Uma das experiências que mais saudades me deixou foi a de pastorear interinamente uma igreja de origem eslava. Durante dois anos e meio eu fui transportado para uma forma de fé mais singela, rica e profunda. Singela porque por conta da guerra que tinham deixado para trás esta comunidade tinha tido que se despir de certas coisas não essenciais à fé cristã. Rica porque por conta da necessidade imposta pela migração o que poderia ter sobejado de um certo orgulho nacional tinha sido esmagado vendo-se forçados a abrir-se para a realidade da experiência existencial humana em formas que de outra forma talvez levasse muito mais tempo. E profunda, porque nessas escolhas que tiveram que fazer, conseguiram manter sua identidade não apenas eslava mas como eslavos cristãos re-arraigados em terras brasileiras.Talvez apenas um outro migrante para entender porque isso é profundo.
De todas as práticas que eles tinham a da saudação durante o domingo de ressurreição é a que mais lembro. Nesse dia eles se comprimentam dizendo “Cristo ressucitou!” ao que o interlocutor responde “Em verdade ressuscitou!”. Essa mesma forma poderia ser usada no primeiro culto matutino, ou no almoço do domingo de ressurreição. Lamentavelmente durante minha estância lá eu não soube apreciar a riqueza cultural disso e cometí o mesmo erro dos missionários que se internam nas tribos indígenas e tentam lhe mudar a cultura.
Como na sua cultura local a ressurreição de Jesus o Cristo é lembrada? Qual o impacto disso na sua vida pessoal? Como os da sua casa sabem que esse é o evento mais importante desde a criação do mundo?
Nos tempos que correm está cada vez mais de moda abandonar a congregação, abandonar a forma evangélica recebida, abandonar ritos e por ai vai. Argumentos são utilizados para justificar isso. O mais comum é o de dizer que somos livres para não nos congregar. Ou seja, como se congregar-se fosse um peso, uma carga, uma obrigação. É instigante no meu calo cerebral a pergunta de porque essa mesma liberdade não pode ser usada para o obvio: congregar-se para identificar-se. A única resposta que me aparece é de que se trata nada mais do que um subproduto da anarquia individualista que tem tomado conta da sociedade e – por consequência – dos mais pós-modernos “líderes” que nada mais são do que núvens sem água levadas para lá e para cá sem conteúdo; árvores desarraigadas impedidas de dar frutos dignos do reino.
“Khristós Voskrés!” (Cristo ressucitou) resume um legado eslavo para uma igreja que se adaptou no tempo mas não perdeu a essencia da mensagem. O primeiro dia da semana (que vale a pena lembrar não é a segunda-feira como o mundo rendido ao dinheiro nos quer fazer pensar) é de um especial significado para a igreja. Não que os outros dias não tenham, mas nivelar por baixo não faz mais do que mesmerizar a coisa simplificando – no melhor estilo Hitleriano – em lugar de aprofundar. Tanto se contarmos os dias da semana da criação literalmente ou – como muitos de nós – alegoricamente, vemos que o evento criativo de Deus se inicia num domingo (se este domingo demorou 24h ou se foram longos milénios, tanto faz). A ressurreição de Jesus o Cristo se dá também num domingo. Há um novo começo, uma nova realidade se abrindo para a humanidade.
Talvez não sejamos plenamente cientes de quão profunda é esta verdade nem quão necessário e urgente é o resgate da sua essência cristã. Eu acho que Romanos 5:18 resume bem ao dizer “…por um único ato de justiça…”. Essa tríade de morte-estadia no túmulo-ressurreição é “um único ato de justiça”. Geralmente temos a tendência de comparar este “único ato” com o ato de Adão citado no mesmo versículo. Mas o lance é bem maior pois ele vem argumentando que apenas Deus é justo e que o homem é injusto em sua essência desde o inicio da epistola.
Sente raiva de essa ideia? Acha que ser cristão é tolo? Pensa que deveriamos suavizar isso? A resurreição de Cristo está para você em um nível menos importante do que o Natal, a virada do ano ou seu aniversário? Pensa no mais profundo do seu ser que o homem pode chegar a ser justo se se esforça e ninguem atrapalha? Talvez – e só talvez – ainda não tenha entendido o básico da fé cristã.
Eu estou entre aqueles que acha que a fé cristã está desvirtuada ali mesmo onde deveria ser exaltada. A igreja tem se extraviado nestes ultimos anos com uma celeridade espantosa. A seriedade teológica tem dado lugar à insegurança da crença e à falta de identidade local e isso não porque estejamos indo para uma unificação benéfica da fé cristã, mas porque estamos abandonando a mesma fé que dizemos professar. A geração que está vindo ai, sente na alma que não vale mais nada ter algum tipo de identidade seja esta cultural, filosófica, racial, etc. Isso também se aplica para a fé cristã. Não que seja uma exclusividade da nossa era. Isso já aconteceu durante o oscurantismo e acontece hoje de forma inversa mas igualmente devastadora.
Quem é você? Se é cristão, é cristão mesmo? Ou seja, acredita de fato que Jesus ressurgiu? Se não, não seria o momento de re-avaliar sua vida?