Jesus e Pilatos

Evangelho de João

Jesus e Pilatos

João 18:1-19:42

É evidente que esta passagem não trata só de Pilatos e Jesus. Inclui também Pedro, Judas, Malco, João, Maria, Caifás, Anás, os Sacerdotes, Judas, os soldados na cruz, José de Arimateia e Nicodemos entre outros. Todavia, se é para escolhermos as personagens centrais, é de Pilatos e Jesus que se trata.

Num esforço consciente de resgatar certo brilho original ao texto, me é necessário analisar Pilatos não sob o holofote tradicionalmente aceito quase que limitando ele só a um carrasco destinado a satisfazer os desejos e sentenças capitais do sinédrio. Existem, claro, várias formas válidas de conjecturar sobre este assunto, mas o exercício proposto tem por propósito assumir um outro ponto de vista para poder – talvez – resgatar o antes mencionado brilho.

Temos a tendência de condenar todo e qualquer tipo de império. Isso é claro em especial em américa latina por esse complexo de inferioridade social e sempre nos sentirmos menos que o grande país do norte, o assim chamado, império americano. O certo é que se morássemos ao norte do Rio Colorado (divisa dos Estados Unidos com México) pensaríamos diferente.

Brincadeiras à parte, o apelo é para desvencilhar-nos do olhar negativo e pessimista para com o império. A verdade é que o império uma vez estabelecido, ele precisa ter um sistema legal coerente e confiável para que seus súditos (velhos e novos) continuem a produzir e o império ou bem cresça ou pelo menos não encolha. Isso é uma coisa que – se bem não pode ser observada pelo perdedor ou conquistado – é claramente observável em todo e qualquer império. Chega um momento em que certa estabilidade legal é necessária. E é isso que temos no tempo de Jesus.

Roma era nessa época um império jovem. Tinha uma longa tradição como República (509 A.C a 27A.C.) que por sua vez tinha como pano de fundo uma monarquia que se tinha estendido de 753 A.C. até o 509 A.C.

Como império jovem herdeiro de uma república e com um senado ainda forte era mister aos procuradores, governadores e outros representantes oficiais do império se comportarem à altura das circunstâncias que por sinal eram cada vez mais decadentes. Diferente de outros impérios, o romano tinha claro que era mister manter as comunidades em paz (se bem que talvez hoje não chamaríamos de paz o que eles chamavam de paz). Fora delitos que não dissessem respeito ao próprio império e a esta almejada paz, não era do interesse do mesmo se meter em problemas menores. Ai que está a chave necessária para ir formando uma imagem um pouco mais justa do próprio Pilatos.

Quando digo justa, não quero dizer com isso que o próprio Poncio Pilatos fosse justo ou algum ser perfeito ou um governante de caráter ilibado. Historiadores como Filo de Alexandria, Josefo e Tácito o descrevem como alguém que não respeitava limites, brutal, cruel, corrupto, violento, inflexível, duro, sem consideração, enfim, não é a imagem de um governador benevolente nem muito menos.

O início de Pôncio Pilatos em Judeia esteve marcado de provocações, ameaças, ressentimentos e desconfianças por parte do sinédrio em particular e os judeus em geral. Ele chegou à noite e fez os soldados colocarem estandartes com a imagem do imperador de frente para o complexo do templo. Isso afrontava diretamente a crença dos judeus sobre idolatria. Por conta disso eles foram protestar em Cesareia. Durante cinco dias se mantiveram debatendo. Mesmo sob ameaça os representantes do sinédrio não se dobraram. Pilatos só recuou por conta do alto custo político já que estava lá apenas um mês e meio. O restante da permanência dele na região se viu marcado por eventos similares tanto em Judeia como na Samaria que encharcaram de sangue, corrupção e roubalheira sua permanência lá.

Então o que há para resgatar? A pessoa.

O posto que Pôncio Pilatos ocupava era por indicação política. Ou seja, Pilatos estava lá por puro interesse material e para satisfazer os interesses daqueles que lhe haviam indicado para o posto. A paz local era nada mais do que um mal necessário para a manutenção do seu posto. Havia a necessidade de agradar o Sinédrio para dessa forma continuar a poder surrupiar as bens do povo.

Eu tenho, então, algumas perguntas:

  • Por que um homem destes reluta em condenar mais um judeu revoltoso à cruz?

  • Por que ele entra e sai quatro vezes do seu aposento interno onde levou Jesus?

  • Por que ele – segundo a versão de mateus1 – lava as mãos publicamente?

  • O que é essa colocação de “O que é a verdade”?

  • Por que ele fica “com mais medo ainda” quando os judeus com uma religião inferior a seus olhos lhe informam que Jesus se faz igual ao Criador?

Eu tenho uma pergunta que é a síntese dessas: Não era mais fácil simplesmente acatar a decisão do sinédrio, crucificar Jesus agradando dessa forma os líderes judeus? Outras vezes ele tinha afrontado o sinédrio a troco de nada. Por que não simplesmente agradá-lo e boa?

Eu acho que há mais coisas aqui daquilo que temos visto tradicionalmente. E também acho que João é mais refrescante na sua versão do que Mateus, Marcos e Lucas. Penso que isso é assim porque – como o próprio relato nos revela – João tinha acesso de primeira mão à casa do sumo sacerdote2 e ele nos deixa entrever alguns enredos que não vemos nos outros evangelhos por mais que seja justo no relato do juízo, condenação, morte e ressurreição de Jesus em que João mais coincide com o restante dos autores. Parece-me então que João está querendo mostrar – como faz no restante do seu livro – a pessoa de Pôncio Pilatos perante a pessoa de Jesus o Cristo.

    1. Os acontecimentos prévios ao encontro

Local: João coloca o início dos acontecimentos que precipitam a morte de Jesus num horto além do ribeiro de Cedrom3. Esse lugar era conhecido por Judas que após ter recebido a coorte e oficiais de justiça os conduz ali.

Judas e seu estilo de vida: Me provoca a imaginação isso de “após ter recebido” o detalhe é enriquecedor pois nos esquecemos que você só pode receber os outros em algum lugar que é seu. De outro jeito, você se encontra. Com isso podemos conjecturar a vida que o próprio Judas levava. Sabemos de alguns discípulos que abandonaram tudo para seguir Jesus. Dele mesmo sabemos que não tinha lugar onde encostar a cabeça.

A prisão de Jesus: A presença criadora de Jesus se deixa entrever na expressão “eu sou”. Ao dizer isso os guardas (e Judas que estava junto) caíram por terra. “Eu Sou” remete – claramente – à resposta que o criador deu a Moisés no monte Horeb (Êxodo 3:14). A queda dos que o rodeavam pode sim representar alguma coisa desse poder sendo manifestado, mas me parece pairar no ar um certo temor pelo que estava acontecendo. Ao final das contas, eles iam prender um homem muito popular entre o povo, era a páscoa, e os captores bem provavelmente nutriam algum tipo de fé ou admiração por este que não tinha problema nenhum em se encontrar com seus captores.

A reação de Pedro: Malco perde uma orelha (que logo lhe é restituída) no afã de Pedro por defender seu mestre. A imperícia deste marinheiro de primeira viagem no uso da espada, a adrenalina do momento, a escuridão quebrada pelas tochas ou simplesmente uma mistura disso tudo faz com que ele acerte apenas a orelha do servo do sumo sacerdote. Este artigo definido ai dizendo “o servo do sumo sacerdote” bem pode se referir ao único dos servos do sumo sacerdote presentes naquela busca, ou – mais provavelmente – ao servo pessoal do sumo sacerdote que estava ali para cuidar diretamente dos interesses do seu senhor. Seja como for, tanto a notícia da decepação da orelha como sua posterior restituição iam chegar rapidamente ao sumo sacerdote e há uma diferença enorme entre milagres contados por ouvidas de terceiros ou quartos do que por diretamente vinculados.

Anás e Caifás: Ser sacerdote era um negocio de família. Sempre tinha sido e na época de Jesus não era diferente. Caifás que era o sumo sacerdote aquele ano provavelmente não era forte o suficiente como o era seu sogro Anás ou talvez era prudente demais e não convinha ao restante dos lideres que se queriam desfazer de Jesus. Seja como for, mesmo sendo Caifás o responsável, Jesus é levado perante Anás.

João e Pedro: Esta dupla aparece (junto com Tiago) em vários relatos do evangelho. Eles pareciam se identificar, gostar da companhia um do outro e compartilharem algumas das experiências mais bonitas do ministério terreno de Jesus. Nesta ocasião, apenas João e Pedro aparecem. João é o rapaz bem conectado. Ele era conhecido do sumo sacerdote e é por essa razão que os dois conseguem entrar. Reluto em criticar Pedro e sua negação. João era bem conhecido da casa, os outros discípulos tinham caído fora, sobrou para o pescador de sotaque carregado explicar – sob o medo de também correr o mesmo fim do seu mestre – o relacionamento dele com o preso.

1Mateus 27:24

2João 18:16

3http://biblia.com.br/dicionario-biblico/c/cedrom/

Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.