Verdades absolutas, verdade relativa e o Cristo

blogMe topei esses dias com um velho amigo. Comentando com ele sobre como a esposa dele estava linda, ele me respondeu dizendo que isso era “uma verdade absoluta“. Ao lhe dizer que isso era relativo ele me saiu com que a verdade, se verdade, é absoluta.
Ficou difícil argumentar já que a briga ia ser boa porque é obvio (para mim) que a minha mulher é muito mais  bonita que a dele.

Brincadeiras à parte, é sadio reconhecermos que cada um de nós acha que está na verdade. Nesse sentido, argumentar contra isso é tempo perdido pois (fazendo um paralelo com Descartes quando fala do bom senso) cada um de nós está plenamente convicto que está na verdade, ou que a verdade (mesmo a utópica na que se acredite) é mesmo A Verdade e não só uma parcela da mesma ou uma verdade relativa ou pior que se esta piamente enganado. São essas as que chamo de verdades absolutas (assim, em plural) pois cada quem está plenamente convicto da sua e define a participação do outro no seu grupo a partir da aceitação da mesma como sendo exatamente isso, uma verdade absoluta.

Sem cair no argumento esdruxulo e simplista de que toda verdade relativa é uma mentira preciso sim dizer que toda verdade é relativa e que a verdade é absoluta.(Aviso que se para aqui perde a melhor parte)

Você tem irmãos ou irmãs? Pense então no que cada um de vocês pensam sobre sua mãe. É mentira? Não, claro que não, é uma verdade com todo o peso que uma verdade tem mas é relativa, porque advêm – obviamente – de uma observação sintética e parcial. Logo, o que para mim é verdade, pode que para meu irmão não seja. Usualmente expressamos isso com “Eu já não penso tão assim”.  Toda essa frase reflete subjetividade e tensiona o desejo de que o ponto de vista do eu seja levado em conta tanto quanto eu levo em conta o ponto de vista dos outros.

A verdade, então, é mais uma utopia do que uma realidade do dia a dia no sentido em que sendo seres limitados não temos como lidar com o absoluto como parte integral da experiência diária (até porque diária é uma limitação de tempo perante o infinito da imanência da verdade). Dito em outras palavras, você não tem acesso à verdade absoluta para tomar qualquer tipo de decisão, quer para comprar um quilo de arroz, escolher o shampoo do cachorro, ou disciplinar um filho que diz que o outro fez isto ou aquilo. Você tem certas verdades parciais (ou relativas) expressadas na forma de preço, propaganda ou interpretação do acontecido respectivamente.  Além disso, você tem a vivência da sua mãe, o tipo de cachorro que você mesmo ou seu parceiro já tiveram e a tendencia sempre presente na hora de julgar um caso entre filhos.  Logo, se a verdade absoluta não lhe é acessível em coisas tão simples, cotidianas e terrenas, o que pode ser dito das coisas eternas?

O Messias (ou o Cristo se preferir o título em grego) propõe uma coisa que fala muito do que ele achava dele mesmo e que define também quem o segue.  Ele disse “Eu sou o caminho, a verdade e a vida“. Este judeu criado por um padrasto carpinteiro e filho de uma judia mal falada (pois deve-se lembrar que tinha aparecido grávida antes do casamento) e que havia vivido sua vida nas empoeiradas ruas e estradas da palestina no limite da expectativa de vida da época e aproximando-se ao fim da sua existência terrena por um ou outro meio, se manda uma dessas: “Eu sou a verdade“.  De duas uma: Ou o moço estava completamente louco pois o calor do deserto e uma verminose cronica tinham fritado o cérebro dele ou realmente era Deus e por tanto, A Verdade.

Uma coisa é dizer que você é cristão já que anos de sedimentação da ideia faz soar quase que um insulto a um ocidental lhe dizer que não é cristão.  Então é um termo que se tornou muito vago para se referir a alguém que sabe alguma coisa sobre a vida de Jesus Cristo e boa…

As coisas começam a esquentar um pouco mais se você se define como evangélico, mas isso é só por contraposição ao fato de ser católico romano.  Mas novamente, é um termo que tem se degenerado ultimamente e – esvaziado do seu correto significado – associa o interlocutor àqueles pregadores televisivos alienados de toda realidade espiritual que encontram nos evangelhos (sim, em plural) uma forma de autoajuda que misturada com uma parcial interpretação do antigo testamento sedimentam o caminho para se transformarem nessa chusma de pseudos neo pajés caricaturas de sacerdotes pré-cristãos.

Todavia, a coisa complica mesmo em qualquer lugar do mundo, quando você se identifica com o carpinteiro que se auto proclamou como a verdade. Isso porque todo mundo sente a exclusão que fica manifesta ao se dizer a e não uma possível verdade. Em outras palavras, não interessa se se é muçulmano, católico romano, católico ortodoxo, evangélico tradicional (e os tradicionalistas também), evangélico renovado, reformado, anabaptista, budista, sintoísta ou ateu. Nem sequer interessa se você conhece a Bíblia de capa a capa ou se sabe o alcorão em árabe por tradição oral e na integra. Nem muito menos se você acredita no nascimento virginal de Jesus, no seu ministério, na sua morte expiatória, na sua ressurreição e na sua ascensão ao céu. Se Jesus (o Cristo) não é a Verdade nada feito.

É impossível então dizermos que temos a verdade como coisa absoluta. Podemos – como muito – dizer que estamos aprendendo a verdade com aquele que declarou ser a verdade. Tenho comigo que esse é um processo que não acaba nunca e com esse nunca me refiro à eternidade também, isso porque estar na presença de Deus não nos torna deuses, logo, sendo a verdade absoluta um atributo divino, não chegaremos nunca ao conhecimento absoluto dela por mais que chegaremos bem perto.

Sintetizando mas não simplificando:

  1. Identifique-se com o ponto mais complicado de Jesus – ele é a verdade.
  2. Reconheça que é – e sempre será – um ser humano.
  3. Admita que sua verdade – por melhor, mais pura, mais honesta, mais desinteressada e mais justa que seja – é foi e sempre vai ser uma verdade relativa doutra forma haveria mais de uma verdade absoluta e não há como haver duas verdades absolutas.

Verdades Absolutas, verdade relativa e o Cristo by Dortta on Mixcloud

Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.