Onde nos perdemos?

De toda a literatura Joanina o capítulo 4 do seu evangelho é o mais carregado de sarcasmo por parte da mulher e de firmeza por parte de Jesus. Geralmente confundimos firmeza com rigor, desprezo ou severidade e sarcasmo com ironia.

As colocações da mulher são sarcásticas refletindo, provavelmente, uma situação de dor e rejeição. No primeiro estágio vemos ela se escondendo da sociedade em que vivia (quem vai ao meio-dia no deserto tirar água de um poço? Apenas quem já foi vilipendiado de alguma forma e em repetidas ocasiões) Até o momento em que Jesus se revela à mulher, a linguagem agressiva dela e suas colocações são a constante.

Paralelamente, não encontramos em Jesus condescendência ou palavras politicamente corretas: O lugar de adoração é Jerusalém; e você vive em conflito constante consigo mesmo, com a sociedade e com o papel que lhe foi dado ao nascer. Em resumo é isso que Jesus, firmemente, lhe diz.

A mulher não está sendo apenas irônica; se possível fosse, ela arrancaria um pedaço de carne do seu interlocutor. Jesus se mantêm firme. Não chega nem perto de ser rude ou “estúpido” nas suas respostas, nem lhe falta educação. Ele é apenas firme atendendo à necessidade da mulher e não apenas ao seu interesse numa boa briga de rua.

O ponto de inflexão se dá quando Jesus coloca em realce a busca da mulher. Sendo mulher, samaritana, e com vários relacionamentos frustrados nas costas, ela continua sua busca pela verdade, a busca pelo Messias.

Diferente do homem no tanque de João 5, esta mulher estava em uma busca incessante da realização da promessa antiga. Não eram só palavras ou discursos. A vida dela estava em jogo.

Tal é assim que – ao Jesus se revelar – tudo muda no relato. A mulher que antes se escondera, agora ia atrás dos seus algozes sociais e muda tudo. Até o trajeto de Jesus muda e fica mais dois dias enquanto os samaritanos se convertiam. Nem só de pão viverá o homem, mas de toda transformação social que a pregação da verdade pode trazer.

Hoje a forma pública da igreja não passa de uma caricatura ultrajante de Jesus o Cristo. Negocia-se tudo apenas para agradar à sociedade. A culpa imposta pelo movimento feminista nos cega os olhos impedindo-nos ver a realidade de um Messias que restaura a imagem de Deus (homem e mulher) tal como era no inicio. Essa mesma culpa nos impede ver que antanho não foi assim: o inicio da igreja (na ressurreição do Messias) as testemunhas escolhidas eram as mulheres, a primeira igreja estabelecida na Europa foi sob os auspícios de uma mulher, o reconhecimento apostolar de Paulo em Romanos, era inicialmente para as mulheres, a proposta de Paulo em Efésios é de uma igreja sem divisões, enfim: esquecemos não apenas o propósito, mas também os meios e a herança.

Negamos-lhe assim o poder (dynamis) do evangelho (boas noticias) de transformar ( e transtornar às vezes ) sociedades inteiras já que isso é necessário se o Reino de Deus deve ser implantado. Sem o evangelho, não há possibilidade de justiça e deixamos a sociedade seguir seu rumo de idolatria em que apenas a ira de Deus pode ser manifestada.

Vias de fato, nos envergonhamos do evangelho que realmente salva a diferença do Cesar.

“Pode-se colocar o início do ano no aniversário de César, pois a divina providência trouxe à vida dos homens: paz, salvação, abolição de guerras. O dia do nascimento do deus foi para o mundo o início de boas notícias”


Uma inscrição feita na Ásia menor, em 9 a.C.

Não é à toa que Paulo inicia sua reflexão aos Romanos por ai.

Sobre Esteban D. Dortta

Esteban é um pastor evangélico. Estudou teologia no Seminário Teológico Batista do Uruguai entre 1991 e 1994. Nascido em 1971, vive no Brasil desde 1995. Entende que a liberdade de pensamento, expressão e reunião são essenciais para o desenvolvimento não apenas cristão, mas de toda a sociedade.