Evangelho de João
Jesus e as essencialidades
João 6:1-7:52
Introdução
O que é essencial para a vida? A comida? A água? O pão? Jesus? As festas?
Há dois elementos que aparecem nas duas partes do bloco: A água e o pão. A personagem em cada um dos blocos é distinta e a mesma em certo sentido: o povo que busca e o povo que rejeita.
É muito interessante a estrutura que João nos propõe: Criação, Pessoas, Perguntas. Claro, como de costume, neste bloco há outros grandes assuntos entremeados. Temos por exemplo a economia do reino, os milagres, a família de Jesus, o povo… enfim, uma riqueza quase infindável. Me parece, porém, que há um fio condutor nesses capítulos seis e sete. A pergunta que junta temas, relatos e ilustrações tão diversas, é o seguinte: O que é essencial para a vida? Se já respondemos que a vida é uma criação de Deus, se já dizemos que as pessoas são realmente mais importantes do que as ideologias, o que é que sobra se tirarmos as antíteses das coisas expostas?
Parece-me que o medo às perguntas mais básicas é o que nos leva a revestir a existência de perguntas aparentemente reais. Com isso, ficamos às voltas com problemas imaginários ao passo que o realmente essencial se nos escapa. João propõe o seguinte: Criação → Pessoas → O Que é essencial?
Este bloco pode por sua vez ser dividido em duas partes: Essencialidade Geral, Essencialidade Particular. Enquanto o capítulo seis fala da multidão e do povo que procura por Jesus, o capítulo sete fala da família terrena de Jesus, do Povo Judeu em sua festa mais importante, da primeira tentativa de prender Jesus e dos líderes judaicos que não creem.
Por sua vez, a proposta de Jesus em qualquer uma das perspectivas é a mesma: Jesus é a essência da Vida. No seis ele é o Pão da Vida e no sete ele é a Água Viva. Dito em outras palavras, não interessa se você é parte da plebe (o problema de quem está na elite) ou parte da elite (o problema de quem é massa) a essência da sua vida se encontra em Jesus e fora dele o que você tem não é vida.
Estrutura do texto
João parte de dois eventos compartilhados com o relato sinótico do evangelho: A multiplicação dos Pães (presente em Mateus1, Marcos2 e Lucas3) e Jesus caminhando sobre as águas (presente em Mateus e Marcos).
Quando comparamos o conjunto estrutural (capítulos 6 e 7 seguidos do 8) vemos que há uma similaridade fantástica com os sinóticos (ou ao menos com Mateus e Marcos). Os três trazem os relatos acomodados na seguinte sequencia: Multiplicação dos Pães, Jesus andando sobre as águas, o problema da tradição judaica, a fé de uma mulher.
Claro que não é foco deste estudo vasculhar nessa macro estrutura, mas a mencionamos no intuito de despertar um interesse maior nessas interações que vez ou outra aparecem e que se tornam especiais, já que João dificilmente se vê compelido a seguir os sinóticos4.
Seja como for, a estrutura continua a ser a mesma que em outros blocos de João: Relatos, Discurso (ou interação), Reação, Repetição do Discurso, Mais reações.
Os sinais miraculosos (pães e água) dão lugar a um discurso de Jesus que provoca uma reação no povo. Jesus se afasta e volta a cena para mais um discurso e mais reações.
Os afastamentos de Jesus
Há uma tendência generalizada que nos leva a pensar que uma pessoa forte não se afasta. Como o ideal é ser forte, o ideal – por extensão – é não se afastar da luta. Parafraseando Freud, somos de carne mas somos obrigados a agir como se fossemos de ferro.
Estes dois capítulos de João estão recheados de momentos em que Jesus se afastou. Retirou-se do local, da multidão, dos eventos do momento seja para pensar, orar, ou preservar a vida.
I) Os relatos de Mateus e Marcos são concordantes em dizer que a primeira multiplicação de pães e peixes aconteceu após a decapitação de João o Batista5. Lucas coloca o evento após o envio dos doze. Seja como for, os quatro relatos iniciam com um breve retiro de Jesus e seus discípulos (Jo 6:3). Se como se diz comumente a voz da maioria não é a voz de Deus, então a voz de uma multidão não necessariamente reflete a vontade do Criador.
II) O segundo afastamento de Jesus (Jo 6:15) acontece logo após alimentar a multidão e esta – aparentemente – se ”converter” em massa. Ao separar-se dessa massa, ele mantêm o foco na vontade divina e recua da tentação de formar um reino terreno. Se há uma prova de que o reino de Deus não é terreno, é este afastamento aqui.
III) O terceiro afastamento (Jo 7:1) busca preservar a vida pois o tempo dele (de morrer) ainda não tinha chegado. Consciente e propositalmente Jesus adia o momento de encontro com os seus captores. Porém, quando a festa chega ao seu ponto mais alto, ele aparece e coloca uma das frases mais formosas de toda a Biblia: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva”
Os sinais miraculosos
Existem dois sinais miraculosos que acham ecos com ao menos dois eventos do antigo testamento: A multiplicação dos pães – que ecoa com o maná dos tempos de Moisés – e a caminhada sobre as águas – que nos lembra da travessia do povo hebreu no mar vermelho sob comando de Moisés.
Não é por acaso que João (e os outros relatores do evangelho) colocam Jesus como superior a Moisés. E também não é por acaso que a reação é tão violenta por parte de quem ouvia inicialmente as palavras de Jesus.
Jesus é superior a Moisés
Moisés tinha adquirido tal envergadura na mente coletiva que não conseguiam perceber que se tratava apenas de um tipo6 do Cristo que haveria de vir. Não se tratava de colocar a Moisés em uma posição inferior à que merecia, mas sim em uma posição inferior à que o povo o tinha elevado.
Como tudo em João, é na própria estrutura e propósito do seu livro que encontramos as razões pelas que escreve o que escreve. Esta sessão que estamos analisando resolve um problema existencial levantado no 5:45-477. Veja especialmente o versículo 46: Se vocês cressem em Moisés, creriam em mim, pois ele escreveu a meu respeito.
As interações que se seguem nos versículos 6:30-32, 48-51, 58; 7:21-24, 37-398 denotam que o grande problema dos judeus era desapegar de Moisés.
Aquele que crê não é o mesmo que Aquele que crer
Como bons evangélicos temos a tendência a achar que crer é mais um ato do que uma essencialidade existencial. Os versículos 6:25ss precisam ser analisados mais detidamente deixando que o texto diga o que tem para dizer. Se concordamos ou não com ele são outros quinhentos.
Para a pergunta de “O que precisamos fazer para realizar as obras que Deus quer?” (v28) Jesus responde com o que chamo de ‘não-ato’. Ele diz: “A bora de Deus é esta: crer naquele que ele enviou” (v29). Ora, esse crer ai tem que ser analisado junto com as outras frases que o próprio Jesus pronuncia sob este assunto; a saber: “Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede.” (v35) “Porque a vontade de meu Pai é que todo aquele que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (v40) “Asseguro-lhes que aquele que crê tem a vida eterna” (v47) “Contudo, há alguns de vocês que não crêem.”(v64) “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (v38)
É claro que este assunto requer uma analise mais demorada, mas à guisa de resumo podemos dizer o seguinte: a maior parte do tempo, Jesus trata a fé como uma coisa sendo desenvolvida corriqueiramente e não um ato único irrepetível. Não quero dizer com isso que a vida cristã não tenha (ou não deva ter) um início. Não se trata de ter ou não ter cultos evangelísticos ou de conduzir uma pessoa em uma oração de arrependimento. Sempre há de haver um ponto inicial se possível. Todavia, o que me parece que falta é a noção de que Jesus não insiste tanto no ponto inicial como na vida do dia-a-dia. Veja por você mesmo, é obvio que o seu dia de nascimento é importante mas quero ver você viver todos os dias da sua vida só com aquele primeiro ar que entrou nos seus pulmões ou o primeiro leite bebido.
O problema da religiosidade
Julgamos comumente que o problema da religiosidade são as ações externas. Achamos que se uma pessoa costuma ir regularmente aos cultos ou se ajoelhar para orar ou se tiver algum relicário, rosário ou coisa semelhante, já é uma pessoa religiosa e por tanto sem vida espiritual.
Se bem isso não é de tudo errado ele condena o próprio Jesus já que ele mesmo tinha o hábito de ir na sinagoga (6:59).
O que vemos nestes dois capítulos de João, é justamente um combate contra a religiosidade mas não necessariamente contra certas rotinas. Religião é re-ligar; voltar a juntar. Nesse sentido, nossa religião é Jesus, o Cristo.
Religiosidade (ou em termos comuns, religião) é um conjunto de passos que devem ser seguidos para atingir um bem espiritual. É a substituição do essencial pelo temporário, o celestial pelo terreno, o Cristo por uma imagem dele.
Os judeus tinham erguido Moisés a uma posição que não lhe pertencia. Ele era o herói nacional, o que levava os louros. Esqueciam assim que o realmente importante era o Messias para o qual o próprio Moisés apontava.
Acreditar na missão de Moisés ou louvá-lo pelos seus feitos não era errado. Lembrar dos atos dele no deserto e de como ele tinha conduzido o povo também não. Tornar ele mais importante do que Jesus sim.
Para a vida eterna (que começa aqui e agora), Jesus é essencial. Todo o resto é supérfluo por melhor que seja.
Então, qual é seu Moisés?
1Mt 14:13-21
2Mc 6:30-44
3Lc 9:10-17
4É claro que cabe a crítica de que o capítulo 8 foi acrescido bem mais tardiamente ao evangelho na versão joanina. Todavia, os outros dois capítulos seguem a mesma orientação nos três evangelhos mencionados.
5Por que é que João não traz o relato da morte da decapitação de João o Batista? Bom, ao meu ver porque isso não modifica em nada a fé de quem lê. João o evangelista tinha como propósito condensar as coisas que Jesus tinha feito para que os leitores cressem. Logo, sendo que a passagem não é essencial a esse propósito, facilmente pode ser descartada. Por esse princípio, o da auto-limitação na escrita para manter o material focado, devem ser analisados todos os textos joaninos.
6A palavra tipo aqui está sendo usada no sentido de modelo prévio. Ou seja, Moisés nada mais era do que um modelo pelo qual o povo poderia identificar o Messias (o Cristo) quando este chegasse. Veja Heb.3:1-6
7A mesma ideia do final do capítulo 5 aparece em 7:19: Moisés não lhes deu a Lei? No entanto, nenhum de vocês lhe obedece
8A ilustração das águas brotando do interior de quem crê em Jesus, me leva a pensar na rocha no deserto que Moisés bateu. Paulo faz uma análise semelhante em 1Cor.10:4