Jesus e as Pessoas

Evangelho de João

Jesus e as Pessoas

João 2:23-5:47

    1. Introdução

Os primeiros dois capítulos de João parecem estarem encharcados de tanta água que se menciona. Se bem a água não se esgota nesses dois primeiros capítulos e continua sendo referenciada abundantemente até o capítulo 7, decidimos por uma questão prática focar a água só nos primeiros dois capítulos e observar que o assunto vai se esvaziando naturalmente no decorrer das páginas desta rica versão do evangelho1.

Tanto no Gênesis como em João a água vem antes do ser humano. Esta antropogenia2 bíblica encontra certos ecos em algumas teorias científicas mas não é da nossa alçada entrar nesses relacionamentos e simplesmente ver que uma coisa vem antes do que a outra.

O foco aqui são as pessoas. João reduz o amplo conjunto de seres humanos a três grandes relatos mas que, uma vez contabilizados os outros menores, dão um total de seis. Os grandes são os que sempre lembramos: Nicodemos, a Mulher junto ao poço e o Paralítico. Os três relatos menores (mas não menos importantes) são o de João Batista, o filho do oficial e os judeus em geral.

As pessoas e não as ideias são a coisa mais prezada para o Criador. Todavia, as ideias – isto é o que as pessoas pensam, imaginam, sonham – delimitam a vida de cada indivíduo, e a inter-relação entre esses indivíduos conforma a sociedade que por sua vez permeia o indivíduo.

As pessoas que João escolhe são variadas. Todas elas têm seu reduto no qual são aceitos e admirados, todas elas carregam o tormento (ou a realização) de não serem aceitas por um certo grupo de pessoas pelas que gostariam (ou odiariam) de serem aceitos, todas tem dúvidas, todas tem certezas e todos são (aparentemente) muito diferentes entre si.

João é um mestre ao propor uma balança não de dois mas sim de três pratos em cada um dos seus relatos. Por exemplo, Nicodemos tem em João o Batista seu contrário em muitos aspectos mas só em Jesus as águas espirituais do novo nascimento e o batismo de arrependimento e introdução ao reino acham sua concretização. Resumindo, ficamos com uma visão muito simplificada se pegamos só um dos relatos ou se consideramos só dois dos seus personagens. Três relatos principais, três relatos secundários, três grandes personagens em cada um deles. Não me parece, então, que seja o acaso ou o descuido. Sendo então que João pinçou e organizou o material no intuito de que os leitores (primeiros e atuais) creiam em Jesus, vale então a pergunta: Que tipo de pessoa está for a do alcance da fé?

Os relatos estão separados no tempo. Se bem nos capítulos 1 e 2 temos o início das coisas e depois o início do ministério do Cristo relatado dia a dia3, no capítulo 2, 3, 4 e 5 pode que haja até um ano de distância entre alguns eventos.

Os últimos versículos do capítulo 2 nos colocam na festa da páscoa. A primeira da que Jesus participa já tendo iniciado seu ministério. Vale mencionar que são justamente as páscoas mencionadas em João que nos levam a estimar o tempo de ministério de Jesus em três anos e meio.

É nessa páscoa que Jesus se levanta e arrebenta com tudo fazendo a profecia sobre a sua ressurreição.

    1. Jesus conhece as pessoas

O texto que é foco de nosso estudo hoje, nos propõe uma coisa bonita: “Enquanto [Jesus] estava em Jerusalém … muitos viram … e creram nele” (João 2:23)

Que coisa magnífica! Jesus age, eles vêm os sinais miraculosos, muitos creem nele. Aleluia!.JesusEAsPessoas

Todavia, João nos indica que “Jesus não se confiava a eles”4 e que essa desconfiança estava baseada no conhecimento que ele tinha das pessoas. Ele frisa que não tinha necessidade de que ninguém viesse com lorotas sobre os outros, já que ele sabia do lance. Uma leitura mais detida, nos revela que não fala de pessoas particulares e sim do ser humano como raça. A Bíblia de Jerusalém vai trazer “e não necessitava que lhe dessem testemunho sobre o homem, porque ele conhecia o que havia no homem” Esse “homem” aqui não é o macho da nossa espécie, é o ser humano como um todo.

Isso nos leva de novo a analisar o v.24. Repare no contraste “Jesus não se confiava a eles [os que creram] porque conhecia a todos [ os homens ]” É esta a introdução para o que João vai começar a tratar aqui e vai se estender pelo resto do seu relato mas que acha sua colocação mais chocante em João 5:41-42. O nosso problema não é particular, é generalizado. Como exemplo ele tratará de três (seis) tipos de pessoas em uma mesma situação: Um encontro com Jesus. O contraste entre estas tres pessoas e notável.

    1. Nicodemos

Logo após João dizer que muitos creram nele e relatar o episódio do chicote no templo durante a celebração da Páscoa, vemos que um fariseu se aproxima de Jesus.

Temos a tendência de colocar fariseus, saduceus e hipócritas numa mesma sacola. Fariseus e Saduceus levavam a Lei a sério e sim, havia muitos que eram hipócritas assim como há hipócritas em qualquer grupo religioso, político, social. Mas a generalização não é saudável. Por outro lado, vale salientar que os saduceus (que costumavam ser a maioria no Sinédrio e mais bem posicionados socialmente) não acreditavam na ressurreição, ao passo que os fariseus (mais bem-aceitos pelo povo de a pé pois não costumavam ser ricos) sim acreditavam nela.

O dialogo entre estes dois pensadores é uma delicia. Cheio de curvas e jogos de palavras ele nos apresenta um panorama rico no que – a meu ver – é um papo tranquilo entre amigos.

Diferentemente do que a mulher junto ao poço do capítulo 4 ou aos judeus do capítulo 5, Jesus não o aperta ou o acusa. Nicodemos está buscando a verdade. De outra forma, Jesus o colocaria em aperto ou lhe declararia o seu pecado. E mais em vista de que os textos que introduzem este papo declaram claramente que Jesus conhecia as pessoas e não se entregava a elas. Talvez, claro, haja uma ponta disso no encerramento do papo, quando Jesus diz “Quem pratica o mal odeia a luz” em contrapartida com “Ele veio a Jesus, à noite” mas me parece mais a utilização circunstancial por parte do mestre de uma situação palpável para conduzir seu discípulo a uma descoberta espiritual maior do que uma repreensão como nos outros dois casos.

Então, numa noite fresca e tranquila de primavera na palestina, um mestre se encontra com outro e conversam sobre a vida. A origem dela e o fim (como propósito e como encerramento) da mesma.

    1. A mulher samaritana

Os samaritanos são (até hoje) um povo rejeitado pelos judeus; em especial os judeus ortodoxos. Uns 500 anos antes de Jesus, este povo construiu um templo no monte Gerizim que rivalizava com o que havia em Jerusalém.

Os samaritanos são judeus sim (De fato, o estado de Israel os reconhece como tais) surgidos das dez tribos do norte que se separaram das outras duas uns 930 anos antes de Jesus.

Então quando João está descrevendo este encontro entre uma mulher samaritana e o Messias, a história de ressentimentos, desprezos e humilhações já estava rolando solta havia um bom tempo.

Para um judeu da época dos acontecimentos, os samaritanos (por melhor que pudessem chegar a estar econômica ou politicamente mente) estavam sob a permanente ira de Deus. Essa perspectiva, torna mais rica o arranjo que João faz com o texto. Repare que o 3:36 finaliza dizendo que a ira de Deus permanece sobre quem não crê em Jesus. Isto de que “a ira de Deus permanece” era um pensamento típico da época. É o mesmo pensamento que o Apostolo Paulo vai revisar na epístola aos Romanos. Para os leitores da época, então, os samaritanos nunca poderiam chegar a se verem livres da condenação divina já que eles tinham nascido nessa condição.

O contraste entre a mulher junto ao poço e Nicodemos é enorme. Jesus transita com liberalidade e liberdade entre estes dois extremos: De um lado um homem bem-visto na sociedade com colocações intelectuais; Do outro, uma mulher, samaritana, quase com certeza pobre e com um passado que a condenava.

Diferente do que com Nicodemos, esta mulher não vem até ele. Jesus é quem tem necessidade de passar por Samaria. Também o diálogo discorre de forma diferente; enquanto Nicodemos é o que tem perguntas e não é reprendido esta mulher parece que tem que entrar na marra. Sarcástica. Ferida. Insensível. Cheia de vergonhas.

Diferente de Nicodemos, esta mulher sai a contar para todo mundo o que aconteceu. Não fica encima do muro. Se bem o papo com Nicodemos foi profundo, durou apenas uma noite. A mulher provoca tal catársis no seu povo, que Jesus e seus discípulos precisam ficar dois dias na cidade.

A mulher, some na história, Nicodemos reaparece na crucificação.

    1. O paralítico

Provavelmente tinha acontecido um ano entre os capítulos 3 e 4 e o capítulo 5.

Uma das nossas personagens chega a Jesus, a outra vem carregando um cântaro. Já nossa terceira personagem não vem nem vai. Ele precisa ser carregado, levado, deixado, buscado, lembrado.

O cenário é único. Não só porque é diferente dos outros dois cenários, mas porque não vemos Jesus em cenário similar no restante do novo testamento. João nos relata um fato com fantásticos detalhes que só podem fazer sentido se é destinado para pessoas que não conheciam o lugar de primeira mão, mas também para aqueles que gostariam de confirmar os fatos. É digno de menção o fato de que o relato não é contestado ou colocado em dúvida. Ou seja, de fato, ali as pessoas eram curadas quando o anjo do Senhor agitava as águas. De outra forma, João colocaria alguma coisa como “pois as pessoas acreditavam que… “ mas não é o caso.

É notável a pergunta que Jesus faz a este homem. “Você quer ser curado?

Ou seja, qualquer um que visse um homem paralítico num lugar em que todos sabiam que aconteciam coisas miraculosas suspeitaria que o homem queria ser curado. Pior, João introduziu este longo bloco (que tem seu ápice em 5:42) dizendo que Jesus conhecia o ser humano. Sejamos honestos, o que realmente Jesus estava querendo quando pergunta ao paralítico se queria ser curado? Lido rapidamente parece uma piada de mau gosto uma ironia ou uma tirada de sarro.

Uma leitura um pouco mais demorada nos leva a uma proposta: O poder está em Jesus mas a decisão no homem. Todavia, isto nos cria mais problemas do que soluções.

E eu tenho uma outra pergunta: De entre todos os doentes e inválidos: cegos, mancos e paralíticos, por que Jesus escolhe apenas este e o cura da forma que o curou? Resistirei à tentação de falar favoravelmente da eleição soberana de Deus e me limitarei a dizer que aqui se manifesta a glória de Deus como no capítulo 9

Parece-me que esta passagem é parecida com o cego de nascença. Em particular por ter sido feito o milagre em um sábado, por pôr as pessoas para fazer alguma coisa e porque acaba em uma discussão com os judeus sobre a autoridade de Jesus que leva à conclusão de que Jesus é a vida assim como na outra passagem ele é a vida.

    1. Um mapa dos relatos

Acho importante mapear os eventos. Isso nos pode dar uma perspectiva um pouco mais condensada do que o texto e nos permite analisar o bloco de forma única.

Nicodemos

Mulher

Paralítico

Característica

Fariseu. Bem-visto

Samaritana. Rejeitada

Pária. Quase Invisível

Local

Desconhecido
Monte das Oliveiras?

O poço de Jacó

O tanque de Betesda

Momento

Noite

Meio dia

Sábado

Iniciativa

Nicodemos

A necessidade

Jesus

Proposta

Nascer de novo

Adorar em espírito e em verdade

Levantar-se e andar

Impossibilidades

Velhice

Imoralidade

Paralisia

Estilo de dialogo

Dialético

Sarcástico

Direto

Pessoas alcançadas

Talvez ele mesmo

O povo de Sicar

Judeus

Duração do encontro

Algumas horas

Dois dias

Alguns minutos

    1. Os relatos paralelos

Há alguns relatos que geralmente os tratamos como se fossem desconectados dos relatos principais que encontramos nos capítulos 3, 4 e 5. Proponho que sejam lidos como o autor os colocou, isto é, um seguido do outro mas tendo em vista o que ele quer construir.

Se Nicodemos, a mulher junto ao poço e o paralítico são os relatos mais conhecidos, dificilmente os tratamos como uma unidade. E mais difícil ainda, consideramos os relatos de João o Batista, o Filho do Oficial e os judeus como relatos relacionados com os primeiros e muito menos como parte de uma grande unidade.

    1. João o Batista

A mais fácil e natural de ver é a unidade do capítulo 3. O assunto é o mesmo só que colocado de ponto de vistas diferentes. Tome por exemplo o texto 3:3 “Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de cima5” e o 13 “Ninguém jamais subiu ao céu, a não ser aquele que veio do céu” e agora repare na resposta de João o Batista no 3:27 “Uma pessoa só pode receber o que lhe é dado dos céus” e depois no 3:31 “Aquele que vem do alto está acima de todos

Então, o relato de Nicodemos e o de João Batista estão conectados não pela narrativa em si mesma, mas pelo assunto sendo tratado aqui: O Reino de Deus.

Este reino só pode ser percebido (visto) por quem nasce de novo ou do alto, isto é, pela vontade divina e não pelo ser humano comum. João o Batista (que segundo Mateus tinha por pregação “Mudem de cabeça pois o Reino [que vem] dos céus está perto”) aparece aqui como o dirimidor de uma discussão entre um judeu e os seus discípulos sobre a purificação cerimonial (provavelmente uma referência ao batismo que já era praticado antes de João o Batista) mas João o Batista logo leva o assunto para o Reino que nos é dado de cima. Jesus é o noivo que chega para se casar com sua noiva. Esta noiva está sendo preparada pelos servos entre os quais João o Batista tem uma clara visão do seu próprio lugar.

Se o Batista findasse por ai, não conectaríamos com o Reino, mas vemos claramente que é uma ilustração do Reino por ele (ou o Evangelista) continuar com “Aquele que vem dos céus está acima de todos”. Ou seja, é claro que para ele o noivo e a noiva são só ilustrações palatáveis de um Senhor que chega de longe para tomar posse dos seus domínios.

Todavia, como a visão que eles tinham de reino era a de um tirano irresponsável que atropelava tudo o que achava pela frente, João o Batista propõe duas ilustrações agradáveis: O noivo e o pai.

Seja como for, os dois relatos chegam ao mesmo ponto: Quem não aceita Filho (como enviado do alto pelo Criador) continua condenado (compare 3:16-21 com 3:31-36)

    1. O oficial

No capítulo 4, encontramos a mesma coisa que no capítulo 3. O relato não junta os dois eventos, mas os dois eventos se juntam sob um mesmo assunto: O Reino chega aos não judeus.

Igual que na passagem de João o Batista do capítulo 3, esta passagem é muito rica em si mesma e pode e deve ser tratada como uma unidade tanto na escola bíblica como na vida devocional como nas pregações. Porém, ela tem uma riqueza extraordinária ao colocá-la ao lado da mulher samaritana.

Fica difícil dizer o que era que os judeus mais odiavam, se uma mulher samaritana de vida licenciosa ou a bota do soldado romano. Este rei mencionado no 4:46 é bem provável que seja o mesmo que mandaria mais tarde decapitar João o Batista já que ele era tetrarca de Galileia e Cafarnaum fica na Galileia.

O Reino chega aos que estão permanentemente sob a ira divina.

Este sistema de duas partes (a mulher e o oficial), satisfaz dois propósitos e atinge um imensurável número de pessoas: Primeiro, ele atinge aqueles que gostariam de serem inclusos no reino mas não podem por conta da religiosidade em vigor. Segundo, ele ataca a raiz do problema que são os impedimentos artificiais construídos pelos detentores do pedágio. A falta de fé dos que supostamente estavam ai para demarcar o caminho a Deus os tinha (ou nos tem) embrutecido ao ponto de não mais saberem para que estão no mundo.

A mulher junto ao poço e o oficial, encontram o caminho não por conta do esforço pessoal, mas porque o Reino está atingível a eles também. A fé não tem limites, a religião sim.

1Na realidade o assunto ‘água’ não se termina nunca em João e mereceria todo um estudo separado. À guisa de exemplo, vale mencionar que após o 7 ele está presente na cura do cego de nascença, no lavar dos pés dos discípulos, no lado de Jesus traspassado por uma lança e na última pesca maravilhosa.

2Antropogenia é a ciência que estuda as origens dos seres humanos. Estamos usando a palavra aqui num contexto mais restritos cientes da amplitude do que a palavra original pretende significar.

3A contagem dos primeiros dias de Jesus é interessante pois a fórmula “no dia seguinte” não mais aparece no evangelho a não ser em uma ou outra ocasião separada. Porém aqui, temos uma alta concentração de “no dia seguinte”. Já no 2:1 ele utiliza a fórmula “no terceiro dia”. Então, seria um dia relatado em 1:19-28, outro do 1:29-34, outro do 1:35-42, outro do 1:43 ao 1:51. Se a colocação “no terceiro dia” do 2:1 se refere ao terceiro de dois dias não relatados após o 1:50, dão um total de sete dias. Mas ai já é forçar a barra demais…

4Algumas traduções vão trazer “Não confiava neles” mas se bem essa pode ser a primeira ideia, o certo é que o que João está dizendo é que não “se” confiava a eles. Ou seja, não se entregava como a um amigo da alma.

5NVI vai traduzir “de novo” mas há duas coisas a dizer aqui: Primeiro que segundo me dizem, a melhor forma de traduzir ali é “do alto” Segundo, que Nicodemos interpreta ao longo do diálogo como sendo “de novo

Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.