O dízimo no Antigo Testamento

A palavra dízimo, tanto no original hebraico do AT quanto no original grego do NT significa “décima parte”. A começar pela própria etimologia da palavra, não se pode ignorar seu significado mais amplo.

Na cosmovisão absolutamente pendular de nossa mentalidade contemporânea ocidental, corremos o risco de pender sempre para extremos ao analisar circunstâncias que estão sendo exploradas em outro extremo.

Pertinente à primeira Aliança, da qual os gentios não fizeram parte, o dízimo fazia parte do pacto entre Deus e o povo de Israel. Cada judeu era obrigado pela lei levítica a pagar três dízimos de sua propriedade (1) um dízimo para os levitas; (2) um para o uso do templo e as grandes festas; e (3) um para os pobres da terra.

É óbvio que a finalidade única dos dízimos não era o churrasco coletivo, pois se assim o fosse, todos os serviços do tabernáculo, bem como do templo deveriam ser realizados por escravos, o que não era certamente o caso.

Somos alvos de tentações cada vez mais lúgubres. Se por um lado tentados a dar vazão à volúpia pelo enriquecimento quando submetidos a discursos de manipuladores da boa fé do povo; por outro as mesmas tentações se nutrem de nossa idolatria “maamônica”, nos levando a concluir que o contribuir financeiramente em uma igreja é coisa pra tolos manipulados, ou no mínimo ingênuos. Pra quem ama o dinheiro as duas são perfeitamente cabíveis. Tais idólatras são bem servidos pelas duas propostas. “Dê e terás mais” ou “Não dê, todos querem seu dinheiro”. As duas vertentes do mesmo rio levam incautos a buscarem cada vez mais para si mesmos e para os seus, ao mesmo tempo em que: ou excitam suas consciências a contribuírem avidamente sob a chama da ganância, ou as desobrigam de contribuir, sob o manto da lucidez intelectual.

Cientes de que o dízimo era um postulado da Antiga Aliança, sabemos que a Nova Aliança também requer contribuições que não visem a auto-satisfação de quem contribui. Contribuir primariamente para gastar consigo mesmo e com os seus, é, no mínimo falta de percepção do que a própria noção de contribuição significa.

Há dois tipos de ignorância endêmica no povo evangélico: aquela que encabresta levando o manipulado a enxergar Deus como se fosse um banco, e aquela que carrega de obscurantismo uma mente que se disfarça em lucidez, mas que na realidade esconde seus verdadeiros motivos funestos.

Ainda acredito, porém não sem dificuldade, que uma geração que ignore a própria significância dos termos mais simples, possa um dia entender questões que ultrapassem a superficialidade.

Everson Spolaor