Que presente dar para uma congregação?
Não é todo dia que um grupo de pessoas faz aniversário.
Unidos por uma mesma visão, uma congregação vai se desenvolvendo e os anos vão se acumulando. Assim como na vida pessoal, é de se esperar que essa experiência traga sabedoria e essa sabedoria traga um peso de identidade local para a congregação.
Num tempo de universalidade eletrônica; de uma pretensa sabedoria coletiva manifestada pelas redes sociais, uma igreja local identificada com seu bairro e sua cidade tem fartos motivos para se sentir orgulhosa do caminho andado. Então recebam meu afago: o interesse pela congregação e pelo bairro em que estão são marcas elogiáveis em uma igreja local.
Mas, sendo pregador, preciso intentar elaborar uma reflexão que não apenas afague a congregação, mas que a alavanque para os desafios que ainda lhe esperam. Tem que ser alguma coisa que, lançando mão do mais sagrado de uma congregação batista (isto é, seu conhecimento da Bíblia) também lhe sirva de ponto de apoio para os desafios da sociedade atual.
Não pode ser apenas uma repetição de velhos conceitos ou de registros históricos. Não porque eles sejam inválidos, mas pelo fato de que – por serem muito conhecidos – não mais se pensam como soluções possíveis para a realidade em que vivemos.
Termos como redenção, justificação, santificação com sua precisão e seu conteúdo são deixados de lado não por errôneos, mas porque os possíveis ouvintes desta sociedade não mais almejam por respostas aos problemas que eles atendem. Isso por estarem tão ocupados nos entretenimentos de coisas periféricas da vida.
Na mesma linha, parece-me inútil tentar falar da herança batista e seus princípios. Por exemplo, entendo que arriscaria perder meus ouvintes falando sobre como lutamos na Inglaterra pela liberdade pessoal; ou a centralidade da Bíblia; ou a liberdade de consciência; ou a universalidade do sacerdócio de todo crente; ou a falta de distinção entre ato administrativo e culto; ou a autonomia de cada congregação ou a separação de igreja e estado. Novamente, não porque esses assuntos não sejam importantes ou relevantes, mas porque soam como antigos, ou ultrapassados, ou desnecessários.
Também não é o caso de discorrer sobre a necessidade e a inutilidade da escola bíblica. Inutilidade porque ela passa apenas conhecimento e não é um substituto válido do discipulado. E necessidade porque o conhecimento que ela traz é tremendamente necessário no discipulado. Isto é, no andar diário dos discípulos de Jesus na terceira batista de Prudente.
Então qual caminho escolher? Como preparar uma pregação para uma congregação madura que segue adiante, que se cuida, que tem identidade com seu Senhor e com seu bairro? Que devo dizer para um grupo de pessoas que atenta para uma busca pelo seu Senhor?
Olhemos para Lucas 10 26
Perguntou-lhe Jesus: Que está escrito na lei? Como lês tu?
Focaremos apenas nessa pequena frase: “Como lês tu?“. Essas três palavras podem fazer uma diferença na sua vida nesta noite. E por isso é que demando sua atenção apenas nela por alguns minutos.
No centro da frase encontramos o verbo ler. Trata-se a ação de decifrar o conteúdo de algo escrito por saber reunir as letras e os sinais gráficos. Hoje, quase qualquer pessoa sabe ler. Mas nem sempre foi assim.
Se olhamos para o tempo de Shakespeare que viveu entre 1554 e 1616, vemos que o número de pessoas que conseguia ler era de 1 para 3 nos homens e talvez de 1 para 10 nas mulheres.
Se olhamos a situação do Brasil alguns anos depois – em 1759, quando os padres jesuítas (que entre suas atribuições tiveram a de fundar colégios e promover a educação) foram expulsos do país – apenas 1 em cada 1000 pessoas sabia ler. É para 1890 que o Brasil começa a mudar o método e se preocupa com ensinar a escrever como tal. Ou seja, não apenas com a caligrafia, mas com a coisa escrita. Devemos lembrar que Dom Casmurro, por exemplo, foi escrito em 1899. Isso nos dá uma noção dessa brecha cultural entre a situação inglesa de 1600 e a do Brasil de 1900.
Então repare que, quando falamos em ler, não falamos em entender. Falamos apenas de conseguir reunir com algum sentido os símbolos de uma forma tal que a pessoa pudesse minimamente receber comunicação. Já escrever, como para produzir a mesma, não era tão almejado assim.
Se olhamos para a situação do Brasil hoje, 66% dos alunos terminam o 9º ano sem aprender o mínimo necessárioda lingua portuguesa, segundo algumas pesquisas. Esse problema se estende até o ensino superior, onde estimativas indicam que 50% dos estudantes são analfabetos funcionais. Isso de por si já é um escândalo.
A escola bíblica
Cabe então aqui o lembrete de que a escola bíblica inicia-se na Inglaterra justamente com o propósito de capacitar as pessoas com a grandiosa ferramenta da leitura e sua irmã: a escrita. A origem e propósito original da escola bíblica não é “ESPIRITUAL” e sim “SOCIAL” para surpresa de muitos.
Mas vale dizer que não há forma de separarmos o “ESPIRITUAL” do “SOCIAL”. Perceba como a população que menos tem acesso à leitura – e por conseguinte – ao conhecimento formal, é a mais fácil de manipular. E a manipulação é a antítese do amor. E, sendo Deus amor, logo se segue que Ele não quer deixar sua criação no escuro. De aí que concluímos que aqueles que querem deixar a população sem conhecimento são sim uma manifestação social de uma influência espiritual prejudicial e contrária aos propósitos divinos.
Trazendo, então, para a atualizade essa origem tão prática da escola bíblica, seria então necessário estender-nos a outras necessidades sociais da nossa época para ajudar a sociedade em que vivemos.
Primeiro século
Mas, voltemos ao assunto da leitura. Como era no primeiro século? Como era no tempo em que essa frase esteve nos lábios do nosso Senhor e o seu interlocutor a ouviu? Como o verbo “ler” foi ouvido? E, por quem? Se a capacidade de ler era tão absurdamente baixa 1600 anos depois de Jesus, não é de se pensar que fosse menor no tempo de Jesus?
Acontece que Jesus era judeu e estava falando para outro judeu. Em média, alguns estimam que pelo menos a metade da população judia sabia ler e escrever. Há os que projetam os números da comunidade rural de início do século XX para dizer que talvez apenas 3% da população era alfabetizada. Mas isso se contradiz com registros do ano 64 dC em que havia um professor para cada 25 crianças. Na realidade, o povo judeu levava a sério a alfabetização. Então podemos concordar com os historiadores mais conservadores e afirmar que ao menos 50% da população (sem fazer distinção entre homes e mulheres) era alfabetizada. O próprio Jesus (filho de um carpinteiro/construtor) era alfabetizado. O encontramos lendo a Torá e escrevendo no chão.
Compreendes o que estás lendo?
Então esse “Como lês tu?” não pode ser interpretado como “Ao final de contas, como é possível que você leia?” já que quem falava com Jesus não era uma pessoa comum, mas um mestre da Lei. Devemos interpretar esta frase como sendo: “Como interpretas o que lês?” Ou seja, “Qual é o significado que você dá àquilo que você mesmo lê?“. De fato, é assim que a temos na maior parte das traduções (Almeida Revista e Atualizada; King James Atualizada; e outras)
Em todo o novo testamento, apenas Lucas usa esse verbo (ἀναγινώσκεις anaginōskeis) Em atos 8 30 Lucas nos mostra Felipe correndo ao encontro do oficial de Candace e perguntando: você entende o que está lendo?
Então Filipe correu para a carruagem, ouviu o homem lendo o profeta Isaías e lhe perguntou: “Compreendes o que estás lendo? Atos 8 30
Aqui no evangelho, vemos esse verbo sendo usado por Jesus com carga similar: “Em que forma você entende o que está lendo?“
Não temos tempo para alongarmos no contexto. Baste apenas refrescar nossa memória dizendo que este advogado ou erudito da Lei quis pregar uma peça em Jesus
Certa vez, um advogado da Lei levantou-se com o propósito de submeter Jesus à prova e lhe indagou: “Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?”
Ao que Jesus lhe propôs: “O que está escrito na Lei? Como tu a interpretas?”
E ele replicou: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e com toda a tua capacidade intelectual’ e ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’”.
Então, Jesus lhe afirmou: “Respondeste corretamente; faze isto e viverás”.
Ele, no entanto, insistindo em justificar-se, questionou a Jesus: “Mas, quem é o meu próximo?”
É esse diálogo o que dá pé para a parábola do Bom Samaritano que mesmo sendo muito conhecida, seria bom darmos outra olhada sobre “quem é nosso próximo” já que o próximo – na parábola – não é o que está caído e sim o que ajuda, que, por sinal, é samaritano. O modelo a ser seguido é o de um ser desprezível para este mestre da Lei.
O que fazer com o modelo?
Mas voltando ao “Como lês tu?” o que nosso Senhor está fazendo é – em primeiro lugar – colocando a responsabilidade da interpretação nos ombros do seu interlocutor. Ninguém mais do que a própria pessoa é capaz de nos dizer como ela está interpretando a sua leitura.
A diferença entre o como e o quê
É no como e não no quê que reside o problema.
Por exemplo, alguém poderia ler “Minha Luta” de Adolf Hitler e nunca na vida coincidir com ele em que a raiz de todos os males da humanidade seriam os judeus. O quê – isto é, a coisa lida – nunca é o problema e sim o como.
Um exemplo igual e contrário pode ser visto nesta passagem: o quê esta pessoa estava lendo era a escritura, só não ficava claro o como. O quê (que neste caso é, o equivalente do nosso antigo testamento) não era o problema, e sim o como a pessoa estava lendo.
A partir disso é que se pode analisar qual atitude ele teria para consigo mesmo e com seu próximo. Dois seres que – segundo o nosso mestre – não são tão distantes assim, ao final das contas, somos apenas uma única raça: a humana.
Como ensinamos?
Em segundo lugar, a atitude de Jesus nos deveria levar a mudar nosso jeito de ensinar ou partilhar o que sabemos sobre a escritura. Se bem há momentos como estes em que uma pessoa fala e os outros ouvem, também devemos ter momentos em que qualquer um pode dizer o que realmente pensa sobre o que está sendo ensinado. Ao final das contas, e sem querer ser chato com a identidade batista, a liberdade de consciência é um princípio muito caro para nós. É a partir dessa liberdade que pode ser construída a necessidade da liberdade de expressão que acha seu limite no direito alheio de fazer exatamente a mesma coisa. E é no cerne da liberdade de expressão que o “como lês tu?” encontra sua mais profunda aplicação. Não no conceito de dizer qualquer coisa, mas no contexto da aceitação do outro como diferente, mas não tão distinto.
O rencontro com nossa identidade batista.
Então, de forma quase silenciosa, acabamos desembarcando na identidade batista e sua razão. O Como você lê, acaba sendo a mola propulsora das liberdades pessoais e de consciência tão seriamente ameaçadas nos últimos anos no nosso continente. Também é ela o despojo na guerra espiritual que vem sendo travada já que o iluminismo não é nossa luz, mas sim a luz de Cristo e é em Jesus – o Cristo – que encontramos este maravilhoso exemplo de aceitação do diferente. A livre interpretação da realidade em que vivemos não é um fruto dos movimentos humanistas, mas sim o ponto de apoio em que o próprio Jesus aplicava sua maior força: fazer o outro pensar.
É no “Como você lê?” que redescobrimos o princípio da centralidade da bíblia que tão caro nos é como membros de uma comunidade batista, já que é a leitura da Bíblia e sua interpretação comunitária (em contraposição à interpretação padronizada, hierárquica e imposta) que nossos antepassados acharam razão suficiente para lutar até a morte se fosse necessário.
É no “Como você lê?” que se revigora o princípio da autonomia congregacional, já que lemos juntos, interpretamos juntos e comungamos juntos dessa mistura interpretativa e em paz.
É no “Como você lê?” que reunificamos o secular com o sagrado e o administrativo com o cultual. Não pode haver tal distinção. Sou “eu” quem lê e “eu” quem interpreta e a esse “eu” não lhe convêm as divisões. Sou apenas uma pessoa na minha intimidade, na minha vida cultual e na minha vida pública. E aquilo que quero para mim o quero para meu próximo. Isto é, meu irmão de raça.
E é no “Como você lê? que se encontra a chave para a separação entre a igreja e o estado, pois o estado (que tem seus deveres para com todos os cidadãos independente da sua crença) não tem direito nenhum a interferir na minha crença particular e por não querer isso para mim, também não o desejo para meu próximo.
É no “Como você lê?” que o discipulador se coloca em pé de igualdade com seu có-discipulo e podem, juntos, trilhar o caminho da descoberta da vida cristã porque não se trata de uma imposição de um ser superior e sim de uma caminhada e uma descoberta feita em conjunto.
E finalmente, é no “Como você lê?” que encontramos a fórmula básica para a escola bíblica ou qualquer outro esquema de estudo da bíblia. Em que ponto está o outro? Qual é sua interpretação? Quais suas lutas e afetos? Qual seu olhar sobre o mundo? Até que ponto o olhar do Messias invadiu seu mundo íntimo?
Então, meu apelo nesta noite é: imitemos nosso mestre. Perguntemos ao outro como interpreta a escritura.







Alguns, sincera e piamente, acreditam não só que é possível mas necessário usar ferramentas de marketing para disseminar a fé no Senhor.