Evangelho de João
Jesus e a Igreja
João 13:1-17:26
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Introdução
A maior parte do tempo confundimos local de reunião com igreja e instituição eclesiâstica com igreja. É claro que não vejo problemas em utilizar os termos de forma intercambiavel quando vamos explicar para um cidadão aonde estamos indo ou o que é que faz esse grupo de pessoas em um local. Ou seja, você não vai dizer para seu vizinho leigo que está indo para o “local de reunião” ou coisa assim. Você está indo para a igreja, oras.
Me refiro ao que realmente acreditamos ser a igreja. Se bem igreja significa simplesmente assemblêia, ou – literalmente – chamados para fora, o relacionamento entre fé e igreja é indisolúvel. A prova mais simples disso é a que encontramos em Mateus 16:13-20. Na confissão de Pedro há várias coisas contidas: 1) é uma revelação dada por Deus. 2) é uma declaração de fé distinta em essência do que o povo pensava sobre o próprio Cristo (“Tu és o Cristo o filho do Deus vivo”). 3) É sobre essa fé que Jesus construiria sua igreja.
Esse resumo, não destoa nem um pouco com o que encontramos em João 13:1-17:26. É uma passagem extensa, mas há uma unicidade no texto inteiro. Ou seja, o trecho tanto como assunto e como evento forma uma unidade que – nas suas nuances – enriquece o panorama geral.
Os dois grandes assuntos que se repetem en cada parte deste extenso bloco podemos ressumi-los assim: Jesus está se preparando para voltar ao Pai, a fé em ser Jesus enviado pelo pai é essencial para fazer parte deste grupo. A palavra “igreja” não aparece no trecho escolhido assim como não aparece a palavra “trindade” em lugar nenhum da Biblia; porém, ao avançarmos pelo texto observamos que é da igreja (e da trindade) que o texto trata.
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Estrutura
Diferentemente dos outros blocos, as reações externas são inexistentes neste. Isso se deve ao fato de estarmos nos adentrando a um momento particular na vida de Jesus e unicamente seus discípulos.
Outra coisa distinta é que o bloco é composto quase que unicamente de discursos e orações de Jesus. Por conta disso, os dialogos ficam reduzidos a uns poucos parágrafos mas que são essenciais para o desenvolvimento do texto.
O capítulo 13 é distinto de tudo o que Jesus já fez no resto do evangelho. Faltava uma ilustração clara de que o Mestre e Senhor veio para servir e que era isso que esperava dos seus discípulos. Esta atitude dos primeiros 17 versículos do capítulo 13, tem ecos no restante do bloco, em particular quando pensamos na ideia de identidade. Ou seja, quem é o Cristo? Qual a sua relação com o Criador? O que é que ele espera dos seus discípulos? Por que?
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O paradigma da identidade
Não há resposta cabível para todas essas perguntas sem a resposta que o próprio Jesus dá ao dizer “Quem me vê, vê o Pai (14:9)” e “Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (13:34b,35) e “… Se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês lavei-lhes os pés, vocês devem lavar os pés uns dos outros” (13:14) e também “Como o Pai me amou, assim eu os ameu; permaneçam no meu amor. Sevocês obedecerem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como teno obedecido aos mandamentos de meu Pai e em seu amor permaneço” (15:9,10) e não poderia faltar “Agora que vocês sabem estas coisas, felizes serão se as praticarem” (13:17) e “Tenho lhes dito estas palavras para que minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa” (15:11). Mas há também a identidade com consequências negativas: “Se o mundo os odeia, tanham em mente que antes me odiou. … Se me perseguiram, também perseguirão vocês… Aquele que me odeia, também odeia meu Pai.” (15:18, 20b, 23)
As referências dadas não são exaustivas porém nos permite vislumbrar uma harmonia fantástica no bloco. Mas veja o diálogo entre Jesus e Tomé em 14:5-14 sobre a equivalencia entre Jesue e o Pai ou o 14:15ss em que Jesus fala de enviar o Espirito quando voltar ao Pai, mas diz logo no 18: “Não os deixarei órfãos; voltarei para vocês” com o que fica claro que há uma identidade entre Pai, Jesus e o Espirito.
Em resumo, há uma relação de identidade entre Deus Pai, Jesus e os seus discípulos. Seguindo a leitura do texto, vemos que essa identidade é extensiva ao Espirito Santo: João 16:14-15. Esta relação de identidade é tão estreita que conhecer um, implica em conhecer os outros e rejeitar um é rejeitar os outros. Não é à toa que Paulo em II Cor.5:17 fala que estar em Cristo é pertencer a uma nova ordem, a uma nova criação que não pertence a este mundo por mais que esteja nele.
E tem mais, estar identificado com Cristo é estar identificado com o Espirito e sua obra como está relatado em 15:26-27. Todavía o texto mais claro quanto à identidade, está em 17:22 “Dei-lhes a glória que me deste, parq que eles sejam um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste”
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A essencialidade da fé na encarnação
Veja os seguintes versículos: 13:3, 14:4-5, 17:27, 17:8b, 17:25. O que vincula todos eles? O fato de ser Jesus enviado pelo Pai. Para muitos basta com ter uma fé… qualquer tipo de fé, em praticamente qualquer coisa por mais aberrante que seja para que consideremos aquela pessoa como nosso irmão ou irmã.
Se bem somos irmãos como raça e devemos amor, carinho, respeito, cuidado e genuino interesse por cada ser criado, não devemos misturar as coisas e achar que qualquer um é nosso irmão eterno. Jesus faz uma distinção clara nisto ao dizer “Não estou rogando pelo mundo, mas por aqueles que me deste, pois são teus” (’17:9b) Ou, se fica mais claro, João 1:12-13 “Contudo, aos que o recebera, aos que creram no seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus”
Essa fé em que o Cristo é vindo do Pai, cumpre sua missão e volta para o Pai é essencial à igreja. Dito em outras palavras: quando não há fé nesse fato, estamos na presença de outra coisa e não da igreja pois a essência da igreja é a fé no fato do Cristo ser exatamente quem ele disse ser.
Por extensão, qualquer pregação que promova uma imagem de Cristo diferente desta, não é uma pregação cristã, já que para ser cristão, é nescessário justamente a fé no Cristo – isto é – no enviado.
Por se fosse pouco, é impossível ao ser humano natural entender, aceitar e muito menos se identificar com o Cristo sem a intervenção do alto. João 16:7-11 é muito forte para silencia-lo com achismos secundários: “… é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselhieiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juizo. Do pecado, porque os homens não crêem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e vocês não me verão mais; e do juizo, porque o principe deste mundo já está condenado”
Me interessa enfatizar neste ponto o convencimento do pecado. O pecado aqui é não crer em Cristo. No contexto em que encontramos este trecho, não se trata de uma crença histórica, isto é, não se trata de crer que existiu um homem na galileia chamado Jesus que fez milagres e foi morto. Nem se trata sequer de crer que ele ressucitou já que para os primeiros leitores do evangelho isso não era novidade ne fato assustador. Crer aqui é depositar a fé na encarnação do Cristo. Isso é essencial e não vem por mérito ou esforço humano, mas sim pela intervenção sobrenatural do Espirito Santo na criação.
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A oração e seus frutos
A igreja – e não o individuo – é atendida em suas preces. Convenhamos que isso não é muito ortodoxo que digamos. Temos a impressão que a oração é um lance individual. Porém, se observamos a criação, tudo é pareado. Nada há que exista em si mesmo. Até aquelas plantas que portam seus dois gêneros, tem dois gêneros. Os animais que podem mudar de sexo segundo a ocasião fazem exatamente isso: mudam o sexo ou suas funcionalidades.
O individualismo é um subproduto do pecado. A morte social, isto é, a separação do meu irmão de raça acontece não por outra razão básica do que o pecado original. A igreja é uma nova ordem, uma nova criação. Como tal volta ao paradoxo original da criação do ser humano: “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus os criou; homem e mulher os criou” Gen 1:27
O que encontramos no bloco? Bom várias referências a que a oração será atendida, só que sempre vinculada à fé na encarnação do Cristo: 14:13; 15:16; 16:23-24, 26
É em certo sentido, parecido com Mateus 6:33 “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas”
Excelente artigo! Em especial o item 5, o qual faço uma relação com a atuação conjunta de pessoas junto a sociedade em busca da melhoria das condições dos menos favorecidos (sem, obviamente, que isso tenha outros interesses).