Vivemos tempos conturbados em que quem tem poder fala forte e quem não o tem é obrigado a se adaptar da melhor forma possível. A igreja, por sua natureza conservadora e sua função de “sal da terra” usualmente confunde isso com nacionalismo ou com alinhamentos políticos mais à direita quando não do lado da extrema-direita. Isso é preocupante. Com isso não estamos dizendo que – necessariamente – a esquerda seja uma opção ou caminho. Mas dizemos que a igreja deve se manter livre e se comportar como cidadãos democráticos exemplares visando sempre a melhor opção para a sociedade em que vive ora movendo a balança para um lado, ora para outro, mas nunca sendo previsível. Ser previsível a torna em fácil refém do palanque politico de um ou outro lado. Isso é, liberdade de pensamento e liberdade de expressão na prática.
Uma das personagens preocupantes no atual cenário é o atual ocupante da Casa Branca assim como o é o ocupante do Kremlin. Há mais, mas fiquemos apenas com o primeiro da lista e sua recente atuação nos casos de imigração. Recentes reportes indicam que a imigração nos Estados Unidos é uma situação de grande envergadura com dados indicando mais de 2.7 milhões de pessoas entrando no ano de 2024. Isso, evidente sobrecarrega o sistema como um todo e enfraquece o país em várias áreas além de – por mais que melhore a vida de quem migra em parâmetros relativos – colocar o migrante em situação vexatória ou como uma classe inferior perante seus pares nacionais.
Com a mudança do habitante da Casa Branca, mudou a política de recepção de imigrantes fazendo com que – por primeira vez em 50 anos – haja uma depressão dos números com uma saída neta de 925.000 pessoas e uma entrada de 185.000 no ano de 2025. Recentemente a secretária de Segurança Nacional (o que seria equivalente a um ministro tupiniquim) afirmou que Estados Unidos tem “arrestado, detido e deportado a seus países de origem” a mais de 650.000 imigrantes indocumentados e que perto de 2 milhões tem se auto deportado. Além disso, se revogaram 100.000 visados estrangeiros em 2025. Para ter uma ideia, apenas em 2025 se revogaram mais do que o dobro em todo o governo Biden. (Ver https://www.telemundo.com/noticias/noticias-telemundo/inmigracion/mas-inmigrantes-salieron-de-los-que-llegaron-a-estados-undios-en-2025-rcna253930)
É obvio que para os Estados Unidos não é nada bom ter imigrantes ilegais. Não apenas pela entrada no país, senão pela sua permanência em situação de semi-residente sem direito a nenhum tipo de assistência a não ser a mais básica e até essa é difícil de obter. Insisto que para quem migra, é – em termos relativos – melhor viver como ilegal lá do que no restante das Américas. Mas ele não percebe que isso mesmo degrada o país ao qual ele se acolhe.
Um titular interessante desses dias diz assim: “Trump ameaça invocar a Lei da Insurreição para reprimir protestos contra abusos de agentes federais“. O artigo contem múltiplas denúncias de violência e mortes em custódia de imigração (ICE), inclusive em Minneapolis e no Texas.
Há relatos de uma “violência sem precedentes” cometida por agentes de imigração e várias mortes de imigrantes sob custódia apenas nos primeiros dias de 2026.
Se colocarmos a lupa sobre os eventos da última semana, veremos que os protestos têm crescido. Se protesta contra abusos de autoridades de imigração dos EUA, incluindo mortes de imigrantes sob custódia e o uso excessivo da força. O governo tem reagido de forma dura, até ameaçando de usar mecanismos legais de exceção para conter manifestações. Tudo isso, evidentemente, expõe tensões profundas em torno da justiça, da dignidade humana e do tratamento dos estrangeiros.
Se perguntarmos para um cristão americano típico do meio oeste ele fervorosamente vai defender a posição do atual presidente. Não que ele não tenha esse direito, mas mostra uma visão oblíqua e estreita do problema como um todo e – ao parabenizar e concordar com o presidente – terceiriza a responsabilidade do que lhe deveria ser mais sagrado por ser isso o que o distingue de outros animais: a capacidade de pensar. O livre pensamento demanda … pensar. E isso, parece que é um bem cada vez mais escasso haja vista a tremenda polarização entre os extremos da vida política mundial.
A Palavra de Deus, em Cristo, – diria Barth – julga tanto as estruturas injustas quanto a própria igreja quando ela se associa a nacionalismo excludentes. A sociedade não tem essa consciência de um Cristo que é o Juiz Justo. A Igreja, sim, tem. Ou ao menos deveria.
Ao longo de toda a Bíblia, o Senhor se lembra dos julgados e marginalizados. E – insisto – por mais que para o imigrante lhe seja uma situação relativamente melhor do que a que vive em seu pais de origem, de fato está ajudando a desconstruir uma nação ao passo que não ajuda a construir a sua.
O imigrante não é apenas uma ameaça ou um recurso econômico (bem mais econômico) a ser administrado ou deportado, ou assimilado. Ele é o próximo a ser amado. E o amor que o Cristo exige dos seus discípulos é o ágape, não o eros ou o fileo. Segundo Nygren, o eros é uma forma de amor interesseiro que “usa” o outro ao passo que o ágape é o amor que se doa. Em se doando, deve denunciar, protestar, levantar a voz pelo oprimido, se posicionar do lado do desvalido.
Mas, talvez você diga, não será que o migrante sabia dessa situação quando saiu do seu país? Claro que sim. Hoje ninguém está desinformado. Mas, assim como a mulher adúltera sabia das consequências dos seus atos, o que importa – ou deve importar – é a situação atual de quem está em subserviência.
Se requer de nós, cristãos, práticas concretas de hospitalidade, justiça para migrantes e denúncia profética de sistemas que negam a imagem de Deus. Sim, um sistema que atropela outras nações, não serve a Deus e sim a seus próprios interesses.
Não se trata, então, de ser de esquerda ou de direita, mas ser do Reino e buscar constantemente sua justiça mantendo um nível de imprevisibilidade que surpreenda sempre.