Já pensou!?

Já pensou que no relato do gênesis Deus faz a mulher em separado?
Já pensou que o herdeiro da promessa feito a Abraão tinha que sair de Sara e não de Hagar por mais que fosse legalmente correto?
Já pensou que – mesmo havendo Abraão tido um filho da escrava – Deus não a esqueceu e lhe deu uma promessa similar à que dera a Abraão?
Já pensou que para os judeus Abraão, Isaque e Jacó estão em pé de igualdade com Sara, Rebeca e Raquel?
Já pensou que as lágrimas de Ana regaram o mesmo local onde seu filho haveria de receber seu chamado?
Já pensou que Maria suportou a humilhação pública por causa do Salvador?
Já pensou que a ultima preocupação de Jesus na cruz foi com a sua mãe?
Já pensou que na ressurreição para quem Jesus apareceu primeiro foi para as mulheres?
Já pensou que numa sociedade em que o testemunho da mulher não valia grande coisa Deus deu a elas o privilégio de serem suas primeiras testemunhas?
Já pensou que a melhor ilustração da relação entre Jesus e a Igreja é o casamento e que o casamento nada mais é do que a junção da imagem plena de Deus (“à imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou.”)
Já pensou….?

Salvos pela fé, apenas.

É de compreensão comum que as pessoas se salvavam no antigo testamento por seguir as obras da Lei, ao passo que no novo testamento seria apenas pela graça.

A salvação sempre foi, é e será apenas por fé.

Fé num salvador que haveria de vir no caso do antigo testamento.

Fé num salvador presente no tempo de Jesus.

E fé num salvador que já veio nos tempos do novo pacto. Isto é; agora.

Dêem-me um ponto de apoio e moverei o mundo diz a frase de Arquimedes. Tal parece que isso foi o que aconteceu com Lutero entre 1515 e 1522 ao se deparar com Romanos 1:17 e 3:23-26

Lutero

Lutero era um homem atormentado com a falta de segurança da sua salvação. Ao final das contas, ele se conhecia bem e sempre havia um outro pecado para ser confessado, uma outra penitência para ser praticada, uma outra punição para ser aplicada.

Sendo Deus santo e ele tão pecador, não havia oportunidade para ele ser salvo, já que não havia fim nessa espiral de auto-perseguição espiritual que o afastava cada vez mais da solução.

Aprouve a Deus ter Lutero um confessor que lhe encaminhou a ler a Bíblia, em particular a epístola de São Paulo aos Romanos.

A vida comum

Lutero não era o único a estar atormentado por este assunto. Na realidade a sociedade como um todo vivia sob esta pressão.

A igreja de Roma estabelecia penitencias para pecados veniais. Isto é: aqueles que não levam à perdição mas que trazem castigo segundo a doutrina Romana. Para tais, exisitíam missas particulares, indulgências, e outras cerimônias dependendo da quantidade, da gravidade e do poder adquisitivo do pecador.

Diferente dos tempos atuais, a vida no fim da idade média estava permeada completamente pela hegemonia da igreja Romana. Ou seja a vida politica, social, familiar, intelectual, artística e todas as outras áreas que você consiga imaginar, estavam impregnadas pelos conceitos, ideias, filosofias, ritos e leis que emergiam na igreja de Roma.

Não que Lutero tenha sido a primeira voz a se levantar contra o sistema. Porém ele foi o primeiro a articular formalmente uma representação do que não mais se encaixava, em especial na esfera espiritual. Não era mais possível que – tendo o renascimento mostrado a importância das ideias, o valor do ser humano, a relevância da liberdade na vida comum – seres pensantes como Lutero permanecessem quietos.

No tempo de Lutero, a sociedade inteira estava fervilhando. Nomes como Nicolau Maquiavel, Nicolau Copérnico e Leonardo Da Vinci já tinham ou estavam fazendo sua contribuição quando Lutero entra em cena.

Logo, o que às vezes se atribui apenas a Lutero tem que ser visto num contexto mais amplo e fiel aos fatos comprovados.

Então, o que esses dois textos chamaram a atenção deste monge alemão e porquê trouxeram tal mudança tão profunda e marcante que até hoje a cristiandade ocidental se divide entre Católicos e Protestantes?

Romanos 1:17

O profeta Habacuque, observando a sociedade em que vivia, exige do Senhor uma resposta. Anseia por um desdobramento de um Deus justo sobre uma sociedade encardida no pecado.

Nesse contexto, o profeta registra a frase:

Eis que sucumbe o que não tem a alma íntegra, mas o justo vive por sua fidelidade.

Paulo, escreve a epístola aos cristãos da capital do império romano por volta do ano 56 da nossa era. Nela ele recolhe o trecho de Habacuqe mas com uma ênfase um pouco diferente:

Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: “O justo viverá pela fé”.

Se o “justo” a que Paulo faz referência fosse um que consegue estabelecer sua própria justiça, então carece sentido a frase imediatamente anterior em que diz “no evangelho é revelada a justiça de Deus” Pois se o justo se faz a si mesmo, não há necessidade de uma boa notícia e nem de intervenção divina.

Assim sendo, há quem diga que a frase fica melhor com uma reorganização. Ficando assim: “O justo pela fé, viverá“.

Justificação é um termo judicial que se opõe – no seu conceito – ao de ser condenado. O juizo final não admite mais do que dois resultados apenas: Justificado ou condenado.

É justamente o fato de ser justificado o que trouxe paz a Lutero. Ele se deparou com Romanos 5:1 e 8:1 textos nos quais o apóstolo Paulo declara que

  1. estamos em paz com Deus e
  2. não há mais condenação possível.

Não é apenas um ato imaginativo de Deus em que ele se elude com a situação do Homem tentando convencer-se de que o Homem é uma coisa que não é: justo. Trata-se mais da injeção do seu Espírito na vida do ser humano por meio do qual a justiça divina começa a fazer morada no individuo.

Lutero, plenamente embuido do espírito da sua época que colocava em realçe o individuo e em relevo o ser humano, se apropia desta verdade e a transforma no seu ponto de apoio ao redor do qual todos os outros começam a girar. Mais tarde a reforma colocaria eles em ordem: Sola Fide, Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia, Soli Deo Gloria. Ou seja, Apenas Fé, Apenas a Escritura, Apenas Cristo, Apenas a graça e unicamente a Deus se deve Glória.

Romanos 3:23-26

Demos agora uma olhada na outra passagem que escolhemos hoje para exemplificar o pensamento de Lutero.

É obvio que não dá em uma pregação de 20 minutos encaixar tudo o que deve ser dito sobre Romanos 3. Nem sequer da para colocar aquilo que Lutero descobriu já que a vivência deste homem neste texto foi muito marcante. Apenas conseguiremos vagamente exemplificar o pensamento de Paulo e Lutero sobre estes assuntos e isso de forma muito superficial. Entendemos, todavia, ser o mínimo que pode ser dito sobre o texto.

O versículo 23, faz uma generalização daquelas que costuma provocar grandes problemas.

todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus

Paulo poderia ter dito “há algumas pessoas realmente ruins nesta vida”. Poderia ter pontoado que “há alguns que não mereciam estar vivos por causa da sua ruindade”.

Mas não. Paulo diz: “todos pecaram“. Simplesmente não há distinção. Judeu ou não, todos pecaram. Não se trata apenas – como algum bom agostiniano diria – de sermos por natureza pecadores. Mas sim de que cada um dos seres humanos tem pecado.

Pecado é uma palavra muito simples nas línugas neo-latinas e anglosaxonas para traduzir uma variedade bem ampla de palavras que trazem a ideia de errar ao alvo.

Não é um errar ao alvo por incapacidade ou por falta de vontade apenas. É errar ao alvo colocado pelo criador por incapacidade, por falta de vontade e por exercicio da vontade humana.

Pode parecer desgarrador – aos olhos humanistas da nossa época – o fato de Paulo dizer que “todos pecaram“. Mas se você para para pensar um pouco na depressão profunda à que Lutero estava exposto por não conseguir agradar a Deus, você rápidamente verá que se trata de motivo de grande alegria saber que está a humanidade toda no mesmo barco.

Não que o fato de estarmos “destituidos da glória de Deus” seja motivo de alegria ou de louvores. Mas sim o que o texto fala: Deus é quem justifica mediante a fé em Cristo a todos os que crêem. (Rom 3:22) Isso sim é motivo de grande alegria: sabermos que ao crermos temos sido não apenas justificados, mas remidos.

Redenção é um termo comercial. É o preço pago em nosso resgate. Na analogia bíblica, éramos escravos e agora fomos libertos pois o preço de nossa liberdade foi pago completamente. Ou como diz o hino “foi pago de um modo cabal“.

Não cabe mais possíbilidade do antigo dono reclamar nenhum direito sobre nós pois o preço justo e satisfatório foi pago na cruz.

Deus ofereceu [Jesus Cristo] como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça

Isso sim é motivo de alegria!

Somos plenamente salvos. Se bem éramos completamente escravos. Se bem estávamos completamente condenados. Se bem éramos completamente incapazes de salvar a nós mesmos. Deus se mostra justo ao nos salvar. Como assim justo?

Bem, porque a encrenca em que nos havíamos metido era tão grande e a dívida era tão grande que – mesmo Deus tendo todo o poder para reverter a situação pela força – escolhe o caminho do sacrifício e do pagamento completo da dívida que nós -seres humanos- tínhamos criado e que nos era impossível saldar.

Ele é justo e justificador de todos os que nele crêem. (Rom. 3:26) Quando a Biblia diz “é” se refere ao caráter de Deus. Agir de outra forma seria deixar de ser Deus. E isso é impossível.

É por isso que esse texto lúgubre de “todos pecaram” traz tanta luz e alegria. Estamos todos no mesmo nível. Todos precisamos da mesma graça e nenhum de nós merece coisa alguma por mais que todas as propagandas do momento sinalem o contrário.

Conclusão

Assim como nos tempos de Habacuque, de Paulo, de Lutero, estámos perante uma sociedade que a cada dia se degrada e busca sua própria corrupção.

Não é de agora que há necessidade de uma redescoberta do caráter básico de Deus. É contra essa descoberta que o sistema deste mundo atua e é contra esse sistema diabólico que a voz da igreja em constante reforma se deve levantar mais uma vez.

A Igreja na Pandemia

A Igreja (não como instituição, mas assim, com maiuscula, como corpo vivo de Cristo) tem passado por varias e boas ao longo da sua existência.

É facil nos distanciarmos de certos períodos (como o da idade média) dizendo “ah, não, isso não fomos nós, foram eles” e não nos permitir a chance de aprender com erros do passado.

Obvio que – como fruto da reforma – não posso aplicar um plural e dizer “sim, fomos nós!” mas por outro lado, devo ter a suficiente humildade para reconhecer que respondemos solidariamente por tudo o que se chame de “igreja cristã” perante a sociedade.

Estamos -mais uma vez- perante um desafio descomunal. Uma coisa que transborda nossa capacidade humana de compreensão. É tempo de abandonar -então- certas aproximações obscurantistas sobre o problema que nos é comum a todos os seres humanos que habitamos este planeta e entregar-nos juntos à busca de uma solução que venha a ser de bênção a cristãos, musulmanos, hindus, ateus, ou seja: ao ser humano como um todo.

É verdade que – por exemplo – na desgraça da segunda guerra, houveram pessoas que se ergueram como gigantes e nos carregaram nas costas. E é também verdade que houveram -agora sim no pequeno rebanho reformado- pessoas do porte de Karl Barth que se atreveram a enfrentar -de forma aberta e direta- a profunda escuridão que se levantava sobre a raça humana.

Porém, não deixa de ser vergonhosa verdade, que houveram muitos cristãos de uma e outra vertente que se lançaram sobre o problema com soluções covardemente prontas sem se atrever a analisar a realidade.

Situação semelhante – voltando no tempo – nos aconteceu com a gripe espanhola e com a primeira guerra mundial. Mas é obvio que o evento que mais se parece com o atual é o da peste negra ou peste bubônica sobre a Europa.

Foi na peste que o ritual se mostrou completamente inutil como de fato é. Foi na peste que nossa maior lição como Igreja deveria ter sido aprendida. Mas foi exatamente nela que abandonamos o posto. Obvio, claro, que sempre houveram inquietos homens que se atreveram a trilhar caminhos diferentes dos já conhecidos. Mas quando tomamos distância do evento, vemos que esses pobres herois de nada serviram no que veio a seguir: o desmoronamento total da sociedade feudal e o descalabro da igreja de Roma que -não por acaso- seguiam estruturas similares.

Agora, nos encontramos perante situação igual e com pessoas sofrendo por coisas que não merecem o sofrimento. Me refiro ao fato de se a igreja vai poder se congregar ou não. Se os membros vão ou não voltar para os rebanhos locais. Se a forma de fazer culto vai ser retomada. Se …. se cabem ou não 500 anjos na ponta de um alfinete.

É obvio que mudou. É evidente que não podemos masi continuar a querer cultuar como era há 500 anos atrás. É notório que devemos abandonar o navio e nos atrevermos na mata virgem. Se realmente nos interesam as vidas dos que se perdem, nada mais natural de que ir até eles onde eles estão e não esperar que -sei lá porquê razão- eles venham até nosso conforto.

Aproveite a oportunidade. Se abra para o novo normal.

Vencemos!

Uma visão pesimista sobre o fim da pandemia

Aviso aos navegantes: esta é uma obra ficcional escrita durante a pandemia do COVID19. Ainda estamos em isolamento social e – talvez – indo para lockdown.

Esteban d. dortta – Maio 15 2020

Por fim vencemos!

Após meses de luta, de reclusão e ao custo de várias vidas conseguimos vencer o vírus que tão terrivelmente assolou a humanidade durante mais de um ano. Parece mentira que possamos andar livremente de novo pelas ruas, respirar o ar fresco, tomar um café na padaria, reencontrar os amigos.

Aos poucos a sociedade se recompõe da sua forçada letargia que lhe foi imposta para poder sobreviver. É verdade sim que muitos empregos foram perdidos e vários deles para sempre. Mas também é verdade que algumas coisas que antes fazíamos de um jeito as passamos a fazer de outro.

Para trás fica o tempo de medo e pavor que este vírus provocou na gente. Junto com o medo, foram-se a ansiedade, a incerteza, o desassossego por não saber qual dos nossos em que canto do mundo o vírus ia pegar.

A falsa sensação se segurança que a rotina dá, placidamente começou a tomar conta dos nossos corações. Assim como o sol morno de uma manhã outono nos esquenta as costas, aos poucos fomo-nos aquecendo e esquecendo do terror do isolamento. Para trás ficam a calamitosa dependência de amigos de verdade, família, Deus. Ao final das contas, quem – de fato- precisa de algum deles agora que estamos bem?

Não mais frases de alento ou de aconchego, não mais dicas de como amar o próximo em situação de convívio forçado, não mais orações comunitárias nem expressões de saudades. Quem precisa de meu esforço e dedicação, quem realmente merece toda minha atenção é a profissão, o trabalho, o serviço, … o dinheiro. Ao final das contas, quem vive sem ele?

Os poucos vamos mentindo e enganado os outros dizendo que aprendemos muitas coisas durante a pandemia. Mas o que é que de fato aprendemos se assim que podemos voltamos a fazer as mesmas coisas que fazíamos antes?

No que hoje – em meados de 2021 – somos melhores do que éramos em final de 2019? Nos tornamos mais honestos em nossos negócios? Temos mais misericórdia com o próximo? Somos mais amorosos com nossos filhos? Damos mais tempo para nosso cônjuge? Deixamos um tempo livre apenas para estar sozinhos e pensar?

Não, óbvio que não! Isso ai é para fracos! Para tolos que não entendem que o que realmente interessa é correr dia após dia. Isso é apenas para aqueles que se interessam com coisas que pareceram ser importantes durante um tempo, mas o que realmente interessa está lá fora e longe de mim: as coisas que não tenho, os amores que não me deram, os viagens que não realizei e outras coisas semelhantes a estas.

Mas não posso dizer isso, “pega mal”. É por isso que mentimos e dizemos que aprendemos, que somos diferentes, que a sociedade está melhor. E é por essa mesma razão que minto que estou mentindo e falo a mim mesmo e repito até o convencimento “saímos melhor do que estávamos, vencemos!”

Indigno

Não se trata mais de Amor?

Em 19/Junho de 2019 eu escrevi o poema logo acima para o próximo encontro que teríamos do grupo “Igreja: Comunidade Terapêutica”.

Por quê olhas com desprezo
as chagas do meu coração?
Não sabes, por acaso,
que são fruto da minha decisão?

Com tuas palavras dizes que me amas
e com teu olhar que me odeias
Oh desgraça esta mendicância
que precisando eu de tuas palavras
me obriga a aceitar sem qualquer ressalva
essa tua fria e cruel mirada.

Arrogante, e impassível
soberbo e acusador
com voz suave e elegante
me dizes que sou pecador

Elencas meus pecados
como se fosses um tosquiador
Será que não te avisaram
que isto tudo é sobre o Amor?

Corro, me afadigo,
me omito, me limito,
me calo, me transformo
buscando tua aceitação.
Coisa de loucos esta vida,
Não se trata mais de Amor?

É obvio que não sou poeta. Um aluno de segundo ano do primário consegue ver isso nas poucas linhas toscas, mas foi um jeito que encontrei de dar vazão a alguns sentimentos de se aglomeraram no meu coração ao longo dos anos. Se essas linhas te fazem sentir certa angústia, ele já cumpriu seu propósito.

Antes disso, em 23/Dezembro de 2018 às 18:30 sofri um aneurisma dissecante de aorta. Completamente assintomático, simplesmente se manifestou de uma hora para outra. Ao outro dia às 09:30 estava entrando na sala cirúrgica do Hospital Regional para uma intervenção de emergência. Só conseguí ficar em pé e com certa dificuldade e com ajuda depois do 26/Dezembro. Passaram três longos meses afastado do serviço por completo e mais três de afastamento parcial. Apenas em outubro recebi alta ambulatorial do cirurgião e ainda estou em tratamento com o cardiologista, o nefro e o neuro.

No dia da alta da internação em janeiro de 2019 o médico que me estava liberando, falou para minha filha e eu que a recuperação tão rápida se devia em grande parte ao excelente condicionamento físico. Caímos na gargalhada com a Rebeca já que -fora caminhadas regulares, bicicleta nos finais de semanas e umas piscinas esporádicas- eu me considerava um sedentário empedernido.

Além disso, desde que tiveram que extrair meu apéndice por volta dos 30, eu tinha reforçado junto com minha primeira esposa o costume de evitar sal, gorduras, etc. Depois dos 40 já casado novamente tínhamos eliminado também o açúcar e mais tarde a farinha.

Por ter passado os últimos vinte anos da minha vida desenvolvendo software para a área de saúde sabia que podia ajudar com alguma informação. Até porque era do meu interesse descobrir a causa. Ao final das contas, se havia algum problema hereditário (minha avó materna morreu repentinamente e sempre falaram que tinha sido uma parada cardíaca por exemplo) era minha responsabilidade levantar isso e passar para as gerações seguintes como lidar com isto.

Então – com a informação que pude levantar – fiz um genograma orientado à saúde e o levei aos médicos em todas as consultas. Não sou profissional, mas as causas de um aneurisma podem ser reduzidas a três: hipertensão arterial, desordens hereditarias e defeitos cardiovasculares congénitos (lesões causadas por trauma não se aplicam porque nunca tinha passado por um procedimento cirúrgico cardíaco ).

Conversando com o cirurgião ele me indicou que o grande vilão de nossa época é o estresse. Ou seja, é o estresse que acaba potencializando um ou dois desses fatores e literalmente arrebentando com tudo.

Até hoje (inicio de 2020) não conseguimos atribuir a uma única causa a razão do meu aneurisma dissecante de aorta mas é obvio que o peso emocional da auto-cobrança passou a conta. O estresse acumulado de anos aguardando a aprovação de alguns seres humanos específicos e de grande relevância pessoal acabaram por simplesmente serem demais para meu corpo.


Algumas linhas do poema as revisaria. Em especial aquela que diz “São fruto da minha decisão” já que aprendí neste último mês que era impossível eu decidir diferente.


Como morrer à toa

  1. Não se aceite como um ser humano comum. Exija de você a perfeição.
  2. Não escolha seus amigos. Seja melhor que Jesus que escolheu seus discípulos.
  3. Deixe que autoridades terrenas (colocadas por Deus) assumam o lugar de Deus
  4. Preocupe-se com a opinião dos outros.
  5. Comporte-se como se não estivesse envelhecendo.

Lucas 14:26

Se alguém deseja seguir-me e ama a seu pai, sua mãe, sua esposa, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até mesmo a sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo.

Mateus 10:37

Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim.

Uma mala quase vazia

Há no folclore uruguaio uma chimarrita (pronuncia-se “tchimarrita” com ‘r’ gaucho e não o ‘h’ paulista) cujo título é “Pal que se va”. Isto é “Para aquele que vá embora”.

Dentre as coisas boas do folclore de qualquer país sempre pode ser resgatado o que o povo em geral sente em comum e os conselhos ali contidos, via de regra, falam ao coração diretamente sem muitos rodeios sendo – por isso – de fácil compreensão e aceitação.

Coloco aqui, então, uma tentativa de tradução desta chimarrita de Alfredo Zitarrosa tratando não de manter a métrica mas sim o sentido original numa tentativa de transmitir um detalhe que me parece básico:

EspañolPortuguês
No te olvides del pago
si te vas pa’ la ciudad
cuanti más lejos te vayas
más te tenés que acordar.

Cierto que hay muchas cosas
que se pueden olvidar
pero algunas son olvidos
y otras son cosas nomás.

No eches en la maleta
lo que no vayas a usar
son más largos los caminos
pa’l que va carga’o de más.

Ahura que sos mocito
y ya pitás como el que más
no cambiés nunca de trillo
aunque no tengas pa’ fumar.

Y si sentís tristeza
cuando mires para atrás
no te olvides que el camino
es pa’l que viene y pa’l que va.

No te olvides del pago
si te vas pa’ la ciudad
cuanti más lejos te vayas
más te tenés que acordar.
Cuanti más lejos te vayas
más te tenés que acordar.
Não esqueça a vila
se você for pra cidade
Quanto mais longe você for
Mais precisa se lembrar.

É verdade que há muitas coisas
que podem ser esquecidas
mas algumas são esquecimentos
e outros são apenas coisas.

Não coloque na mala
o que cê não vai usar
as estradas são mais longas
para quem vai carregado d’mais.

Agora, você é mocinho
e já pita que nem um maioral
Nunca mude sua trilha
nem mesmo tendo pra fumar.

E se sentir tristeza
quando olha para trás
não esqueça que o caminho
É para o quem vem e para quem vá.

Não esqueça da vila
se você for pra cidade
Quanto mais longe você for
mais você precisa se lembrar.
Quanto mais longe você for
mais precisa se lembrar.

Me interessa isso de “Não coloque na mala o que não vai usar, as estradas são mais longas para quem vai carregado demais” .

Vivemos num século de ansiedade. Na realidade, nem poderíamos dizer que “vivemos” mas sim que passamos por ele já que nosso constante pensamento são nas coisas que estão por vir, tanto as do futuro próximo quanto do longíquo.

O Brasil é recordista em ansiedade a nível mundial com 9,3% da população sofrendo deste mal chamado “transtorno de ansiedade”. Mas para além dessa cifra, que já de por sí é alarmante, em termos gerais não mais vivemos o presente. Repare, por exemplo, como no sul temos perdido o hábito do chimarrão, no sudeste o de visitar os amigos para um cafezinho e a rede e o cordel no norte e nordeste.

Não mais vivemos e sim passamos a tal ponto que se não o fizermos assim, nos gera culpa e malestar por não estar “na correria”. Nos habituamos, então, a colocarmos coisas na mala da alma como se fossem uma prevenção para sei lá que catástrofe e com esse peso todo tentamos correr como se fossemos atletas na casa dos 17 anos.

Em certo sentido, esta vida é um peregrinar. Tudo bem que aquele hino que diz “Eu tenho de Jesus saudades” soa meio maluco por conta que é de se supor que – estando Jesus presente na vida do cristão – não deveria sentir saudades dele. Todavia, me interessa pelo que expressa em termos gerais sobre estar longe da pátria. “Da linda pátria estou mui longe quando o hei de ver?”

Viemos de Deus e para ele retornamos. Ou você nasceu porque você quis? Ou você (exatamente você com suas falências, temores, alegrias, insatisfações, orgulhos e vergonhas) é fruto da decisão dos seus pais? Com certeza seus pais queriam “um bebê” mas não exatamente você. Goste ou não, você é fruto do plano de Deus em algum sentido.

Nesse peregrinar de Deus e para Deus, passamos a vida enchendo nossa mala da alma com ansiedades, tristezas, culpas e outros pesos desnecessários. Lembre que o caminho de ida é também o caminho de volta. Para que trilhar ele com peso extra? Qual a vantagem? Qual a vitória disso?

Filipenses 4:6
Não andeis ansiosos por motivo algum; pelo contrário, sejam todas as vossas solicitações declaradas na presença de Deus por meio de oração e súplicas com ações de graça.

1 Samuel 1:10-18
e, com a alma profundamente sofrida, chorou muito e orou ao SENHOR.…

Salmos 56:3,4
Todavia, quando o medo me atacar, confiarei em ti!…

Mateus 6:26,33
Contemplai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Não tendes vós muito mais valor do que as aves? …

Lucas 12:30-32
Porquanto o mundo pagão é que peleja por essas coisas; entretanto, o vosso Pai sabe perfeitamente que as necessitais. …

1 Pedro 5
6 Sendo assim, humilhai-vos sob a poderosa mão de Deus, para que Ele vos exalte no tempo certo, 7lançando sobre Ele toda a vossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de vós! 8Sede sensatos e vigilantes. O Diabo, vosso inimigo, anda ao redor como leão, rugindo e procurando a quem devorar. …

A (in)utilidade de congregar-se

Hoje fala-se muito em como é inútil se congregar. A ideia básica é que a instituição oprime e esmaga o indivíduo. Está tão presente a ideia de liberdade e de como ela haveria de se manifestar nos anseios particulares que nos parece uma coisa de loucos o que qualquer instituição religiosa queira fazer com o indivíduo.

Eu concordo com essa ideia. Se a instituição está para esmagar e tirar a individualidade, então ela apenas existe para si tendo-se tornado um fim em si mesma e não merece a atenção de qualquer pessoa. Conheço várias denominações não por te-las estudado academicamente mas por ter participado delas e em cada uma delas se ouve a mesma crítica. Não interessa se ela é pequena ou grande, barulhenta ou calada, liberal ou tradicional; a crítica é a mesma. Misteriosamente é a única instituição que criticamos com tanta veemência. Quando se trata de serviço, por exemplo, engolimos gatos e sapatos pois o sustento vem de lá.

A partir de esse ponto, começamos a construir uma caminhada independentista visando – no melhor dos casos – vivenciar uma vida cristã mais parecida com um ideal de liberdade que nos parece particularmente correto. Não nos resulta justo que se nos diga o que fazer, como fazer ou quando fazer ou com quem fazer. Não nos parece ético que nosso dinheiro seja gasto para ajudar certos indivíduos de caráter duvidoso. Não nos resulta correto que haja tanta gente envolvida nas decisões que – achamos – deveriam ser de cunho pessoal.

Sabe o que? Eu penso assim também. É inútil congregar-se em um lugar onde a injustiça impere, a ética seja fajuta, e percamos nossa liberdade de decisão. Isso não tem nada de cristão nem de certo nem de bom. Liberte-se. Saia. Ou fique para mudar, mas do jeito que está não pode ficar. Sua sã e imaculada consciência cristã o impedem de concordar com isso?. Então, haja.

Nossa sociedade está cada vez mais acostumada a paparico e mimo de tudo quanto é espécie. E -como pertencemos a esta sociedade- não poderíamos ser diferentes. A verdade, está longe de isso tudo aqui. Se bem é verdade que a instituição religiosa é um fardo que deveria ser arrancado e eliminado, não é verdade que o não congregar-se é a solução. Também não serve chamar de congregar-se a qualquer café da manhã feito na casa de algum irmão que compartilhe da mesma ideia (ou não). Também é falaz equiparar o ato de se congregar ao de pertencer a uma instituição religiosa ou ao de trabalhar ou de pertencer ao corpo da paz da ONU. São coisas essencialmente diferentes e é exatamente ali, na descoberta do que é de fato essencial, onde falhamos.

A vida cristã -pelo fato de ser vida- é dinâmica e ela precisa do Espirito Santo para florescer. Não há como espremer em termos suficientemente adequados a profundidade dessa dinâmica na vida do ser cristão. Agora, pense no seguinte: Tem você todos os dons? Está em você toda a plenitude do Espirito? Ou os dons e o Espirito se manifesta na vida de outro ser cristão também. Se a resposta é sim para qualquer das duas primeiras perguntas, arrisco a pensar que você -querido leitor- está longe, bem longe de entender o cerne da coisa. Se for não para qualquer das duas, então porquê renegar da congregação? O que está levando a jovens, adultos e anciãos a renegar do ato de congregar-se?

Bom, entre os elementos justos para deixar de congregar-se além dos já elencados, pode ser o maltrato emocional, a falta de um senso de pertença, a pura ausência de cuidado por conta da correria destes dias e por ai vai. Mas fora isso, o que me parece que está permeando todo esse movimento de abandonar a congregação local, é o simples fato de que temos misturado os conceitos, equiparando instituição religiosa com igreja de Cristo. E isso está bem longe da verdade.

Quando colocamos em pé de igualdade o fato de pertencer a uma determinada denominação com o de pertencer ao corpo de Cristo, apenas declaramos que não entendemos nem uma coisa nem a outra.

Uma pessoa pertence ao corpo de Cristo apenas por crer nele. Essa fé nele se manifesta em obediência regular e gradativa apenas por uma questão de fé: acreditamos que o que Ele espera de nós é bom para nós e o Reino dEle.

Já a vida de relacionamento religioso com uma instituição passa por outros caminhos. De fora parece até a mesma coisa mas não é. A obediência é contra-natura e -se conquistada- há uma tentativa de impor isso aos outros. Não há plasticidade, dinâmica, adaptação, adaptabilidade nem tolerância.

Por usarmos uma figura bíblica, a instituição religiosa está para a conversão, assim como as tendas que Pedro queria montar estava para o fato da transfiguração. Uma outra ilustração que serve, é o da Lei e da Graça. Na instituição há muita Lei e não tem graça. Já na vida cristã há liberdade e responsabilidade.

Quer dizer então que devemos jogar tudo pro alto e abandonar a congregação? Nem de perto.

Entendo que devemos resgatar o conceito simples e profundo do que é a igreja de Cristo e tirar a poeira do projeto original de criar um povo que anda conforme seu coração por graça e não por imposição. Somos salvos não por termos a teologia correta, o culto correto ou a forma de administração corretas mas sim por pertencermos ao povo escolhido. Logo, é com o povo escolhido que quero estar.

Esse povo tem desfrutado da graça; como é que eles vão construir um sistema legalista? Bom, isso é mais comum do que parece. Paulo já enfrentava isso na região da Galácia. A redenção daquele povo era indubitável para o apostolo, mas quando chega a hora, ele deixa claro que tentar voltar à Lei é abandonar a graça. Um não se junta com o outro. Mas toda instituição religiosa quer fazer exatamente isso: substituir a graça com Lei.

Está sem congregar-se? É tempo de revisar seus conceitos. Se tornar uma brasa autónoma é um caminho fácil e bacana de se tornar um carvão apagado. Mancha, fede, mas não esquenta.

Está sem congregar-se? É tempo de se arrepender pois quer dizer que ainda não entendeu o processo de Deus por meio do qual sua individualidade acrescenta e edifica o semelhante ao passo que a própria congregação transforma sua individualidade.

Está sem congregar-se? É tempo de ler de novo as escrituras e clamar por misericórdia. “Deus a quem ama corrige” (Prov.3:12 e Heb.12:6) e nós -seres humanos- somos cheios de nós mesmos e de nossos próprios critérios e a verdade é que não conseguimos enxergar a própria nuca. Ficamos expostos e nem sequer damos a mínima para o que de fato está acontecendo com nós. A falta de correção neste quesito, não indica alguma outra coisa? Pois é, tem que clamar, meu chapa.

É na congregação que a sua alma é modificada. Não por imposição de condutas, maltrato emocional, abandono espiritual, hierarquias humanas, pseudo-cristãos pavões. Todavia, por aceitação, afeto, amor e -sobretudo- serviço ao próximo.

O conselho é antigo e não é meu. Hebreus 10:25 diz claramente “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia“. Sim, leu certinho, congregar-se e encorajamento andam juntos. Não é um serviço pastoral encorajar as ovelhas a se congregarem. É uma responsabilidade de cada um. Até porque se a igreja é composta de pessoas e você é parte da igreja, está se abandonando a si mesmo?

A herança esquecida – O caminho ao mercado

Anteriormente…

Na medida em que Júlio ia crescendo, suas responsabilidades iam aumentando. Isso implicava em sair mais vezes da sua pequena aldeia circular e ir até o mercado. Era toda uma aventura. Só o fato de que o caminho até lá era uma longa e imperceptível curva lhe fazia pensar que os circulões mais antigos sempre enfatizavam: “o caminho até o mercado pode ser transitado por se tratar de um pedaço de um círculo muito grande. Nós é que – por sermos infimamente pequenos – o percebemos como uma reta“.

Júlio ficava encanado e encantado. Se isso era verdade, eles e apenas eles – os circulões – estavam no caminho certo. Claramente deveria ser assim já que se até o caminho ao mercado fazia parte de um grande círculo, logo, a origem de tudo deveria ser um circulo, um circulão ou alguma coisa assim. Não podia ser de outro modo, já que os pais deles eram circulões, os avós, os bisavós, todo mundo era um circulão e quem não era, acabava sendo excretado de uma forma ou de outra. “Uma aberração perturbadora” – como diziam os mais velhos – que precisava ser “purificada” vivendo fora da aldeia. Só que Júlio – por mais encantado que estava com a ideia – não conseguia desencanar. Havia alguma coisa que não se encaixava nesses ares de perfeição circular.

No caminho haviam coisas que Júlio admirava. Era um caminho longo que levava em média dois a três dias para ser realizado. Pelo menos na ida porque na volta a coisa era bem complicada pois tinha que voltar com as compras e o único jeito era empurrar, puxar, arrastar em pequenos grupos sobre tábuas ovais (pois não passavam de círculos deformados e formas imperfeitas podiam ser usadas mas não interiorizadas). Certa vez lhe contaram a história de um circulão jovem que quis colocar quatro círculos ao lado das tábuas ovais de transporte só que em pé vinculados por um eixo dois a dois. Demorou mais tempo em explicar o que ele pretendia do que em ser excretado. Enquanto era colocado para fora da aldeia ele esperneava, falava qualquer coisa ao respeito de que ele estava seguindo as ideias de Salvador; que era bom buscar formas de viver melhor; que era uma bênção usar essas tais de “rodas” como ele chamava os círculos na vertical. Coitado. Um verdadeiro perigo.

Bom, mas voltando ao caminho, nesse trajeto de ida (que era pelas razões que lhes contava mais leve e rápido que o de volta) Júlio se maravilhava com várias coisas. Uma das coisas que ele achava boa era que na primeira metade do caminho – onde ainda era plano e não havia nem barranco nem despenhadeiro – outros caminhos se juntavam ao maior. Era desses caminhos que triangulões, quadradões e outros iam se somando ao trajeto. Nesses percursos, Júlio – de alma inquieta e explorador por natureza – havia aprendido algumas palavras em vários dos dialetos falados pelos povos e até hexagonés, a língua do povo de igual forma.

Saindo da parte lisa do trajeto – se bem que o caminho até o mercado era liso já que todos esses povos não poderiam chegar até o mercado se o caminho fosse de qualquer outro jeito – ao lado do caminho haviam partes não planas a um lado e ao outro. Por vezes de um lado havia uma elevação com uma coloração verde em sua grande maioria. Por vezes do outro lado havia uma depressão, um vale, com a coloração verde também mas salpicada de outras como marrom, verde mais escuro, branco, amarelo, enfim, a lista era enorme.

Muitas vezes era ali que eles paravam para fazer a refeição. Três coisas faziam com que todos eles se unissem quase que em um mesmo pensar: a diferença de altura entre um lado e o outro do caminho, as cores que podiam ser vislumbradas e que mudavam conforme o horário em que chegavam no ponto e o vento. Ah o vento. Não havia nada parecido com o vento nas suas aldeias. Ele parecia preenche-lo tudo e todos. Às vezes forte, outras vezes quase imperceptível mas sempre presente trazendo cheiros e aromas que causava neles uma atitude quase solene de fechar os olhos e respirar fundo como querendo hospedar nos seus pulmões toda aquela beleza sensorial.

Tipicamente ficavam em silêncio no inicio. Apenas ouvindo o vento. Apreciando a música que só ele sabia tocar. Aos poucos esses minutos iam ficando para atrás dando lugar a uma sadia folia com o correspondente intercâmbio de abraços, presentes, desejos de boa caminhada, atualização das noticias. Ao final das contas, viam-se apenas uma vez por ano. Obvio que se os circulões mais antigos vissem uma coisa dessas iriam deserdar os mais novos. E pelo que contavam nesses encontros, não era muito diferente com os outros, apenas os hexagonões eram dados a aceitarem outros povos mas eles também eram dados a darem risada de si mesmos, então não eram padrão.

Mais para frente essa confraternização e confiança mútua era necessária para atravessarem a ponte. Então eles sabia, que não era errado gastar um tempo se interessando pelo outro já que precisariam um do outro ao enfrentar os fortes ventos sobre a longa ponte que atravessava sobre um grande cânion no fundo do qual um rio tempestuoso corria livre e desimpedido.

Continuará…

A herança esquecida – O Mercado

Anteriormente…

Júlio foi crescendo e às vezes podia ver pessoas felizes mas que não eram circulões. As visitas ao mercado – lugar decadente em que pessoas com linguajar deselegante e formas variadas sorriam de tudo, de todos e de si mesmos quase que o tempo inteiro – o colocavam em contato com uma coisa diferente que os outros circulões insistiam em chamar de “irrealidade externa”.

À falta de melhor palavra, Júlio acabou chamando essa coisa de “alegria”. Era um neologismo engraçado aos ouvidos dele já que se parecia com a palavra “alergia” que era isso que ele achava os circulões mais velhos sentiam nas suas idas ao mercado. Ao final de contas, que outra coisa a não ser uma alergia explicaria o rito de purificação e lavagem no reingresso ao grande círculo simulado voltando do mercado.

Com o decorrer do tempo, Júlio foi tomado de certas perguntas sobre a “alegria”. Haviam algumas coisas que não encaixavam. Ele conseguia, com certeza, entender como rir do outro. Ou seja, todo o mecanismo doutrinador básico dos circulões passava pelo fato de rir das ideias alheias. Aliás, se possível fosse, queriam mesmo era morder a carne do suposto proprietário da ideia diferente. A ironia era reservada para o círculo particular. Era a forma em que os pais tinham de castrar os circulões menores no intuito de que fossem aceitos no grande círculo simulado. Já o sarcasmo era a forma em que publicamente um circulão dissidente era exposto ao ridículo no grande círculo simulado. Não estranhava então o final que teve Salvador já que as ideias deles e a proposta que essas ideias levantavam contradizia o orgulho público número um que era pensar de forma circular.

Ele conhecia muito bem o efeito que a vergonha disparada pelo sarcasmo produzia num circulão; em especial aqueles menores. Um circulão menor não aprendeu ainda que pensar é perigoso e que – caso alguma ideia vaze para fora do círculo íntimo – esta não pode de forma alguma chegar aos outros círculos. Só que o Júlio em suas idas ao mercado, via que a risa do outro era bem recebida pelo outro. Ele não conseguia entender como isso era possível mas o deixou de canto por um tempo essa incompreensão, observando e – secretamente – fazendo certas anotações mentais sobre o lance.

Passou a concentrar-se sobre rir de si mesmo. Os circulões não erravam, logo, não havia lugar para rir de seus próprios erros e muito menos de si mesmo. Júlio concluiu rapidamente que o “não errar” dos circulões estava fortemente vinculado ao fato de eles não tentarem nada novo e também ao fato de terem sido disciplinados desde pequenos a descartar ideias não circulares. Isso lhe resultou estranho. Por isso decidiu esperar até ter mais informação o que viria, certamente, com mais visitas ao mercado.

A herança esquecida

Era uma vez um povo que vivia sua pequena felicidade. Não se sentia infeliz nem muito menos. Tinha achado seu ponto de equilíbrio e – mesmo que ocasionalmente os membros desse povo falassem uns ao outro da triste situação dos que não pertenciam a este povo – pouco e nada faziam ao respeito. Era mais uma formalidade que ajudava na aceitação por parte dos outros do mesmo povo, do que realmente uma carga.

Tudo nesse povo era circular. Nele nada era quadrado, triangular, hexagonal, ou de qualquer outra forma poligonal. Tudo era simplesmente um círculo. Alguns maiores, outros menores, mas sempre círculos. Haviam por vezes círculos tão enormes que, observados de perto e por pouco tempo, pareciam uma reta.

Para se ter uma ideia, os planos e projetos eram circulares. Eles começavam e acabavam sempre no mesmo ponto que tinham começado (ou acabado antes, ninguém mais sabia). De esta forma, se podia ter a ideia de movimento sem nunca ao menos passar por lugares ou situações novas. Tudo quanto se observava já era conhecido por alguém de alguma forma e com isso os mais novos não tinham necessidade de sentirem medo ou aflição já que alguém da geração anterior (ou anterior à anterior, ninguém mais sabia) já tinha passado por lá.

Haviam ao menos quatro círculos básicos na vida deste povo: o íntimo, o particular, o simulado e o externo irreal. No círculo íntimo ninguém entrava a não ser a própria pessoa. Neste espaço, as ideias e sonhos se revolviam de forma mais ou menos desorganizada mas sem nunca ao menos poderem sair para os círculos mais externos. Como muito, alguma ideia que já tinha sido ouvida nos círculos mais externos era devolvida ao círculo particular, com muita dificuldade ao simulado (sempre e quando a aceitação fosse de alguma forma garantida) mas, com certeza, nunca, mas nunca mesmo, sairiam ao círculo externo irreal.

Por conta dos círculos serem concêntricos o equilíbrio do esquema todo dependia em grande medida do ponto mais básico assim como da velocidade de giro dos círculos mais externos, mais ou menos como o rodopiar de um pião. Enquanto tudo continuasse a girar com a suficiente velocidade o pino continuaria como ponto de apoio e enquanto o ponto de apoio continuasse lá, tudo iria a continuar girando e a tão bem conhecida e estática felicidade estaria garantida.