Na última semana, ciclones tropicais atingiram a Austrália e Madagascar. Casas destruídas, mortos, deslocados. No Hemisfério Norte, frio extremo, temperaturas absurdas, vidas interrompidas. A natureza parece fora de si. A pergunta surge quase automática: é juízo de Deus?
Aqui é preciso rigor. Leituras simplistas são teologicamente preguiçosas. Dizer “Deus mandou o ciclone para castigar tal povo” é falar demais onde a Escritura fala com mais sobriedade. O próprio Jesus rejeita essa matemática moral quando confrontado com tragédias (Lc 13.1–5). Nem toda catástrofe é punição direta. Mas também não é neutra.
Romanos 8.22 diz que “toda a criação geme e suporta angústias até agora”. Paulo não descreve um mundo estável que ocasionalmente falha. Ele descreve um mundo submetido à corrupção, afetado pelo pecado humano, aguardando redenção. A criação não é autônoma. Ela participa da história da queda e da promessa.
Anders Nygren ajuda a deslocar a pergunta errada. Em vez de buscar obsessivamente o “porquê” oculto do sofrimento, ele nos conduz ao “como” do amor. Ágape não é reação sentimental; é amor que se move em direção ao necessitado, sem cálculo, sem mérito. O critério não é explicar o ciclone, mas perguntar: onde está a igreja quando o vento leva as casas? Se o amor revelado em Cristo é autodoação, então nossa indiferença ecológica e nosso consumo irresponsável estão sob juízo.
Gênesis 2.15 afirma que o ser humano foi colocado no jardim para “cultivar e guardar”. Dominar não é explorar; é cuidar. Transformamos cuidado em extração predatória, progresso em devastação. Depois nos espantamos com o desequilíbrio. A Bíblia não romantiza a natureza, mas também não a reduz a recurso.
Há também a dimensão existencial. Catástrofes expõem nossa finitude. A temperatura cai a -40 °C e todo nosso aparato tecnológico revela limites. Tillich falaria da angústia diante do não-ser. A criação em convulsão nos lembra que não somos senhores do caos. Marcos 4.39 registra Cristo ordenando ao mar: “Acalma-te, emudece”. O milagre não é propaganda de controle climático; é sinal de quem reina sobre o caos. A autoridade pertence a Ele, não a nós.
Isso não nos autoriza à passividade. Romanos 8 não termina no gemido. Termina na esperança. A criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. A ressurreição de Cristo inaugura a nova criação, não a fuga do mundo. Apocalipse 21.5 declara: “Eis que faço novas todas as coisas”. Não “outras” coisas. Estas mesmas, renovadas.
Portanto, crises climáticas não são senha para especulação apocalíptica barata. São convocação. Convocação à justiça concreta, ao cuidado ambiental, à solidariedade com os vulneráveis, à revisão de hábitos econômicos. São também lembrete de que o mundo não é fechado sobre si. Ele geme porque está a caminho.
Juízo, nesse sentido, não é espetáculo punitivo. É revelação. Revela nossa fragilidade. Revela nossos excessos. Revela que a criação não suporta indefinidamente nossa arrogância. E, ao mesmo tempo, revela a graça: Deus não abandona o mundo que criou. Ele o redime a partir de dentro.
Entre o ciclone e o inverno extremo, a igreja é chamada a viver como sinal de ágape. Menos discurso defensivo, mais presença concreta. Menos teorias conspiratórias, mais pão, abrigo e intercessão.
A criação geme. E o gemido não é o último som da história. A última palavra é nova criação.