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Sobre Rafael de Campos

Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista de Presidente Prudente e Universidade Cesumar de Maringá. Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Área de concentração: Linguagens da Religião e Cristianismo Primitivo. Iniciando Licenciatura em Filosofia pela Universidade Metropolitana de Santos

Fazendo “teologia” com os olhos fixos no Jesus ressurreto

224 Mas Tomé, o Gêmeo (chamado Dídimo), um dos Doze, não estava com eles quando Jesus chegou. 25 Os outros discípulos lhe diziam: Vimos o Senhor em pessoa. Mas ele lhes disse: caso não veja em suas mãos o sinal dos cravos e, além disso, não ponha meus dedos no sinal dos cravos e ponha minha mão em seu lado, não creio. 26 Oito dias depois estavam de novo dentro de casa os seus discípulos e Tomé com eles. Chegou Jesus estando as portas trancadas, fez-se presente no centro e disse: Paz (seja) convosco. 27 Em seguida diz a Tomé: Estende aqui teu dedo, olha as minhas mãos; estende a tua mão e põe-na em meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente (fiel). 28 Reagiu Tomé, dizendo: Senhor meu e Deus meu! 29 Jesus lhe disse: Tiveste que ver-me em pessoa para acabar de crer? Bem-aventurados os que, sem terem visto, chegam a crer (os que não viram e creram)” (João 20. 24-29).

Introdução

            Uma analogia para Teologia:

Fazer teologia é como que olhar para o sol. Olhar para o sol é o mesmo que ter a visão ofuscada pelo seu brilho intenso, intolerável aos nossos olhos. Duas consequências de se olhar diretamente para o sol: 1) ter a visão ofuscada; 2) cegueira. Devemos querer ser tocados pelos seus raios solares do que querer olhar diretamente para o resplendor de sua luz. Ou apenas nos animemos em ver e contemplar seu reflexo refletido nas águas.

Um exemplo claro para essa analogia é a experiência do pedido de Moisés quando quis ver a glória de Deus e, pôde ver apenas Sua bondade (Êx. 33. 18-19).

Nosso conceito de teologia deve sempre partir desse entendimento do olhar para o sol, isso porque a dificuldade de se falar sobre Deus é sempre uma dificuldade a partir do nosso ponto de vista, de referência, ou de contemplação (experimentar). Para quem devemos olhar para se fazer teologia?

Teologia, sumariamente, é um conceito, estudo, indícios de uma análise sobre Deus. Deus não é um objeto da nossa realidade, uma entidade acessível à nossa investigação. O máximo que podemos chegar com nossas pesquisas, estudos e fé é: em direção a Ele; mas, nunca compreende-lo no todo ou chegar até Ele de forma plena.

Um dos maiores desafios da Teologia atual é a contextualização dos textos bíblicos. Afirmo isso simplesmente por causa da nossa dificuldade prioridade assumida ou não da enérgica busca e tentativa de fazer teologia advinda do Iluminismo e séc. XX. Desse modo, assumimos uma teologia formulada e formatada e carregamos todos os pressupostos dela na nossa leitura bíblica, nossa devoção, nossas obras, etc.

Vejamos um conceito cientifico para Teologia: “Teologia, como um tópico a ser estudado ou uma atividade na qual se engajar, normalmente opera no nível do discurso público sobre crenças básicas e consequentes. Refere-se a crenças em relação a Deus, ou deuses ou sobre o mundo. Relaciona-se orgânica (processos ligados à vida) e dinamicamente à visão de mundo”. Ou seja, nossa visão de mundo é um emaranhado de ideias postas em conjunto de postulados (princípios ou fatos reconhecidos, mas não demonstrados) sobre como são as coisas (símbolos, práticas [ritos], histórias [mitos], e questões / respostas [quem somos? Onde estamos? O que está errado? Qual a solução?]), que incorrera na nossa realidade percebida e experimentada.

O que quero dizer com tudo isso é uma tentativa de resposta para a pergunta já feita: para quem estamos olhando quando fazemos teologia? Quem é o nosso eixo, centro, nosso postulado?

Para Deus? Essa seria a resposta mais evocada num circulo como o de teologia. O problema é que Deus, como palavra, tem dupla função: 1) como substantivo comum, indica um ser divino, uma entidade de fé assim como uma cadeira é uma cadeira; 2) como substantivo próprio ou pessoal, ou seja, para o judaísmo, YHWH; para o islamismo Alá e seu profeta; e para o cristianismo?

Vamos voltar ao texto:

A estrutura em que o texto está exposto pode ser:

a) 20. 24-25 – Incredulidade de Tomé.

b) 20. 26 – Presença de Jesus entre os seus.

c) 20. 27-29 – Fé de Tomé; ou verdadeiro fundamento da fé.

a) A incredulidade de Tomé (20. 24-25) pode muito bem representar a nossa incredulidade quanto a Deus ou a incredulidade de toda humanidade. Normalmente a incredulidade surge das dúvidas quanto aos postulados. É sadio questionar nossos postulados para gerar uma nova cosmovisão.

Tomé, como um incrédulo e como nosso representante num contexto onde “Teologia para a fé” se tornou banal, era o único dentre os Doze que não havia recebido o sopro do Espírito vindo de Jesus Cristo (20. 22). Ele representa aquele que ainda funcionava e funciona a partir da “epistemologia do tocar” e pela “epistemologia do ver”. Ele ainda não partilhava na nova identidade de Jesus.

A espiritualidade moderna funciona por esses mecanismos epistemológicos: precisamos tocar as coisas para crer; precisamos ainda estar ancorados numa realidade de clero para nos ditar os postulados e assim crermos e nos manifestarmos como agentes missionários; precisamos ver as manifestações, as curas, o poder operando nas reuniões; as grandes construções e Templos de Salomão para vivenciarmos momentos mágicos da divindade para crermos.

O problema é que “tocar e ver” não mudam nossa essência e, portanto, não mudam nossa realidade existencial. Precisamos ser impactados por uma nova epistemologia, uma que nos leve a conhecer.

b) A presença de Jesus no nosso meio (20. 26) quebra esses modelos epistemológicos que dirigem a nossa vida. A reação (apekrithê, gr.) de Tomé quando é interpelado por Jesus produz, em meio a incredulidade, uma nova postura (se coloca não mais como incrédulo), e reconhecimento verbalizado de seu Senhor e Deus (“Senhor meu e Deus meu”). Tomé abandona a epistemologia do “tocar”. Sua reação não é em direção ao reconhecimento físico de Jesus, mas sim, ao vê-lo, terminou de crer (“Tiveste que ver-me em pessoa para acabar de crer?) / (pepisteukas –gr. [acabar de crer, descreve o ponto de chegada de um processo, que inaugura estado subsequente]).

c) O verdadeiro fundamento da fé e, portanto, o verdadeiro fundamento para se fazer teologia (20. 27-29) é a partir do ver e, além disso, “ouvir a Cristo”. Essa é a nova e maior epistemologia que Jesus inaugura. A realidade e facticidade do Cristo ressurreto em pessoa não mais seria algo visto e palpável, mas sim algo que, ouvindo sobre Ele, creríamos. A incredulidade de Tomé quanto ao testemunho dos discípulos é, então, evidenciada.

A crença no testemunho do Cristo ressurreto é o fundamento de toda teologia cristã. É por meio desse testemunho que, tanto judeus quanto gentios, creriam na boa nova de salvação e os pecados seriam perdoados.

É diante do Cristo ressurreto que o maior mistério, ocorrido no texto anterior, vem a tona e viria em Pentecostes. Haveria aqueles que creriam sem ver e sem ouvi-lo fisicamente, pois a realidade do Espírito Santo como aquele que testemunharia (fala e nós ouvimos) do Senhor e Deus revelado em Jesus aconteceria. Como num antegozo, os discípulos são levados a entender o plano de Deus para salvação dos homens.

“Bem-aventurados os que, sem terem visto, chegam a crer”.

Assim, para quem estamos olhando quando fazemos teologia? É de fato para Jesus Cristo em sua realidade de ressurreto e glorificado? Temos ouvido Ele por meio de Seu Espírito em Sua palavra?

Lembranças de um tempo que fugiu…

3Sempre quando quero voltar a um lugar que me marcou e me deixou saudades e, que no coração, mente/razão “eu amei” (mesmo o lugar sendo o mesmo e não tendo sofrido tantas alterações de espaço e ambiente), o tempo em que eu lá vivi, partilhei e compartilhei não se encontram mais. Um misto de todos os sentimentos ali vividos vem à tona, mas o tempo passou e se ocupou de apenas guardar na memória o quanto foi feliz aqueles momentos.

Sabiamente o poeta Rubem Alves, em um de seus documentários, nos aconselha a não voltar a tais lugares. As imagens bastam para as recordações e, lembranças doem menos que a presença viva de cada tempo usufruído. Para mim estes espaços, que me fazem sofrer ao recordar, se tornaram “sagrados”. Falam de um “tempus fugit”, um tempo que voou e, irreversivelmente, não volta nunca mais. Encontrar “tempus” que não sejam “fugit” é o mesmo que dizer que devemos engaiolar a beleza da vida para nossa eterna contemplação; é o mesmo que congelar imagens, momentos e ali gastar a vida até evaporar-se; é o mesmo que dizer ao pôr-do-sol que se ponha a cada hora e perpetue sobre nossa cabeça a transcendência de seu ato; é o mesmo que satisfazer os prazeres da nossa vida num instante apenas.

Sou transportado constantemente a esses tempos da memória, das imagens, da saudade, dos amores, dos sabores e das amizades. Doe tanto não poder pegá-lo na mão e manuseá-lo como era e como foi. Mais triste é saber que esses lugares, sacralizados pelo tempo, não nos pertencem mais. Que o tempo se ocupou de, simplesmente, passar. Que o tempo, como é sua função, correu para frente e nem avisou que assim sempre será.

*Inspirado em Rubem Alves…