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Qual é a importância da Escola Bíblica?

A pergunta pode parecer vazia ou inútil. Em especial para quem já valoriza a escola bíblica ou para quem já descartou de todo o seu valor. Ou seja, os extremos.

Todavia, acredito que há uma gritante maioria de pessoas que — se pudessem exprimir suas dúvidas — perguntariam qual a utilidade ou importância da escola bíblica. Em especial são pessoas que não se contentam com a rotina ou que procuram na escola bíblica uma utilidade para além da repetição de assuntos em um ambiente seguro. Afinal, a Escritura nunca associa ensino à mera repetição, mas à transformação do entendimento e da prática (Rm 12.2).

A escola bíblica (dominical) surge no final do século XVIII, mais precisamente por volta de 1780, na Inglaterra, como uma resposta prática a um problema concreto: crianças e jovens sem acesso à educação básica, imersos em jornadas de trabalho exaustivas e sem qualquer formação moral ou intelectual. Antes de ser um “programa da igreja”, ela foi um gesto missionário, pedagógico e social — algo bastante coerente com a tradição bíblica, onde o ensino do povo sempre esteve ligado à vida concreta (Dt 6.6–9; Ne 8.1–8). Seu DNA não é entretenimento nem repetição mecânica de conteúdos, mas formação, letramento bíblico e construção de consciência cristã no mundo real. Quando a escola bíblica perde isso, ela não envelhece — ela se descaracteriza.

O que se vê em quase todas as versões da escola bíblica é uma visão apenas endocentrada, isto é, voltada quase exclusivamente para o mundo interno da igreja local. Fala-se muito de eternidade, santidade e salvação individual — temas legítimos — mas com pouco ou nenhum espaço para a missão divina de redimir a criação como um todo, missão esta claramente afirmada nas Escrituras (Gn 12.3; Sl 24.1; Rm 8.19–22).

Observar o mundo apenas pelo filtro do noticiário sensacionalista não comunica outra coisa senão um misto de impotência e indignação. Isso acontece porque o problema nos parece — como de fato é — maior que nossa capacidade individual de intervenção. A Bíblia, porém, não ignora essa tensão: reconhece que “o mundo jaz no maligno” (1Jo 5.19), mas também insiste que a luz não se retira diante das trevas — ela as confronta (Jo 1.5; Mt 5.14–16).

A escola bíblica, após sua apropriação indevida do âmbito missionário para o puramente doutrinário, precisa recuperar sua vocação original: não apenas conscientizar sobre a condição caída do mundo — algo que a imprensa já faz com eficiência — mas capacitar a igreja a discernir, planejar e agir em situações reais de perigo, desamparo e injustiça que estejam ao alcance da comunidade local. Isso é profundamente bíblico: fé que não se traduz em ação concreta é considerada morta (Tg 2.14–17), e a igreja primitiva entendia ensino, comunhão e cuidado como uma única realidade (At 2.42–47).

A pura repetição de fórmulas que funcionaram nos séculos XVI e XVII não faz mais do que alienar a igreja da realidade em que vive, afastando-a daquilo que a Escritura chama de missão de Deus: a restauração da criação. Como lembra N. T. Wright, trata-se de uma nova criação ex vetere, e não ex nihilo — uma recriação que parte do mundo já existente (2Co 5.17; Ap 21.1–5). A participação da igreja nessa reconstrução — social, cultural, ética, ambiental — não é um apêndice do evangelho, mas parte de sua própria lógica. Quando isso se perde, a escola bíblica deixa de ser formadora de discípulos e passa a ser apenas uma sofisticada forma de escapismo religioso.

Enquanto um seminário forma pastores e professores, a escola bíblica forma garis, psicólogos, mecânicos, enfermeiros, padeiros, advogados … para serem ministros do reino no escopo do reino. Ou seja, este mundo no qual vivemos e não na bolha eclesiástica. Por isso que ela merece ser dinâmica e não estática.

É nela que o método de correlação (invenção de Paul Tillich) acha talvez sua expressão mais condensada já que as perguntas últimas que a sociedade faz, a Bíblia responde à satisfação. Mas sem o treino adequado, é como címbalo que retine.

Como tu lês?

Que presente dar para uma congregação?

Não é todo dia que um grupo de pessoas faz aniversário.

Unidos por uma mesma visão, uma congregação vai se desenvolvendo e os anos vão se acumulando. Assim como na vida pessoal, é de se esperar que essa experiência traga sabedoria e essa sabedoria traga um peso de identidade local para a congregação.

Num tempo de universalidade eletrônica; de uma pretensa sabedoria coletiva manifestada pelas redes sociais, uma igreja local identificada com seu bairro e sua cidade tem fartos motivos para se sentir orgulhosa do caminho andado. Então recebam meu afago: o interesse pela congregação e pelo bairro em que estão são marcas elogiáveis em uma igreja local.

Mas, sendo pregador, preciso intentar elaborar uma reflexão que não apenas afague a congregação, mas que a alavanque para os desafios que ainda lhe esperam. Tem que ser alguma coisa que, lançando mão do mais sagrado de uma congregação batista (isto é, seu conhecimento da Bíblia) também lhe sirva de ponto de apoio para os desafios da sociedade atual.

Não pode ser apenas uma repetição de velhos conceitos ou de registros históricos. Não porque eles sejam inválidos, mas pelo fato de que – por serem muito conhecidos – não mais se pensam como soluções possíveis para a realidade em que vivemos.

Termos como redenção, justificação, santificação com sua precisão e seu conteúdo são deixados de lado não por errôneos, mas porque os possíveis ouvintes desta sociedade não mais almejam por respostas aos problemas que eles atendem. Isso por estarem tão ocupados nos entretenimentos de coisas periféricas da vida.

Na mesma linha, parece-me inútil tentar falar da herança batista e seus princípios. Por exemplo, entendo que arriscaria perder meus ouvintes falando sobre como lutamos na Inglaterra pela liberdade pessoal; ou a centralidade da Bíblia; ou a liberdade de consciência; ou a universalidade do sacerdócio de todo crente; ou a falta de distinção entre ato administrativo e culto; ou a autonomia de cada congregação ou a separação de igreja e estado. Novamente, não porque esses assuntos não sejam importantes ou relevantes, mas porque soam como antigos, ou ultrapassados, ou desnecessários.

Também não é o caso de discorrer sobre a necessidade e a inutilidade da escola bíblica. Inutilidade porque ela passa apenas conhecimento e não é um substituto válido do discipulado. E necessidade porque o conhecimento que ela traz é tremendamente necessário no discipulado. Isto é, no andar diário dos discípulos de Jesus na terceira batista de Prudente.

Então qual caminho escolher? Como preparar uma pregação para uma congregação madura que segue adiante, que se cuida, que tem identidade com seu Senhor e com seu bairro? Que devo dizer para um grupo de pessoas que atenta para uma busca pelo seu Senhor?

Olhemos para Lucas 10 26

Perguntou-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como lês tu?

Focaremos apenas nessa pequena frase: “Como lês tu?“. Essas três palavras podem fazer uma diferença na sua vida nesta noite. E por isso é que demando sua atenção apenas nela por alguns minutos.

No centro da frase encontramos o verbo ler. Trata-se a ação de decifrar o conteúdo de algo escrito por saber reunir as letras e os sinais gráficos. Hoje, quase qualquer pessoa sabe ler. Mas nem sempre foi assim.

Se olhamos para o tempo de Shakespeare que viveu entre 1554 e 1616, vemos que o número de pessoas que conseguia ler era de 1 para 3 nos homens e talvez de 1 para 10 nas mulheres.

Se olhamos a situação do Brasil alguns anos depois – em 1759, quando os padres jesuítas (que entre suas atribuições tiveram a de fundar colégios e promover a educação) foram expulsos do país – apenas 1 em cada 1000 pessoas sabia ler. É para 1890 que o Brasil começa a mudar o método e se preocupa com ensinar a escrever como tal. Ou seja, não apenas com a caligrafia, mas com a coisa escrita. Devemos lembrar que Dom Casmurro, por exemplo, foi escrito em 1899. Isso nos dá uma noção dessa brecha cultural entre a situação inglesa de 1600 e a do Brasil de 1900.

Então repare que, quando falamos em ler, não falamos em entender. Falamos apenas de conseguir reunir com algum sentido os símbolos de uma forma tal que a pessoa pudesse minimamente receber comunicação. Já escrever, como para produzir a mesma, não era tão almejado assim.

Se olhamos para a situação do Brasil hoje, 66% dos alunos terminam o 9º ano sem aprender o mínimo necessárioda lingua portuguesa, segundo algumas pesquisas. Esse problema se estende até o ensino superior, onde estimativas indicam que 50% dos estudantes são analfabetos funcionais. Isso de por si já é um escândalo.

A escola bíblica

Cabe então aqui o lembrete de que a escola bíblica inicia-se na Inglaterra justamente com o propósito de capacitar as pessoas com a grandiosa ferramenta da leitura e sua irmã: a escrita. A origem e propósito original da escola bíblica não é “ESPIRITUAL” e sim “SOCIAL” para surpresa de muitos.

Mas vale dizer que não há forma de separarmos o “ESPIRITUAL” do “SOCIAL”. Perceba como a população que menos tem acesso à leitura – e por conseguinte – ao conhecimento formal, é a mais fácil de manipular. E a manipulação é a antítese do amor. E, sendo Deus amor, logo se segue que Ele não quer deixar sua criação no escuro. De aí que concluímos que aqueles que querem deixar a população sem conhecimento são sim uma manifestação social de uma influência espiritual prejudicial e contrária aos propósitos divinos.

Trazendo, então, para a atualizade essa origem tão prática da escola bíblica, seria então necessário estender-nos a outras necessidades sociais da nossa época para ajudar a sociedade em que vivemos.

Primeiro século

Mas, voltemos ao assunto da leitura. Como era no primeiro século? Como era no tempo em que essa frase esteve nos lábios do nosso Senhor e o seu interlocutor a ouviu? Como o verbo “ler” foi ouvido? E, por quem? Se a capacidade de ler era tão absurdamente baixa 1600 anos depois de Jesus, não é de se pensar que fosse menor no tempo de Jesus?

Acontece que Jesus era judeu e estava falando para outro judeu. Em média, alguns estimam que pelo menos a metade da população judia sabia ler e escrever. Há os que projetam os números da comunidade rural de início do século XX para dizer que talvez apenas 3% da população era alfabetizada. Mas isso se contradiz com registros do ano 64 dC em que havia um professor para cada 25 crianças. Na realidade, o povo judeu levava a sério a alfabetização. Então podemos concordar com os historiadores mais conservadores e afirmar que ao menos 50% da população (sem fazer distinção entre homes e mulheres) era alfabetizada. O próprio Jesus (filho de um carpinteiro/construtor) era alfabetizado. O encontramos lendo a Torá e escrevendo no chão.

Compreendes o que estás lendo?

Então esse “Como lês tu?” não pode ser interpretado como “Ao final de contas, como é possível que você leia?” já que quem falava com Jesus não era uma pessoa comum, mas um mestre da Lei. Devemos interpretar esta frase como sendo: “Como interpretas o que lês?” Ou seja, “Qual é o significado que você dá àquilo que você mesmo lê?“. De fato, é assim que a temos na maior parte das traduções (Almeida Revista e Atualizada; King James Atualizada; e outras)

Em todo o novo testamento, apenas Lucas usa esse verbo (ἀναγινώσκεις anaginōskeis) Em atos 8 30 Lucas nos mostra Felipe correndo ao encontro do oficial de Candace e perguntando: você entende o que está lendo?

Então Filipe correu para a carruagem, ouviu o homem lendo o profeta Isaías e lhe perguntou: “Compreendes o que estás lendo? Atos 8 30

Aqui no evangelho, vemos esse verbo sendo usado por Jesus com carga similar: “Em que forma você entende o que está lendo?

Não temos tempo para alongarmos no contexto. Baste apenas refrescar nossa memória dizendo que este advogado ou erudito da Lei quis pregar uma peça em Jesus

Certa vez, um advogado da Lei levantou-se com o propósito de submeter Jesus à prova e lhe indagou: “Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?

Ao que Jesus lhe propôs: “O que está escrito na Lei? Como tu a interpretas?

E ele replicou: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e com toda a tua capacidade intelectual’ e ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’”.

Então, Jesus lhe afirmou: “Respondeste corretamente; faze isto e viverás”.

Ele, no entanto, insistindo em justificar-se, questionou a Jesus: “Mas, quem é o meu próximo?

É esse diálogo o que dá pé para a parábola do Bom Samaritano que mesmo sendo muito conhecida, seria bom darmos outra olhada sobre “quem é nosso próximo” já que o próximo – na parábola – não é o que está caído e sim o que ajuda, que, por sinal, é samaritano. O modelo a ser seguido é o de um ser desprezível para este mestre da Lei.

O que fazer com o modelo?

Mas voltando ao “Como lês tu?” o que nosso Senhor está fazendo é – em primeiro lugar – colocando a responsabilidade da interpretação nos ombros do seu interlocutor. Ninguém mais do que a própria pessoa é capaz de nos dizer como ela está interpretando a sua leitura.

A diferença entre o como e o quê

É no como e não no quê que reside o problema.

Por exemplo, alguém poderia ler “Minha Luta” de Adolf Hitler e nunca na vida coincidir com ele em que a raiz de todos os males da humanidade seriam os judeus. O quê – isto é, a coisa lida – nunca é o problema e sim o como.

Um exemplo igual e contrário pode ser visto nesta passagem: o quê esta pessoa estava lendo era a escritura, só não ficava claro o como. O quê (que neste caso é, o equivalente do nosso antigo testamento) não era o problema, e sim o como a pessoa estava lendo.

A partir disso é que se pode analisar qual atitude ele teria para consigo mesmo e com seu próximo. Dois seres que – segundo o nosso mestre – não são tão distantes assim, ao final das contas, somos apenas uma única raça: a humana.

Como ensinamos?

Em segundo lugar, a atitude de Jesus nos deveria levar a mudar nosso jeito de ensinar ou partilhar o que sabemos sobre a escritura. Se bem há momentos como estes em que uma pessoa fala e os outros ouvem, também devemos ter momentos em que qualquer um pode dizer o que realmente pensa sobre o que está sendo ensinado. Ao final das contas, e sem querer ser chato com a identidade batista, a liberdade de consciência é um princípio muito caro para nós. É a partir dessa liberdade que pode ser construída a necessidade da liberdade de expressão que acha seu limite no direito alheio de fazer exatamente a mesma coisa. E é no cerne da liberdade de expressão que o “como lês tu?” encontra sua mais profunda aplicação. Não no conceito de dizer qualquer coisa, mas no contexto da aceitação do outro como diferente, mas não tão distinto.

O rencontro com nossa identidade batista.

Então, de forma quase silenciosa, acabamos desembarcando na identidade batista e sua razão. O Como você lê, acaba sendo a mola propulsora das liberdades pessoais e de consciência tão seriamente ameaçadas nos últimos anos no nosso continente. Também é ela o despojo na guerra espiritual que vem sendo travada já que o iluminismo não é nossa luz, mas sim a luz de Cristo e é em Jesus – o Cristo – que encontramos este maravilhoso exemplo de aceitação do diferente. A livre interpretação da realidade em que vivemos não é um fruto dos movimentos humanistas, mas sim o ponto de apoio em que o próprio Jesus aplicava sua maior força: fazer o outro pensar.

É no “Como você lê?” que redescobrimos o princípio da centralidade da bíblia que tão caro nos é como membros de uma comunidade batista, já que é a leitura da Bíblia e sua interpretação comunitária (em contraposição à interpretação padronizada, hierárquica e imposta) que nossos antepassados acharam razão suficiente para lutar até a morte se fosse necessário.

É no “Como você lê?” que se revigora o princípio da autonomia congregacional, já que lemos juntos, interpretamos juntos e comungamos juntos dessa mistura interpretativa e em paz.

É no “Como você lê?” que reunificamos o secular com o sagrado e o administrativo com o cultual. Não pode haver tal distinção. Sou “eu” quem lê e “eu” quem interpreta e a esse “eu” não lhe convêm as divisões. Sou apenas uma pessoa na minha intimidade, na minha vida cultual e na minha vida pública. E aquilo que quero para mim o quero para meu próximo. Isto é, meu irmão de raça.

E é no “Como você lê? que se encontra a chave para a separação entre a igreja e o estado, pois o estado (que tem seus deveres para com todos os cidadãos independente da sua crença) não tem direito nenhum a interferir na minha crença particular e por não querer isso para mim, também não o desejo para meu próximo.

É no “Como você lê?” que o discipulador se coloca em pé de igualdade com seu có-discipulo e podem, juntos, trilhar o caminho da descoberta da vida cristã porque não se trata de uma imposição de um ser superior e sim de uma caminhada e uma descoberta feita em conjunto.

E finalmente, é no “Como você lê?” que encontramos a fórmula básica para a escola bíblica ou qualquer outro esquema de estudo da bíblia. Em que ponto está o outro? Qual é sua interpretação? Quais suas lutas e afetos? Qual seu olhar sobre o mundo? Até que ponto o olhar do Messias invadiu seu mundo íntimo?

Então, meu apelo nesta noite é: imitemos nosso mestre. Perguntemos ao outro como interpreta a escritura.

Endividamento das Famílias Brasileiras

Dados recentes mostram que quase 80% das famílias no Brasil estão endividadas. E que as famílias brasileiras gastam 28% da renda com dívidas. Quase o triplo da média de países desenvolvidos!

O peso dos juros e o endividamento crescente geram ansiedade, desigualdade e sofrimento, afetando de forma especial os mais vulneráveis.

As teologias da libertação

Seja por puro desconhecimento ou por pérfida porfia, as teologias da libertação tentam atacar este problema desde um plano puramente humano e com uma lógica puramente marxista pintadas externamente de cristianismo.

Não que a luta deles não seja sincera, ou honesta, ou necessária. Mas que mistura dois elementos incongruentes como forma de apaziguar a consciência sem produzir os frutos que tanto dizem almejar. Ou será que, no fundo, estão perseguindo precisamente os frutos que declaram combater?.

Gramsci (que critica aspectos da aplicação prática do marxismo, não Marx em si), ao falar de hegemonia cultural, critica a ideia de transformação apenas por força bruta ou pela imposição direta da economia/política. Segundo ele, a mudança real acontece lentamente, no nível da cultura, da consciência e da moral coletiva. Ou – dito de outra forma – a revolução não viria apenas pela luta de classes armada, e sim pela conquista da cultura, da educação, da moral e da religião, complementando assim o manifesto comunista.

Libertação, Justiça e o Evangelho no Quotidiano Económico

Desprezamos a graça e o amor como forças fracas. E de fato o são, assim como a gravidade é de longe a mais fraca das quatro forças fundamentais da natureza (gravidade, força eletromagnética, força nuclear forte e força nuclear fraca) e é por ela que as coisas não andam boiando ai à baila.

A graça de Deus confronta as estruturas opressoras e chama à responsabilidade social. Teólogos da estatura de N.T.Wright ressaltam que o Evangelho é a boa notícia para os pobres e oprimidos, e que a Igreja (ou seja, não a instituição e sim o corpo de Cristo) deve ser agente de justiça e solidariedade.

Como podemos, agora sim como comunidade local de fé e prática cristã, ser instrumentos de libertação e apoio prático aos que sofrem sob o peso das dívidas? Não será que a crítica de que tratamos das coisas do além, ou da eternidade em detrimento das terrenas e temporais não tem um fundo de razão? E não será que há um pouco de escapismo em pensar em salvação apenas da alma e para a eternidade? Talvez não seja o caso de enxergarmos nas dívidas uma forma prática e urgente de libertar os oprimidos desta geração?

Ao definir seu próprio ministério, o nosso Senhor cita o profeta e diz “O Espírito do Senhor está sobre mim … para proclamar libertação aos cativos…” (Lucas 4:18-19)

Mas também vemos que era uma questão ancestral já proclamada na Lei: “Proclamem liberdade na terra a todos os seus habitantes…” (Levítico 25:10)

E sem lugar a dúvidas era uma preocupação de alguns apóstolos logo depois da assunção de Jesus: “Se um irmão ou irmã estiver necessitado…” (Tiago 2:15-17)

Se há governos interessados em manter o povo escravizado pela ignorância financeira, não deveríamos nós, como igreja, ensinar a verdadeira liberdade que inclui também o uso responsável dos bens?

Qual foi a última vez que na sua igreja houve alguma aula de escola bíblica ou similar sobre educação financeira?

Sobre a vida do líder e o líder na vida.

Observo que frequentemente há uma distância entre aquilo que falamos desde o púlpito e aquilo que o objeto da pregação: a vida de Jesus nas nossas vidas.

Esta não é uma observação apenas nos colegas de ministério, mas sim um olhar constante sobre minha própria caminhada e o cuidado que devo tomar para não ficar tão longe assim do nosso Mestre. De fato, o que mais nos falta não são sermões sobre como deve ser mas sim exemplos de como de fato é. Com suas agruras e desvantagens.

Uma das pessoas que mais me impactou na vida ministerial chama-se Carlos. O jeito calmo de dirigir-se aos membros da sua congregação e como se conduzia na gestão da coisa pública não eram muito diferentes do que ele fazia na vida particular. Era corriqueiro ver ele prestando contas para esposa da mesma forma que o fazia para com a igreja local.

Ele e eu éramos de visões teológicas distintas, mas isso não o impedia de se aproximar e iniciar o diálogo ou de ceder o púlpito, ou inclusive de deixar alguns assuntos sob meu cuidado.

A forma gentil em que conduzia o diálogo em questões candentes impactava por sua firmeza e lisura enquanto manava dele uma doçura ímpar no respeito pelo seu interlocutor.

Certamente nos faltam mais “Carlos” no ministério. Pessoas que vivam o que pregam, preguem o que vivam (com seus lutos e lutas) e se apeguem apenas a Jesus nas questões mais críticas.

Uma mala quase vazia

Há no folclore uruguaio uma chimarrita (pronuncia-se “tchimarrita” com ‘r’ gaucho e não o ‘h’ paulista) cujo título é “Pal que se va”. Isto é “Para aquele que vá embora”.

Dentre as coisas boas do folclore de qualquer país sempre pode ser resgatado o que o povo em geral sente em comum e os conselhos ali contidos, via de regra, falam ao coração diretamente sem muitos rodeios sendo – por isso – de fácil compreensão e aceitação.

Coloco aqui, então, uma tentativa de tradução desta chimarrita de Alfredo Zitarrosa tratando não de manter a métrica mas sim o sentido original numa tentativa de transmitir um detalhe que me parece básico:

EspañolPortuguês
No te olvides del pago
si te vas pa’ la ciudad
cuanti más lejos te vayas
más te tenés que acordar.

Cierto que hay muchas cosas
que se pueden olvidar
pero algunas son olvidos
y otras son cosas nomás.

No eches en la maleta
lo que no vayas a usar
son más largos los caminos
pa’l que va carga’o de más.

Ahura que sos mocito
y ya pitás como el que más
no cambiés nunca de trillo
aunque no tengas pa’ fumar.

Y si sentís tristeza
cuando mires para atrás
no te olvides que el camino
es pa’l que viene y pa’l que va.

No te olvides del pago
si te vas pa’ la ciudad
cuanti más lejos te vayas
más te tenés que acordar.
Cuanti más lejos te vayas
más te tenés que acordar.
Não esqueça a vila
se você for pra cidade
Quanto mais longe você for
Mais precisa se lembrar.

É verdade que há muitas coisas
que podem ser esquecidas
mas algumas são esquecimentos
e outros são apenas coisas.

Não coloque na mala
o que cê não vai usar
as estradas são mais longas
para quem vai carregado d’mais.

Agora, você é mocinho
e já pita que nem um maioral
Nunca mude sua trilha
nem mesmo tendo pra fumar.

E se sentir tristeza
quando olha para trás
não esqueça que o caminho
É para o quem vem e para quem vá.

Não esqueça da vila
se você for pra cidade
Quanto mais longe você for
mais você precisa se lembrar.
Quanto mais longe você for
mais precisa se lembrar.

Me interessa isso de “Não coloque na mala o que não vai usar, as estradas são mais longas para quem vai carregado demais” .

Vivemos num século de ansiedade. Na realidade, nem poderíamos dizer que “vivemos” mas sim que passamos por ele já que nosso constante pensamento são nas coisas que estão por vir, tanto as do futuro próximo quanto do longíquo.

O Brasil é recordista em ansiedade a nível mundial com 9,3% da população sofrendo deste mal chamado “transtorno de ansiedade”. Mas para além dessa cifra, que já de por sí é alarmante, em termos gerais não mais vivemos o presente. Repare, por exemplo, como no sul temos perdido o hábito do chimarrão, no sudeste o de visitar os amigos para um cafezinho e a rede e o cordel no norte e nordeste.

Não mais vivemos e sim passamos a tal ponto que se não o fizermos assim, nos gera culpa e malestar por não estar “na correria”. Nos habituamos, então, a colocarmos coisas na mala da alma como se fossem uma prevenção para sei lá que catástrofe e com esse peso todo tentamos correr como se fossemos atletas na casa dos 17 anos.

Em certo sentido, esta vida é um peregrinar. Tudo bem que aquele hino que diz “Eu tenho de Jesus saudades” soa meio maluco por conta que é de se supor que – estando Jesus presente na vida do cristão – não deveria sentir saudades dele. Todavia, me interessa pelo que expressa em termos gerais sobre estar longe da pátria. “Da linda pátria estou mui longe quando o hei de ver?”

Viemos de Deus e para ele retornamos. Ou você nasceu porque você quis? Ou você (exatamente você com suas falências, temores, alegrias, insatisfações, orgulhos e vergonhas) é fruto da decisão dos seus pais? Com certeza seus pais queriam “um bebê” mas não exatamente você. Goste ou não, você é fruto do plano de Deus em algum sentido.

Nesse peregrinar de Deus e para Deus, passamos a vida enchendo nossa mala da alma com ansiedades, tristezas, culpas e outros pesos desnecessários. Lembre que o caminho de ida é também o caminho de volta. Para que trilhar ele com peso extra? Qual a vantagem? Qual a vitória disso?

Filipenses 4:6
Não andeis ansiosos por motivo algum; pelo contrário, sejam todas as vossas solicitações declaradas na presença de Deus por meio de oração e súplicas com ações de graça.

1 Samuel 1:10-18
e, com a alma profundamente sofrida, chorou muito e orou ao SENHOR.…

Salmos 56:3,4
Todavia, quando o medo me atacar, confiarei em ti!…

Mateus 6:26,33
Contemplai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Não tendes vós muito mais valor do que as aves? …

Lucas 12:30-32
Porquanto o mundo pagão é que peleja por essas coisas; entretanto, o vosso Pai sabe perfeitamente que as necessitais. …

1 Pedro 5
6 Sendo assim, humilhai-vos sob a poderosa mão de Deus, para que Ele vos exalte no tempo certo, 7lançando sobre Ele toda a vossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de vós! 8Sede sensatos e vigilantes. O Diabo, vosso inimigo, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem devorar. …

A herança esquecida – O Mercado

Anteriormente…

Júlio foi crescendo e às vezes podia ver pessoas felizes mas que não eram circulões. As visitas ao mercado – lugar decadente em que pessoas com linguajar deselegante e formas variadas sorriam de tudo, de todos e de si mesmos quase que o tempo inteiro – o colocavam em contato com uma coisa diferente que os outros circulões insistiam em chamar de “irrealidade externa”.

À falta de melhor palavra, Júlio acabou chamando essa coisa de “alegria”. Era um neologismo engraçado aos ouvidos dele já que se parecia com a palavra “alergia” que era isso que ele achava os circulões mais velhos sentiam nas suas idas ao mercado. Ao final de contas, que outra coisa a não ser uma alergia explicaria o rito de purificação e lavagem no reingresso ao grande círculo simulado voltando do mercado.

Com o decorrer do tempo, Júlio foi tomado de certas perguntas sobre a “alegria”. Haviam algumas coisas que não encaixavam. Ele conseguia, com certeza, entender como rir do outro. Ou seja, todo o mecanismo doutrinador básico dos circulões passava pelo fato de rir das ideias alheias. Aliás, se possível fosse, queriam mesmo era morder a carne do suposto proprietário da ideia diferente. A ironia era reservada para o círculo particular. Era a forma em que os pais tinham de castrar os circulões menores no intuito de que fossem aceitos no grande círculo simulado. Já o sarcasmo era a forma em que publicamente um circulão dissidente era exposto ao ridículo no grande círculo simulado. Não estranhava então o final que teve Salvador já que as ideias deles e a proposta que essas ideias levantavam contradizia o orgulho público número um que era pensar de forma circular.

Ele conhecia muito bem o efeito que a vergonha disparada pelo sarcasmo produzia num circulão; em especial aqueles menores. Um circulão menor não aprendeu ainda que pensar é perigoso e que – caso alguma ideia vaze para fora do círculo íntimo – esta não pode de forma alguma chegar aos outros círculos. Só que o Júlio em suas idas ao mercado, via que a risa do outro era bem recebida pelo outro. Ele não conseguia entender como isso era possível mas o deixou de canto por um tempo essa incompreensão, observando e – secretamente – fazendo certas anotações mentais sobre o lance.

Passou a concentrar-se sobre rir de si mesmo. Os circulões não erravam, logo, não havia lugar para rir de seus próprios erros e muito menos de si mesmo. Júlio concluiu rapidamente que o “não errar” dos circulões estava fortemente vinculado ao fato de eles não tentarem nada novo e também ao fato de terem sido disciplinados desde pequenos a descartar ideias não circulares. Isso lhe resultou estranho. Por isso decidiu esperar até ter mais informação o que viria, certamente, com mais visitas ao mercado.

Uma vida abandonada

DSC089382.Pedro 1:1-11

Já viu um daqueles filmes em que velhos colegas de escola ou faculdade se encontram? Geralmente dá pé a uma comédia, obvio. Dificilmente há algum que traga alguma outra coisa a não ser risada sobre si mesmo.

Em situações ideais, se espera que a pessoa seja/esteja melhor agora que há 20 anos atrás e é claro, há coisas que se escapam ao controle da pessoa (uma doença, um acidente, um projeto que não deu certo por condições externas) e outras que dependiam apenas do ser re-encontrado.

Tire seus cinco minutos e volte no tempo. Relaxe e relembre como você era há cinco, dez, quinze, vinte anos atrás. O que mudou? Aquilo que mudou (para bem ou para mal) é fruto do seu empenho? Você pode se dizer responsável daquelas coisas que foram modificadas na sua pessoa? Você foi um sujeito passivo ou ativo na mudança ou na permanência ?

Imagine-se em outra situação. Imagine-se contando sua trajetória até ontem para alguém. Como seria? “Isto e aquilo está melhor por causa de tal e qual razão”? “Fulano(a) me ajudou muito neste quesito”? ou está mais recheado de falas do tipo “Não consegui fazer isto nem aquilo porque fui impedido por fulano(a)”? ou talvez “O sistema (mundo, diabo, igreja, sociedade, clube) me impediu de fazer tal e qual coisa que era meu sonho”?

Gálatas e 2Pedro

Há duas passagens que gosto muito: Gál.5:22-26 e 2Pedro 1:1-9

No primeiro, Paulo diz que o fruto do Espírito é “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio“. Esse texto é maravilhoso pois essas coisas colocam de manifesto a vida do Espirito em nós. Obvio que sei que os legalistas de plantão costumam ler e dizer “devemos ter amor, devemos ter alegria, devemos…” e não conseguem enxergar que é um fruto (um único) do Espírito na vida daquele que crê. Se deixamos um cachorro bem alimentado e em liberdade ao nosso lado, ele é feliz. Não tem porque ser infeliz se ele tem as três coisas que ele mais gosta: alimento, aconchego e o tutor dele. Ele manifestará a sua alegria espontaneamente e nos fará saber sem lugar a dúvidas que é feliz. Assim também, se o Espirito do Senhor é deixado em liberdade em nós, ele produz naturalmente “amor, alegria… domínio próprio“. Não tem como o Espirito Santo produzir outra coisa. Todavia, o legalista, por não saber nada de liberdade, traduzirá “devemos” em lugar de “o fruto é…”

Mas temos 2Pedro 1:5. Aqui Pedro começa com um verbo que causa repulsa em certos cristãos: “Empenhem-se“. Causa repulsa porque na visão deles, tudo acontece apenas por obra de Deus e nada do que é feito no interior da vida do ser cristão pode – de alguma forma – depender do próprio cristão. Então, assim como o legalista lê errado Gálatas, o livre lê errado 1.Pedro.

Para o apostolo Pedro (aquele de declaração de fé, do monte da transfiguração, dos pães e peixes, do Getsêmani, da negação, da cruz, da ressurreição) há um lugar enorme para o empenho do ser cristão. Sim, o ser cristão, pois o texto o vê como uma consequência daquilo que o criador já fez: “Por isso mesmo

Para Pedro, a vida do ser cristão é uma sucessão de pequenos destinos similar ao trajeto de um ônibus circular. Como se de camadas se trata-se ele inicia falando para acrescentar à fé a virtude. Obvio que esta fé, não é fruto do esforço pessoal. Nisto ele concorda com Paulo (Efésios 2:8,9) e com o próprio Jesus, o Cristo (João 6:28-29) em que a fé é fruto da intervenção de Deus na vida do homem. Sem o Cristo levantado na cruz, não haveria possibilidade desta fé (João 12:32; 44-46; 6:44). Sem fé, nada da vida cristã é possível. Sem fé, as pessoas podem emular atributos cristãos mas só isso. A pessoa pode gostar de algum credo cristão, da Bíblia, dos louvores, da pregação, da igreja local, das ações que esta promova, mas não pode haver vida sem esta fé. Sem entrar neste assunto, mas apenas para fornecer mais lenha, a fé não é a inexistência de dúvidas mas a plena certeza de que Deus é Deus não porque ele faça ou prove qualquer coisa para provar sua existência.

Uma pequena analise e tarefa para casa

Bem, avancemos. “Empenhem-se para acrescentar à sua fé virtude“. Um sinônimo bastante bacana e simples de virtude é dignidade.

Vem ai então o teste de como anda sua vida: Ela é digna? É digna do chamado cristão? É digna na privacidade? É digna para com o ser alheio? É digna para você mesmo, na sua intimidade? É digna para com quem não crê?

Mas ai mesmo surge também a questão do tempo. Diferente da fé que pode ter (quase sempre tem, aliás) um momento preciso no tempo em que ela surge, a virtude (ou dignidade) não tem uma data precisa no tempo em que ela surja e vc diga “foi em 29 de fevereiro de 1900 e bolinha que me tornei digno“. Obvio que podem haver datas assim, em que você tem uma epifania e descobriu que havia alguma coisa na sua vida que era indigna ou pouco virtuosa e a partir de aí começou a construir. Mas me refiro a que a virtude é construída aos poucos. É um daqueles atributos que é visto não de imediato, mas ao longo dos anos e segundo Pedro, requer empenho. Não acontece de forma automática (se bem que é natural ao ser cristão) mas requer dedicação, zelo, desejo, cuidado, ouvido atento, paciência, entrega.

O mesmo se pode dizer do restante. E esse é seu dever de casa.

Logo, o que surge a seguir é uma análise da sequência e dos falsos sinônimos.

Existe uma sequência. Pedro coloca a lista em uma certa ordem. Repare que esta ordem é diferente do que a gente faria. Por exemplo, você não listaria o amor antes da fraternidade? Ou o conhecimento antes da virtude? Ou a piedade antes da perseverança?

É claro que se você foi doutrinado na vida cristã, pode ser que seu espírito crítico tenha sido tolido. Mas se foi discipulado, então foi ensinado a fazer perguntas, a ser questionador, investigador, navegador das profundidades do texto bíblico, apreciador da superfície e singeleza de algumas jóias bíblicas.

Seja como for eu lhe convido a gastar um tempo pensando na ordem desta lista. Seja honesto, você faria esta lista nessa ordem? Por quê? Não vou me estender mais sobre isto pois já lhe foi indicado o caminho e quero chegar logo na vida abandonada.

Talvez lhe possa ajudar o mesmo texto em outra versão que não lhe é comum. Por exemplo “Nova Versão Transformadora”

Diante de tudo isso, esforcem-se ao máximo para corresponder a essas promessas. Acrescentem à fé a excelência moral; à excelência moral o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio; ao domínio próprio a perseverança; à perseverança a devoção a Deus; à devoção a Deus a fraternidade; e à fraternidade o amor.

O abandono da própria casa

Seja porque a pessoa é legalista ou porque é livre, ela corre o risco de se abandonar. Talvez ele mesmo não perceba isso. Entra dia e sai dia e aos poucos, sem perceber, vai abandonando o posto.

Para uma casa bem construída ruir só fazem falta duas coisas: desleixo e tempo. Uma simples goteira no telhado, acaba com o madeiramento mas antes de percebermos a agua já se infiltrou e acabou com alguma parede. Podemos falar a mesma coisa sobre as formigas, falta de limpeza, etc.

Pedro diz que “Porque, se essas qualidades existirem e estiverem crescendo em sua vida, elas impedirão que vocês, no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, sejam inoperantes e improdutivos” (1Pedro 1:8)

No mundo evangélico, estar inoperante é deixar de ir na congregação e ser improdutivos é não evangelizar. Mas isso não faz muita justiça ao texto. Pedro nem menciona essas coisas. Pedro não leva para o âmbito institucional e sim para o pessoal ao dizer no versículo seguinte isto: “Todavia, se alguém não as tem, está cego, só vê o que está perto, esquecendo-se da purificação dos seus antigos pecados” (1Pedro 1:9)

Voltando no exercicio do inicio, você compara sua vida com a sua própria há cinco, dez, vinte anos e diz: “Poxa, esse carinha não cresceu”  ou também “Ue, ele se deixou estar, se abandonou. Cadê o crescimento dele?” e ainda “Nossa, que triste, continuo sendo o mesmo tonto de há duas décadas”

Longe de fortalecer sentimentos de culpa (a culpa assim como a raiva são péssimas conselheiras) o que busco aqui é a auto-analise. Estar nas fileiras cristãs não é como subir a um carrinho de montanha russa e ser levado daqui para lá de forma puramente passiva. Também não é fazer parte de alguma instituição cristã por mais que a execução daquilo que está no seu coração pode ser que o leve a pertencer a uma instituição para viabilizar o seu sonho.  Muito menos é ter todos os problemas solucionados e viver em plena paz e harmonia com todo mundo.

Estar nas fileiras cristãs é um chamado constante ao serviço e à morte pessoal. Duas coisas que o ser humano natural detesta fervorosamente. Não é uma guerra contra o pecado que está no outro (ainda que o pecado como sistema precise ser denunciado) mas sim contra aquilo que em mim não se assemelha ao Cristo. É uma luta não contra a injustiça social (ainda que um coração cristão deveria sangrar e protestar ativamente contra ela) e sim contra a injustiça que eu mesmo provoco no âmbito pessoal, familiar, social, corporativo. Não é uma luta contra a corja de políticos que corroem as finanças das pessoas comuns (ainda que devamos usar todos os meios ao nosso alcance para demandar mais transparência e rotatividade política) mas sim contra aquilo que em mim não respeita as coisas alheias e busca apenas ganho próprio.

Pedro diz que quem não tem estas coisas está cego. Não completamente, mas uma pessoa com curta visão. Ele não apenas não consegue enxergar a realização do chamado que recebeu, mas também não consegue enxergar (lembrar) a purificação dos seus antigos pecados. Na linha do tempo, ele está num vale. Não há lembrança nem esperança. Tudo são picos altíssimos e inalcançáveis. Sombras. Frio. Desorientação. Numa condição dessas, o mais seguro para o peregrino parece ser ficar quieto, acuado, cada vez mais encolhido num último ato de preservação.

Pedro ensina que a forma de amadurecer na vida cristã é por meio do cultivo sistemático da virtude, o conhecimento, o domínio próprio, a perseverança, a piedade, a fraternidade e o amor. Só se essas qualidades estiverem presentes (e não como algo estático mas dinâmico “estiverem crescendo em sua vida“) só assim  elas impedirão que sejam inoperantes e improdutivos.

Avançando, a figura que Pedro emprega no versículo 10 me remete a uma ação militar: consolidar o chamado e a eleição de vocês. A colina foi conquistada, mas falta consolidar ela. Faltam as defesas necessárias para que se torne um local seguro para outros virem.

O legalista comete o erro de pensar que pode chegar sozinho à vida cristã e suas virtudes: eu mesmo conquisto a colina. O livre comete o erro de pensar que – tendo sido liberto – não precisa mais se preocupar com a vida cristã; que tudo acontece no automático: a colina  e todos os vales que a circundam são meus já.

A proposta de Pedro é bem mais cristalina e coloca as coisas no seu devido lugar: Lhe foi dada uma fé, agora enriqueça ela.

Última pérola

Finalmente, resta uma pequena jóia no versículo 11: “assim vocês estarão ricamente providos quando entrarem no Reino eterno do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” Obvio que na visão de Pedro o Reino é escatológico; isto é, ele se cumpre e manifesta apenas no fim da história (a pessoal ou a global) e isso não contradiz o fato do Reino estar sendo construído aqui e agora com cristãos responsáveis.

Para Pedro, a vida cristã recolhe no Reino eterno aquilo que semeou aqui nesta vida. Diferente da visão profana da idade média em que os pobres eram superficialmente consolados com a ideia de que ser pobre era bom porque ia ser recompensado no futuro pós morte ao passo que isso não explicava como podia existir uma igreja institucionalizada extremamente rica, o foco aqui é no desenvolvimento pessoal e nos seus desdobramentos eternos.

Ser pobre não é ser humilde nem garantia de ser melhor pessoa que um bem abastado. Ser rico não é sinónimo de orgulho ou perdição. Se você para para analisar, pode ser que concorde comigo em que essas coisas são externas.

A lista de coisas que Pedro menciona são de cunho íntimo. Tem a ver com como o exército vai se abastecendo de coisas ao longo do caminho antes de chegar no seu lugar de descanso final. Tem a ver com ir cada dia se abastando dos melhores recursos para a época que virá.

Não gostamos muito de falar nisso. Gostamos em geral de pensar que a vida eterna começa apenas após a morte e nada do que fizermos aqui afeta a vida de lá. Mas a Bíblia ensina outra coisa. E o faz em repetidas ocasiões. À guisa de exemplo, lembre de 1.Cor.3:1-15, Tiago 2:18-22, Heb. 6

Quer entrar ricamente provido no Reino eterno, então continue a acrescentar à sua fé virtude, à virtude conhecimento, ao conhecimento domínio próprio, ao domínio próprio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade a fraternidade e à fraternidade o amor.

A salvação não é por obras e está garantida. Repare que Pedro em lugar nenhum diz alguma coisa como “Se não fizerem isto arderão no fogo eterno“. Não. Ele diz: “quando entrarem no Reino“. A entrada no reino depende da fé recebida que aponta para o Cristo morrendo na cruz. Uma coisa conquistada por graça, não pode ser anulada pelas obras e se fosse, não poderia ser restituída já que seria uma ofensa não apenas ao Cristo, mas a tudo o que a morte dele na cruz representa. (Heb. 6:4-6)

Volte a construir sua casa. Dedique tempo a sua vida pessoal. Não se abandone. Foi pago um alto preço por ela.

Perdendo a vez

Dizem que se colocamos um sapo em água fria e aos poucos vamos aquecendo ela, ele morre fervido sem sequer perceber o que está acontecendo. Não fui atrás da veracidade científica disto mas – como em tantas outras situações – pegarei apenas o conceito popular bem conhecido para tratar de coisas mais profundas. Um outro dia vemos se é verdade ou não que os batráquios morrem fervidos aos poucos sem perceber.

O fato é que a igreja (não a sua congregação local apenas, mas todas e cada uma das congregações cristãs locais) se está desfazendo. Em um sentido isso é bom porque houve uma tentativa de reconstrução ao longo dos últimos quinhentos anos de um certo “catedralicismo” evangélico na tentativa de emular inconscientemente (ou não) o lugar do qual saímos.

Todavia, há um outro sentido que é preocupante. Básicamente a igreja não mais se congrega. Ela pode até se juntar de vez em tanto… uma vez por semana, uma vez por mês… mas não se congrega. Os processos evolutivos volitivos são deixados de lado por uma busca de certa “espontaneidade” que nada mais é do que uma fina camada de verniz sob a qual se esconde uma procrastinação generalizada e – vista de certa distância até poderiamos falar de uma “procrastinação harmônica” já que a mesma atinge todos e cada um dos nichos evangélicos.

Em conjunto, consideramos o fato de congregar-se como limitador, castrador, desmotivador quando na realidade é apenas no ato de congregar-se que o discípulo pode crescer. Obvio que não digo com isso que há momentos de estar sozinho ou de retiro ou de reencontro com certas essencialidades individuais. Mas meu foco é o desleixo com o que tratamos o ato da congregação

Para alguns, congregar-se é ir no culto de domingo à noite. Para falar a verdade, acho que a maior parte das pessoas – se consultadas – falariam que se congregar-se trata-se disso. Para quem não se congrega, para quem não participa ativamente da construção da identidade local, sair do sofá e ir a um culto domingo à noite, realmente é um avanço. Só que a vida cristã não tem a ver com micro-avanços e sim com uma mudança na raiz da vida, isto é, na forma de pensar, de ser.

Há uma ideia que parece boa permeando as nossas congregações: somos todos parte da mesma e única igreja. Se bem isso é uma verdade teológica visceral, ela apenas dissimula nosso completo desleixo com a construção da identidade particular. O equivalente é mais ou menos como dizer que somos todos seres humanos e por isso não há necessidade de construirmos famílias.

Tenho convivido com três meios evangélicos diversos e conheço mais três de forma indireta (por meio de amigos, conhecidos etc). De primeira mão conheço os batistas, os presbiterianos e os pentecostais. Indiretamente conheço os menonitas, os irmãos livres e os metodistas e um grupo neo-pentecostal. Tirando os neo-pentecostais da equação (por conta de ser o foco apenas a prosperidade financeira/emocional/terrena da pessoa) os outros grupos me merecem especial atenção porque – observando-os – vejo uma degradação paulatina, lenta e constante do tecido evangélico.

Todos os meios sérios de construção da identidade evangélica local enfrentam o mesmo problema: o povo não mais se congrega, quando se congrega o faz simbólicamente e o símbolo (o culto) é esvaziado do seu propósito principal que é apenas a exposição da palavra de diferentes formas (pregação, louvor, adoração, esclarecimento do funcionamento local).

Lembro que nos tempos do seminário a gente debatia se o anuncio das atividades da igreja deveria ir antes ou depois da mensagem; no inicio, no meio ou no fim do culto. Temia-se naquela época – e com razão – cair no ativismo. Contudo, a igreja em funcionamento ao longo da semana é uma necessidade fundamental dela. Ninguém espera que você esteja presente a todos os cultos, seria mais ou menos como esperar que você engolisse o cardápio inteiro que um restaurante está oferecendo. Mas em lugar de mostrar as atividades da igreja como tal, o pêndulo tem-se movido ao extremo contrário, ao ponto de achar até pecaminoso participar de alguma atividade da igreja fora do culto. O equilíbrio então – para mim – está em entender que se trata apenas de um cardápio e que é responsabilidade do membro (sim do membro e não do pastor) manter uma alimentação espiritual saudável. Quase com certeza no seu estomago o Strogonoff ganha de uma boa salada de brócolis com chuchu sem sal. Mas é quase uma certeza que um culto de domingo com uma boa equipe de louvor, um banco aconchegante, uma boa iluminação, um ar condicionado e uma pregação suave ganham de 1000 a 1 do evangelismo na rua, da ajuda social, ou do ministério de oração da igreja.

Aos poucos, a igreja local vai se desconstruindo. Lastreado num conceito teológico bom (somos todos parte de uma mesma, única e grande igreja) transvestimos nossa incapacidade chamando-a de liberdade e – como pastores – abandomanos o posto, jogamos a culpa nos membros, na instituição, no momento e a coisa toda degringola.

Neste inicio do século XXI há necessidade sim de reforçar as identidades locais. O “neoliberalismo” teológico apenas ajuda para ir tornando a água fria em água morna e matando -aos poucos- a vitalidade da igreja. Ai a pergunta do poeta se torna bem oportuna “Como pode um peixe vivo, viver fora d’agua fria?

Minha mãe – forjada no discipulado de um pastor russo que escapou da imbecilidade bolchevique – é da opinião que a igreja apenas pode florecer sob pressão. Que não há nada que substitua uma perseguição para – ao final das contas – revelar a verdadeira igreja. Pelo que entendo os diamantes são feitos assim também: carvão sob alta pressão.

Congregar-se, então, é para mim uma questão de vitalidade. Ou a igreja local tem vida e se congrega ou ela apenas é um simulacro de igreja. Não pode ser que a igreja do século XIX tenha-se tornado tão cega, surda e muda e que apenas almeje uma boa pregação. Não pode ser que os pastores tenham perdido tanto assim o foco que não mais chorem, sofram e vivenciem dores de parto pela formação da identidade do Cristo na igreja local. Ou vai me dizer que um reflexo da luz – mesmo não sendo a luz completa – não deveria de se parecer com a luz? É obvio que sim! A igreja local do Cristo vivo deve – de mais de uma forma – refletir Ele e apenas Ele. Este “deve” aqui não se trata de ações compulsórias imposta por uma cúria que quer se evadir das suas responsabilidades pessoais mas sim de demonstração da essencialidade vital da congregação local.

Por outro lado, a vida é sofrimento. Sem crise não há mudança. Sem sofrimento não há vida porque sem sofrimento não há escolhas apenas porque “em time que está ganhando, não se mexe” e – como não sabemos se uma decisão nos leva à vitória ou à derrota, preferimos o marasmo do que o risco, a morte do que a vida. Congregar-se é sofrer. É arriscar-se a amar e não ser amado, a se entregar sem receber nada em troca, a se dedicar e sentir que é o único, a chamar e observar que quase ninguém responde, a conclamar e ver que quase ninguém atende. Nada mais parecido com o chamado de Jesus. A oração de São Francisco resume assim “É perdoando que se é perdoado e morrendo que se vive” mas isso é apenas um resumo parcial da ideia original.

Congregar-se é responder afirmativamente ao chamado universal de Deus para os cristãos. E são apenas os cristãos que podem responder. O outro, o de fora, nem ouve o chamado, não se inquieta com a coisa local, não sofre. O outro precisa primeiro passar pela Cruz, mas não pelo lado de baixo, pela frente ou pela parte de trás da cruz, precisa estar crucificado juntamente com Cristo… plenamente morto. Porque se Cristo morreu e ressurgiu, assim também a porta de entrada para a vida cristã, é a cruz e nada mais do que a cruz. Só assim que pode passar a enxergar a realidade de um mundo que se perde e de uma igreja local que cada vez mais opta (de forma consciente ou não) por abandonar o seu posto.

Você é um membro de uma igreja local e não sente falta de congregar-se? Acha que é bobagem institucional?

Você pastoreia uma congregação e não sente falta de mostrar na prática (e não a esmo) como suas ovelhas podem servir congregando-se não sob desafios ou projetos mas sob o cajado do Cristo? Não consegue enxergar que as ovelhas precisam de você?

Bom, o único caminho é o da cruz (Gál.2:20). Apenas naquela posição (de braços abertos, impotente de abraçar) e naquela altura (onde pode ver por cima de outras cabeças mas os outros vem seu vexame intimo) e naquela condição (de ir morrendo cada vez mais um pouco) é que seus olhos espirituais podem ser abertos e se arrepender do seu pecado.

Estamos morrendo aos poucos. Sem perceber. Sem querer. Pecando. Abandonando o posto.

Pr.Esteban Daniel Dortta

Trabalho como castigo divino

Estava ouvindo o radio hoje cedo e o pessoal tentava tecer um argumento bastante interessante. Se tratava de que, ao impedir o homem de trabalhar por meio de planos assistencialistas, o que se estava de fato fazendo, era impedir o homem -quanto individuo- de cumprir o castigo divino de trabalhar.

Colocando à parte o fato de que sim, concordo em que há um mundo de pessoas que se valem de planos assistencialistas para não se esforçarem e de que do outro lado da corda (aquele que cria estas “oportunidades”) se encontram aqueles que lhes interessa ter essa massa de manobra cativa, pobre, semi-analfabeta, constantemente dependente; colocando à parte isso como dizia, a analise me fez lembrar que há pessoas que pensam piamente que o trabalho (do latim tripalium) seria um castigo divino.

O problema com essa ideia é que não tem sustento no relato bíblico e que era esse justamente o âmago do argumento do radialista. Para tanto usava o já bem conhecido texto de Gênesis 3:19 “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão, até que voltes ao solo, pois da terra foste formado; porque tu és pó e ao pó da terra retornarás!

O que me tem surpreendido é o imenso número de cristãos evangélicos acreditando que nesse texto se condena o homem a trabalhar.  E digo que me surpreende porque – supostamente – os evangélicos são “o povo da Biblia”.

A coisa é bem simples: Gênesis 2:15 diz “E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.” Ou seja, é simples: Deus fez (trabalhou) o universo formou o homem e o colocou (sim, sei, sem que o próprio homem pedisse) para cuidar da criação antes da queda. As coisas novas em Gênesis 3:19 são: O cansaço, a frustração diária, a morte mas o trabalho, isso é anterior.

Resumindo: O trabalho faz parte do plano original do Senhor e é exatamente por isso que dignifica o homem.

Melhorando o argumento do radialista: Impedir o homem de trabalhar para ganhar seu sustento, tira do homem a dignidade que o próprio Eterno lhe quer dar.

Morando em uma casa remendada.

Ninguém quer morar em uma casa cheia de remendos. O processo é simples, uma goteira aqui, uma rachadura acolá, um muro com defeito, enfim em algum momento o remendo, o conserto se faz necessário.

Mas ninguém quer que o remendo seja visto. Geralmente gastamos muito com a estética final da casa. O remendo é então sempre feito de forma tal que possamos -em algum momento- cobrir ele de tal forma que pareça que a casa nunca teve rachaduras.

Na vida pessoal também é assim. Não queremos que ninguém perceba nossos remendos. Basicamente queremos aparentar perfeição e não erros estruturais, rachaduras no caráter, ou simples imperfeições goteiras na vida espiritual.

Almejar ser como Deus pode ser coisa boa, aparentar a perfeição dele nem tanto.

Acontece que na nossa vida, os reparos estruturais (os essenciais) apenas podem ser feitos pelo próprio criador. É claro que em se tratando do criador, o reparo dele vai ser o melhor de todos os que possam ser feitos.

Mas cá entre nós, se o reparo é uma ação de Deus, não seria interessante que seja visto? Não é por acaso fruto da sua graça? Não é ali justamente que reside sua gloria em mostrar que é possível restaurar o caído? Não é exatamente isso que o mundo precisa ver? A ação de Deus restaurando o que o Pecado tem estragado?

Então, talvez seja melhor morar em uma casa remendada pelo Senhor que uma construída pela gente apenas para inglês ver.