
Salmos 44.23; Marcos 4.38
A fé institucional não sabe lidar com essa pergunta. Ela precisa manter Deus sempre presente, funcional, disponível — quase como um item do estatuto. Por isso, perguntas desse tipo soam perigosas. Subversivas. Já a fé existencial — a que vive no fio da navalha — não tem esse pudor. Ela pergunta porque precisa respirar. Cadê Deus no meio da tempestade? Esqueceu-se de mim? Esqueceu-se do seu povo? Do pacto?
O vale — ou o deserto — não é um acidente na formação cristã. É o caminho. É ali que a imagem de Cristo começa a tomar forma em nós, não como ideia, mas como carne. Sem deserto não existe João Batista. Sem deserto não há Jesus com ministério. Não há atalho espiritual aqui. Se não foi diferente com eles, não será conosco.
O deserto não oferece garantias. Não tem chão conhecido, não tem reservas, não tem atalhos e, muitas vezes, não tem Deus à mão. Pelo menos não o Deus funcional que aprendemos a acionar. A tempestade é parente próxima do deserto. E é nesse contexto que o grito emerge, cru, quase irreverente: “Não se te dá que morramos!?” Ou ainda: “Não te importa a nossa vida?” Ou, sem rodeios piedosos: “Valemos tão pouco assim?”
A Bíblia não foge dessas perguntas. Ela as preserva. Os salmos estão cheios delas. O evangelho não as censura. O problema nunca foi a pergunta — foi a nossa tentativa de domesticá-la.
Pensemos em Portugal. Semana passada, ventos de até 208 km/h castigaram o país. Muito antes disso, em 1755, Lisboa foi devastada por um terremoto que durou cerca de dez minutos. Dez minutos bastaram para desmontar uma cidade inteira, sem aviso prévio, sem liturgia de preparação. No século XVI, o território foi atingido por ao menos três grandes epidemias, entre elas a peste negra. Onde estava Deus nesses momentos? A pergunta não é moderna. É humana.
O Salmo 13 não tenta resolvê-la. Apenas a sustenta: “Até quando, ó Senhor? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto?” Essa é fé que respira. Fé que não foi anestesiada.
No fim, só há uma fé que vale a pena ser vivida: a que atravessa o desastre sem precisar fingir que ele não existe. Todo o resto é performance domingueira — bem ensaiada, bem iluminada, e completamente inútil quando o mar começa a entrar no barco.