Reconciliação sem apagar pessoas

Para a vergonha ominosa de mais de um cristão, novembro vem nos lembrar de uma obviedade que a fé – não poucas vezes – esquece: Deus não faz acepção de pessoas. Não há hierarquia de pele, passaporte, sotaque, classe ou bagagem de vida diante do Criador. Sem ânimo de ser simplistas mas usando o simplismo para agravar a análise: Há pecadores e há graça. Há muro e há cruz.
E, em Cristo e apenas em Cristo, o próprio Criador “de ambos os povos fez um” (Ef. 2:14-16). Discrepar disso não o coloca na lista de meus inimigos, mas o coloca em rota de colisão direta com o que o próprio Senhor está querendo desde o inicio. (Leitores literais da Bíblia vão achar um pouco chocante essa colocação. Já quem tem maior flexibilidade e pode fazer leituras alegóricas com sua maior amplitude e lançando mão de mais fontes entenderá isso claramente)
O Dia da consciência Negra – a ser celebrado o doa 20/Novembro – coloca uma lupa em um problema que gostamos de fazer de conta que não existe: nos molesta o diferente. Com isso não me refiro a que não gostamos de algumas ideias de certa pessoa,mas mesmo assim conseguimos compartilhar a mesa ou um jogo de futebol ou um café ocasionalmente. Me refiro àquela reação espontânea (depois veremos essa palavra) veemente que é contra não já das ideias, mas também da própria pessoa. O campo do debate das ideias, é um terreno de batalha honorável. Já o desprezo do outro – do distinto – pelo fato de ter uma aparência distinta à minha, é uma coisa baixa, abjecta e que só põe de manifesto uma coisa: a falta de conhecimento do outro e o medo como fio condutor das ações. Essas duas coisas andam juntas.
A reação não é espontânea, porque é educada vagarosa ou intempestivamente. O ser humano, assim como um gato reconhece outro gato mesmo com pelagem diferente, precisa ser educado para achar que “a pelagem ” do outro ser humano tem alguma coisa a ver com carater ou similares.
Mas partir do dia da consciência negra e chegar em coisas tão diversas como “o diferente”, não é – por acaso – expandir o conceito a locais que – originalmente – não eram os almejados? Óbvio que sim! E exatamente disso que se trata. Se o dia da consciência negra servisse apenas para focar na situação dos seres humanos negros em solo brasileiro seria apenas uma heteronomia por outra quando aonde quero chegar é analisar a teonomia como solução. Já falarei dessas palavras. Baste agora dizer que nos tornarmos conscientes da situação negra em solo brasileiro em S XXI nos deve – como cristãos reais e não nominais – a levantar a voz sobre outras coisas sem por um segundo sequer diluir o assunto original.
Há quem pense que o Dia da consciência negra é uma pauta política empurrada para a igreja. E não há falta de razão nisso. Nós – detentores supostos da verdade revelada – deveríamos ter sido os primeiros a levantar essa bandeira. Então, a engolir o orgulho e fazer o que nos é devido. Se tornar consciente da situação negra brasileira no S XXI, faz parte do chamado bíblico à reconciliação que não dilui convicções nem compra um universalismo barato. É discipulado com nome e CPF.
Ou dito de outra forma, não porque nossa teologia cristã tem uma dívida imensa com o continente africano, os problemas atuais estão solucionados. Ou mais simples: é uma agenda para cada geração de cristãos.
1) Comecemos por onde Deus começa: dignidade
A Escritura (cabe dizer que é bem anterior a qualquer empreendimento político em prol de ter um dia da consciência negra) define o valor humano antes de qualquer rótulo: imagem e semelhança de Deus (Gn. 1:26-28) Isso – para qualquer cristão mesmo até para aqueles que diluem a autoridade bíblica com tradições e palavras de autoridade, ou aqueles que nem sequer conhecem a Palavra – basta para encerrar a conversa sobre “gente de primeira” e “gente de segunda”.
O racismo, explicito ou educado, manifesto ou regressado, é pecado porque fere o Autor do próprio ser humano. Ponto. Claro, uma leitura literal da escritura levantará mais problemas do que soluções. Mas Gênesis não se presta para leituras literais (em especial em seus primeiros capítulos) por serem poesia.
Esclarecimentos bibliologicos necessários à parte, o fato é de que qualquer forma de racismo, é – na sua forma mais brutal e básica – pecado e pecado afasta a criatura do criador.
Como eu já pude observar em primeira mão racismo entre brancos, me sinto especialmente preparado para atacar um problema tão sujo, baixo e nefasto como o racismo seja este pessoal, institucional, estrutural, veemente, escondido mas desde óptica diversa da que se vê usualmente.
Se observamos a Bíblia – e insisto, mesmo que seja um cristão velinha apagada ela continua sendo sua regra de fé e prática – Paulo tinha um problema similar na região da Galácia. Veja Gl. 3:28: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre… pois todos são um em Cristo Jesus. Agora bem, o que se nos escapa dos dedos quando vemos esta passagem tem a ver com um anacronismo descomunal. O próprio império Romano, sob o qual estava a região da Galácia, tinha resolvido já essas diferenças ao – legalmente e de forma prática – absorver muitas raças, cores de pele, linguagens, leis, religiões, etc… Isso coloca de realce o paradoxo sob o qual viviam os gálatas: Eu sou judeu e não me junto com os gentios. Eu sou livre, não posso me juntar com um escravo. etc…
A unidade procurada – onde não há distinção por ser homem ou mulher ou ser escravo ou livre, etc – não é uma coisa que aconteça de forma automática. Aliás, nada na vida cristã o é. Nós que queremos que seja.
A única coisa de graça é a salvação e isso porque o custo é tão alto que só poderia ser por graça para igualar-nos a todos. Tudo o restante na vida cristã, tem um custo e a reconciliação com o diferente não é exceção.
Não é apenas “vamos nos gostar” Na realidade se trata de investir energia, força, intelecto (me faz pensar em “com todo teu coração, com toda tua alma com toda tua força”) em entender o outro e – lá vem treta – conseguir chegar a gostar do outro porque assim mó propus.
Já que estamos nisso, o casamento é igual.
2) Cristo derruba muros, não pessoas.
Corria o ano 33 mais ou menos e o império Romano ia de vento em popa. A absorção de pessoas diferentes por parte da antiga república tinha feito do agora império, uma fortaleça. Mas, isso não era assim no interior do ser humano. Em especial daqueles que criam. Se achavam a última bolacha do pacote, como costumamos dizer. No inicio desse ano, morria o que alguns chamamos de “meu Senhor e salvador” inaugurando uma nova era em que a graça iria reinar em paralelo com a morte, a lei e o pecado (Ref Rom. 5:12ss) e aqueles que entram nessa nova era iriam usufruir de uma nova mentalidade (Ref Rom 12) e muitas coisas mais que não cabem elencar aqui.
Muitíssimos anos depois, e seguindo uma teologia perversa que deshumaniza o ser humano e rejeita veementemente a estrutura proposta por Efésios e Gálatas colocando essa luta entre o antigo e o novo no coração do ser humano como se de um ser esquizofrênico se trata-se.
Efésios 2 é cristalino: Jesus é nossa paz e, na sua carne, desfez a inimizade e edificou uma nova humanidade (Ef.2:143-16). Essa paz, tem endereço: a comunidade local. Nisso tenho duas colocações: Não lhe chama a atenção o número crescente de pessoas que despreza a comunidade local? e segundo, não lhe atrai o pensamento ver como aparentemente as coisas funcionam “melhor” do lado de fora da comunidade? Não vou tocar nisso agora. Baste apenas dizer que o engano de Satanás, é maior, mais perverso, mais profundo e mais visceral do que qualquer um pode imaginar.
Voltando a Efésios. Não é um “Paz e Amor” que pedala em cima da verdade, nem um ecumenismo onde tudo vale e as identidades (conquistadas com tantas lutas) se diluem em prol de um bem maior que é menor da proposta do próprio Cristo.
A unidade bíblica tem centro – Cristo Senhor – e tem forma – arrependimento, fé, e mesa compartilhada. A diversidade de histórias permanece, o muro de hostilidade cai. E onde é que você quer estar? Dentro da nova comunidade fundada por Cristo ou fora dela? Sei… muitos vão dizer: fora dela.
3) O engano da “indiferença cromática”
Tem uma piada infame de um exercito brasileiro com problemas profundos de racismo. Tão grande era a desavença que chegou ao estado maior que mando um dos seus mais condecorados generais tratar do assunto.
Chegando às 0500 os fez formar e começou a lhes falar que eles não eram nem brancos, nem negros. Eram verdes. Todos se enxergam com vergonha e partiram para o abraço depois de mais de duas horas sendo arengados.
A piada finaliza, com o general explicando que – para que eles vejam que se tratava de uma coisa seria – ele tinha providenciado mesas para o recadastramento dos verdes. E que para facilitar o recadastramento, os verde claro iam se cadastrar no escritório da esquerda, e os verde escuro no outro.
“Eu nem vejo cor” soa até civilizado. Como dizem “eu até tenho um amigo negro”… como se fosse um pequeno animal de estimação para desmontar qualquer argumento. “Eu nem vejo cor” soa até civilizado, mas apaga histórias. E é aí que a visão bíblica se torna elevada, imprevisível, grandiosa: A Bíblia não faz de conta que as diferenças não existem: as redime. O mesmo se aplica a “não há mais homem nem mulher” a visão continua sendo a mesma de sempre: há identidades diferentes (que foram RECEBIDAS) que precisam ser valorizadas, não apagadas.
A visão do Cordeiro é de “toda tribo, língua, povo e nação” diante do trono (Ap.7:9) não tem nada de monocromática, mas muito de harmonia. A igreja (e o mundo por ser o local onde a igreja se manifesta) não precisa de paleta única, precisa de amor que enxerga e honra. Então pare de exigir que o outro se torne igual a mim para pertencer. Primeiro vem o pertencimento, depois a transformação con-jun-ta
4) Dando nome aos pecados
Racismo (não apenas contra o negro, mas também contra o indígena, o eslavo, etc) não só é um palavrão explicito (ou blasfémia, como preferir); Vive em piadas, silêncios, portas semiabertas, conselhos homogêneos (veja por exemplo os vereadores da sua cidade), currículos viciados e teologia que ignoram feridas históricas abertas.
Confissão bíblica não terceiriza culpa: eu confesso o meu, nós confessamos o nosso
Amos (meu herói particular neste nefasto ano que fez aniversário final de semana passado) diz assim: “Corra o juízo como as águas, e a justiça como um ribeiro perene” (Amós 5:24)
Água correndo, poderíamos pensar em eventos sazonais. E isso, em ambientes de seca, é melhor do que nada. Todavia, “perene” me faz lembrar do rio com fundo de pedras que corre constantemente. É ritmo. Então, você se engana se isto é como uma daquelas campanhas de conscientização que nada mais produz do que alguma culpa circunstancial ou um pouco de indignação.
Justiça bíblica pede: a) processos, b) orçamentos, c) hábitos e d) revisão regular dos processos (às vezes achamos que está tudo bem revivendo mamutes ou mantendo estruturas que não mais comunicam desviando – com isso – recursos importantíssimos do que realmente interessa: a redenção da humanidade)
Quem tenha ouvido pelo menos três pregações minhas sabe o quanto eu desprezo a fórmula inócua do encerramento de certas orações “com o perdão dos nossos pecados, amém”. Perdeu vigor teológico. Perdeu vivência. Perdeu sabor. Virou uma repetição sem sentido que apenas mitiga por alguns segundos (se é que dura isso tudo) a culpa que o pecado traz e que tanto esforço a raça humana faz por esquecer.
Sem uma etiqueta apropriada, sem uma contrição pensada, sem um tempo de elaboração, são palavras vazias que até o vento tem preguiça de levar e amontoar em algum lugar porque sua falta de peso e essência as torna piores que folhas secas.
Se necessita então uma analise histórica e cultural do local onde a comunidade está inserida. De nada. me servem as reflexões feitas ao redor do Xingu dos Palmares se isso não comunica nada com dona Tereza, negra de mais de oitenta anos que tem muita história para contar ainda e parece que nós estamos fazendo papel de surdos voluntarios (e voluntariosos) para não coloca-la no centro da cena e revisar a postura histórica que temos tido. Com isso não estou dizendo que eu ou você especificamente – quanto pessoa de ordem física – seja ou sejamos culpados especificamente de alguma coidsa com a suposta dona Tereza. Todavia, sim nos parecemos como aqueles que tamparam os ouvidos e apedrejaram o primeiro martir da fé cristã: Estêvão.
Por aí, ficamos sabendo que a mesma instituição que a deveria ter defendido as Terezas das naus negreiras são similares quando não a mesma que facilitou a fuga de autoridades Nazis ao passo que entregava os que lutavam pelo socialismo (corrente esta que não defendo. Sou cristão.)
Sem historia, não há nome, sem nome, não há confissão, sem confissão não há perdão e sem perdão não há liberdade e sem liberdade (sempre seguindo a Bíblia, não há nem justiça nem paz. Ref Rom 5)
5) Sem universalismo barato nem hiper-ecumenismo
O universalismo (aquela linha teológica que indica que Jesus salvou todas e cada uma das pessoas na sua morte na cruz) despe o corpo doutrinario cristão acumulado (e defendido em intensas lutas intestinais) durante séculos e o expõe como coisa desprezível, rasa e sem significado. Existem – ao meu ver – dois grandes grupos dos participantes do universalismo: aqueles que – na sua leitura da Bíblia, de forma honesta e numa tentativa imparcial, enxergam no inferno e sua existência uma contradição com um Deus amoroso. Estão nesse mesmo grupo, os que, por falta de peso histórico, ou de tradição – se assim gostar – avançam em Romanos 5 para além dos seus limites e acabam colocando a cerca do outro lado do precipicio onde mais nada tem de útil.
O segundo grupo, são os bem intencionados e desprovidos de qualquer intensidade na fé ou interesse pelas escrituras, ou sequer algoma forma simples de curiosidade pela verdade (que por mais complexa que seja não deixa de ser verdade mesmo não a entendendo) acabam cultivando essas pedras parecidas com semi-preciosas que só tem um único brilho e acaba confundindo quem – de fato – se intreressa pela vida e – por consequência – sua preocupação última. E não se trata aqui de “salvação da alma” como se o restante não fosse importante. Se trata de que o universalismo nada mais é do que uma fuga da realidade soteriologica (isto é, coisas referentes à salvação)
No universalismo, não apenas a conduta deixam de ser importantes, como também a crença se torna supérflua. Ou como dizia meu amigo: à toa que nem buzina em avião (sim, eu sei que os aviões tem buzina, mas fiquei sabendo 40 anos depois dele insistir nisso… então tá valendo)
Ou seja, a existência humana é apenas um grande funil em que tudo vai se juntar no final sem importar absolutamente nada.
O companheiro quase que natural do universalismo é o hiper-ecumenismo. Não falo do caminho comum (isso que significa ecumenismo) que temos entre Batistas, Presbiterianos, Metodistas, Certas formas de Catolicismo, etc…. Mas aquele que apregoa que – já que tudo vai dar na mesma – não interessa o que você creia contanto o sinta e seja intenso nisso. Ou seja, nada mais parecido ao movimento hippie do final dos anos 1960.
Um é mestre do outro. Um depende do outro. Um arrasta o outro. Não interessa qual dos dois aparecer primeiro, na realidade, o outro vai aparecer junto. Essa simbiose esotérica, apenas afunda mais a pessoa em um sem sentido… Só que agora, é maior, mais abranjente, e com linhas cada vez mais difusas.
Se seu filho não acredita em Cristo, a eternidade dele é longe do Cristo. Simples. Mas é dessa simplicidade que precisamos para acordarmos à realidade espiritual que vivemos em que há regiões espirituais inteiras ocupadas em incentivar o hiper-ecumenismo e o universalismo.
Está tudo perdido no ecumenismo ou no universalismo? É todo ruim? Não, até do Diabo é possível tecer elogios importantes e que poderiam ser modelos para a vida cristã. Quer exemplos? A tenacidade, e a persistência com que ele se dedica a ofuscar o caminho da verdade.
A estas alturas do campeonato, você deve se estar perguntando o que tem a ver A com B. Não era do dia da consciência negra que estavamos falando?. Sim, era e continua sendo, mas sem essa introdução certas coisas que irei propor podem soar a universalismo ou hiper-ecumenismo.
Então 1) sejamos claros: nem todo caminho leva a Deus. Apenas Jesus o Cristo encarnado, morto e resurreto. Justamente por causa disso, o evangelho não está – de forma alguma – limitado aos de determinada cor ou determinada região, ou a certo sotaque ou origem, ou cicatriz. Fé, alinhada ao Criador, não vibra com rótulos; vibra com arrependidos. Graça é inclusiva; discipulado é exigente. E é muito interessante a multidão de supostos cristãos que gostariam que fosse ao contrario. 2) Exercicio de conscientização podem ser realizados com comunidades afro. Não é obrigatório, mas na honestidade histórica, isso se torna necessário. Eu acho que, para este ponto você está plenamente apto para entender a razão de por que refutar tanto o universalismo como o hiper-ecumenismo.
O pecado, tem suas emanações atingindo a sociedade como um todo. Não fica limitado apenas ao próprio corpo ou às próprias ideias. E vestir-nos de humildade necessária para participar de um evento de imersão nas mais diversas situações de ordem racista-histórico-cultural requer não apenas coragem, requer conhecimento. De outra forma é apenas um ato social que nada contribui para a compreensão do outro que – não por um acaso – compartilha sua mesmma base de cidadania. (Volte no lance do Zumbi dos Palmares que falei antes)
Um ato de imersão desses, não é um evento evangelistico. É um ato de amor para com o outro… para como diferente… o que precisamos compreender antes de sequer pensar em chegar a certas conclusões (já ouvi que se os ancestrais foram escravos era porque mereciam)
Então, sintetizando este ponto que – óbviamente – requereria um artigo à parte que não vou escrever – podemos dizer que O Evangelho acolhe e transforma. Nessa ordem estrita.
Toda e qualquer coisa que você fizer para inverter essa ordem, é pecado. Toda e qualquer coisa que você – podendo – deixar de fazer para entender seu vizinho diferente, é um pecado de omisão.
Então, o que você vai fazer com isso tudo?
P.S. E o tal da teonomia…? Ah sim, esses são três termos interessantissimos um usado usados e outros dois cunhados pelo teólogo e filósofo Paul Tillich. Na autonomia (lei própria), você é dono de sim, responde à sua própria lei interna (bastante parecido com o anarquismo quanto corrente filosófica ideal) e se todos são autônomos, idealmente, não há necessidade de que outro te governe. Mas aí que está, sempre há o outro que governa, esse é o heteronomo (regras ou leis do outro). O diferente, distinto, que governa o ser que não mais pode ser autônomo. O que Tillich (Filho de pastor ortodoxo, formado como teologo liberal, desencantado da inutilidade da teologia liberal para o ser humano e um dos fundadores da neo-ortodoxia) observou é que na história há uma inversão de valores: Quem em algum momento era um ser governado por outro, quando teve oportunidade de lutar e se desvencilhar do jugo, se tornou no heteronomo para o outro. Com isso, o oprimido passou a ser opressor e o ciclo se repete. Para ele a solução passa não pela ilusão da teocracia (como no Irã, por exemplo, ou no Vaticano) mas pela teonomia (norma do theos), em que cada ser individual, se sujeita não já ao heteronomo mas sim ao Criador. Se eu for sintetizar o artigo numa frase: não estariamos nesta situação se cada um de nós tivesse colocado Deus como seu Senhor e não apenas como galo de briga em rinhas de quarta categoria.