Ankersmit sugere que o encontro direto com o sagrado transcende a linguagem. A experiência precede o conceito. Antes da formulação, há o impacto. Antes da doutrina, há o abalo.
Como explicar a criação senão por meio de poesia? O próprio Gênesis já nasce ritmado, estruturado em cadência, repetição e paralelismo — quase um hino cósmico. E os Salmos ecoam esse mesmo movimento: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Sl 19.1). Não é tratado científico; é canto. A criação não é descrita, é celebrada.
O mesmo ocorre com as experiências fundantes da fé bíblica. Como colocar em palavras o encontro de Moisés com a sarça ardente? O texto não explica o mecanismo do fogo que não consome; ele preserva o espanto. O chão torna-se santo. A voz chama pelo nome. Moisés tira as sandálias. A experiência é maior que o relato. A narrativa é apenas vestígio.
Isaías, no ano da morte do rei Uzias, não descreve Deus em categorias sistemáticas; ele vê serafins, fumaça, tremor, santidade triplicada: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos” (Is 6.3). A linguagem se fragmenta em repetição, porque a intensidade ultrapassa a sintaxe comum. O profeta não organiza conceitos — ele é desfeito e reconstruído: “Ai de mim!” (Is 6.5).
Paulo, no caminho de Damasco, experimenta luz, queda, cegueira, voz. Depois, anos mais tarde, ainda fala com cautela: “conheço um homem… foi arrebatado ao terceiro céu… ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar” (2Co 12.2–4). A linguagem reconhece seu próprio limite.
Os Salmos são talvez o testemunho mais honesto dessa insuficiência. Eles não tentam domar a experiência de Deus; eles a expõem. Há momentos em que o salmista não explica — ele geme: “Até quando, Senhor?” (Sl 13.1). Em outros, o silêncio é a única resposta adequada: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Sl 46.10). E há ocasiões em que a única possibilidade é o assombro: “Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim; é sobremodo elevado, não o posso atingir” (Sl 139.6).
Aqui a tese de Ankersmit encontra eco bíblico: há experiências que falam mais do que palavras. A linguagem não cria o encontro; ela tenta sobreviver a ele. Primeiro vem o abalo, depois a metáfora. Primeiro a presença, depois o salmo.
Contudo, essas experiências não terminam no silêncio absoluto. Elas inauguram missão. Moisés desce do monte para confrontar Faraó. Isaías responde: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6.8). Paulo se levanta do chão para anunciar Cristo entre as nações. O encontro que transcende a linguagem não paralisa — ele reorienta a existência.
É significativo que a Escritura recorra constantemente à linguagem simbólica, profética e poética. A fé bíblica nasce não apenas da explicação, mas do encontro. E porque o encontro é maior que o discurso, a linguagem se expande em imagens: rocha, pastor, refúgio, fogo consumidor, vento impetuoso, água viva. O Salmo 18 não diz apenas que Deus ajuda; diz que “a terra se abalou e tremeu… fumaça subiu de suas narinas” (Sl 18.7–8). A metáfora não é exagero literário; é tentativa de traduzir o indizível.
A insuficiência da linguagem não é fracasso da fé. É sua marca de autenticidade. Uma fé que cabe perfeitamente em definições talvez nunca tenha passado pelo deserto. A Bíblia preserva a tensão entre revelação e mistério. Deus se revela, mas não se reduz.
Talvez por isso o louvor seja a forma mais adequada de teologia. Ele admite que explicar não basta. Ele canta. Ele chora. Ele clama. Ele silencia. Como diz o Salmo 62.1: “Somente em Deus espera silenciosa a minha alma.” Às vezes, o silêncio é a confissão mais verdadeira.
No fim, a linguagem é sempre tentativa. O encontro é sempre maior. E é dessa desproporção — entre o que foi vivido e o que pode ser dito — que nasce a fé bíblica: não como discurso fechado, mas como resposta contínua ao Deus que se deixa encontrar e, ao mesmo tempo, permanece inexprimível.