Viajando pelo interior do Paraná, sentado numa poltrona confortável de um ônibus que cruzava paisagens encantadoras e exuberantes, verdadeiras obras de arte que pareciam pincelar a “tela” da janela com verdes de todos os tons, disputava minha atenção um filme no interior do veículo. A história era um fato real. Um rapaz cego de nascença, convencido pela mulher que amava, se submeteu a uma cirurgia que pretensamente lhe daria o privilégio da visão. A promessa se tornou uma realidade temporária e este, que até então vivera no mundo da escuridão, começou a enxergar e imergir num mundo confuso de cores e imagens. Lidar com a visão se tornou algo interessante e curioso no enredo. Diferenciar entre fotos e objetos tridimensionais à distância era um enorme desafio, já que o cérebro precisava processar imagens com sentido de profundidade. A história ascendeu a picos de emoção e alegria e despencou numa angústia sem fim ao se deparar com a cruel realidade do retorno da ausência de luz.
A importância da visão foi representada no filme de forma clara e deu a chance de perceber que há uma vulnerabilidade explícita no processo de percepção da luz. As sombras que se interpõem entre o olhar e o ver são como nuvens carregadas que hora nos permitem vislumbrar formas e cores (nem sempre completamente compreendidos), hora nos bloqueia completamente a percepção. As coisas continuam lá, mas simplesmente as deixamos de enxergar. O olhar e o ver se distinguem plenamente quando um não corresponde mais ao outro. Vultos vazios se movimentam no escuro marcando espaços antes muito bem definidos.
Numa razão inversamente proporcional ao filme em questão, aquele que nasce vendo, pode terminar seus dias mais próximo de quem jamais viu.
O trânsito que flui da luz para as sombras parece ser o movimento inevitável do desgaste físico. Aquilo que antes era envolto em clareza e facilidades agora, a passos lentos, mas contínuos, entra pelas terras dificultosas das sombras. Lugar este que antes insistia em assumir o pseudônimo de “terra do nunca”; agora percebe que o que era um vigoroso “nunca”, perde suas fantasias se tornando cada vez mais o fatídico “sempre”. Envelhecer parece ser, entre outras coisas, o implacável processo minguante da percepção da luminosidade.
Na contra mão do tráfego inevitável, pelo qual viaja o expresso que carrega todos nós, está a proposta da vida cristã de vislumbres do divino. Neste projeto que convida ao mundo de percepções, o elemento essencial para a luz se apresenta como sendo a santificação. O ato da santidade traz consigo a recompensa da iluminação: “buscai a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Visão e santidade têm tudo a ver na vida cristã e estão relacionados numa proporção paralela. Quanto mais santidade, mas percepção do divino.
Uma vez mais faz se a diferença entre olhar e enxergar. As realidades mais concretas da beleza da vida estão plenamente expostas diante de todos. Poucos são os que lavam seus olhos no colírio da santidade e assim contemplam o divino exuberante em sua multiforme exposição diante de nós. O antigo legislador já clamava em sua fome pela contemplação do divino. “Ninguém pode ver a minha face e viver” advertia a divindade que se revelava e se velava.
A construção da história culminou na expressão mais vívida do divino. O rosto queimado do peregrino afirmava: “quem vê a mim, vê ao Pai”. Mas como perceber o Pai numa figura tão humana? Só mesmo a santidade poderia providenciar tal visão.
Os anos se passam e o que permanece é o desafio de enxergar. Ver a Deus não parece ser somente uma questão relegada a um futuro escatológico que guarda sua percepção para o dia de amanhã. A ótica que se deslumbra na contemplação do divino se faz possível hoje. Ela é vulnerável, como todo processo de percepção da luz. Sua amplitude, sua clareza e sua qualidade são sempre processos circunstanciais dependentes da negação de si mesmo. Nesta via, sujeita a todas intempéries da existência humana, hora a luz perpassa por todos os lados de nosso órgão sensorial, hora ela se obscurece pelas muitas nuvens de nossos retrocessos.
Ver a Deus é um privilégio daqueles que são banhados pela luz da santidade. Para estes, as paisagens pitorescas de exposição da divindade podem ser percebidos até nos cantos mais “insignificantes” do quadro de cada dia. É tamanha sua beleza, que pouco a pouco ocupa todos espaços de nossa movimentação. Nas mais variadas formas, expressas em cores de tons tão distintos e sutis, cada pedaço da vida traz revelações inimagináveis da presença do divino. Ele está lá, às vezes estampado em cartazes quilométricos de dimensões imponentes; às vezes pontilhado em minúcias apresentadas estrategicamente em proporções milimétricas. Alguns o veem, outros tropeçam nele sem o perceber. Mas ao observador perspicaz, a recompensa é imediata. A cada vislumbre um encanto, a cada encanto um êxtase, a cada êxtase uma porção a mais de vida. Talvez a vida abundante seja isso – a capacidade de contemplar e se deliciar no divino no desenrolar de cada dia.
Ele está lá. Pena que muitos não o vejam. Quem tem olhos para ver, veja. Neste processo alguns desfrutam da promessa: Bem-aventurados os puros de coração, pois eles verão a Deus.
A diferença entre ver e não ver está no privilégio de se santificar. Isto é o que define quem vive a vida e quem simplesmente passa por ela.
Everson Spolaor