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Violência em nome da fé

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O que vem acontecendo no Irã desde o fim de 2025 não é um episódio isolado nem um “excesso pontual” de governo. É o tipo de convulsão social que acontece quando um povo já não encontra ar para respirar. Colapso econômico, desemprego, inflação, ausência de perspectivas. E, somado a tudo isso, a sensação corrosiva de que não há canais legítimos para dizer “basta”.

Quando, em janeiro de 2026, os protestos se espalharam pelas 31 províncias, a resposta do regime foi previsível – e brutal. Apagão de internet para interromper a circulação da verdade. Tropas de elite nas ruas. Prisões em massa. Mortes. Relatos de execuções. Quando o poder sente que está perdendo o controle da narrativa, ele tenta controlar o silêncio. O problema é que silêncio imposto não é paz; é compressão. E compressão sempre explode.

Há algo ainda mais perturbador: a repressão não se apresenta apenas como política, mas como sagrada. Protestar vira “guerra contra Deus”. Discordar do regime se torna blasfêmia. A violência ganha verniz teológico. Esse é um dos pecados mais antigos da religião: usar o nome de Deus para blindar estruturas que esmagam gente de carne e osso. Quando isso acontece, não estamos diante de excesso de fé, mas de sua perversão.

Aqui surge a pergunta que atravessa séculos: onde está Deus quando o povo clama por pão, dignidade e liberdade? A Bíblia não responde com abstrações confortáveis. Ela responde com um Deus que ouve, vê e desce. O clamor dos oprimidos nunca é ruído de fundo para o Deus bíblico. Ele não observa de longe, avaliando neutralmente os “dois lados”. Neutralidade diante da opressão é sempre aliança com o opressor.

Por isso a cruz é tão escandalosa. Ela denuncia não apenas a violência política, mas também a violência religiosa que mata em nome de Deus. Um messias executado por um conluio entre poder imperial e zelo religioso desmonta qualquer teologia que sacralize o Estado, o regime ou a ordem vigente. O Deus revelado ali não exige subserviência cega; ele expõe sistemas que se sustentam pelo medo.

Quando pessoas comuns vão às ruas, mesmo sabendo que podem morrer, algo profundamente humano – e espiritualmente significativo – está acontecendo. Não é romantização do sofrimento. É a recusa do desespero total. É a coragem de dizer que a vida vale mais do que a mentira oficial. Há, nisso, um eco da fé mais básica: a confiança de que o não-ser, a morte e o terror não têm a última palavra.

O evangelho não anuncia apenas consolo interior para almas feridas. Ele fala de libertação concreta, de cativos soltos, de estruturas confrontadas. Um reino que começa pequeno, vulnerável, mas que insiste em existir no meio da tirania. A esperança cristã nunca foi ingenuidade política. Ela é, ao contrário, profundamente subversiva: afirma que nenhum império, nenhum regime, nenhuma polícia secreta é eterno.

Os profetas já sabiam disso. Denunciar leis injustas, sistemas que roubam o pobre e decretos que esmagam o fraco sempre foi parte da fé bíblica. E o último livro da Escritura lembra algo incômodo: o clamor dos que morreram injustamente não se perde no vazio. Ele sobe. Ele permanece. Ele aguarda resposta.

O Irã de hoje nos obriga a olhar para além das manchetes. Obriga a perguntar que tipo de Deus estamos anunciando. Um Deus cúmplice da repressão ou o Deus que escuta o grito abafado, mesmo quando a internet cai e as ruas se enchem de sangue. A ressurreição, afinal, não é um detalhe devocional. É a afirmação de que nenhum poder de morte é definitivo – e que toda tirania, cedo ou tarde, será chamada pelo nome.

Migração e Igreja

Vivemos tempos conturbados em que quem tem poder fala forte e quem não o tem é obrigado a se adaptar da melhor forma possível. A igreja, por sua natureza conservadora e sua função de “sal da terra” usualmente confunde isso com nacionalismo ou com alinhamentos políticos mais à direita quando não do lado da extrema-direita. Isso é preocupante. Com isso não estamos dizendo que – necessariamente – a esquerda seja uma opção ou caminho. Mas dizemos que a igreja deve se manter livre e se comportar como cidadãos democráticos exemplares visando sempre a melhor opção para a sociedade em que vive ora movendo a balança para um lado, ora para outro, mas nunca sendo previsível. Ser previsível a torna em fácil refém do palanque politico de um ou outro lado. Isso é, liberdade de pensamento e liberdade de expressão na prática.

Uma das personagens preocupantes no atual cenário é o atual ocupante da Casa Branca assim como o é o ocupante do Kremlin. Há mais, mas fiquemos apenas com o primeiro da lista e sua recente atuação nos casos de imigração. Recentes reportes indicam que a imigração nos Estados Unidos é uma situação de grande envergadura com dados indicando mais de 2.7 milhões de pessoas entrando no ano de 2024. Isso, evidente sobrecarrega o sistema como um todo e enfraquece o país em várias áreas além de – por mais que melhore a vida de quem migra em parâmetros relativos – colocar o migrante em situação vexatória ou como uma classe inferior perante seus pares nacionais.

Com a mudança do habitante da Casa Branca, mudou a política de recepção de imigrantes fazendo com que – por primeira vez em 50 anos – haja uma depressão dos números com uma saída neta de 925.000 pessoas e uma entrada de 185.000 no ano de 2025. Recentemente a secretária de Segurança Nacional (o que seria equivalente a um ministro tupiniquim) afirmou que Estados Unidos tem “arrestado, detido e deportado a seus países de origem” a mais de 650.000 imigrantes indocumentados e que perto de 2 milhões tem se auto deportado. Além disso, se revogaram 100.000 visados estrangeiros em 2025. Para ter uma ideia, apenas em 2025 se revogaram mais do que o dobro em todo o governo Biden. (Ver https://www.telemundo.com/noticias/noticias-telemundo/inmigracion/mas-inmigrantes-salieron-de-los-que-llegaron-a-estados-undios-en-2025-rcna253930)

É obvio que para os Estados Unidos não é nada bom ter imigrantes ilegais. Não apenas pela entrada no país, senão pela sua permanência em situação de semi-residente sem direito a nenhum tipo de assistência a não ser a mais básica e até essa é difícil de obter. Insisto que para quem migra, é – em termos relativos – melhor viver como ilegal lá do que no restante das Américas. Mas ele não percebe que isso mesmo degrada o país ao qual ele se acolhe.

Um titular interessante desses dias diz assim: “Trump ameaça invocar a Lei da Insurreição para reprimir protestos contra abusos de agentes federais“. O artigo contem múltiplas denúncias de violência e mortes em custódia de imigração (ICE), inclusive em Minneapolis e no Texas.
Há relatos de uma “violência sem precedentes” cometida por agentes de imigração e várias mortes de imigrantes sob custódia apenas nos primeiros dias de 2026.

Se colocarmos a lupa sobre os eventos da última semana, veremos que os protestos têm crescido. Se protesta contra abusos de autoridades de imigração dos EUA, incluindo mortes de imigrantes sob custódia e o uso excessivo da força. O governo tem reagido de forma dura, até ameaçando de usar mecanismos legais de exceção para conter manifestações. Tudo isso, evidentemente, expõe tensões profundas em torno da justiça, da dignidade humana e do tratamento dos estrangeiros.

Se perguntarmos para um cristão americano típico do meio oeste ele fervorosamente vai defender a posição do atual presidente. Não que ele não tenha esse direito, mas mostra uma visão oblíqua e estreita do problema como um todo e – ao parabenizar e concordar com o presidente – terceiriza a responsabilidade do que lhe deveria ser mais sagrado por ser isso o que o distingue de outros animais: a capacidade de pensar. O livre pensamento demanda … pensar. E isso, parece que é um bem cada vez mais escasso haja vista a tremenda polarização entre os extremos da vida política mundial.

A Palavra de Deus, em Cristo, – diria Barth – julga tanto as estruturas injustas quanto a própria igreja quando ela se associa a nacionalismo excludentes. A sociedade não tem essa consciência de um Cristo que é o Juiz Justo. A Igreja, sim, tem. Ou ao menos deveria.

Ao longo de toda a Bíblia, o Senhor se lembra dos julgados e marginalizados. E – insisto – por mais que para o imigrante lhe seja uma situação relativamente melhor do que a que vive em seu pais de origem, de fato está ajudando a desconstruir uma nação ao passo que não ajuda a construir a sua.

O imigrante não é apenas uma ameaça ou um recurso econômico (bem mais econômico) a ser administrado ou deportado, ou assimilado. Ele é o próximo a ser amado. E o amor que o Cristo exige dos seus discípulos é o ágape, não o eros ou o fileo. Segundo Nygren, o eros é uma forma de amor interesseiro que “usa” o outro ao passo que o ágape é o amor que se doa. Em se doando, deve denunciar, protestar, levantar a voz pelo oprimido, se posicionar do lado do desvalido.

Mas, talvez você diga, não será que o migrante sabia dessa situação quando saiu do seu país? Claro que sim. Hoje ninguém está desinformado. Mas, assim como a mulher adúltera sabia das consequências dos seus atos, o que importa – ou deve importar – é a situação atual de quem está em subserviência.

Se requer de nós, cristãos, práticas concretas de hospitalidade, justiça para migrantes e denúncia profética de sistemas que negam a imagem de Deus. Sim, um sistema que atropela outras nações, não serve a Deus e sim a seus próprios interesses.


Não se trata, então, de ser de esquerda ou de direita, mas ser do Reino e buscar constantemente sua justiça mantendo um nível de imprevisibilidade que surpreenda sempre.

Venezuela, poder e império: quando a “salvação” vem armada

Nos primeiros dias de janeiro, o mundo assistiu a uma cena que parece saída de um roteiro ruim – e por isso mesmo é perigosa: uma operação militar dos EUA na Venezuela culminou na captura de Nicolás Maduro (3 de janeiro de 2026) e, poucos dias depois, na sua apresentação à Justiça em Nova York (5 de janeiro de 2026).

Até aqui, muita gente vai querer torcer a história para caber no próprio bolso moral.

“Foi justiça.”
“Foi sequestro.”
“Foi libertação.”
“Foi invasão.”

E aí vem o tempero que denuncia a alma do negócio: autoridades e declarações públicas passaram a falar em recursos, riquezas, petróleo, “o que agora vai ser redirecionado”, “quem fica com o quê”. Quando a linguagem muda de “direitos” para “ativos”, você já sabe: o altar está montado – e o deus costuma ser o interesse nacional transvestido de virtude.


O problema não é só geopolítica. É liturgia.

Porque impérios não se sustentam apenas com tanques. Impérios se sustentam com narrativas.

E narrativa imperial quase sempre usa um vocabulário religioso: salvar, purificar, libertar, corrigir o mal, trazer ordem. Só que, na prática, essa “salvação” costuma cobrar a conta dos vulneráveis primeiro – os que não têm bunker, nem passaporte, nem rede de proteção.

O risco aqui não é “a Venezuela”. O risco é o modelo: a ideia de que um país pode se investir do papel de juiz, redentor e administrador do destino de outro. E, quando isso acontece, a soberania vira detalhe técnico e a dor humana vira “dano colateral” em rodapé.

Não é coincidência que a legalidade internacional da operação esteja sendo contestada e discutida em organismos e análises públicas: quando você normaliza exceções, você está ensinando o mundo a viver sem chão.


N.T. Wright e a pergunta que corta o assunto no meio

N.T. Wright insiste numa coisa que a igreja esquece quando se embriaga com o noticiário: o evangelho não é um adesivo devocional no para-choque da história; é uma declaração pública de senhorio.

Em termos simples (e explosivos):
Jesus é o Kyrios.
Logo, César não é – nem em versão antiga, nem em versão moderna, nem com bandeira bonita, nem com discurso “humanitário”, nem com promessa de prosperidade.

Quando o evangelho diz “Jesus é Senhor”, ele não está oferecendo um conforto íntimo apenas; ele está desautorizando qualquer império que se apresente como salvador final. O cristão pode até agradecer quando um tirano cai; mas não pode adorar o método, nem santificar a cobiça, nem chamar de “reino” aquilo que cheira a saque.


Como a igreja lê esse tipo de manchete?

Eu faria três perguntas na igreja – sem cinismo, mas com coluna ereta:

  1. Quem está sendo servido de verdade?
    Os pobres? Os presos políticos? As famílias? Ou os interesses estratégicos e os mercados?
  2. Que tipo de “paz” está sendo prometida?
    A paz de Cristo nasce do caminho do Cordeiro; a paz do império nasce da ameaça.
  3. Que tipo de esperança está sendo vendida?
    Porque esperança comprada com propaganda costuma virar desespero quando a conta chega.

E aqui está a disciplina espiritual mais difícil: recusar a idolatria do “meu lado”. O cristão não é obrigado a escolher qual império prefere. O cristão é chamado a confessar que nenhum império é o Reino.

O Reino tem Rei – e ele não usa a linguagem da rapina como se fosse virtude.

Saúde mental e a esperança cristã

Esperança em meio à angústia: Cristo como fundamento da dignidade e restauração humana.

Vivemos tempos de exaustão emocional coletiva. Ansiedade, depressão e solidão tornaram-se quase uma linguagem comum, falada em sussurros por quem teme ser julgado. O tema da saúde mental já não pertence apenas à psicologia – tornou-se também uma urgência espiritual. E a Igreja, se quer ser fiel ao Evangelho e de certa relevância na sociedade em que vive, não pode se calar diante do sofrimento humano.

Mantidas as proporções e a distância, existe um paralelo em como a sociedade judia tratava a lepra (e os leprosos) em tempo de Jesus e como nós – como Igreja – tratamos a saúde mental. E temos de tudo, mas geralmente, nada positivo ou construtivo. São poucos os exemplos que se permitem observar a fragilidade da existência humana e se escapam de soluções do tipo “tudo ou nada”. Ou seja: aquelas soluções que revestem de ares espirituais realidades mentais muitas vezes devastadoras.

É comum que a fala “suficientes em Cristo” a tiremos do ambiente soteriológico (ou seja, relativas à salvação) para colocá-lo em questões de ordem mental. Tão comum é isso, que para muitos parece uma afronta dizer que – em certos casos – é necessário o cuidado profissional e não basta apenas a oração.

A mente é o lugar onde se misturam pensamentos, emoções e reações do corpo.
É como uma ponte entre o que sentimos, o que pensamos e o que fazemos.
Quando algo se desorganiza — por dor, trauma, estresse ou desequilíbrio químico — essa ponte pode se quebrar. Assim como um osso se quebra, a mente também precisa de cuidado e tempo para se curar.

Recentemente uma colega de serviço foi atropelada enquanto dirigia sua moto. Quebrou a bacia, o fêmur em várias partes e teve fratura expostas. Óbvio que ela agradece as orações, mas com certeza a intervenção de um conjunto de profissionais da saúde é não apenas bem-vinda, mas essencial para a recuperação. Se não olhamos para a mente como olhamos para o osso, continuaremos a acumular culpa improcedente sobre quem padece e trataremos os profissionais da saúde mental como charlatães. Não é de estranhar que o movimento igual e contrario seja semelhantemente forte.

Karl Barth lembrava que o grito do homem aflito encontra resposta não em si, mas na revelação de Deus em Cristo. A esperança não nasce da autoajuda, mas da graça que se faz carne. Tillich chamou isso de “a coragem de ser”: continuar existindo mesmo quando o desespero parece mais real que a fé. É coragem de seguir, não por força própria, mas sustentado por uma presença que não nos abandona.

A saúde mental, à luz do Evangelho, não é ausência de dor, mas a presença de sentido. Jesus não prometeu eliminar o peso, mas compartilhá-lo: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt.11:28). O alívio vem do encontro, não da fuga. Esse texto, por mais que pode ser usado em mensagens evangelísticas e faz muito sentido, na realidade é um chamado aberto a todos: aqueles que estão longe do evangelho e também os discípulos. Limitar ele a assuntos salvíficos, é diminuir sua potência de forma irresponsável.

É precisamente aí que a comunidade cristã se torna (ou deveria se tornar) um espaço de cura: quando deixa de ser tribunal e se torna abrigo. Quando acolhe sem rótulos, escuta sem pressa, ora sem impor fórmulas. O Cristo ressuscitado, como recorda N.T.Wright, inaugura uma esperança concreta – não apenas espiritual, mas que toca corpo, mente e criação. A ressurreição é o anúncio de que a dor não é o fim.

Neste Dia Mundial da Saúde Mental, o chamado é duplo: cuidar e ser cuidado. Romper o silêncio, acolher o cansaço alheio, e lembrar que a fé não é inimiga da terapia – é sua companheira (desde que seja uma fé saudável, vale dizer)

Finalmente, mas não menos importante: “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido” (Sl.34:18) E nessa proximidade, nasce a esperança que não decepciona (Rm.8:18-25)

¹⁸ Eu penso que o que sofremos durante a nossa vida não pode ser comparado, de modo nenhum, com a glória que nos será revelada no futuro.
¹⁹ O Universo todo espera com muita impaciência o momento em que Deus vai revelar o que os seus filhos realmente são.
²⁰ Pois o Universo se tornou inútil, não pela sua própria vontade, mas porque Deus quis que fosse assim. Porém existe esta esperança:
²¹ Um dia o próprio Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo e tomará parte na gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
²² Pois sabemos que até agora o Universo todo geme e sofre como uma mulher que está em trabalho de parto.
²³ E não somente o Universo, mas nós, que temos o Espírito Santo como o primeiro presente que recebemos de Deus, nós também gememos dentro de nós mesmos enquanto esperamos que Deus faça com que sejamos seus filhos e nos liberte completamente.
²⁴ Pois foi por meio da esperança que fomos salvos. Mas, se já estamos vendo aquilo que esperamos, então isso não é mais uma esperança. Pois quem é que fica esperando por alguma coisa que está vendo?
²⁵ Porém, se estamos esperando alguma coisa que ainda não podemos ver, então esperamos com paciência.

Romanos 8:18-25

Arterioscleroses Espiritual

Comecemos com um exemplo: o estilo musical e certa forma de arterioscleroses “espiritual” que todo grupo religioso vai desenvolvendo. Mesmo que a peça tenha sido elaborada no embalo de uma cerveja e sobre melodia comum em bordéis (como o caso de Castelo Forte) existe hoje uma certa sacralidade sobre esse hino específico, mas outro que possa vir a ser criado de forma análoga será automaticamente tido como mundano ou secular. Então, sob minha ótica, todo movimento religioso tende a uma rigidez mórbida no que lhe é mais essencial: sua forma de comunicação com a sociedade na qual a comunidade está inserida.

A preocupação última pode ser expressa e elaborada sob qualquer forma de manifestação: linguagem, marte, cultura, música, filosofia, desde que comunique algo do mistério da vida e do encontro com o divino. Se houvesse uma única forma de linguagem divina e inalterada “caída do céu”, deveria ser essa a forma adotada. E não é para isso que apelam os movimentos de resgate cultural de músicas em estilo judaico?

Necessariamente, por uma questão de simples comunicação com os seres humanos, toda linguagem religiosa é humana, que nasce da experiência histórica e cultural específica. Com isso, a linguagem usada para as “Vacas de Basã” precisa de ser interpretada e “traduzida” pelo pregador para obter o fim desejado: comunicação da mensagem. O mesmo acontece com a teologia ou os estilos musicais, ou os conteúdos. Precisam de uma tradução e não de manter uma tradição muitas vezes transplantada, e nada comunica – de forma direta – na cultura alvo.

A linguagem sagrada é simbólica, poética, expressiva, e serve para apontar para realidades que vão além da mesma. (Apontam para “o Transcendente” ou “o completamente outro”. Ou resgatando alguma coisa kantiana: extrapolam o imanente)

A citação, então, de Paul Tillich “Não existe linguagem sagrada caída de um céu sobrenatural para ser encerrada nas páginas de um livro. O que existe é a linguagem humana, baseada em nosso encontro com a realidade, em evolução ao longo do tempo, usada para as necessidades cotidianas, para expressão e comunicação, literatura e poesia, bem como para mostrar a preocupação suprema” reflete um ponto central de sua teologia da cultura: a linguagem religiosa não é mágica ou vinda do céu em estado puro. Mas é uma linguagem humana, moldada historicamente e usada para expressar aquilo que ele chama de “preocupação última” ou “preocupação suprema”. Isto é: o sentido mais profundo da existência.

Seguindo essa linha: a mensagem precisa “encarnar”. E isso não se faz com linguagem e problematizações de há seis séculos.