“24 Mas Tomé, o Gêmeo (chamado Dídimo), um dos Doze, não estava com eles quando Jesus chegou. 25 Os outros discípulos lhe diziam: Vimos o Senhor em pessoa. Mas ele lhes disse: caso não veja em suas mãos o sinal dos cravos e, além disso, não ponha meus dedos no sinal dos cravos e ponha minha mão em seu lado, não creio. 26 Oito dias depois estavam de novo dentro de casa os seus discípulos e Tomé com eles. Chegou Jesus estando as portas trancadas, fez-se presente no centro e disse: Paz (seja) convosco. 27 Em seguida diz a Tomé: Estende aqui teu dedo, olha as minhas mãos; estende a tua mão e põe-na em meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente (fiel). 28 Reagiu Tomé, dizendo: Senhor meu e Deus meu! 29 Jesus lhe disse: Tiveste que ver-me em pessoa para acabar de crer? Bem-aventurados os que, sem terem visto, chegam a crer (os que não viram e creram)” (João 20. 24-29).
Introdução
Uma analogia para Teologia:
Fazer teologia é como que olhar para o sol. Olhar para o sol é o mesmo que ter a visão ofuscada pelo seu brilho intenso, intolerável aos nossos olhos. Duas consequências de se olhar diretamente para o sol: 1) ter a visão ofuscada; 2) cegueira. Devemos querer ser tocados pelos seus raios solares do que querer olhar diretamente para o resplendor de sua luz. Ou apenas nos animemos em ver e contemplar seu reflexo refletido nas águas.
Um exemplo claro para essa analogia é a experiência do pedido de Moisés quando quis ver a glória de Deus e, pôde ver apenas Sua bondade (Êx. 33. 18-19).
Nosso conceito de teologia deve sempre partir desse entendimento do olhar para o sol, isso porque a dificuldade de se falar sobre Deus é sempre uma dificuldade a partir do nosso ponto de vista, de referência, ou de contemplação (experimentar). Para quem devemos olhar para se fazer teologia?
Teologia, sumariamente, é um conceito, estudo, indícios de uma análise sobre Deus. Deus não é um objeto da nossa realidade, uma entidade acessível à nossa investigação. O máximo que podemos chegar com nossas pesquisas, estudos e fé é: em direção a Ele; mas, nunca compreende-lo no todo ou chegar até Ele de forma plena.
Um dos maiores desafios da Teologia atual é a contextualização dos textos bíblicos. Afirmo isso simplesmente por causa da nossa dificuldade prioridade assumida ou não da enérgica busca e tentativa de fazer teologia advinda do Iluminismo e séc. XX. Desse modo, assumimos uma teologia formulada e formatada e carregamos todos os pressupostos dela na nossa leitura bíblica, nossa devoção, nossas obras, etc.
Vejamos um conceito cientifico para Teologia: “Teologia, como um tópico a ser estudado ou uma atividade na qual se engajar, normalmente opera no nível do discurso público sobre crenças básicas e consequentes. Refere-se a crenças em relação a Deus, ou deuses ou sobre o mundo. Relaciona-se orgânica (processos ligados à vida) e dinamicamente à visão de mundo”. Ou seja, nossa visão de mundo é um emaranhado de ideias postas em conjunto de postulados (princípios ou fatos reconhecidos, mas não demonstrados) sobre como são as coisas (símbolos, práticas [ritos], histórias [mitos], e questões / respostas [quem somos? Onde estamos? O que está errado? Qual a solução?]), que incorrera na nossa realidade percebida e experimentada.
O que quero dizer com tudo isso é uma tentativa de resposta para a pergunta já feita: para quem estamos olhando quando fazemos teologia? Quem é o nosso eixo, centro, nosso postulado?
Para Deus? Essa seria a resposta mais evocada num circulo como o de teologia. O problema é que Deus, como palavra, tem dupla função: 1) como substantivo comum, indica um ser divino, uma entidade de fé assim como uma cadeira é uma cadeira; 2) como substantivo próprio ou pessoal, ou seja, para o judaísmo, YHWH; para o islamismo Alá e seu profeta; e para o cristianismo?
Vamos voltar ao texto:
A estrutura em que o texto está exposto pode ser:
a) 20. 24-25 – Incredulidade de Tomé.
b) 20. 26 – Presença de Jesus entre os seus.
c) 20. 27-29 – Fé de Tomé; ou verdadeiro fundamento da fé.
a) A incredulidade de Tomé (20. 24-25) pode muito bem representar a nossa incredulidade quanto a Deus ou a incredulidade de toda humanidade. Normalmente a incredulidade surge das dúvidas quanto aos postulados. É sadio questionar nossos postulados para gerar uma nova cosmovisão.
Tomé, como um incrédulo e como nosso representante num contexto onde “Teologia para a fé” se tornou banal, era o único dentre os Doze que não havia recebido o sopro do Espírito vindo de Jesus Cristo (20. 22). Ele representa aquele que ainda funcionava e funciona a partir da “epistemologia do tocar” e pela “epistemologia do ver”. Ele ainda não partilhava na nova identidade de Jesus.
A espiritualidade moderna funciona por esses mecanismos epistemológicos: precisamos tocar as coisas para crer; precisamos ainda estar ancorados numa realidade de clero para nos ditar os postulados e assim crermos e nos manifestarmos como agentes missionários; precisamos ver as manifestações, as curas, o poder operando nas reuniões; as grandes construções e Templos de Salomão para vivenciarmos momentos mágicos da divindade para crermos.
O problema é que “tocar e ver” não mudam nossa essência e, portanto, não mudam nossa realidade existencial. Precisamos ser impactados por uma nova epistemologia, uma que nos leve a conhecer.
b) A presença de Jesus no nosso meio (20. 26) quebra esses modelos epistemológicos que dirigem a nossa vida. A reação (apekrithê, gr.) de Tomé quando é interpelado por Jesus produz, em meio a incredulidade, uma nova postura (se coloca não mais como incrédulo), e reconhecimento verbalizado de seu Senhor e Deus (“Senhor meu e Deus meu”). Tomé abandona a epistemologia do “tocar”. Sua reação não é em direção ao reconhecimento físico de Jesus, mas sim, ao vê-lo, terminou de crer (“Tiveste que ver-me em pessoa para acabar de crer?) / (pepisteukas –gr. [acabar de crer, descreve o ponto de chegada de um processo, que inaugura estado subsequente]).
c) O verdadeiro fundamento da fé e, portanto, o verdadeiro fundamento para se fazer teologia (20. 27-29) é a partir do ver e, além disso, “ouvir a Cristo”. Essa é a nova e maior epistemologia que Jesus inaugura. A realidade e facticidade do Cristo ressurreto em pessoa não mais seria algo visto e palpável, mas sim algo que, ouvindo sobre Ele, creríamos. A incredulidade de Tomé quanto ao testemunho dos discípulos é, então, evidenciada.
A crença no testemunho do Cristo ressurreto é o fundamento de toda teologia cristã. É por meio desse testemunho que, tanto judeus quanto gentios, creriam na boa nova de salvação e os pecados seriam perdoados.
É diante do Cristo ressurreto que o maior mistério, ocorrido no texto anterior, vem a tona e viria em Pentecostes. Haveria aqueles que creriam sem ver e sem ouvi-lo fisicamente, pois a realidade do Espírito Santo como aquele que testemunharia (fala e nós ouvimos) do Senhor e Deus revelado em Jesus aconteceria. Como num antegozo, os discípulos são levados a entender o plano de Deus para salvação dos homens.
“Bem-aventurados os que, sem terem visto, chegam a crer”.
Assim, para quem estamos olhando quando fazemos teologia? É de fato para Jesus Cristo em sua realidade de ressurreto e glorificado? Temos ouvido Ele por meio de Seu Espírito em Sua palavra?
