No concreto, não no etéreo

No concreto, não no etéreo

É muito bonito imaginar como deveriam ser as coisas.

Uma única Igreja, sem placas, sem divisões, sem histórias de ruptura, sem disputas doutrinárias, sem diferenças de governo, batismo, ceia, liturgia ou missão. A ideia tem sua beleza. Jesus mesmo ora para que seus discípulos sejam um (Jo 17:20-23).

Só que nós existimos deste lado da eternidade.

E, deste lado da eternidade, a Igreja precisa existir no concreto.

O Novo Testamento não conhece apenas uma Igreja abstrata. Conhece igrejas em Corinto, Éfeso, Filipos, Tessalônica. Conhece presbíteros sendo estabelecidos (At 14:23; Tt 1:5), responsabilidades sendo atribuídas (At 6:1-6), conflitos sendo tratados e decisões sendo tomadas (At 15:1-29).

Igreja concreta precisa decidir.

Quem ensina? Como governa? Como recebe novos membros? Como batiza? Como celebra a Ceia? Como disciplina? Como entende os dons? Como se relaciona com o Estado? Como lida com dinheiro? Como envia missionários?

Em algum momento, a bela frase “somos apenas cristãos” precisa sentar numa mesa e votar alguma coisa.

E aí começam as diferenças.

Talvez esse seja um dos motivos pelos quais a ideia de abolir denominações costuma soar tão sedutora quando somos jovens. O tempo parece infinito, as decisões parecem reversíveis e temos uma convicção impressionante de que nosso ponto de vista — e o de quem concorda conosco — é o correto, puro, equilibrado e sensato.

Descartes já tirava sarro disso ao observar que nada parece tão bem distribuído quanto o bom senso: todo mundo acha que recebeu o suficiente.

A história da Igreja é um ótimo antídoto contra essa segurança.

Pensemos apenas em luteranos, presbiterianos e batistas. Nenhum desses movimentos surgiu porque alguém acordou numa terça-feira com vontade de inventar uma marca nova. A Reforma luterana atravessou conflito político, excomunhão e risco de morte. O presbiterianismo escocês se formou em meio a disputas religiosas e civis profundas. Os primeiros batistas ingleses enfrentaram perseguição por convicções que hoje muitos de nós consideramos banais, como liberdade de consciência e batismo de crentes.

Claro que há orgulho nessa história. Há pecado. Há teimosia. Há rupturas que talvez pudessem ter sido evitadas.

Mas reduzir tudo isso a “eles não conseguiram viver em unidade” é confortável demais para quem observa séculos depois, sentado numa cadeira que essas mesmas lutas ajudaram a tornar possível.

Denominações também são memória.

Elas guardam respostas que comunidades cristãs deram, em tempos e lugares concretos, a perguntas que não podiam simplesmente ignorar. Algumas respostas foram melhores. Outras, piores. Algumas precisam ser corrigidas. Outras merecem ser preservadas justamente porque custaram caro.

Por isso eu não tenho grande interesse numa igreja sem identidade.

Tenho interesse numa igreja cuja identidade saiba seu lugar.

Paulo plantou. Apolo regou. Deus deu o crescimento (1Co 3:6).

Talvez uma denominação seja algo parecido: uma forma histórica, limitada e concreta de plantar ou regar dentro de uma obra que nunca lhe pertenceu.

O problema começa quando ela esquece disso.

Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.

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