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μιμητής: ensaiando a justiça do Reino

Há uma angústia particular em descobrir que a conversão não nos tornou aquilo que imaginávamos.

Durante muito tempo, eu abracei uma visão quase instantânea da vida cristã. Jesus entrava na vida da pessoa e, a partir dali, as coisas se reorganizavam de modo definitivo. No seminário, estudando Nygren e outros, compreendi que a linguagem bíblica sobre o “velho homem” e o “novo homem” talvez não descreva duas partes coexistindo dentro de nós, como se houvesse um lado mau e outro bom disputando espaço no interior da alma. A ênfase parece recair mais sobre dois mundos, duas ordens de realidade, dois tempos que se sobrepõem. O velho século, ainda marcado pelo pecado, pela Lei e pela morte, continua exercendo sua pressão sobre nós. Mas, na ressurreição de Cristo, um novo tempo já foi inaugurado. A nova criação já começou, ainda que não tenha se manifestado em sua plenitude. A vida cristã é, em grande medida, o aprendizado de viver segundo essa realidade futura enquanto ainda caminhamos num mundo que insiste em operar segundo a lógica antiga.

Logo, o velho homem (a velha criação) ficava para trás em nós, e os pecados perdiam a força, os impulsos desordenados eram vencidos, e a santificação seguia seu curso natural, como se a graça de Deus funcionasse também como uma espécie de reestruturação imediata da alma.

Durante muitos anos eu lia textos como Gálatas 2:20 — “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” — como quem lê a ata de um fato consumado. Na minha compreensão, o velho homem havia sido definitivamente encerrado, e o restante da vida cristã consistia apenas em administrar as consequências dessa realidade. O mesmo acontecia com a afirmação de que “os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências”. Eu tomava o verbo no passado como prova de que a batalha essencial já havia sido vencida. Restava apenas viver à altura daquilo que, em tese, estava resolvido.

Era uma visão coerente. Tinha sua beleza. E, confesso, trazia certo alívio. Se a conversão resolvesse tudo de uma vez, então bastaria entregar-se sinceramente a Cristo e o restante viria quase por acréscimo.

O problema é que a vida não respeitou essa teologia.

E quando a vida decide desmentir uma ideia, ela raramente o faz de forma delicada.

No início do meu ministério, eu cria nisso com convicção. Não se tratava apenas de uma doutrina abstrata. Era também a maneira como eu me compreendia. Se eu havia conhecido a Cristo, então as regiões mais profundas do meu coração deveriam estar devidamente ordenadas. Talvez ainda houvesse pequenos ajustes a serem feitos, mas a estrutura essencial estaria pronta.

Hoje me parece evidente que essa expectativa carregava mais idealização do que realidade.

Em janeiro de 2003, durante o casamento da minha irmã, entrei numa livraria da Mundo Hispano e assisti um filme de Max Lucado, Hermie & Wormie. A história de uma lagarta inquieta por ainda não ser a borboleta que um dia se tornaria me pareceu, naquele momento, apenas uma metáfora bonita. Terminei em lágrimas.

Meses depois, em junho do mesmo ano, cometi adultério.

E aquilo que eu julgava relativamente sólido desmoronou diante dos meus olhos.

Não foi apenas o pecado em si que me abalou. Foi a constatação de que alguém pode conhecer o evangelho, pregar o evangelho, defender o evangelho e, ainda assim, permanecer internamente muito menos transformado do que gostaria de admitir.

Foi doloroso perceber que o problema não era apenas moral. Havia em mim estruturas antigas, mecanismos de defesa, carências profundas, medos, compensações e formas de lidar com a vida que continuavam operando silenciosamente sob uma superfície aparentemente piedosa.

Talvez seja isso que Romanos 5 e 6 descrevem ao falar do Pecado quase como um personagem que entra em cena e passa a exercer domínio sobre a humanidade. Não me parece que Paulo esteja dizendo que o pecado constitui a essência do ser humano, como se fôssemos maus em nossa substância mais profunda. A linguagem bíblica aponta em outra direção. 1 Pedro fala da corrupção “que há no mundo”, e Hebreus descreve “o pecado que tenazmente nos assedia”. A imagem não é a de algo que pertence originalmente a nós, mas de uma força que nos cerca, nos pressiona e, quando baixamos a guarda, acaba nos arrastando exatamente para os lugares aos quais jurávamos jamais retornar.

Demorei anos para aceitar que a vida cristã não é a substituição instantânea de um velho mecanismo por outro mais eficiente, mas um processo lento e, por vezes, humilhante, no qual vamos sendo conformados à imagem de Cristo.

E aqui a palavra “imagem” precisa ser levada a sério.

Não imitamos Deus em sua essência. Rudolf Otto estava certo ao lembrar que Deus é o totalmente outro, o santo que escapa a todas as nossas categorias. Há em Deus uma alteridade que não pode ser reproduzida por esforço humano.

Mas em Jesus, esse Deus se fez visível.

O que antes era inacessível tornou-se concreto. O amor de Deus passou a ter rosto, voz, gestos, lágrimas, silêncio, cansaço, compaixão e obediência.

Por isso o Novo Testamento usa com tanta naturalidade a linguagem da imitação. Paulo pode dizer: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo”. Não porque a vida cristã seja uma encenação superficial, mas porque a transformação acontece justamente quando passamos a organizar nossa existência em torno daquele que finalmente revela o que significa ser humano.

Durante algum tempo, a ideia de imitar a Cristo me soava artificial, quase como um exercício externo de copiar comportamentos. Algo parecido com a proposta de Em Seus Passos Que Faria Jesus?, que, embora bem-intencionada, pode facilmente reduzir o discipulado a uma espécie de moralismo ilustrado.

Hoje vejo de outro modo.

Hoje continuo crendo em Gálatas 2:20, mas já não o leio como uma fotografia estática de algo plenamente concluído. Vejo ali uma realidade objetiva inaugurada em Cristo, cuja apropriação concreta se estende ao longo de toda a vida. Em alguns momentos, tenho a impressão de que certos pecados que ainda persistem em nós são justamente os pregos e os flagelos desse processo. Eles expõem o quanto ainda resistimos à obra de Deus e, ao mesmo tempo, se tornam os instrumentos dolorosos pelos quais o velho homem vai sendo, de fato, levado à cruz. Cristo morreu de uma vez por todas; nós, ao que parece, vamos aprendendo lentamente o que significa morrer com ele.

Esses pecados (que se você pensa bem nunca são originais e sempre são os mesmos) expõem o quanto ainda somos atraídos pela lógica do mundo antigo e, ao mesmo tempo, se tornam os instrumentos dolorosos pelos quais vamos sendo arrancados, pouco a pouco, da velha ordem de coisas e ensinados a viver segundo a realidade inaugurada em Cristo

Imitar a Cristo não é representar um personagem. É permanecer diante dele tempo suficiente para que sua maneira de existir comece, pouco a pouco, a deslocar a nossa. É continuar voltando ao evangelho quando percebemos, com certo constrangimento, que ainda reagimos mais como Adão do que como Jesus. É aceitar que a graça não opera apenas nos momentos luminosos, mas também no reconhecimento sincero de que ainda há muito em nós que precisa morrer para que algo verdadeiramente novo possa nascer.

Talvez a imagem mais honesta da vida cristã seja mesmo a de uma criança brincando de ser aquilo que ainda não é.

Ela segura um caminhão de plástico, faz curvas imaginárias, troca marchas invisíveis e, por alguns instantes, vive antecipadamente uma realidade que ainda não domina. Ninguém a acusa de falsidade. Ao contrário, entendemos intuitivamente que é justamente assim que o desejo, a imaginação e a identidade vão sendo formados.

A vida cristã guarda algo dessa lógica.

Ensaiamos o perdão antes que ele nos pareça natural. Ensaiamos a confiança quando tudo em nós continua inclinado ao medo. Ensaiamos a mansidão quando a agressividade ainda parece mais espontânea. E nesse processo, às vezes lento o suficiente para nos humilhar, descobrimos que Cristo não nos pede que aparentemos uma transformação já concluída. Ele nos convida a permanecer nele enquanto, entre quedas e recomeços, a sua vida vai adquirindo forma em nós.

Talvez essa seja uma das lições mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais libertadoras do evangelho: a de que Deus não trabalha conosco a partir da ficção de quem imaginávamos ser, mas a partir da verdade de quem de fato somos. E, ainda assim, com uma paciência que muitas vezes excede a nossa própria capacidade de compreensão, ele continua nos conduzindo na direção daquilo que, em Cristo, um dia seremos.