterno.
Só que a fé — como a vida — não é tão simples.
Erra o dogmático quando confunde tradição com imobilidade. Erra o experimentalista quando confunde vida com novidade compulsiva. E a saída não é um “pontinho médio” morno, como se equilíbrio fosse ficar em cima do muro.
A natureza espiritual da Igreja — aquela que transcende denominações, idiomas e séculos — nos obriga a duas lealdades ao mesmo tempo:
lealdade ao depósito recebido;
lealdade ao Deus vivo que continua conduzindo seu povo.
A primeira lealdade aparece sem rodeios: “a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). A segunda também: o Cristo ressuscitado caminha com a Igreja, corrige, consola, adverte, abre portas e fecha atalhos (Ap 2–3).
Então o problema real não é “dogma vs experiência”. É quem manda: o Cristo vivo ou o nosso temperamento religioso.
Aqui Barth é útil. E Tillich, do seu modo, também.
Em linhas gerais: Cristo é a Palavra viva de Deus (Jo 1:1–14; Hb 1:1–2). E a Escritura é o testemunho autorizado dessa revelação, aquilo que nos ancora para que a “voz de Deus” não vire eco do nosso próprio coração. “Toda Escritura é inspirada por Deus… para que o homem de Deus seja perfeito” (2Tm 3:16–17). E Pedro ainda amarra: nenhuma profecia é de interpretação particular (2Pe 1:20–21). Ou seja: a Bíblia não é massa de modelar.
Isso soa herético para os dois extremos.
Para o dogmático fechado, porque ele prefere uma “Palavra” reduzida a fórmulas fixas — e Deus não cabe num catecismo, por melhor que seja.
Para o experimentalista sem critério, porque ele alterna literalismo e alegoria conforme convém, sem paciência para ler texto, contexto, gênero, história e comunidade.
E aí nasce a espiritualidade mais perigosa: a do “Cristo que eu sinto”.
Porque, sim: alguém pode dizer “Cristo é a Palavra viva”, e concluir que tudo o que eu sinto vindo dele já é auto-validado. A experiência vira tribunal, e a doutrina vira refém. Isso é receita pronta para abuso espiritual, seita, manipulação e — ironicamente — dogmatismo novo, com cheiro de “revelação fresca”.
O Novo Testamento nunca tratou experiência como soberana. Tratou experiência como discernível, avaliável, submetida à Palavra e à comunidade. “Falando dois ou três profetas, e os outros julguem” (1Co 14:29). Julguem. Não aplaudam automaticamente.
O dinamismo cristão não é “cada um com sua revelação”. É um pulsar contínuo: a Igreja interpretando e re-interpretando a Escritura diante de novas perguntas, novas dores, novos desafios — sem trocar o evangelho por modismos.
Foi isso que aconteceu nos grandes marcos históricos.
Quando a Igreja afirmou, contra confusões e modas religiosas, que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ela não estava “inventando” Cristo; estava protegendo o evangelho. Por isso Niceia (325) e Calcedônia (451) são tão decisivos. Sem isso, “cruz” vira metáfora e “encarnação” vira poesia.
Quando a Reforma (magisterial) insistiu que a Igreja precisa ser constantemente reformada pela Palavra (semper reformanda), ela não estava negando a história, mas chamando a tradição para prestar contas à Escritura.
Quando os reformadores radicais lembraram que a fé não é só credal, mas vida concreta, eles cutucaram uma cristandade confortável demais.
Isso não significa que “a tradição manda” nem que “a novidade manda”. Significa que Cristo manda, e ele usa meios: Escritura, comunidade, história, dons, pastores, mestres, e também o sofrimento e a alegria do caminho (Ef 4:11–16).
Milagre, então, entra onde?
Não é questão de “acreditar ou não em milagres no século XXI”. Eu acho pobre a fé que precisa negar o sobrenatural para parecer inteligente — e acho igualmente pobre a fé que precisa chamar tudo de milagre para parecer viva.
A postura madura é outra: docilidade para reconhecer quando Deus age — e humildade para não inventar milagre só porque ignoramos mecanismos naturais. O Deus da Bíblia não tem medo da criação que ele mesmo sustenta.
E mais: a experiência cristã saudável raramente é individual. Ela é comunitária, testada, narrada, examinada, acompanhada. Isolamento espiritual costuma ser incubadora de fantasia.
Agora, duas palavras diretas — uma para cada tribo.
Você, dogmático: continue amando doutrina. Doutrina importa. Mas pare de se esconder atrás de credos como se decorar fórmulas fosse o mesmo que conhecer Cristo. Você pode saber os símbolos e concílios, citar catecismos de cor, e ainda assim nunca ter se rendido ao Cristo vivo. A ortodoxia que não produz arrependimento, amor e cruz não é “fidelidade”: é verniz (Tg 2:17).
Você, experimentalista: continue buscando vida com Deus. O Espírito não é museu. Mas entenda o que você perde quando despreza dois mil anos de oração, martírio, debate, correção e maturidade. Deus não começou a falar com você. A Igreja não nasceu ontem. A sabedoria que te precede não é inimiga da unção — é, muitas vezes, o recipiente que impede a unção de virar delírio.
E um lembrete histórico importante: você é chamado “cristão” não só porque tem uma Bíblia na mão, mas porque confessa o Cristo que a Igreja aprendeu a nomear com precisão ao longo dos séculos — especialmente nos grandes concílios antigos (como Niceia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia). Ignorar isso não é “pureza bíblica”. É amnésia.
No fim, a pergunta não é “dogma ou experiência?”. É outra:
a sua fé te prende a Cristo — ou te prende a você mesmo?
A cruz na carne da igreja: sofrimento, esperança e comunhão real Em 2025, notícias que vêm da África não permitem neutralidade. Comunidades cristãs inteiras têm sido marcadas por sequestros, assassinatos, estupros, aldeias incendiadas e deslocamentos forçados. A Nigéria, em especial, carrega hoje o rótulo amargo de um dos piores lugares do mundo para se confessar o nome de Cristo. Isso não é retórica alarmista. É sangue, medo e fidelidade concreta.
A pergunta não é se isso nos diz respeito. A pergunta é como ousamos viver como igreja fingindo que não diz.
A Escritura é brutalmente clara: “Se um membro sofre, todos sofrem com ele” (1Co 12.26). Não há corpo de Cristo em versão regional, confortável e blindada. A perseguição não é um problema “deles”, é uma ferida nossa. O que acontece em vilas africanas esquecidas pelo noticiário acontece dentro da mesma comunhão da qual fazemos parte no Brasil.
Aqui, a teologia precisa deixar de ser ornamento e se tornar nervo exposto. Karl Barth insistia que Deus se revela precisamente onde o mundo só enxerga fracasso e fraqueza. A cruz não é um acidente no caminho da igreja; é o próprio caminho. Uma igreja que só sabe cantar vitória, mas não reconhece o Cristo crucificado nos seus irmãos perseguidos, já perdeu o rumo.
Anders Nygren nos lembra que o ágape não é reação ao mérito, mas entrega gratuita — inclusive (e sobretudo) diante do ódio. Isso confronta nossa tendência de selecionar quem merece nossa empatia. O amor cristão não funciona por afinidade cultural nem por proximidade geográfica.
E N. T. Wright aponta para algo ainda mais desconcertante: a ressurreição inaugura a nova criação no meio da história ferida. O sofrimento dos santos não é o capítulo final, mas participação real nos sofrimentos do Messias, em vista da glória que Deus prometeu. O clamor dos mártires em Apocalipse 6 não é esquecido; é ouvido e guardado.
Isso exige discernimento. Existe perseguição real — com morte, prisão e exílio — e existe desconforto cultural, perda de privilégios ou rejeição social. Confundir as duas coisas banaliza o sofrimento dos que realmente pagam com o corpo. A igreja precisa de maturidade para distinguir.
Mas discernir não basta. Somos chamados a orar e agir. Informar-se, interceder, apoiar missões confiáveis, sustentar financeiramente quem está na linha de frente e levantar a voz quando o silêncio é cumplicidade. Hebreus 13.3 não sugere empatia abstrata, mas identificação concreta: “como se estivésseis presos com eles”.
A esperança cristã não nega o horror. Ela o atravessa. Romanos 8 permanece verdadeiro mesmo quando o mundo desaba: nada pode separar do amor de Deus em Cristo Jesus. Nem facões, nem milícias, nem covas rasas.
A cruz já está na carne da igreja. A pergunta é se teremos coragem de olhar para ela — e permanecer fiéis.
Para a vergonha ominosa de mais de um cristão, novembro vem nos lembrar de uma obviedade que a fé – não poucas vezes – esquece: Deus não faz acepção de pessoas. Não há hierarquia de pele, passaporte, sotaque, classe ou bagagem de vida diante do Criador. Sem ânimo de ser simplistas mas usando o simplismo para agravar a análise: Há pecadores e há graça. Há muro e há cruz.
E, em Cristo e apenas em Cristo, o próprio Criador “de ambos os povos fez um” (Ef. 2:14-16). Discrepar disso não o coloca na lista de meus inimigos, mas o coloca em rota de colisão direta com o que o próprio Senhor está querendo desde o inicio. (Leitores literais da Bíblia vão achar um pouco chocante essa colocação. Já quem tem maior flexibilidade e pode fazer leituras alegóricas com sua maior amplitude e lançando mão de mais fontes entenderá isso claramente)
O Dia da consciência Negra – a ser celebrado o doa 20/Novembro – coloca uma lupa em um problema que gostamos de fazer de conta que não existe: nos molesta o diferente. Com isso não me refiro a que não gostamos de algumas ideias de certa pessoa,mas mesmo assim conseguimos compartilhar a mesa ou um jogo de futebol ou um café ocasionalmente. Me refiro àquela reação espontânea (depois veremos essa palavra) veemente que é contra não já das ideias, mas também da própria pessoa. O campo do debate das ideias, é um terreno de batalha honorável. Já o desprezo do outro – do distinto – pelo fato de ter uma aparência distinta à minha, é uma coisa baixa, abjecta e que só põe de manifesto uma coisa: a falta de conhecimento do outro e o medo como fio condutor das ações. Essas duas coisas andam juntas.
A reação não é espontânea, porque é educada vagarosa ou intempestivamente. O ser humano, assim como um gato reconhece outro gato mesmo com pelagem diferente, precisa ser educado para achar que “a pelagem ” do outro ser humano tem alguma coisa a ver com carater ou similares.
Mas partir do dia da consciência negra e chegar em coisas tão diversas como “o diferente”, não é – por acaso – expandir o conceito a locais que – originalmente – não eram os almejados? Óbvio que sim! E exatamente disso que se trata. Se o dia da consciência negra servisse apenas para focar na situação dos seres humanos negros em solo brasileiro seria apenas uma heteronomia por outra quando aonde quero chegar é analisar a teonomia como solução. Já falarei dessas palavras. Baste agora dizer que nos tornarmos conscientes da situação negra em solo brasileiro em S XXI nos deve – como cristãos reais e não nominais – a levantar a voz sobre outras coisas sem por um segundo sequer diluir o assunto original.
Há quem pense que o Dia da consciência negra é uma pauta política empurrada para a igreja. E não há falta de razão nisso. Nós – detentores supostos da verdade revelada – deveríamos ter sido os primeiros a levantar essa bandeira. Então, a engolir o orgulho e fazer o que nos é devido. Se tornar consciente da situação negra brasileira no S XXI, faz parte do chamado bíblico à reconciliação que não dilui convicções nem compra um universalismo barato. É discipulado com nome e CPF.
Ou dito de outra forma, não porque nossa teologia cristã tem uma dívida imensa com o continente africano, os problemas atuais estão solucionados. Ou mais simples: é uma agenda para cada geração de cristãos.
1) Comecemos por onde Deus começa: dignidade
A Escritura (cabe dizer que é bem anterior a qualquer empreendimento político em prol de ter um dia da consciência negra) define o valor humano antes de qualquer rótulo: imagem e semelhança de Deus (Gn. 1:26-28) Isso – para qualquer cristão mesmo até para aqueles que diluem a autoridade bíblica com tradições e palavras de autoridade, ou aqueles que nem sequer conhecem a Palavra – basta para encerrar a conversa sobre “gente de primeira” e “gente de segunda”.
O racismo, explicito ou educado, manifesto ou regressado, é pecado porque fere o Autor do próprio ser humano. Ponto. Claro, uma leitura literal da escritura levantará mais problemas do que soluções. Mas Gênesis não se presta para leituras literais (em especial em seus primeiros capítulos) por serem poesia.
Esclarecimentos bibliologicos necessários à parte, o fato é de que qualquer forma de racismo, é – na sua forma mais brutal e básica – pecado e pecado afasta a criatura do criador.
Como eu já pude observar em primeira mão racismo entre brancos, me sinto especialmente preparado para atacar um problema tão sujo, baixo e nefasto como o racismo seja este pessoal, institucional, estrutural, veemente, escondido mas desde óptica diversa da que se vê usualmente.
Se observamos a Bíblia – e insisto, mesmo que seja um cristão velinha apagada ela continua sendo sua regra de fé e prática – Paulo tinha um problema similar na região da Galácia. Veja Gl. 3:28: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre… pois todos são um em Cristo Jesus. Agora bem, o que se nos escapa dos dedos quando vemos esta passagem tem a ver com um anacronismo descomunal. O próprio império Romano, sob o qual estava a região da Galácia, tinha resolvido já essas diferenças ao – legalmente e de forma prática – absorver muitas raças, cores de pele, linguagens, leis, religiões, etc… Isso coloca de realce o paradoxo sob o qual viviam os gálatas: Eu sou judeu e não me junto com os gentios. Eu sou livre, não posso me juntar com um escravo. etc…
A unidade procurada – onde não há distinção por ser homem ou mulher ou ser escravo ou livre, etc – não é uma coisa que aconteça de forma automática. Aliás, nada na vida cristã o é. Nós que queremos que seja.
A única coisa de graça é a salvação e isso porque o custo é tão alto que só poderia ser por graça para igualar-nos a todos. Tudo o restante na vida cristã, tem um custo e a reconciliação com o diferente não é exceção.
Não é apenas “vamos nos gostar” Na realidade se trata de investir energia, força, intelecto (me faz pensar em “com todo teu coração, com toda tua alma com toda tua força”) em entender o outro e – lá vem treta – conseguir chegar a gostar do outro porque assim mó propus.
Já que estamos nisso, o casamento é igual.
2) Cristo derruba muros, não pessoas.
Corria o ano 33 mais ou menos e o império Romano ia de vento em popa. A absorção de pessoas diferentes por parte da antiga república tinha feito do agora império, uma fortaleça. Mas, isso não era assim no interior do ser humano. Em especial daqueles que criam. Se achavam a última bolacha do pacote, como costumamos dizer. No inicio desse ano, morria o que alguns chamamos de “meu Senhor e salvador” inaugurando uma nova era em que a graça iria reinar em paralelo com a morte, a lei e o pecado (Ref Rom. 5:12ss) e aqueles que entram nessa nova era iriam usufruir de uma nova mentalidade (Ref Rom 12) e muitas coisas mais que não cabem elencar aqui.
Muitíssimos anos depois, e seguindo uma teologia perversa que deshumaniza o ser humano e rejeita veementemente a estrutura proposta por Efésios e Gálatas colocando essa luta entre o antigo e o novo no coração do ser humano como se de um ser esquizofrênico se trata-se.
Efésios 2 é cristalino: Jesus é nossa paz e, na sua carne, desfez a inimizade e edificou uma nova humanidade (Ef.2:143-16). Essa paz, tem endereço: a comunidade local. Nisso tenho duas colocações: Não lhe chama a atenção o número crescente de pessoas que despreza a comunidade local? e segundo, não lhe atrai o pensamento ver como aparentemente as coisas funcionam “melhor” do lado de fora da comunidade? Não vou tocar nisso agora. Baste apenas dizer que o engano de Satanás, é maior, mais perverso, mais profundo e mais visceral do que qualquer um pode imaginar.
Voltando a Efésios. Não é um “Paz e Amor” que pedala em cima da verdade, nem um ecumenismo onde tudo vale e as identidades (conquistadas com tantas lutas) se diluem em prol de um bem maior que é menor da proposta do próprio Cristo.
A unidade bíblica tem centro – Cristo Senhor – e tem forma – arrependimento, fé, e mesa compartilhada. A diversidade de histórias permanece, o muro de hostilidade cai. E onde é que você quer estar? Dentro da nova comunidade fundada por Cristo ou fora dela? Sei… muitos vão dizer: fora dela.
3) O engano da “indiferença cromática”
Tem uma piada infame de um exercito brasileiro com problemas profundos de racismo. Tão grande era a desavença que chegou ao estado maior que mando um dos seus mais condecorados generais tratar do assunto.
Chegando às 0500 os fez formar e começou a lhes falar que eles não eram nem brancos, nem negros. Eram verdes. Todos se enxergam com vergonha e partiram para o abraço depois de mais de duas horas sendo arengados.
A piada finaliza, com o general explicando que – para que eles vejam que se tratava de uma coisa seria – ele tinha providenciado mesas para o recadastramento dos verdes. E que para facilitar o recadastramento, os verde claro iam se cadastrar no escritório da esquerda, e os verde escuro no outro.
“Eu nem vejo cor” soa até civilizado. Como dizem “eu até tenho um amigo negro”… como se fosse um pequeno animal de estimação para desmontar qualquer argumento. “Eu nem vejo cor” soa até civilizado, mas apaga histórias. E é aí que a visão bíblica se torna elevada, imprevisível, grandiosa: A Bíblia não faz de conta que as diferenças não existem: as redime. O mesmo se aplica a “não há mais homem nem mulher” a visão continua sendo a mesma de sempre: há identidades diferentes (que foram RECEBIDAS) que precisam ser valorizadas, não apagadas.
A visão do Cordeiro é de “toda tribo, língua, povo e nação” diante do trono (Ap.7:9) não tem nada de monocromática, mas muito de harmonia. A igreja (e o mundo por ser o local onde a igreja se manifesta) não precisa de paleta única, precisa de amor que enxerga e honra. Então pare de exigir que o outro se torne igual a mim para pertencer. Primeiro vem o pertencimento, depois a transformação con-jun-ta
4) Dando nome aos pecados
Racismo (não apenas contra o negro, mas também contra o indígena, o eslavo, etc) não só é um palavrão explicito (ou blasfémia, como preferir); Vive em piadas, silêncios, portas semiabertas, conselhos homogêneos (veja por exemplo os vereadores da sua cidade), currículos viciados e teologia que ignoram feridas históricas abertas.
Confissão bíblica não terceiriza culpa: eu confesso o meu, nós confessamos o nosso
Amos (meu herói particular neste nefasto ano que fez aniversário final de semana passado) diz assim: “Corra o juízo como as águas, e a justiça como um ribeiro perene” (Amós 5:24)
Água correndo, poderíamos pensar em eventos sazonais. E isso, em ambientes de seca, é melhor do que nada. Todavia, “perene” me faz lembrar do rio com fundo de pedras que corre constantemente. É ritmo. Então, você se engana se isto é como uma daquelas campanhas de conscientização que nada mais produz do que alguma culpa circunstancial ou um pouco de indignação.
Justiça bíblica pede: a) processos, b) orçamentos, c) hábitos e d) revisão regular dos processos (às vezes achamos que está tudo bem revivendo mamutes ou mantendo estruturas que não mais comunicam desviando – com isso – recursos importantíssimos do que realmente interessa: a redenção da humanidade)
Quem tenha ouvido pelo menos três pregações minhas sabe o quanto eu desprezo a fórmula inócua do encerramento de certas orações “com o perdão dos nossos pecados, amém”. Perdeu vigor teológico. Perdeu vivência. Perdeu sabor. Virou uma repetição sem sentido que apenas mitiga por alguns segundos (se é que dura isso tudo) a culpa que o pecado traz e que tanto esforço a raça humana faz por esquecer.
Sem uma etiqueta apropriada, sem uma contrição pensada, sem um tempo de elaboração, são palavras vazias que até o vento tem preguiça de levar e amontoar em algum lugar porque sua falta de peso e essência as torna piores que folhas secas.
Se necessita então uma analise histórica e cultural do local onde a comunidade está inserida. De nada. me servem as reflexões feitas ao redor do Xingu dos Palmares se isso não comunica nada com dona Tereza, negra de mais de oitenta anos que tem muita história para contar ainda e parece que nós estamos fazendo papel de surdos voluntarios (e voluntariosos) para não coloca-la no centro da cena e revisar a postura histórica que temos tido. Com isso não estou dizendo que eu ou você especificamente – quanto pessoa de ordem física – seja ou sejamos culpados especificamente de alguma coidsa com a suposta dona Tereza. Todavia, sim nos parecemos como aqueles que tamparam os ouvidos e apedrejaram o primeiro martir da fé cristã: Estêvão.
Por aí, ficamos sabendo que a mesma instituição que a deveria ter defendido as Terezas das naus negreiras são similares quando não a mesma que facilitou a fuga de autoridades Nazis ao passo que entregava os que lutavam pelo socialismo (corrente esta que não defendo. Sou cristão.)
Sem historia, não há nome, sem nome, não há confissão, sem confissão não há perdão e sem perdão não há liberdade e sem liberdade (sempre seguindo a Bíblia, não há nem justiça nem paz. Ref Rom 5)
5) Sem universalismo barato nem hiper-ecumenismo
O universalismo (aquela linha teológica que indica que Jesus salvou todas e cada uma das pessoas na sua morte na cruz) despe o corpo doutrinario cristão acumulado (e defendido em intensas lutas intestinais) durante séculos e o expõe como coisa desprezível, rasa e sem significado. Existem – ao meu ver – dois grandes grupos dos participantes do universalismo: aqueles que – na sua leitura da Bíblia, de forma honesta e numa tentativa imparcial, enxergam no inferno e sua existência uma contradição com um Deus amoroso. Estão nesse mesmo grupo, os que, por falta de peso histórico, ou de tradição – se assim gostar – avançam em Romanos 5 para além dos seus limites e acabam colocando a cerca do outro lado do precipicio onde mais nada tem de útil.
O segundo grupo, são os bem intencionados e desprovidos de qualquer intensidade na fé ou interesse pelas escrituras, ou sequer algoma forma simples de curiosidade pela verdade (que por mais complexa que seja não deixa de ser verdade mesmo não a entendendo) acabam cultivando essas pedras parecidas com semi-preciosas que só tem um único brilho e acaba confundindo quem – de fato – se intreressa pela vida e – por consequência – sua preocupação última. E não se trata aqui de “salvação da alma” como se o restante não fosse importante. Se trata de que o universalismo nada mais é do que uma fuga da realidade soteriologica (isto é, coisas referentes à salvação)
No universalismo, não apenas a conduta deixam de ser importantes, como também a crença se torna supérflua. Ou como dizia meu amigo: à toa que nem buzina em avião (sim, eu sei que os aviões tem buzina, mas fiquei sabendo 40 anos depois dele insistir nisso… então tá valendo)
Ou seja, a existência humana é apenas um grande funil em que tudo vai se juntar no final sem importar absolutamente nada.
O companheiro quase que natural do universalismo é o hiper-ecumenismo. Não falo do caminho comum (isso que significa ecumenismo) que temos entre Batistas, Presbiterianos, Metodistas, Certas formas de Catolicismo, etc…. Mas aquele que apregoa que – já que tudo vai dar na mesma – não interessa o que você creia contanto o sinta e seja intenso nisso. Ou seja, nada mais parecido ao movimento hippie do final dos anos 1960.
Um é mestre do outro. Um depende do outro. Um arrasta o outro. Não interessa qual dos dois aparecer primeiro, na realidade, o outro vai aparecer junto. Essa simbiose esotérica, apenas afunda mais a pessoa em um sem sentido… Só que agora, é maior, mais abranjente, e com linhas cada vez mais difusas.
Se seu filho não acredita em Cristo, a eternidade dele é longe do Cristo. Simples. Mas é dessa simplicidade que precisamos para acordarmos à realidade espiritual que vivemos em que há regiões espirituais inteiras ocupadas em incentivar o hiper-ecumenismo e o universalismo.
Está tudo perdido no ecumenismo ou no universalismo? É todo ruim? Não, até do Diabo é possível tecer elogios importantes e que poderiam ser modelos para a vida cristã. Quer exemplos? A tenacidade, e a persistência com que ele se dedica a ofuscar o caminho da verdade.
A estas alturas do campeonato, você deve se estar perguntando o que tem a ver A com B. Não era do dia da consciência negra que estavamos falando?. Sim, era e continua sendo, mas sem essa introdução certas coisas que irei propor podem soar a universalismo ou hiper-ecumenismo.
Então 1) sejamos claros: nem todo caminho leva a Deus. Apenas Jesus o Cristo encarnado, morto e resurreto. Justamente por causa disso, o evangelho não está – de forma alguma – limitado aos de determinada cor ou determinada região, ou a certo sotaque ou origem, ou cicatriz. Fé, alinhada ao Criador, não vibra com rótulos; vibra com arrependidos. Graça é inclusiva; discipulado é exigente. E é muito interessante a multidão de supostos cristãos que gostariam que fosse ao contrario. 2) Exercicio de conscientização podem ser realizados com comunidades afro. Não é obrigatório, mas na honestidade histórica, isso se torna necessário. Eu acho que, para este ponto você está plenamente apto para entender a razão de por que refutar tanto o universalismo como o hiper-ecumenismo.
O pecado, tem suas emanações atingindo a sociedade como um todo. Não fica limitado apenas ao próprio corpo ou às próprias ideias. E vestir-nos de humildade necessária para participar de um evento de imersão nas mais diversas situações de ordem racista-histórico-cultural requer não apenas coragem, requer conhecimento. De outra forma é apenas um ato social que nada contribui para a compreensão do outro que – não por um acaso – compartilha sua mesmma base de cidadania. (Volte no lance do Zumbi dos Palmares que falei antes)
Um ato de imersão desses, não é um evento evangelistico. É um ato de amor para com o outro… para como diferente… o que precisamos compreender antes de sequer pensar em chegar a certas conclusões (já ouvi que se os ancestrais foram escravos era porque mereciam)
Então, sintetizando este ponto que – óbviamente – requereria um artigo à parte que não vou escrever – podemos dizer que O Evangelho acolhe e transforma. Nessa ordem estrita.
Toda e qualquer coisa que você fizer para inverter essa ordem, é pecado. Toda e qualquer coisa que você – podendo – deixar de fazer para entender seu vizinho diferente, é um pecado de omisão.
Então, o que você vai fazer com isso tudo?
P.S. E o tal da teonomia…? Ah sim, esses são três termos interessantissimos um usado usados e outros dois cunhados pelo teólogo e filósofo Paul Tillich. Na autonomia (lei própria), você é dono de sim, responde à sua própria lei interna (bastante parecido com o anarquismo quanto corrente filosófica ideal) e se todos são autônomos, idealmente, não há necessidade de que outro te governe. Mas aí que está, sempre há o outro que governa, esse é o heteronomo (regras ou leis do outro). O diferente, distinto, que governa o ser que não mais pode ser autônomo. O que Tillich (Filho de pastor ortodoxo, formado como teologo liberal, desencantado da inutilidade da teologia liberal para o ser humano e um dos fundadores da neo-ortodoxia) observou é que na história há uma inversão de valores: Quem em algum momento era um ser governado por outro, quando teve oportunidade de lutar e se desvencilhar do jugo, se tornou no heteronomo para o outro. Com isso, o oprimido passou a ser opressor e o ciclo se repete. Para ele a solução passa não pela ilusão da teocracia (como no Irã, por exemplo, ou no Vaticano) mas pela teonomia (norma do theos), em que cada ser individual, se sujeita não já ao heteronomo mas sim ao Criador. Se eu for sintetizar o artigo numa frase: não estariamos nesta situação se cada um de nós tivesse colocado Deus como seu Senhor e não apenas como galo de briga em rinhas de quarta categoria.
Vivemos um tempo em que o desespero virou rotina. Segundo a OpenAI, mais de um milhão de pessoas por semana falam sobre suicídio com a inteligência artificial. Não é ficção — é estatística. E por trás de cada número há uma alma cansada, alguém que já não encontra sentido ao acordar. O problema não é apenas clínico, é espiritual. É um grito que pede sentido, e o sentido é precisamente aquilo que o Evangelho oferece: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt 11:28).
Quando a máquina escuta e a Igreja se cala
É chocante: enquanto milhões desabafam com uma IA, muitos não encontram espaço para falar dentro das igrejas. Falta escuta, sobra julgamento. Falta abrigo, sobra discurso. O ser humano fala com a máquina porque espera o que deveria encontrar no povo de Deus — atenção, acolhimento e esperança. Se uma tecnologia pode ouvir com empatia, quanto mais a Igreja deveria ser um lugar seguro para os que estão à beira do colapso.
O descanso que não se programa
A IA pode responder, mas não pode abraçar. Pode orientar, mas não pode redimir. Somente Cristo pode oferecer o tipo de descanso que a alma precisa — não o descanso de “fugir do mundo”, mas o de enfrentá-lo com esperança. Ele não promete eliminar o peso, mas dividir o fardo. E esse é o evangelho que o mundo exausto precisa ouvir novamente: o de um Deus que se aproxima dos que choram e lhes devolve o sentido de existir.
A missão da Igreja no tempo da angústia
A igreja que prega, mas não escuta, trai o Evangelho que anuncia. A missão hoje é clara: falar da esperança, mas também encarná-la. Não basta dizer “Jesus salva” — é preciso mostrar como Ele acolhe, sustenta, consola. Cada grupo, cada culto, cada encontro pode ser o espaço onde o cansado descansa e o desesperado encontra fôlego.
Final
Num mundo onde máquinas ouvem milhões de desabafos, que a Igreja volte a ser o lugar onde a alma encontra descanso em Cristo. Porque o Evangelho continua sendo a resposta mais humana ao desespero mais profundo.
Søren Kierkegaard, aquele dinamarquês de nome complicado que os manuais de filosofia apelidaram de “pai do existencialismo cristão”, dizia que a fé não era um cálculo seguro. Não era um contrato com cláusulas bem assinadas. Era um salto no escuro. Um pulo diante do absurdo. O que o sustentava não era a certeza de onde cairia, mas a confiança em quem o chamava a saltar.
Mais tarde, John Caputo, já no nosso tempo, resolveu complicar ainda mais. Para ele, a fé é “fé sem fé”. E o que significa isso? Que a fé verdadeira não é uma fortaleza de pedra, mas um vaso de barro que racha, quebra, precisa ser colado de novo e de novo. É fé que não se apoia na segurança das respostas prontas, mas que sobrevive às rachaduras, ao silêncio, à incerteza. É fé que se reinventa a cada passo.
Umas brutalidades
Costumamos pensar que a dúvida mata a fé. Mas a história bíblica insiste em nos lembrar o contrário. Abraão riu do absurdo de ter um filho na velhice. Jó amaldiçoou o dia em que nasceu. Tomé exigiu colocar o dedo na ferida. Nenhum deles saiu ileso. Nenhum deles saiu “herói” no sentido romântico. Mas todos, de alguma forma, atravessaram a noite e encontraram fé do outro lado.
Essa é a brutalidade da coisa: a dúvida não é inimiga, mas parteira da fé. Ela arranca as ilusões, desmascara a confiança no automático, obriga a reinventar a caminhada. A fé que nunca duvida é como notícia de rede social: fácil de repetir, difícil de confiar. A fé que passa pela dúvida, essa sim, é real — porque não depende do verniz da certeza, mas da confiança no Deus que permanece.
Uma reflexão
Na verdade, fé e dúvida não brigam como rivais mortais. Elas se encontram, se cruzam, até dançam juntas. O pai aflito que gritou a Jesus não sabia esconder suas rachaduras: “Creio, Senhor; ajuda a minha incredulidade” (Marcos 9:24). Eis o retrato mais honesto da fé. Não triunfante, não blindada, mas ferida e ainda assim viva.
É preciso abandonar a ilusão de que fé é ausência de rachaduras. Não é. É justamente ali, na rachadura, que a luz entra.
Conclusão
Portanto, se alguém lhe disser que dúvida destrói a fé, desconfie. Diga que a fé sem dúvida é caricatura. A verdadeira é a que sangra, a que se ajoelha no escuro, a que balbucia com vergonha: “Eu creio, mas ajuda a minha incredulidade”. Essa é a fé que sobrevive porque não se apoia em si mesma, mas naquele que a chama para seguir mesmo sem garantias.
Jesus era um mestre com as palavras. Repare, por exemplo, em como ele fazia uso das parábolas e em especial como elas faziam sentido para o grupo de discipulos ao passo que os outros ficavam – propositalmente – sem saber de fato do que se tratava. São como mísseis teledirigidos: eles tem um ponto específico que atingir.
Outra coisa das parábolas, é que elas nos fala de uma situação conhecida, mas distante de nosso convivio. Ou dito de outra forma: falava de coisas que eram assunto entre os ouvintes, mas nenhum deles poderia se sentir atingido ou apontado com o ensinamento já que “era sobre os outros”.
Então, por que não falar da situação na Ucrânia? É uma coisa conhecida – ao menos na teoria para os leitores tupiniquins – e ao mesmo tempo distante, que nos pode falar de coisas bem corriqueiras sem que por isso nos ofenda ou coisa assim.
A semana foi marcada por avanços e recuos militares na guerra de agressão que Rússia desenvolve contra seu ex estado vasalo, a Ucrânia. Também durante a semana houve um aumento das tensões entre EUA, Europa e Rússia. Se discutem sanções e acordos comerciais. Enfim, o cenário internacional permanece instável, com impactos sociais e econômicos significativos.
Como dizia Susanita da tão amada tira cómica de Quino nos anos 60 e 70 – Mafalda – “Menos mal que o mundo é tãaaao longe!”
Qual é a condição, as ferramentas, e o conteúdo da mensagem cristã em situações de agressão (Antes de responder, lembre da agressão do Hamas contra o estado de Israel e a resposta que este está tendo e a situação do povo palestino)
E essas condições, ferramentas e conteúdo, se pode aplicar a qualquer conflito? Ou é apenas para casos de geo-política? Será que há tanta diferença de um conflito armado a um espiritual? Ou de um militar a um civil? Ou de um civil a um familiar? Ou de um familiar a um pessoal?
Existe esperança.O que hoje se estima como desgraça, na realidade trata-se da grande graça. A esperança. Se bem é verdade o que alguém disse sobre a guerra “A primeira baixa é a verdade” também é certo que podemos afirmar que “a última sobrevivente é a esperança” sendo que – ao faltar esta – tudo está perdido pois esta sobrevive mesmo até o findar dos recursos e sem esperança, nem mesmo com recursos é possível achar uma saída ao conflito.Ucrânia, não apenas tem se mostrado resiliente como também tem se mostrado inovadora nas modalidades de defesa adiando o final da guerra para “poder lutar amanhã” até que o reforço do ocidente (tão obviamente necessário) se faça manifesto de forma incontestável.
O caos desafia toda esperançaO caos é anterior à criação. Na criação, Deus se opõe ao caos colocando paz y harmonia. O mundo tenta imitar a paz de Deus, mas não consegue evitar o caos ou lhe dar uma solução ou pelo menos uma explicação aceitável. Apenas levantar perguntas – muito boas por certo – mas sem uma solução palatável.A guerra – que como muitos dizem é o estado natural do homem moderno e é o que o distingue da humanidade anterior – traz o caos. A alteração brutal da vida comum. O sobressalto desnecessário no meio da noite. Os ataques inumanos contra hospitais, escolas, centros de detenção, centrais de energia termo-nuclear, reservatórios de água, etc…Ir para um estado de paz, requer mais do que boa vontade. E repare que não falei em “voltar” e sim em “ir”. Nunca mais a situação será a mesma. Mas há esperança e o caos não prevalece.Todavia, esse “não prevalecer” não é natural. Ou seja, a esperança por si só, não tem o vigor necessário para prevalecer contra o caos. E esperança está no impotente. Daí que só o potente pode – de fato – enfrentar o caos… como na criação.
A justiça como resposta ao caosO caos ocasionado por decisões de seres humanos, só pode achar seu cauce de vazão na justiça. Daí que a tão almejada paz não se alcance enquanto haja esperança, recursos e injustiça. Tire só um dos três pilares e os outros prevalecem. Como a esperança não pode ser tirada e a justiça não pode ser instaurada no atual estado de coisas, apenas resta aos que podem, retirar e ameaçar tirar os recursos. Que sobra: esperança e injustiça. E isso é receita para o fraticidio a longo prazo.Então a justiça (os oblast de Ucrânia ocupada precisam voltar a serem da Ucrânia, os crimes de lesa humanidade precisam ser julgados, etc) precisa prevalecer. Ou, dito de outra forma, a mentira inicial que deu o “amparo” moral que Putin precisava, precisa ser escancarada. (Assim como precisaria a mentira que levou ao segundo ataque ao Iraque no final dos noventa)Sem justiça, a paz não tem como existir quanto menos se sustentar.Talvez por isso que “justificados … temos paz” Romanos 5. Ou seja, endireitados temos paz com Deus.
Agora, avaliemos outros conflitos antes de apressar-nos com as conclusões. Pensemos em outros conflitos como o caso do Iran contra o resto do mundo. Ou da Cachemira, ou de China contra Taiwan. Ou da Rússia contra o Japão. Ou dos EUA contra o restante do mundo comercialmente.
Pode encontrar sempre esse mesmo tripé.
Mas pensemos em situações familiares, ou de casal. Sem justiça, não há como florescer a paz e a esperança e os recursos vão definhando até não ser possível uma reconstrução. É facil se sentir injustiçado. Dificil é promover a justiça quando isto tem prejuizo próprio.
Porém, se observarmos mais fundo, pessoalmente também há esse estado caotico da alma humana com seu criador e – a partir disso – com outras criaturas e com a natureza, mas pior que tudo, consigo mesmo o ser humano está em constante rebeldia e dessassossego.
Lamentavelmente, por mais que os livros de auto-ajuda indiquem o contrário, você não pode – por esforço próprio – conseguir estar em paz com seu Criador e – por conseguinte – com você mesmo. É uma questão de tempo até que as rochas afiladas do fundo do seu rio, apareçam depois das aguas do esforço proprio vazarem e derem lugar à realidade.
Me acompanhe só mais um minuto… De um plano distante como a Ucrânia, em que nos resulta bastante fácil dar palpite e formar opinião, fomos avançando até chegarmos ao cotidiano e pessoal.
Em certo sentido, lhe vai parecer risível a proposta que vem, mas na realidade ela é poderosa demais para que seja levada a sério pela maioria.
A nossa situação se parece com os rebeldes dos oblast da Ucrânia: ajudados por um poder externo, atacam a própria nação. De igual forma, ao aceitarmos a invasão em âmbito pessoal das ideias, principios, regras de convivio, valores dúbios, auto-indulgencia, etc, o que estamos fazendo – em território pessoal ou familiar – é convidando um poder muitissimo maior do que nós para nos respaldar em nossa rebelião. Repetimos a história do Eden. Daí que Paulo diz “todos pecaram e estão destituidos da glória de Deus”
E aí que vem a solução que para o mundo é chamada de “maldita” pois lhes parece loucura. (E não lhes poderia parecer outra coisa)
O que foi que Deus fez quando a rebelião alcançou seu auge? Qual era o plano desde antes da criação do mundo? Conforme diz a segunda carta aos Coríntios, “Deus nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação” (2Cor. 5:18-20)
A reconciliação que Deus fez conosco (a custo da vida do próprio filho) não pode ser tido como um exemplo apenas, mas sim como uma razão de ser. Ou seja, a reconciliação (mesmo com custo pessoal) faz parte do ser cristão. O novo homem partilha da responsabilidade (glória) da nova criação e participa assim dos sofrimentos do Cristo ao estender a mão da reconciliação para quem – como nós – não a merece.
Graça sobre graça de forma prática. O Reino de Deus pode ser visto como o grande projeto de reconciliação de Deus com a raça humana. Veja bem, não é o homem que se reconcilia com Deus, é Deus quem reconcilia o homem com seu Criador.
Como que isso afeta o panorama mundial. Bem, primeiro que não há nada que não seja espiritual e isso fica de manifesto em guerras, epidemias, e todo tipo de catástrofe. O mesmo vale para relações familiares ou para nossa vida pessoal.
Essa conexão é facil de demonstrar: não interessa se o sistema que domina um país é democratico ou autocratico, todo governo teme à opinião do povo pois quando o povo se levanta, muitas coisas mudam de forma repentina. Sim, sei que também essas mudanças não conseguem se suster por muito tempo e o povo se evapora assim que a mudança é realizada dando lugar a outro esquema (geralmente tão ruim quanto o primeiro) contanto prometa algumas mudanças que atingem a massa.
Bem, seja como for, há uma realidade espiritual conectada à nossa realidade “humana”. Ou dito de outra forma: os gregos estavam certos em fazer uma tricotomia do ser humano: alma, corpo e espirito. Os judeus estavam certos em sua dicotomia. Os orientais estão certos em observar que há algo para além do físico. Enfim.
O ponto aqui é que o que a igreja proclama, tem um peso importantissimo mesmo a miles de kilometros de distância (sem por isso diminuir ou eliminar a reponsabilidade e as possibilidades pessoais que há in-situ).
Se a igreja para de idolatrar ou demonizar a esquerda e a direita, ela fica livre para assumir seu lugar na história. Qual lugar é este? Do lado da restauração da imagem de Deus na sua Criatura. Como se consegue isso? Por meio da mensagem da reconciliação.
Veja. Não há nada tão importante como a superação do caos. Deus não é a fonte do caos. Logo, a superação do caos, é a constante do Criador. Todavia, em sua liberade, o ser humano tem escolhido (e escolhe regularmente) ir contra seu criador.
Mas Deus, o deus que se revela na Bíblia, é soberano sobre a história. Nada há que se escape do controle dele. Não é possível ele concordar com o que o homem – em seu desejo por se afastar do Criador – escolhe. Logo, é a Igreja a encarregada de fazer sua parte do serviço aqui na Terra. E para isso, deve anunciar a mensagem que é o cerne da restauração do Criador na Criatura: a mensagem da reconciliação.
Ucrânia e Rússia enfrentam uma guerra fraticida. Compartilham centenas de anos de similaridades culturais e religiosas. Mas se matam entre eles. É obvio que parece uma mensagem fraca (e talvez por isso me detive a explicar o por quê a justiça é necessária para alcançar a paz e não ao contrário), mas a mensagem que a Igreja tem é a de reconciliação. Ou seja, o que é sinal mesmo de justiça e paz após o conflito? A reconciliação.
O mesmo vale para as familias, o mesmo vale para os casais, o mesmo vale para o individuo em sua rebeldia com Deus.
Está você em rebeldia com Deus? Acha que a solução para o Hamas é apenas bala e vala? Então é melhor começar a se arrepender.
“Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” Mateus 5:9
Em muitos chamados bíblicos, incluindo o de Abrão, há um elemento migratório. Sempre há um movimento, uma deslocação. No entanto, esse deslocamento não é infinito; chega um momento em que o convocado deve se estabelecer e transformar a sociedade na qual se encontra. A mesma confiança exercida na saída deve agora ser colocada no afincamento, conforme expresso em Gênesis 12:2-3, onde Abrão é chamado a ser uma bênção para os outros.
Chamado Migratório na Bíblia
A Bíblia está repleta de histórias de migração, onde personagens como Abraão, Sara, Jacó e até mesmo Jesus são retratados como migrantes. Essas narrativas não apenas descrevem movimentos geográficos, mas também revelam um profundo significado teológico. A migração na Bíblia é frequentemente um chamado divino, que envolve deslocamento, estabelecimento e transformação.
O Chamado de Abraão
Um Modelo de Migração e Estabelecimento
O chamado de Abrão (depois chamado de Abraão) é um dos mais emblemáticos exemplos de migração na Bíblia. Em Gênesis 12:1-3, Deus instrui Abrão a deixar sua terra natal e sua família para ir a um lugar que Ele lhe mostrará. Essa jornada não é apenas um movimento físico, mas também um ato de fé e confiança em Deus. Abraão é chamado a ser uma bênção para todas as famílias da terra (Gn 12:3), o que implica não apenas estar em um lugar, mas ser naquele lugar, encarnando uma mensagem de esperança e salvação para o contexto local.
Abraão e Sara percorrem a terra prometida, enfrentando desafios como fome e ameaças, mas também experimentando a fidelidade de Deus (Gn 12:10-20; 13:1-4). Eles se estabelecem em diferentes locais, como Betel e Hebron, e ao longo da jornada, Deus renova suas promessas, assegurando-lhes descendência e terra (Gn 15:7; 17:1-8). A história de Abraão nos ensina que o deslocamento não é infinito; chega um momento em que o convocado deve se estabelecer e transformar a sociedade na qual se encontra.
Jesus: O Migrante Encarnado
O maior exemplo de migração e encarnação é Jesus Cristo. Ele se encarnou em um lugar que não lhe era por natureza, mas que lhe era por adoção (Lc 2:1-14). A família de Jesus foi forçada a migrar para o Egito para escapar da perseguição de Herodes, tornando-se refugiados (Mt 2:13-15). Jesus peregrinou na terra de Israel, pregando o Reino de Deus e trazendo mudanças eternas, apesar de ser rejeitado por muitos (Mt 4:17; Jo 1:11).
A encarnação de Jesus é um ato radical de migração, onde o Filho de Deus se torna humano e habita entre os seres humanos (Jo 1:14). Como o Messias, as mudanças que Ele trouxe e pelas quais passou são permanentes: repare que não existe tal coisa como “desencarnação”. Após a ressurreição, Jesus ascendeu ao céu e agora está à direita de Deus Pai (Atos 1:9-11; 2:33; Efésios 1:20; Colossenses 3:1; Hebreus 1:3; 1 Pedro 3:22). Isso indica que, em seu corpo glorificado, Jesus está em um local específico no céu. Muito embora sua natureza divina permita que Ele seja presente em todos os lugares (Mt 28:20; Jo 14:23).
É importante notar (para não assustar o leitor desavisado) que a presença de Jesus não é apenas uma questão de localização física. Ele prometeu estar conosco até o fim dos tempos (Mt 28:20), o que sugere que, apesar de estar fisicamente no céu, Ele continua presente entre os crentes através do Espírito Santo (Jo 14:16-17; 16:7). Essa presença espiritual não é limitada pelo espaço ou pelo tempo, permitindo que Jesus seja simultaneamente em um local específico no céu e operando em todas as partes do mundo através da fé dos crentes.
Isso nos lembra que a resposta ao chamado não apenas produz mudanças drásticas no destino temporário da peregrinação, mas também no que migra para sempre.
A Igreja e o Chamado Migratório
A igreja, como corpo de Cristo, é chamada a seguir esse modelo de migração e estabelecimento. Devemos nos mover com a confiança de que estamos sendo guiados por um propósito maior, e ao nos estabelecermos, devemos buscar transformar positivamente o mundo ao nosso redor. Isso significa encarnar a mensagem do Evangelho em cada contexto local, tornando-nos bênção para as comunidades nas quais estamos inseridos.
No entanto, a igreja frequentemente claudica nesse chamado. Em vez de se estabelecer e transformar, muitas vezes se contenta em apenas estar presente. A radicalidade do “experimento cristão” reside exatamente no âmago desse chamado: ser sem deixar de ser. Devemos ser capazes de nos adaptar e nos estabelecer em novos contextos sem perder nossa identidade em Cristo.
Conclusão
Em conclusão, a ideia de migrar e se estabelecer é um chamado contínuo para os cristãos. Para todos eles. Quando lemos este tipo de coisas, imaginamos que estamos falando de missões no sentido clássico (isto é com William Carey, século XVIII em diante) em que vamos para muito longe para sofrer muito.
Através das histórias de Abraão e Jesus, aprendemos que o deslocamento não é apenas um movimento físico, mas um ato de fé e confiança em Deus. Devemos nos mover com a certeza de que estamos sendo guiados por um propósito maior e, ao nos estabelecermos, buscar transformar positivamente o mundo ao nosso redor. Assim, podemos encarnar a mensagem do Evangelho e ser bênção para as comunidades nas quais estamos inseridos, como Abraão e Jesus fizeram antes de nós.
Não se trata então, para a maioria de nós, de um deslocamento em muitos quilômetros. Mas após ler estas linhas, faça um teste. Vá caminhando até uma rua perto da sua casa que você não conhece ou pela que pouco transita ou passa apenas de carro. Fale com as pessoas. Apenas fale… você vai entender.
Somos uma espécie estranha. Precisamos do perdão para viver, mas não sabemos perdoar nem pedir perdão. Tenho a impressão que não queremos o perdão.
Faz uns anos atrás um colega de serviço traiu a mulher (e os filhos, obvio) Como eu já tinha passado por essa experiência, me aproximei para ver se podia – de alguma forma – ajudá-lo a reverter a situação. Grande foi minha surpresa quando em lugar de ouvir “eu já pedi perdão para minha esposa” ouvi “eu já perdoei minha esposa“. Tentei sem sucesso lhe explicar que era ao contrário. Ele não conseguia entender que quem havia errado era que devia confessar, se arrepender e ser perdoado. Mas não era que ele culpasse a esposa não. Era que ele não entendia mesmo a diferença entre “pedir perdão” e “perdoar alguém“. Na cabeça dele, ele estava fazendo corretíssimo porque ele era quem tinha errado. Óbvio que era um problema de ordem semântico, mas imagina como a mulher não entendia nada do que ele falava.
Na oração modelo, Jesus nos ensina “E perdoa nossas ofensas assim como nós perdoamos aqueles que nos têm ofendido“. Ou seja, há uma relação direta entre nossa capacidade de perdoar e a medida de perdão que temos recebido.
Um livro que minha esposa gosta muito é “Um amor que vale a pena” de Max Lucado. Há vinte anos eu me neguei a ler por pura altaneria, orgulho e ignorância. A tese do livro é simples: você só pode dar aquilo que tem. Então, se nunca você foi amado, nunca vai conseguir amar. Se nunca foi perdoado, nunca vai conseguir perdoar.
A ideia vale no sentido inverso: se alguém não ama, é porque não conhece o amor. Se alguém não perdoa, é porque não tem tido acesso ao perdão.
As características de um novo pacto
A nova aliança em Jeremias 31:27-34 não é um remendo na velha, mas um ponto de ruptura. O ciclo de erros herdados termina. Antes, os filhos arcavam com as falhas dos pais, como se o pecado fosse uma dívida automática. Agora, cada um responderá por si. Deus planta e colhe indivíduos, não mais apenas um povo como bloco monolítico. A fé não se transfere por osmose, nem a justiça se delega. A Liberdade está no centro da questão.
Isso muda tudo. Não há mais desculpa. “Ah, fui criado assim”, “me ensinaram assim”, “meu avô era assim”. Jeremias anula a terceirização da culpa. Cada geração recebe uma folha em branco para escrever sua história com Deus. Cada um decide se será escravo do passado ou agente de uma nova realidade. A aliança agora se inscreve no coração. Se está dentro, não há para onde correr. Ou se assume ou se rejeita.
Na teoria da recapitulação (Irineu de Lyon, que viveu aproximadamente entre 130 d.C. e 202 d.C.), Cristo não apenas morre e ressuscita; Ele refaz a história da humanidade. Ele é o novo Adão que não falha, que obedece onde o primeiro desobedeceu. A nova aliança não joga fora o que veio antes, mas leva ao destino que a primeira não conseguiu alcançar. A lei gravada em pedra ensinou, mas não transformou. Agora ela é impressa no coração. Não se trata mais de decorar preceitos, mas de ser tomado por eles.
Paulo, em Romanos 5:12ss, desenha essa linha do tempo. O primeiro Adão trouxe condenação; o segundo traz restauração. Mas restauração não é automação. O fato de que Cristo pagou o preço não significa que todos os boletos foram automaticamente quitados. A nova aliança coloca o indivíduo diante de sua responsabilidade. Se antes havia um peso herdado, agora há uma decisão intransferível. Não adianta mais jogar a culpa no contexto, na sociedade, nos outros. Ou se nasce de novo ou se permanece na morte.
As consequências na igreja hoje.
Se a igreja de hoje entendesse isso, ela não seria um sistema fechado, mas um organismo vivo. Não existiriam mais cristãos de tabela, aqueles que apenas seguem a onda porque foram criados assim. O erro de muitos hoje é tentar viver um evangelho herdado, como se fosse possível ser genuíno por tradição. Jeremias destrói essa ilusão. A fé tem que ser escolhida, assumida, gravada no peito como um selo que não sai.
Isso também acaba com o moralismo vazio. A nova aliança não gera um povo de aparência santa, mas de santidade real. Não é mais sobre seguir regras externas, mas sobre ser transformado internamente. O problema do legalismo sempre foi tentar produzir frutos sem raiz. Jeremias resolve isso ao colocar a Lei dentro. A mudança acontece de dentro para fora, ou não acontece. Isso significa que a hipocrisia morre. Não dá mais para fingir quando a exigência não está numa placa da igreja, mas cravada no próprio ser.
Outra consequência? A missão se torna inevitável. Quando a aliança estava fora, precisava ser ensinada. Agora, “ninguém ensinará ao seu próximo, dizendo: ‘Conheça o Senhor’, porque todos me conhecerão” (Jr 31:34). Isso não significa que a evangelização acabou, mas que ela se tornou natural. Quem tem a lei dentro testemunha sem precisar fazer esforço forçado (por mais pleonasmo que pareça). A missão deixa de ser um evento para ser um transbordamento. O evangelho não é mais algo que se aprende, mas algo que se vive. Quem está cheio derrama.
Se isso fosse real hoje, não haveria igrejas frias. O evangelho teria a força de uma explosão, porque não seria imposto, mas ardente em cada coração. A fé não dependeria de líderes carismáticos ou estruturas bem organizadas. Não precisaria de “entretenimento gospel” para atrair gente. Quem tem sede não precisa de publicidade para procurar água. A igreja seria irresistível, porque não se sustentaria em marketing, mas em testemunho vivo.
E o perdão? Jeremias 31:34 é categórico: “Perdoarei sua maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados.” Esse é o corte definitivo com o passado. A nova aliança não recicla pecados; ela os elimina. A culpa não é mais uma corrente no pé, arrastada por gerações. O pecado não define mais ninguém. Quem entra na nova aliança recebe uma nova identidade.
Se a igreja vivesse isso, ninguém ficaria preso ao erro de ontem. Não haveria mais a praga do rancor, das acusações, da cultura do cancelamento. O evangelho não seria uma religião de gente que se olha torto, mas de um povo que sabe o que significa ser perdoado e, por isso, perdoa.
No fim, Jeremias nos entrega uma bomba: a fé não é mais um contrato, é uma regeneração. Deus não quer um povo domesticado, mas um povo que vive a partir de uma nova natureza. E isso muda tudo. Não é mais sobre seguir Deus. É sobre ser de Deus.
Então, talvez, a derradeira pergunta (a “preocupação última” no estilo Paul Tillich) seria não se é possível ser perdoado, é se você está disposto a cortar com seu passado.