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Cristo não negocia tarifas

A semana passou, os holofotes de Davos se acenderam, e o velho teatro do poder voltou ao palco. Desta vez, com um roteiro pouco sutil: tarifas como arma, alianças como moeda de troca e a Groenlândia tratada como se fosse um ativo disponível em prateleira geopolítica. Não é apenas economia. É liturgia imperial.

Quando nações grandes pressionam nações menores “em nome do interesse nacional”, o que aparece não é força, mas idolatria. Idolatria do mercado, da segurança, da soberania absolutizada. O império sempre fala a língua da necessidade: precisamos disso, é estratégico, é inevitável. Babel nunca sai de moda; só muda o vocabulário.

N. T. Wright insiste que o anúncio central do cristianismo não é um conjunto de valores espirituais, mas uma afirmação pública e perigosamente política: Jesus é Senhor. Isso significa, sem rodeios, que ninguém mais é. Nem presidentes, nem mercados, nem blocos econômicos. Quando Estados agem como se fossem fins últimos, já cruzaram a linha que separa governo de divindade.

O problema não é ter poder econômico. O problema é quando o poder deixa de servir e passa a exigir culto. Tarifas viram castigo moral. Sanções viram instrumento pedagógico. Povos inteiros são reduzidos a peças substituíveis num tabuleiro que nunca é deles. O império sempre se apresenta como racional, mas age com a velha lógica do medo: dominar para não perder.

O Salmo 2 descreve esse cenário com ironia cortante: as nações conspiram, os reis se enfurecem, os poderosos se aconselham. E Deus não entra em pânico. Ele ri. Não por desprezo ao sofrimento humano, mas porque todo projeto que se pretende absoluto já nasce provisório. A história não pertence aos que gritam mais alto, mas àquele que governa sem precisar ameaçar.

A igreja, quando esquece isso, se torna previsível – e, portanto, capturável. Passa a repetir slogans de estabilidade, prosperidade ou “defesa da civilização” sem perceber que trocou o evangelho por uma versão batizada do realismo político. Cristo vira um símbolo decorativo pendurado no salão onde decisões injustas são tomadas.

Daniel fala de um reino que não nasce de mãos humanas e não depende de alianças frágeis. Um reino que não se sustenta por tarifas, exércitos ou chantagem econômica. Esse contraste é o julgamento mais severo sobre o nosso tempo: tudo o que precisa ser imposto à força revela sua própria fragilidade.

Ser igreja, em meio a guerras comerciais e disputas imperiais, não é escolher um lado “mais simpático”. É recusar a lógica inteira. É lembrar – com palavras e com práticas – que o mundo não será salvo por quem acumula poder, mas por quem governa a partir da cruz.

E isso continua sendo profundamente desconfortável. Para os impérios. E, às vezes, para a própria igreja.

Agora, isso que nos parece tão distante, deve nos servir para refletir nossa própria submissão aos poderes deste mundo em pleno ano eleitoral brasileiro. No decorrer dos próximos meses, se acentuará a defesa de um e outro lado como se um ou outro refletisse o senhorio de Cristo e isso é preocupante.

Violência em nome da fé

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O que vem acontecendo no Irã desde o fim de 2025 não é um episódio isolado nem um “excesso pontual” de governo. É o tipo de convulsão social que acontece quando um povo já não encontra ar para respirar. Colapso econômico, desemprego, inflação, ausência de perspectivas. E, somado a tudo isso, a sensação corrosiva de que não há canais legítimos para dizer “basta”.

Quando, em janeiro de 2026, os protestos se espalharam pelas 31 províncias, a resposta do regime foi previsível – e brutal. Apagão de internet para interromper a circulação da verdade. Tropas de elite nas ruas. Prisões em massa. Mortes. Relatos de execuções. Quando o poder sente que está perdendo o controle da narrativa, ele tenta controlar o silêncio. O problema é que silêncio imposto não é paz; é compressão. E compressão sempre explode.

Há algo ainda mais perturbador: a repressão não se apresenta apenas como política, mas como sagrada. Protestar vira “guerra contra Deus”. Discordar do regime se torna blasfêmia. A violência ganha verniz teológico. Esse é um dos pecados mais antigos da religião: usar o nome de Deus para blindar estruturas que esmagam gente de carne e osso. Quando isso acontece, não estamos diante de excesso de fé, mas de sua perversão.

Aqui surge a pergunta que atravessa séculos: onde está Deus quando o povo clama por pão, dignidade e liberdade? A Bíblia não responde com abstrações confortáveis. Ela responde com um Deus que ouve, vê e desce. O clamor dos oprimidos nunca é ruído de fundo para o Deus bíblico. Ele não observa de longe, avaliando neutralmente os “dois lados”. Neutralidade diante da opressão é sempre aliança com o opressor.

Por isso a cruz é tão escandalosa. Ela denuncia não apenas a violência política, mas também a violência religiosa que mata em nome de Deus. Um messias executado por um conluio entre poder imperial e zelo religioso desmonta qualquer teologia que sacralize o Estado, o regime ou a ordem vigente. O Deus revelado ali não exige subserviência cega; ele expõe sistemas que se sustentam pelo medo.

Quando pessoas comuns vão às ruas, mesmo sabendo que podem morrer, algo profundamente humano – e espiritualmente significativo – está acontecendo. Não é romantização do sofrimento. É a recusa do desespero total. É a coragem de dizer que a vida vale mais do que a mentira oficial. Há, nisso, um eco da fé mais básica: a confiança de que o não-ser, a morte e o terror não têm a última palavra.

O evangelho não anuncia apenas consolo interior para almas feridas. Ele fala de libertação concreta, de cativos soltos, de estruturas confrontadas. Um reino que começa pequeno, vulnerável, mas que insiste em existir no meio da tirania. A esperança cristã nunca foi ingenuidade política. Ela é, ao contrário, profundamente subversiva: afirma que nenhum império, nenhum regime, nenhuma polícia secreta é eterno.

Os profetas já sabiam disso. Denunciar leis injustas, sistemas que roubam o pobre e decretos que esmagam o fraco sempre foi parte da fé bíblica. E o último livro da Escritura lembra algo incômodo: o clamor dos que morreram injustamente não se perde no vazio. Ele sobe. Ele permanece. Ele aguarda resposta.

O Irã de hoje nos obriga a olhar para além das manchetes. Obriga a perguntar que tipo de Deus estamos anunciando. Um Deus cúmplice da repressão ou o Deus que escuta o grito abafado, mesmo quando a internet cai e as ruas se enchem de sangue. A ressurreição, afinal, não é um detalhe devocional. É a afirmação de que nenhum poder de morte é definitivo – e que toda tirania, cedo ou tarde, será chamada pelo nome.

Migração e Igreja

Vivemos tempos conturbados em que quem tem poder fala forte e quem não o tem é obrigado a se adaptar da melhor forma possível. A igreja, por sua natureza conservadora e sua função de “sal da terra” usualmente confunde isso com nacionalismo ou com alinhamentos políticos mais à direita quando não do lado da extrema-direita. Isso é preocupante. Com isso não estamos dizendo que – necessariamente – a esquerda seja uma opção ou caminho. Mas dizemos que a igreja deve se manter livre e se comportar como cidadãos democráticos exemplares visando sempre a melhor opção para a sociedade em que vive ora movendo a balança para um lado, ora para outro, mas nunca sendo previsível. Ser previsível a torna em fácil refém do palanque politico de um ou outro lado. Isso é, liberdade de pensamento e liberdade de expressão na prática.

Uma das personagens preocupantes no atual cenário é o atual ocupante da Casa Branca assim como o é o ocupante do Kremlin. Há mais, mas fiquemos apenas com o primeiro da lista e sua recente atuação nos casos de imigração. Recentes reportes indicam que a imigração nos Estados Unidos é uma situação de grande envergadura com dados indicando mais de 2.7 milhões de pessoas entrando no ano de 2024. Isso, evidente sobrecarrega o sistema como um todo e enfraquece o país em várias áreas além de – por mais que melhore a vida de quem migra em parâmetros relativos – colocar o migrante em situação vexatória ou como uma classe inferior perante seus pares nacionais.

Com a mudança do habitante da Casa Branca, mudou a política de recepção de imigrantes fazendo com que – por primeira vez em 50 anos – haja uma depressão dos números com uma saída neta de 925.000 pessoas e uma entrada de 185.000 no ano de 2025. Recentemente a secretária de Segurança Nacional (o que seria equivalente a um ministro tupiniquim) afirmou que Estados Unidos tem “arrestado, detido e deportado a seus países de origem” a mais de 650.000 imigrantes indocumentados e que perto de 2 milhões tem se auto deportado. Além disso, se revogaram 100.000 visados estrangeiros em 2025. Para ter uma ideia, apenas em 2025 se revogaram mais do que o dobro em todo o governo Biden. (Ver https://www.telemundo.com/noticias/noticias-telemundo/inmigracion/mas-inmigrantes-salieron-de-los-que-llegaron-a-estados-undios-en-2025-rcna253930)

É obvio que para os Estados Unidos não é nada bom ter imigrantes ilegais. Não apenas pela entrada no país, senão pela sua permanência em situação de semi-residente sem direito a nenhum tipo de assistência a não ser a mais básica e até essa é difícil de obter. Insisto que para quem migra, é – em termos relativos – melhor viver como ilegal lá do que no restante das Américas. Mas ele não percebe que isso mesmo degrada o país ao qual ele se acolhe.

Um titular interessante desses dias diz assim: “Trump ameaça invocar a Lei da Insurreição para reprimir protestos contra abusos de agentes federais“. O artigo contem múltiplas denúncias de violência e mortes em custódia de imigração (ICE), inclusive em Minneapolis e no Texas.
Há relatos de uma “violência sem precedentes” cometida por agentes de imigração e várias mortes de imigrantes sob custódia apenas nos primeiros dias de 2026.

Se colocarmos a lupa sobre os eventos da última semana, veremos que os protestos têm crescido. Se protesta contra abusos de autoridades de imigração dos EUA, incluindo mortes de imigrantes sob custódia e o uso excessivo da força. O governo tem reagido de forma dura, até ameaçando de usar mecanismos legais de exceção para conter manifestações. Tudo isso, evidentemente, expõe tensões profundas em torno da justiça, da dignidade humana e do tratamento dos estrangeiros.

Se perguntarmos para um cristão americano típico do meio oeste ele fervorosamente vai defender a posição do atual presidente. Não que ele não tenha esse direito, mas mostra uma visão oblíqua e estreita do problema como um todo e – ao parabenizar e concordar com o presidente – terceiriza a responsabilidade do que lhe deveria ser mais sagrado por ser isso o que o distingue de outros animais: a capacidade de pensar. O livre pensamento demanda … pensar. E isso, parece que é um bem cada vez mais escasso haja vista a tremenda polarização entre os extremos da vida política mundial.

A Palavra de Deus, em Cristo, – diria Barth – julga tanto as estruturas injustas quanto a própria igreja quando ela se associa a nacionalismo excludentes. A sociedade não tem essa consciência de um Cristo que é o Juiz Justo. A Igreja, sim, tem. Ou ao menos deveria.

Ao longo de toda a Bíblia, o Senhor se lembra dos julgados e marginalizados. E – insisto – por mais que para o imigrante lhe seja uma situação relativamente melhor do que a que vive em seu pais de origem, de fato está ajudando a desconstruir uma nação ao passo que não ajuda a construir a sua.

O imigrante não é apenas uma ameaça ou um recurso econômico (bem mais econômico) a ser administrado ou deportado, ou assimilado. Ele é o próximo a ser amado. E o amor que o Cristo exige dos seus discípulos é o ágape, não o eros ou o fileo. Segundo Nygren, o eros é uma forma de amor interesseiro que “usa” o outro ao passo que o ágape é o amor que se doa. Em se doando, deve denunciar, protestar, levantar a voz pelo oprimido, se posicionar do lado do desvalido.

Mas, talvez você diga, não será que o migrante sabia dessa situação quando saiu do seu país? Claro que sim. Hoje ninguém está desinformado. Mas, assim como a mulher adúltera sabia das consequências dos seus atos, o que importa – ou deve importar – é a situação atual de quem está em subserviência.

Se requer de nós, cristãos, práticas concretas de hospitalidade, justiça para migrantes e denúncia profética de sistemas que negam a imagem de Deus. Sim, um sistema que atropela outras nações, não serve a Deus e sim a seus próprios interesses.


Não se trata, então, de ser de esquerda ou de direita, mas ser do Reino e buscar constantemente sua justiça mantendo um nível de imprevisibilidade que surpreenda sempre.

Venezuela, poder e império: quando a “salvação” vem armada

Nos primeiros dias de janeiro, o mundo assistiu a uma cena que parece saída de um roteiro ruim – e por isso mesmo é perigosa: uma operação militar dos EUA na Venezuela culminou na captura de Nicolás Maduro (3 de janeiro de 2026) e, poucos dias depois, na sua apresentação à Justiça em Nova York (5 de janeiro de 2026).

Até aqui, muita gente vai querer torcer a história para caber no próprio bolso moral.

“Foi justiça.”
“Foi sequestro.”
“Foi libertação.”
“Foi invasão.”

E aí vem o tempero que denuncia a alma do negócio: autoridades e declarações públicas passaram a falar em recursos, riquezas, petróleo, “o que agora vai ser redirecionado”, “quem fica com o quê”. Quando a linguagem muda de “direitos” para “ativos”, você já sabe: o altar está montado – e o deus costuma ser o interesse nacional transvestido de virtude.


O problema não é só geopolítica. É liturgia.

Porque impérios não se sustentam apenas com tanques. Impérios se sustentam com narrativas.

E narrativa imperial quase sempre usa um vocabulário religioso: salvar, purificar, libertar, corrigir o mal, trazer ordem. Só que, na prática, essa “salvação” costuma cobrar a conta dos vulneráveis primeiro – os que não têm bunker, nem passaporte, nem rede de proteção.

O risco aqui não é “a Venezuela”. O risco é o modelo: a ideia de que um país pode se investir do papel de juiz, redentor e administrador do destino de outro. E, quando isso acontece, a soberania vira detalhe técnico e a dor humana vira “dano colateral” em rodapé.

Não é coincidência que a legalidade internacional da operação esteja sendo contestada e discutida em organismos e análises públicas: quando você normaliza exceções, você está ensinando o mundo a viver sem chão.


N.T. Wright e a pergunta que corta o assunto no meio

N.T. Wright insiste numa coisa que a igreja esquece quando se embriaga com o noticiário: o evangelho não é um adesivo devocional no para-choque da história; é uma declaração pública de senhorio.

Em termos simples (e explosivos):
Jesus é o Kyrios.
Logo, César não é – nem em versão antiga, nem em versão moderna, nem com bandeira bonita, nem com discurso “humanitário”, nem com promessa de prosperidade.

Quando o evangelho diz “Jesus é Senhor”, ele não está oferecendo um conforto íntimo apenas; ele está desautorizando qualquer império que se apresente como salvador final. O cristão pode até agradecer quando um tirano cai; mas não pode adorar o método, nem santificar a cobiça, nem chamar de “reino” aquilo que cheira a saque.


Como a igreja lê esse tipo de manchete?

Eu faria três perguntas na igreja – sem cinismo, mas com coluna ereta:

  1. Quem está sendo servido de verdade?
    Os pobres? Os presos políticos? As famílias? Ou os interesses estratégicos e os mercados?
  2. Que tipo de “paz” está sendo prometida?
    A paz de Cristo nasce do caminho do Cordeiro; a paz do império nasce da ameaça.
  3. Que tipo de esperança está sendo vendida?
    Porque esperança comprada com propaganda costuma virar desespero quando a conta chega.

E aqui está a disciplina espiritual mais difícil: recusar a idolatria do “meu lado”. O cristão não é obrigado a escolher qual império prefere. O cristão é chamado a confessar que nenhum império é o Reino.

O Reino tem Rei – e ele não usa a linguagem da rapina como se fosse virtude.

Soberania e Esperança em tempos de Polarização

Pertenço a uma geração que se acostumou a ver as forças armadas (assim, como instituição centralizadora das três grandes forças) desfilando publicamente nas datas pátrias. Por um lado, e no momento, nos trazia um certo orgulho de ter ditos homens dedicados à defesa do país. Por outro lado, e com uma perspectiva histórica mais apurada, soubemos entender que – por trás daquela imagem de imponência – havia sórdidos usos exagerados do poder.

Seja como for, o fato é que todos os cidadãos compartilham um mesmo carinho pela palavra “pátria”. Que se bem, por um lado é um conceito abstrato e intangível, por outro se vê clara e nitidamente em coisas concretas como solo, constituição, cultura, língua e filhos (Uma leve menção a Nietzsche – “Onde está minha pátria? Onde não sou apenas cidadão, mas também pai, pois só aí começa a pátria.” em Assim falou Zaratustra e que me toca de maneira pessoal por serem meus filhos, todos eles brasileiros…)

Seja por ter caído num sábado. Seja porque não mais cultivamos certos valores por considerar-nos “avançados demais”. Seja por termos ojeriza às demonstrações de poder bélico. O fato é que este sete de setembro passou basicamente desapercebido. Foi só mais um final de semana que – se pelo menos tivesse caído em sexta ou segunda daria para chamar de “prolongado” – em nada nos chamou a atenção.

A não ser, claro, quando consideramos o lema “Brasil Soberano” enquanto manifestações políticas polarizadas tomaram as ruas com pedidos de anistia e debates sobre democracia e justiça.

Isso reflete a tensão em que vivemos com visões diferentes sobre soberania, justiça e reconciliação nacional. Esse debate sobre anistia e o papel das instituições democráticas, expôs as feridas e desafios do nosso Brasil.

Soberania de Deus e Reconciliação Humana

A neo-ortodoxia enfatiza a soberania absoluta de Deus em meio à fragilidade das instituições humanas (Barth) e a necessidade de reconciliação genuína, tendo o amor ágape como seu maior motor ou razão existencial (Nygren)

A cidade de Filipos recebeu o nome em homenagem a Filipe II da Macedônia, pai de Alexandre o Grande. Mais tarde, porém, sua maior honra foi tornar-se colônia romana. Os que ali viviam não se orgulhavam apenas do passado conquistador de Filipe, mas sobretudo do privilégio de serem cidadãos de Roma. Não ansiavam por deixar Filipos para morar na superlotada capital; ao contrário, era justamente em Filipos que viviam plenamente sua cidadania. A cidade inteira era uma pequena Roma plantada na Macedônia, refletindo em miniatura a cultura, as leis e o prestígio da metrópole.

Em Filipenses 3:20 (carta escrita quase 40 anos após Filipos se tornar colônia romana) Paulo diz a orgulhosos herdeiros de duas grandes e históricas empresas militares: “Nossa pátria está nos céus

Assim como o cidadão filipense não precisava migrar para Roma para ser romana, os cristãos não precisam fugir deste mundo para viver como cidadãos do céu. Eles são chamados a encarnar aqui e agora os valores do Reino de Deus, sendo embaixadores em uma terra marcada pela corrupção, idolatria e divisão.

Se nos afastarmos uns minutos das coisas que nos distraem, e dedicássemos esse tempo a sermos apenas observadores do quadro brasileiro, devemos ser honestos e notar que a sociedade está polarizada, alimentando ódio mútuo.

Outra coisa que precisa destacada, é que a tentação do cristão é ou se isolar (esperando escapar do mundo) ou se alinhar cega e tribalmente a um dos polos.

Porém, o chamado é outro: ser colônia do céu no Brasil, mostrar em nossas relações, trabalho e política uma nova forma de humanidade que não é marcada pelo rancor, mas pelo serviço, amor e justiça. Aqui cabe Nygren: o motor dessa nova humanidade não é o eros da busca egoísta ou da autopreservação, mas do ágape, o amor que se doa gratuitamente, sem esperar retorno, refletindo a própria natureza de Deus

N.T.Wright (de quem extraio o paralelismo de Filipenses) destaca que a verdadeira esperança cristã não está em sistemas políticos, mas na nova criação inaugurada em Cristo.

Aplicação prática diária:

Como a Igreja (não necessariamente a instituição eclesiástica) pode ser agente de reconciliação e esperança em meio à polarização

Algumas ideias: cultivar diálogo em vez de ódio, serviço em vez de autopreservação, e esperança em vez de cinismo político.

Endividamento das Famílias Brasileiras

Dados recentes mostram que quase 80% das famílias no Brasil estão endividadas. E que as famílias brasileiras gastam 28% da renda com dívidas. Quase o triplo da média de países desenvolvidos!

O peso dos juros e o endividamento crescente geram ansiedade, desigualdade e sofrimento, afetando de forma especial os mais vulneráveis.

As teologias da libertação

Seja por puro desconhecimento ou por pérfida porfia, as teologias da libertação tentam atacar este problema desde um plano puramente humano e com uma lógica puramente marxista pintadas externamente de cristianismo.

Não que a luta deles não seja sincera, ou honesta, ou necessária. Mas que mistura dois elementos incongruentes como forma de apaziguar a consciência sem produzir os frutos que tanto dizem almejar. Ou será que, no fundo, estão perseguindo precisamente os frutos que declaram combater?.

Gramsci (que critica aspectos da aplicação prática do marxismo, não Marx em si), ao falar de hegemonia cultural, critica a ideia de transformação apenas por força bruta ou pela imposição direta da economia/política. Segundo ele, a mudança real acontece lentamente, no nível da cultura, da consciência e da moral coletiva. Ou – dito de outra forma – a revolução não viria apenas pela luta de classes armada, e sim pela conquista da cultura, da educação, da moral e da religião, complementando assim o manifesto comunista.

Libertação, Justiça e o Evangelho no Quotidiano Económico

Desprezamos a graça e o amor como forças fracas. E de fato o são, assim como a gravidade é de longe a mais fraca das quatro forças fundamentais da natureza (gravidade, força eletromagnética, força nuclear forte e força nuclear fraca) e é por ela que as coisas não andam boiando ai à baila.

A graça de Deus confronta as estruturas opressoras e chama à responsabilidade social. Teólogos da estatura de N.T.Wright ressaltam que o Evangelho é a boa notícia para os pobres e oprimidos, e que a Igreja (ou seja, não a instituição e sim o corpo de Cristo) deve ser agente de justiça e solidariedade.

Como podemos, agora sim como comunidade local de fé e prática cristã, ser instrumentos de libertação e apoio prático aos que sofrem sob o peso das dívidas? Não será que a crítica de que tratamos das coisas do além, ou da eternidade em detrimento das terrenas e temporais não tem um fundo de razão? E não será que há um pouco de escapismo em pensar em salvação apenas da alma e para a eternidade? Talvez não seja o caso de enxergarmos nas dívidas uma forma prática e urgente de libertar os oprimidos desta geração?

Ao definir seu próprio ministério, o nosso Senhor cita o profeta e diz “O Espírito do Senhor está sobre mim … para proclamar libertação aos cativos…” (Lucas 4:18-19)

Mas também vemos que era uma questão ancestral já proclamada na Lei: “Proclamem liberdade na terra a todos os seus habitantes…” (Levítico 25:10)

E sem lugar a dúvidas era uma preocupação de alguns apóstolos logo depois da assunção de Jesus: “Se um irmão ou irmã estiver necessitado…” (Tiago 2:15-17)

Se há governos interessados em manter o povo escravizado pela ignorância financeira, não deveríamos nós, como igreja, ensinar a verdadeira liberdade que inclui também o uso responsável dos bens?

Qual foi a última vez que na sua igreja houve alguma aula de escola bíblica ou similar sobre educação financeira?

Chamados à infância do Reino: proteger, acolher e formar

Há algo profundamente errado quando uma criança deixa de brincar cedo demais. O fenômeno da “adultização” infantil não é apenas sobre roupas inapropriadas, exposição a conteúdos violentos ou pressões escolares exageradas. É sobre uma infância sequestrada pela pressa do mundo — uma pressa que transforma filhos em miniaturas de adultos ansiosos e pais em espectadores cansados diante da avalanche de telas e discursos.

Robert Raikes
Robert Raikes – Fundador da Escola Bíblica

Antes um pouco de história.

Se tomarmos em conta a Idade Média até o início da Idade Moderna (Séculos V a XVII) observamos que a infância não era vista como uma fase diferenciada da vida. Assim que saíam da primeira infância, as crianças eram tratadas como adultos em miniatura. Ou seja, usavam roupas semelhantes às dos pais, participavam do trabalho familiar (Tarefas domésticas, oficinas, campo, etc.) e a educação formal era restrita a poucos.

Com o avanço da pedagogia nos séculos XVII-XVIII, do pensamento iluminista e mais tarde de Rousseau, surge a ideia de que a criança é um ser em desenvolvimento, com necessidades próprias. A educação passa a valorizar o ritmo infantil e a infância começa a ser vista como uma etapa específica da vida.

É justamente nesse contexto que surge a primeira escola bíblica em moldes bastante parecidos com as atuais e cujo espirito faríamos bem em resgatar. Robert Raikes (o senhor na imagem anterior. Um anglicano leigo que era jornalista e filantropo) organiza a primeira Sunday School (Escola Dominical). O objetivo era educar as crianças pobres e trabalhadoras, ensinando-as a ler e escrever a partir da Bíblia. E isso acontecia aos domingos, pois as crianças passavam a semana em fábricas. Se bem era um projeto social e missionário, estava longe de ser proselitista. (Hoje temos um problema serio com isso, somos tão mesquinhos que se a pessoa não congrega, não damos ajuda. Uma vergonha)

Se avançamos para o século XIX com a sua revolução industrial, vemos que ela trouxe (a um ritmo alarmante para a época) sérias contradições. Crianças eram exploradas em fábricas e minas, mas, ao mesmo tempo, começaram os primeiros movimentos de legislação protetiva que eram contra o trabalho infantil na Inglaterra a partir de 1833. A escola pública obrigatória (final do século XIX) reforçou a separação entre infância e vida adulta.

Foi durante esse período que o movimento se espalhou rapidamente pela Inglaterra e depois pelos Estados Unidos e outras partes do mundo. Lentamente a ênfase passou de alfabetização para instrução religiosa sistemática. A primeira escola bíblica em solo tupiniquim foi realizada em 1855 em Petrópolis/RJ organizada por Sartah Kalley, missionária escocesa da Igreja Congregacional e esposa do Dr.Robert Kalley considerado um dos pioneiros do protestantismo no Brasil.

Finalmente, no século passado, se consolida a concepção moderna da infância como tempo de proteção, educação e formação. As roupas se diferenciam nitidamente, brinquedos e literatura infantil se multiplicam e convenções internacionais (como a declaração dos direitos da criança da ONU em 1959) cristalizam a infância como categoria própria

A adultização de crianças em solo tupiniquim

Vivemos num país em que, paradoxalmente, se discute tanto a proteção da infância e, ao mesmo tempo, se normaliza a exploração dela. As redes sociais transformaram crianças em produto. A publicidade lhes rouba o encanto da descoberta. O sistema educacional, muitas vezes, lhes impõe competitividade antes de tempo. E nós, famílias e igrejas, ficamos atordoados diante de um cenário onde o “deixai vir a mim os pequeninos” (Mc 10:14) parece ecoar contra nós como acusação.

A Escritura nunca romantizou a infância. Mas Jesus a ressignificou como metáfora da entrada no Reino: dependência, confiança e vulnerabilidade. A criança não é um adulto em miniatura, nem um projeto de consumo. Ela é dom de Deus, herança preciosa (Sl 127:3), chamada a florescer sob cuidado e disciplina que não provoque à ira, mas à vida (Ef 6:4).

A neo-ortodoxia de Barth e Tillich lembraria que não se trata de um problema moral isolado, mas de um sintoma da queda: nossa tendência de instrumentalizar o outro, inclusive os mais frágeis. N.T. Wright acrescentaria que a comunidade cristã é chamada a ser sinal do novo mundo de Deus, onde os pequenos não são explorados, mas acolhidos como protagonistas da fé.

Atitudes necessárias a partir do Reino

O que fazer, então? A primeira resposta não é política pública, embora ela seja necessária. É conversão comunitária: famílias que redescobrem o tempo da escuta, igrejas que não apenas “dão espaço” às crianças, mas reconhecem nelas mestres da fé. Um espaço onde brincar não é perda de tempo, mas sinal de eternidade; onde a formação não é pressão, mas cultivo paciente.

A pressa em fazer das crianças adultos cedo demais revela, no fundo, nossa incredulidade. Não confiamos no tempo de Deus, não confiamos no Reino que cresce como semente em silêncio. Transformamos filhos em fardos ou vitrines, quando deveríamos recebê-los como parábolas vivas da graça.

Se não nos arrependermos, repetiremos o ciclo: filhos cansados, famílias esvaziadas, igrejas sem infância. Mas se ousarmos, como comunidade, recuperar a infância — não apenas a das nossas crianças, mas a nossa diante de Deus — então seremos, de fato, “pequenos” no Reino. E ali, paradoxalmente, encontraremos grandeza.

Informe Kinsey à la Tupiniquim

Um pouco de história

Alfred Kinsey e sua equipe foram responsáveis por uma mudança profunda nas pesquisas sobre sexualidade humana.

Publicado nos Estados Unidos, o primeiro volume, “Sexual Behavior in the Human Male” (1948), e o segundo, “Sexual Behavior in the Human Female” (1953), revolucionaram a compreensão pública e acadêmica sobre o comportamento sexual.

Este estudo trouxe luz sobre a realidade (em comparação com o ideário popular) sobre assuntos tão variados como Diversidade do Comportamento Sexual, Incidência de Comportamentos Homossexuais, Masturbação e Fantasias Sexuais e Infidelidade e Relações Extraconjugais.

O Informe Kinsey foi controverso e enfrentou críticas por sua metodologia e por desafiar as normas sexuais vigentes. No entanto, também foi elogiado por sua contribuição para a compreensão científica da sexualidade.

Para chegar a tais resultados tão diferentes do que era o ideário popular, Kinsey e sua equipe lançaram mão de uma metodologia rigorosa e inovadora para a época envolvendo entrevistas detalhadas e padronizadas para coletar dados sobre o comportamento sexual de milhares de americanos como entrevistas pessoais e questionários estruturados.

Kinsey também fez um esforço consciente para incluir uma amostra diversificada de pessoas de diferentes idades, gêneros, orientações sexuais, ocupações e origens geográficas. Porém, vale ressaltar que a amostra não era totalmente representativa da população geral, o que foi uma das críticas ao estudo.

Seja como for, os entrevistadores foram rigorosamente treinados para que todas as entrevistas fossem feitas de forma consistentes e sem julgamentos visando garantir a precisão e a confiabilidade dos dados coletados.

Após a coleta a equipe tabulou esses dados e usando os melhores métodos estatísticos avançados analisaram as respostas identificando padrões e tendências no comportamento sexual. Esses dados são a base de muitos estudos e também de várias políticas publicas não apenas no grande pais do norte, mas em quase todo o mundo.

O Instituto Kinsey para Pesquisa em Sexo, Gênero e Reprodução foi fundado em 1947 pelo Alfred Kinsey na Universidade de Indiana nos Estados Unidos.


Uma reflexão

Entendo ser um ponto bastante comum dizer que o que é verdade nos Estados Unidos não necessariamente é verdade no resto do continente e muito menos no resto do mundo.

Isso bem pode ser verdade com aquelas coisas que são conseqüências das decisões culturais de cada povo ou nação, mas eu tenho a forte suspeita que até essas decisões são fruto de uma coisa mais profunda e viceral chamada natureza humana. Com isso não necessariamente me refiro a algo que seja completamente natural, mas sim adquirido na sociedade da qual a menor e mais importante representante é a própria família que absorve e promove certos valores ou o que elas acham serem os valores certos.

Logo, devo concluir que informes do tipo dirigido por Alfred Kinsey trazem à tona uma coisa que o teólogo já conhece: o ser humano é completamente depravado. Mas me aguarde antes de tirar suas conclusões tipo rede social. Isso aqui não é para passar por alto rapidinho.

Umas brutalidades

Dois fatos recentes têm exposto em nosso próprio solo a validade não apenas do informe Kinsey, mas de outros similares e da validade da Escritura em pleno século XXI assim como a necessidade de um aggiornamento nos nossos arraiais evangélicos (no excelente e bom sentido da palavra evangélico)

A pandemia de COVID-19 revelou várias coisas. Não apenas o perigoso desleixo com que vivemos a vida política pública representativa (que nada mais é do que isso, uma representação pública da nossa política mais viceral amarrada aos nossos medos e falências) mas também o quão enviesados somos assim como o quanto estamos longe, como famílias comuns, dos ideais que a própria sociedade promulga. Além dessas coisas, a pandemia também revelou o completo descalabro da igreja institucionalizada que demorou a usar os meios de comunicação eletrônicos e insistiu em aberrações sanitárias como a essencialidade do culto publico.

A outra coisa que a pandemia, ou melhor, o isolamento social decorrente da pandemia demonstrou é a incapacidade que temos de lidar com o diferente. Há várias fontes cientificas (isto é, que têm método mensurável por outras) que poderiam ser citadas, mas um bom resumo disso, vem da Anafe ao dizer:

Estudos demonstram que, durante o segundo ano de isolamento social decorrente da pandemia, o número de divórcios feitos em cartórios de notas do país subiu 26,9% de janeiro a maio só em 2021, em relação ao mesmo período de 2020. Se comparado a igual período de 2020, o crescimento foi de 36,35% em 12 meses.

https://anafe.org.br/divorcios-na-pandemia-que-dizem-os-dados/

Esses dados são seguros pois na conformação social em que vivemos, um divorcio formalizado impacta a criação dos filhos, mas – e isso é mais importante para muitos – as finanças do casal que se desmancha.

Então para além desses rompimentos formais, deveriam ser adicionados os informais.

Esta brutalidade da pandemia com todas suas conseqüências, e sendo um evento natural, expôs – como se o recuo das águas de um rio se tratasse – as pedras afiadas que estão no leito.

O que muito afligiu é que a igreja (em particular a ala evangélica em contraposição da fundamentalista) não deveria ter sido pega de surpresa. Ou seja, somos plenamente cientes não apenas da depravação humana (e com isso concordamos com o fundamentalismo) mas também temos acesso e aceitamos informes não ortodoxos como o de Kinsey que nos falam dos problemas e das agruras reais dos relacionamentos para lá dos ideais que pregamos. Voltaremos sobre isso.

As enchentes no Rio Grande do Sul (e é preciso falar em plural não apenas pelo fato ter se repetido mais de uma vez nos últimos anos, mas porque desta vez – em maio de 2024 – se repetiram várias vezes e de forma devastadora em um curto período de tempo) empurrou boa parte da população dos mais diversos estratos sociais a terem de viver e conviver de um modo diverso ao que estavam acostumados.

Se vendo nessa situação de mudança do seu habitat natural, o bicho ser humano manteve seus instintos mais viscerais funcionando em um numero que – espero – não é o total, mas o suficientemente alto como para alarmar. Tanto assim que o próprio governo do Estado do Rio Grande do Sul teve que disponibilizar abrigos separados para as mulheres e crianças numa volta rápida e obvia ao velho ditado de “mulheres e crianças primeiro”.

Nos inúmeros reportes televisados e “youtebizados” aos que assisti, um deles me chamou a atenção em que o repórter ou “youtuber” (não me peça para lembrar agora) mostrava uma rata escapando da agua da enchente. Triste representação gráfica do que acontece não apenas no RS mas no pais inteiro.

É redundante dizer o obvio: a população toda (ou pelo visto a grande maioria) sofre com o que está acontecendo no estado mais ao sul do nosso pais. Famílias inteiras mortas, mulheres e crianças sendo abusadas, casas sendo assaltadas e a infraestrutura tão necessária para a pronta recuperação quase que completamente destruída pelo poder da água.

Esse sofrimento – que já de por si seria terrível – se vê incrementado pela resposta irresponsável de alguns cidadãos. Algumas coisas me chocaram se bem que não mais deveriam porque eu sei que é fruto da mesma árvore e tenho visto esses frutos em repetidas ocasiões das mais diversas formas.

A mais simples dessas e aparentemente superficial é a disseminação de noticias mentirosas, ou fake news. Isso aliado com as teorias conspiratórias. Lia esses dias de que quem vive sozinho é mais propenso a crer e a disseminar teorias conspiratórias. Faz sentido. A noticia mentirosa – que muitas vezes surge como piada, sarcasmo ou informação parcial – encontra seu combustível nos vieses confirmatórios que todos nós temos. Ou seja, todos nós tendemos a aceitar e repetir informação que de alguma forma confirma ou reforça uma crença previa. Se bem ela encontra seu combustível na subjetividade individual, a via pela qual trafega atualmente é a das redes sociais onde um certo espirito de aparente anonimidade governa os usuários das mesmas as que – por sua vez – apenas lhe interessa o lucro sem lhe importar de forma séria e autônoma alguma forma de verificação de fatos. O remédio para isso? O mesmo que para a velha e conhecida fofoca: não repita se não sabe se é verdade. Se a “noticia” confirma alguma coisa que você acredita, desconfie. Se vem por uma rede social, desconfie mais ainda. Se vem apenas da família, tenha todas as reservas possíveis.

A outra coisa que me chocou e que acho cada vez mais repugnante é a falsa ideia propagada em nosso meio (falo do nosso por não ter autoridade para falar de outros, mas presumo que seja parecido) de que essas brutalidades como a tsunami na Indonésia ou a pandemia de COVID-19 ou as enchentes no Rio Grande do Sul são um castigo divino. Ou na sua expressão mais simples, desrespeitosa e carente de conhecimento tanto bíblico como social: “mereceram”ou “bem feito” ou “é castigo divino”

Há pessoas que não tem o mais mínimo temor ao falarem uma coisa dessas. Vamos primeiro pelo lado social. Conheço o povo gaucho. Viajei muito nos estados do Sul com meu pai. Se há algum lugar em que me sinto seguro é com os gaúchos. E não que não me sinta bem ou seguro em qualquer outro lugar já que sei dos anjos que o Senhor coloca em sua providência para cuidar-nos. Mas é que minha vivência com os gaúchos é de viceral confiança.

Lembro de que quando minha primogênita tinha alguns meses a levamos para que minha família a conhece-se. Era julho de 1996. Fomos de Corcel II movido a álcool numa viagem de 1700KM aproximadamente. Chegamos no Chuí, RS no horário limite para poder encontrar um lugar onde deixar o carro e pegar o ônibus para atravessar a fronteira até a casa dos meus pais. Não haviam serviços de internet como agora que pudéssemos ir abreviando tempo. Tinha que ser face a face. Dei uma olhada naquela noite escura e fui num posto de combustíveis que costumava ir com meu pai de pequeno. Fazia uns doze anos que não passava pela cidade. Enquanto orava, olhei para os frentistas e escolhi um. Chamavam ele de “alemão” por razões notórias. Falei “Boa noite, você mora aqui no Chuí, correto?”. Ele me respondeu “sim”. Ai afirmei “Você tem lugar onde eu deixar minha ximbica (já declarando que não morava em RS pois ximbica é carro velho em SP). Quanto me cobra para deixar ele vinte dias?”. Ele olhou assombrado para os lados atrás de mim e atrás dele e falou “Mas você me conhece?”. “Nem um pouco” – lhe disse – “mas conheço quem te conheçe”. Ele terminou de abastecer e me levou até a casa onde larguei o carro após desconectar a bateria e fui correndo para o terminal rodoviário. Quando voltei lá estava meu breguinha azul-calcinha completinho esperando por mim. Bateria conectada e duas partidas depois ele estava em marcha… a álcool e em pleno inverno gaucho.

Se alguém te diz que é merecido por causa do caráter deles, pergunta de imediato pela experiência que eles tem com tal povo. Pode ser que seja superficial, parcial, inexistente ou apenas está repetindo um ódio que recebeu de alguém. Agora, mesmo que alguns se comportem de um jeito inapropriado, é isso motivo de assegurar que é um merecimento para a população em geral?

Me é necessário atacar finalmente o problema do “castigo divino”. Não porque negue o castigo divino, mas porque nego a falta de seriedade e temor com que essa frase é dita. Há uma passagem de simples compreensão na escritura que deveria selar nossos lábios para dizer uma barbaridade dessas:

1 E, naquele mesmo tempo, estavam presentes ali alguns que lhe falavam dos galileus cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios. 2 E, respondendo Jesus, disse-lhes: Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? 3 Não, vos digo; antes, se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis. 4 E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? 5 Não, vos digo; antes, se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis.

Lucas 13:1-5 (ARC2009)

Esse é meu problema. No fundo da expressão “Deus os castigou” está o pensamento de que eles são piores que os outros. Não, os gaúchos são iguais aos nordestinos, aos paulistas, aos paraenses, enfim… No sentido de culpabilidade perante o juiz eterno, somos iguais.

E pensamos assim, ao respeito de tudo, governo, família, opção sexual, religião, etc… Quando acontece uma desgraça nos apressuramos a dizer “E também, com a conduta que têm, o que você esperava?. Merecido foi.” Não apenas ao respeito de uma catástrofe natural, ou do estado do Sul, de tudo e todos. Nos parecemos ao fariseu da parábola:

11O fariseu, em pé, orava em seu íntimo: ‘Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: roubadores, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este cobrador de impostos. 12 Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’.

Lucas 18:11-12 (KJA)

A patética condição humana

Foi a pandemia chegar ou as aguas subirem que se colocaram em funcionamento duas coisas: pessoas realmente interessadas em ajudar o próximo e os aproveitadores de plantão.

Sobre o primeiro grupo, não tenho nada a falar a não ser que nunca é de menos e de que – mesmo a própria tarefa sendo ingrata ou incômoda – o resultado final é muitíssimo bom e agradável. Vale a pena.

Já sobre os outros, gostaria de me distanciar dos pensamentos de segregação como se eles fossem outra coisa que não seres humanos. Precisam sim serem tratados de forma diferenciada porque seus atos (alguns deles bestiais) demonstram o quão baixo caíram e o convívio com o restante da população é impossível. Esse é um desafio constante para a sociedade mas é bem simples de resolver se aceitamos que há inocentes ou que – de fato – há pessoas mais vulneráveis que outras. O velho adagio de “mulheres e crianças primeiro” deveria ter aparecido antes nessa equação.

Agora, o que estes seres de conduta réproba colocam em claro é que a raça humana está degradada. Há os que escondem melhor que os outros. Há alguns que nunca serão tido como pessoas de baixo calão ou de alma imunda. Pelo menos não deste lado da eternidade. E há os outros que – quase como animais – mantêm suas práticas privadas em ambientes de convívio público emergencial. (Como a grande maioria faz nas redes sociais)

Em lugar de assustarmos e apontarmos o dedo, devemos de aceitar que sob a camada idealizada de uma sociedade composta por famílias que funcionam de acordo com um determinado padrão, há uma realidade obscena, suja, violenta que insiste em se manter com vida.

Não que os ideais não estejam corretos. Os ideais estão certos. Mudar os ideais por ideias mais simples é apenas baixar a barra. Diminuir o ideal apenas contribui para descobrirmos novas formas de violência talvez mais sutis e sorrateiras.

Agora, declararmos que vivemos em dissonância com o ideal proposto com a Bíblia, ajuda grandemente na resolução dessa equação. Aliás é apenas o primeiro ponto para uma possível solução. São coisas que devem ser ventiladas em nossas Escolas Bíblicas, nos nossos cultos e nos nossos estudos bíblicos nas casas. Não se trata de abandonar o ideal, se trata de reconhecer que acreditar num ideal não é de forma alguma uma garantia de que nossa construção social está em consonância com ele.

Em algum sentido o ideal bíblico é uma utopia. Ou seja, é um lugar que não existe. Uma fantasia, um devaneio, um sonho. Ou dito de outra maneira: não existem famílias perfeitas. Ficou mais fácil assim? Então, a formula fácil esconde a dificuldade. A utopia nos propõe um local para além da realidade. Ou seja, um ponto no infinito para ser o alvo pelo qual caminhar nesta vida. Alvo este que – sabemos desde o início – não será alcançado em 100%, mas o mais perto que cheguemos do alvo é melhor do que trazer o alvo para níveis mais palatáveis ou “menos utópicos”

As enchentes no Sul, assim como o informe Kinsey, nos escracha uma realidade patética da nossa sociedade que tentei expor brevemente aqui. É uma forma brutal de expor a realidade. O apelo deste pequeno escrito é a lidar com essa realidade sabendo que – assim como o informe Kinsey tem se comprovado na observação de outras sociedades distintas da estadounidense – essa mesma realidade está presente em nossa sociedade em geral e em nossa igreja em particular. Viver em negação além de não ajudar em nada a não ser piorar as coisas, é uma vergonha e perca de tempo.

Inclusão cristã

No movimento de Jesus, a mensagem de liberdade e inclusão era uma das características centrais. Jesus desafiou as normas sociais de sua época, acolhendo e convidando todas as pessoas a segui-lo, independentemente de sua origem étnica, status social, gênero ou histórico de vida. Sua ênfase na amorosa inclusão ecoou nas palavras e ações dos primeiros seguidores de Jesus.

No contexto cristão dos dias de hoje, no entanto, ainda podemos identificar movimentos e teologias que, infelizmente, excluem certas pessoas da comunhão dos seguidores de Jesus. Às vezes essa exclusão é feita com base em doutrinas rígidas, diferenças sociais ou culturais, e orientação sexual ou identidade de gênero.

Isso demanda de nós um exercício bem eclético que nos leva para longe do assim chamado fundamentalismo cristão. Fundamentalismo aqui nada mais é do que tirar sempre as mesmas conclusões sem nada haver de novo ou que nos cutuque na leitura e interpretação da escritura.

Todavia, esse movimento não pode ser confundido com liberalismo mesmo requerendo liberalidade amorosa. É aquilo de se arriscar no acantilado para resgatar a ovelha.

Vivemos numa sociedade mimada que confunde o amor com liberdade irresponsável. Por outro lado, observamos que a igreja se vê acuada diante de tanta pressão social que – convenhamos – é uma pressão espiritual. Como se amar não fosse também almejar mudanças! Que o digam os pais que amam seus filhos. (Há aqueles que os detestam e também os que praticam alienação parental. Esses servem como exemplo de como não proceder)

Desde a Torá nos seus lembretes de amar a Deus por cima de todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo que a mesma ideia se vem repetindo uma e outra vez: não deixe que seu próximo vá para a morte. Ou dito de outra forma, Jesus faz menção aos textos do antigo testamento e no contexto de Levitico 19 encontramos o seguinte:

Não odiarás a teu irmão no teu coração; não deixarás de repreender o teu próximo, e não levarás sobre ti pecado por causa dele.  

LEVÍTICO 19:17

Então, e antes que diluamos o poder do evangelho em afetos puramente terrenos e agendas antropocentristas, é urgente salientar que essa aceitação do Novo Testamento não é uma inoperante ou ineficiente, mas sim aquela que sacia a alma e transforma a totalidade do ser humano.

Talvez seja tempo de resgatar a velha ideia da theosis a partir do novo Adão que teólogos antigos como Irineu promoviam. Não para uma salvação apenas espiritual da alma no além, mas para uma vida enriquecedora e significativa agora.

Então Jesus pôs-se em pé e perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou?”

“Ninguém, Senhor”, disse ela.
Declarou Jesus: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado“.

João 8:10-11

O povo que andava em trevas…

Engraçada a vida de um político qualquer, digamos, dos que lhes cabe ocupar a presidência.

Há alguns anos, o atual ex-presidente era tido por um Messias. Ele se pensava como o paladino da justiça; o defensor de valores morais; o arauto da verdade; o mensageiro da liberdade verdadeira e por aí vai.

Agora chega o atual presidente e se julga no direito de dizer que “saímos das trevas” (CNN 19/jan/23 – 14:44). Para onde vamos ao sair das trevas? Bem, para a luz, obvio. Parece ser uma fixação dele usar certas falas que não lhe pertencem. Ele (ao ser preso justamente em 2018) já tentou dizer que tinha virado uma ideia… que deixava de ser um homem para ser uma ideia.

Essas coisas que tem o poder, né? Coisas bem toscas e absurdas como tentar substituir o Cristo na vida prática das pessoas.

É verdade (e a verdade não se lhe nega a ninguém) que se viveu um obscurantismo nos últimos quatro anos. Negar isso, faz parte de um esquema Olavista de pensar em que tudo é uma grande conspiração e que é melhor negar tudo, até os fatos (quanto mais as ideias). Então concordamos com o presidente nisso, mas querer sugerir que a luz vem de mão dada de um político. Senhores….


Em terras distantes há um ditado que diz “A culpa, não é do porco se sim de quem lhe coça as costas” significando que se você tem um porco dentro de casa fazendo o que lhe corresponde por natureza, não se lhe pode atribuir culpa ao procedimento, já que ele se encontra ali, na sala da casa, a convite do proprietário. Então se temos os presidentes que temos tido, é por pura irresponsabilidade nossa e a única forma de reverter isso, é o de dia após dia lembrar que os olhos devem estar fixos em Jesus e seus princípios. Políticos são e devem ser trocados como as fraldas (e pelos mesmos motivos) parafraseando a Eça de Queiroz (talvez)

Assim como no governo anterior muitos foram enganados e levados lenta e piamente a acreditar ser o “enviado”, o “escolhido”, o “separado”, assim também hoje podemos ser levados a crer coisas similares e se não cortamos rente e desde o início, depois é tarde.

Tanto aquele que se achava o Messias, como este outro que se acha a luz, ou a ideia, só tem uma pretensão: substituir a missão e função do Cristo (escolhido em grego) no coração das pessoas.

É missão da igreja lutar ferrenhamente contra isso. Era o que Paulo fazia. Segundo ele em Colossenses 1:13 não era o imperador o que nos resgatava de um poder e nos colocava sob outro, e sim Jesus: Cristo e Logos.

Não interessa se o governo é de esquerda ou de direita, a função da igreja é a de se manter alerta contra essa mimetização muito bem pensada do próprio Cristo.

Pense nisso… rápido