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Santidade: Seu caráter em jogo

1) Definindo bem as palavras

Quando somos chamados a falar de santidade e santificação, somos levados quase que automaticamente a definir a palavra antes de mais nada. Isso porque é uma daquelas palavras que comumente acabam adquirindo, pelo uso comum, um conteúdo diferente daquele que originalmente tem e quando isso acontece, todo os conceitos e todas as ideias que da palavra dependem, acabam sendo esvaziados de conteúdo.
Uma coisa “santa” nada mais é do que uma coisa separada, destinada, consagrada para um propósito.
Assim, tecnicamente, se você utiliza seu carro só para ir trabalhar, poder-se-ia dizer que ele foi “santificado” para isso. Isso assim dito, nos parece quase que uma blasfêmia, uma profanação, já que a palavra “santo” tem conotações de “perfeito“, “acabado“, “divino” e não com “consagrado” ou “separado” para uma função ou propósito.
Evidentemente que não advogo para o uso da palavra “santo” para qualquer coisa, só quero ressaltar seu conteúdo original.
Todas as línguas tem uma tendencia natural à simplificação, então se santo fosse sinônimo de perfeito ou de divino, já as línguas do mundo todo teriam feito tal simplificação há anos

Com isso em mente, podemos então passar a analisar mais duas coisas que me interessam: a “santidade de” e a “santidade para“.

Se santo significa separado, então o substantivo santidade denota a qualidade de uma coisa ou pessoa que foi separada. O lance é que pode ser separado de e separado para. Simplificando para não cansar, somos separados das coisas deste mundo e separados para o serviço a Deus. Porém, esta simplificação brutal a faço, só para mostrar o abismo conceitual do outro lado. Ou seja, se entendemos de forma errada a palavra santo, é comum entendermos de forma errada santidade ou santificação. Isto é, geralmente associamos santidade com alienação. Daí que tem muito “crente chato” ou que “se acha” porque na cabecinha dele santidade é a mesma coisa que se tornar um crítico desprezível da sociedade em que vive, sem ao menos melhorar o seu ambiente em qualquer quesito. É o que Jesus chama de “hipócrita” em Mateus 7:5. Voltarei sobre isso no final.

2) Santidade e mais algum adjetivo

A palavra santidade pode ser colocada junto de alguns adjetivos que nos ajudem a enxergar melhor o que realmente pensamos deste assunto. O que segue é como uma ludificação teológica para uma revisão pessoal de critérios e conceitos. Não precisa concordar ou discordar, só relaxar e curtir a viagem. Vamos lá.

Santidade Contingente – É aquela que acontece quando o carinha é pego em algum pecado. O desgraçado sofre, pena, se ajoelha, promete até o impossível com tal de não ser exposto. Não será muito real, mas que ora, ora.

Santidade Aparente – Se dá regularmente em horario de culto ou na presença de outras pessoas que acham que a santidade é uma coisa importante.

Santidade Pós-mortem – É a do fulano que acaba de morrer. “Tão bonzinho que era”.

Santidade Pós-moderna – É a que acontece depois de relativizar palavras como “pecado”, “castigo”, “inferno” e outras de similar cunho. Com o degrau mais baixo é mais fácil fazer de conta que estamos subindo uma escada.

Santidade auto-conquistada – É fruto do esforço próprio do ser humano em conquistar o divino. É a prima da salvação por obras no campo do desenvolvimento espiritual.

Santidade preterida – É aquela que começa na segunda-feira que vêm, junto com a dieta, a poupança para a viagem, etc.

Santidade hipertrófica – É a que mostra um crescimento desproporcional em algumas áreas (bem visíveis) do que comumente é entendido como santidade mas não tem efeitos sobre a existencialidade da pessoa que a carrega.

Santidade bombada – Feita à base de anabolizantes pseudo-espirituais como louvorzão, idas para o monte e tal, produz aparência robusta mas na hora de puxar a vaca do brejo, é melhor chamar os universitários.
Bom, evidentemente que nada disso é santidade. Até porque basicamente a santidade tem raízes internas que se manifestam no caráter do ser humano. Cantar bonito, gritar bem alto, colocar os olhos em branco no culto nada tem a ver com santidade. Também não é ter tal ou qual dom ou talento como se fosse um prêmio à santidade conseguida após longo esforço. Também não é santidade o ser sistemática e pateticamente triste como se a alegria e a felicidade não fizessem parte da experiência cristã. E -obviamente- ter saúde financeira, emocional, ou física não é sinal de santidade.

3) Ao final das contas, o que é santidade?

Bom, quem me acompanhou até aqui já sabe o que quero desconstruir, isto é, o conceito imbecil e triste de que é possível construir uma santidade com efeitos externos enquanto a interioridade desaba contanto ninguém saiba desse desarranjo. Então como definir santidade?
Entendo que santidade é a formação consciente do caráter cristão tendo em vista o Reino de Deus.
Repare na suave cadência que ecoa nesta definição. Primeiro não há imediatismos e segundo, o Reino de Deus é colocado como causa última ou propósito avassalador da santidade.
Ao falar em formação, estamos falando em anos, não em um evento pontual da vida.
Claro, reconheço a validade dos apelos feitos aos domingos como sendo setas no caminho do peregrino, mas não lhe dou a eles (nem às respostas aos mesmos) a transcendência que os pregadores pretendemos lhe dar.
É uma formação consciente porque -mesmo sendo de tendências pronunciadamente calvinistas- entendo que a santidade não é um feito divino e sim um resultado/objetivo (Ef.1:4) do ato intervencionista de Deus na vida do ser humano quando este atinge a base do pensar humano. Ora, não é por acaso o “pensar” o que nos distingue como humanos? Não é necessário o pensar para pecar? Ou por acaso pode haver hamartia sem decisão? Logo, é este pensar, esta essência, a que precisa ser separada para Deus e seu Reino.
Falo de uma formação consciente do caráter porque gosto daquela definição de caráter que diz que caráter é aquilo que você é quando ninguém lhe está vendo. Ou seja, é sua essência que está em jogo. Não estamos falando se você foi bom no vestibular ou se é um ótimo padeiro ou se se sai bem recolhendo o lixo ou é um exímio neurocirurgião, nem sequer se é um bom pai, marido, paga seus impostos e pede nota de tudo o que comprar, estou falando de caráter, aquilo que ninguém mais do que você mesmo conhece porque é só isso que sobra no final das contas.
A palavra cristão parece à toa numa definição de santidade ou talvez uma redundância desnecessária. Contrário a isso, eu acho essencial mencionar a palavra cristão pois sem o Cristo na base da definição, nada pode ser feito. Ou melhor, tudo o que for feito é um defeito. Nada importa se você for presbiteriano, metodista, anglicano, católico, batista, pentecostal, se não é do Cristo, nada feito. Se ele não é teu motivo, alvo, força, sustento e em lugar disso pretendes satisfazer o olho dos teus irmãos de congregação, tudo o feito é defeito.
O tendo em vista coloca a consciência de novo onde tem que estar. Nada nesta definição traz alguma coisa automática ou mágica. Esse tendo em vista visa não só o futuro mas também o estado anterior e o atual do sujeito que está sendo santificado em perspectiva com o Reino de Deus. Há três necessidades humanas: aceitação, aprovação, aprecio. Se a santidade que tu praticas, visa -de alguma forma- ao menos uma destas três necessidade no plano humano ou divino, então não estamos falando de santidade. Ou seja, não existe santidade para inglês ver. Assim como também não existe santidade para sermos aprovados, aceitos ou apreciados por Deus. Ou no estilo claro de Hebreus 10:14 “com uma única oferta aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados”. Você já está completo no Cristo. Isto é, já foi aceito, aprovado e apreciado por ele no Cristo, logo a santidade nada tem a ver com essas coisas.
Finalmente temos o Reino de Deus que é a razão última de existência da santidade. Eu não penso em Reino de Deus só em termos escatológicos e eternos. O faço em termos palatáveis e terrenos também. O Reino foi inaugurado com o Cristo na terra. É a intervenção do próprio Deus na história da humanidade por sua própria e livre vontade o que torna possível o Reino Real que desafia o Reino Usurpado.
Esse Reino tão esperado por muitos, se manifestou de uma forma completamente diferente da almejada e até hoje a sociedade religiosa de plantão continua a tentar encaixar os fatos na fantasia mirabolante deles. O Reino de Deus, então, não é um sonho a ser concretizado no além, e sim aquilo que já desfrutamos e temos na comunhão não só com o parecido religiosamente com a gente e sim com o outro ser humano sem as barreiras religiosas lastreadas na ignorância. É a visão do Reino antes, durante e depois de nossa vida a que deve permear a formação do caráter cristão.

Concluindo,

Você não atura seu irmão? Seu vizinho? Seus parentes? Você está simulando uma conduta que não lhe é própria só para ser aceito? Vive como se Deus não lhe acompanhasse nas suas horas mais intimas? Está na hora de rever seus conceitos pois isto aqui é só o preludio da eternidade.

Você se preocupa com a santidade alheia? Esqueça. Jesus em Mt.7:5 definiu isso como hipocrisia. Santidade tem a ver com caráter, o meu, seu caráter. Não o dos outros.

Os habitantes deste Reino que já se está manifestando são preparados ao longo da vida para o que ainda há de vir. O que vai sobrar no final das contas? O que é que vamos levar desta vida? Só o caráter reformulado no Cristo. Isso é santidade e por isso é tão vital buscá-la