Cristo não negocia tarifas

A semana passou, os holofotes de Davos se acenderam, e o velho teatro do poder voltou ao palco. Desta vez, com um roteiro pouco sutil: tarifas como arma, alianças como moeda de troca e a Groenlândia tratada como se fosse um ativo disponível em prateleira geopolítica. Não é apenas economia. É liturgia imperial.

Quando nações grandes pressionam nações menores “em nome do interesse nacional”, o que aparece não é força, mas idolatria. Idolatria do mercado, da segurança, da soberania absolutizada. O império sempre fala a língua da necessidade: precisamos disso, é estratégico, é inevitável. Babel nunca sai de moda; só muda o vocabulário.

N. T. Wright insiste que o anúncio central do cristianismo não é um conjunto de valores espirituais, mas uma afirmação pública e perigosamente política: Jesus é Senhor. Isso significa, sem rodeios, que ninguém mais é. Nem presidentes, nem mercados, nem blocos econômicos. Quando Estados agem como se fossem fins últimos, já cruzaram a linha que separa governo de divindade.

O problema não é ter poder econômico. O problema é quando o poder deixa de servir e passa a exigir culto. Tarifas viram castigo moral. Sanções viram instrumento pedagógico. Povos inteiros são reduzidos a peças substituíveis num tabuleiro que nunca é deles. O império sempre se apresenta como racional, mas age com a velha lógica do medo: dominar para não perder.

O Salmo 2 descreve esse cenário com ironia cortante: as nações conspiram, os reis se enfurecem, os poderosos se aconselham. E Deus não entra em pânico. Ele ri. Não por desprezo ao sofrimento humano, mas porque todo projeto que se pretende absoluto já nasce provisório. A história não pertence aos que gritam mais alto, mas àquele que governa sem precisar ameaçar.

A igreja, quando esquece isso, se torna previsível – e, portanto, capturável. Passa a repetir slogans de estabilidade, prosperidade ou “defesa da civilização” sem perceber que trocou o evangelho por uma versão batizada do realismo político. Cristo vira um símbolo decorativo pendurado no salão onde decisões injustas são tomadas.

Daniel fala de um reino que não nasce de mãos humanas e não depende de alianças frágeis. Um reino que não se sustenta por tarifas, exércitos ou chantagem econômica. Esse contraste é o julgamento mais severo sobre o nosso tempo: tudo o que precisa ser imposto à força revela sua própria fragilidade.

Ser igreja, em meio a guerras comerciais e disputas imperiais, não é escolher um lado “mais simpático”. É recusar a lógica inteira. É lembrar – com palavras e com práticas – que o mundo não será salvo por quem acumula poder, mas por quem governa a partir da cruz.

E isso continua sendo profundamente desconfortável. Para os impérios. E, às vezes, para a própria igreja.

Agora, isso que nos parece tão distante, deve nos servir para refletir nossa própria submissão aos poderes deste mundo em pleno ano eleitoral brasileiro. No decorrer dos próximos meses, se acentuará a defesa de um e outro lado como se um ou outro refletisse o senhorio de Cristo e isso é preocupante.

Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.