Em princípio, uma definição geral para a ideia que denominamos de santidade cabe como meta inicial. Santidade (palavra hebraica, qadosh), faz referência à “absoluta alteridade de Deus”; é a linha divisória dita radical que nos separa (nós profanos) da divindade. É dessa conceituação que utilizarei para o raciocínio abaixo.
A santidade nos diz acerca de…, aponta para alguém que não somos nós. Refere-se àquele que é o “totalmente outro” e não compartilha plenamente dessa glória com a humanidade. Mas lembremo-nos que somos santificados. Sua extensão, a santificação, faz menção a um ato ou processo, um meio de fruição contínua entre Deus e a humanidade. É aqui que nos encaixamos no plano divino em Cristo e somos atingidos sorrateiramente, como numa piscadela.
Jesus não disse nada explicitamente sobre a santificação, mas disse sobre o santificador. Sempre associo tal ação ao Espírito e lembro-me sempre da grande perícope no evangelho de João 14-16. Ali, o Paracletos é reconhecido e autenticado por Jesus como “Espírito da verdade” (14. 16-17); no verso 26, como o “Espírito que é Santo”; em 15. 26-27 está associado à verdade e tem como função dar testemunho de Jesus; em 16. 7-11, o Espírito é responsável em estabelecer no mundo a consciência de culpabilidade e nos guiar em toda a verdade (na verdade inteira) que Ele ouviu do Pai, anunciando as coisas futuras dentro do presente (v. 13) e glorificando a Jesus em sua proclamação (v. 14-15).
O ato de nossa santificação está relacionado inteiramente com essa pessoa prometida por Jesus e que vem/veio fazer morada em nós. Somos levados a um senso do sagrado, do transcendente, de sua santidade que nos inspira ao respeito, ao fascínio a ao terror (numinoso). Somos tocados pelo “sagrado”, mas não só tocados, somos inundados por esse Espírito que, consequentemente, nos religa ao Eterno. Ele nos traz profundo sentido de direção, entendimento, juízo, e uma percepção nova da vida. O teólogo Wunibald Muller diz, a esse respeito, que somos envolvidos por uma “camada protetora e criadora de sentido”, como a camada de ozônio que protege a Terra e toda vida que nela existe. Um sentido divinatório é criado a partir desse envolver, o que gera uma mudança em nossa faculdade de sentir e perceber, de direção e caminhar.
Com tudo isso, quero dizer que, somos levados a pôr o Filho de Deus no centro de nossa vida e existência. Passamos a entender que santificação “se faz” no presente momento em que uma realidade, além da realidade presente, se abre à nossa consciência de “nova criação” em Cristo. Acontece uma interpelação e, a partir dela, nosso olhar já contempla uma vida sem Cristo, nossa união com Cristo e um caminho de santidade a percorrer até a glorificação.
Assim, a santificação se mostra como um caminho a percorrer. Não apenas trilhar uma trilha moldada a partir da nossa antiga criação. Não somos levados a fazer, olhar, agir diferente de tudo o que fazíamos como velha criatura. Somos, sim, conduzidos com a lente do Espírito a interpretar a antiga realidade juntamente com a nova e, assim, obter a verdade. Isso nem sempre anula as antigas expectativas, os antigos comportamentos, as amizades, etc…; pode autenticar e potencializar coisas boas da nossa antiga caminhada. Aqui, no entanto, é a linha tênue entre o que é licito ou não fazer ou continuar a fazer.
Essa linha tênue se revela que, em santificação também somos livres em Cristo. Essas duas realidades e verdades sobre o cristão não se opõem. A santificação aliada à liberdade para o qual Cristo nos libertou, novamente tem haver com uma consciência que me leva a “ser” e não a viver de ritual em ritual. Se tudo aquilo que entendemos por consciência e suas faculdades foi/é liberta das rédeas e não mais se deixa atar pelos laços da “lei”, das imposições frívolas ou, se já superamos o jogo do que é lícito ou não, finalmente nos livramos dos conflitos de uma realidade maligna e pecaminosa e passamos ao entendimento mais profundo e de propósito da santificação. Mais claro é dizer que não existe um “dogma” para a santificação.
No entendimento de que em santificação somos livres e isso nos faz perceber a nova dimensão que nos foi outorgada, escolhemos seguir a Cristo. Não somente o seguimos, primeiro paulatinamente, mas abraçamos os desafios de Jesus. Nossa caminhada como peregrinos que somos nesse cosmos – mundo de sistemas malignos – passa a ser conduzido pelo Espírito como uma jornada espiritual. Essa jornada não é apenas mística, mas é conduzida pelo propósito do religare o céu com a terra. Dessa forma, a santificação do cristão ultrapassa questões morais, questões de superação e autoajuda, problemas pessoais e, até, aquela velha mania de alimentar exacerbadamente o ego. Um processo de kenosis (gr. auto esvaziamento) se instala e é iniciado. Essa jornada da santificação, reatando nossa humanidade e abalando as bases da nossa animosidade, nos transforma diariamente a partir das escolhas que passamos a fazer. E se, em santificação escolhemos seguir a Cristo, o caminho não tem muito haver só comigo, mas com Ele e sua jornada nessa terra. Deixamos de seguir a fundo os nossos anseios e utopias dando prioridade ao anseios de Jesus. Em suma, os sonhos, desejos, esforços e cansaços, as palpitações e pulsações do nosso coração, nossas aspirações e tudo o que passamos a ser como nova criação tem a finalidade de instaurar o Reino de Deus, o Reino de Cristo na terra.
Portanto, o céu não é o nosso destino uma vez que ele se torna nossa missão. Nosso destino, enquanto cumprimos a missão, é conhecer a Cristo e ser conhecido por ele e ser achado nele. Seguir a Jesus é aliar forças com o Espírito em Sua missão e descaracterizar a “velha gente” em prol de “vestir a Cristo Jesus” todos os dias. Eis a santificação!
Para finalizar esse prolegômeno e destacar a ação diária do Espirito juntamente com nossa consciência que se “veste” e adapta-se a Cristo, a santificação – esse processo pessoal e ativo – sempre me lembra de uma aproximação que idealizo ser coerente com os termos gregos usados para formular a doutrina da Trindade.
Como criação à imagem e semelhança do Eterno (hommousion, feitos da mesma matéria e substância), somos declarados “muito bom”. A partir de nossa queda, aquilo que era “muito bom” tornou-se “depravado” (Lutero). Fomos corrompidos na nossa ousia (essência) e nossa hypostasis, aquilo que expressamos de nossa ousia, já não agradava a Deus e era mal aos seus olhos. Deus, em Cristo, mediante o Espírito Santo, veio até nós e se fez um de nós, encarnando nossa natureza para nos transformar. E não apenas nos transformar, mas nos dar novamente de sua ousia (extravagante substituição) e, desse modo, começarmos a expressar (hypostasis) Sua ousia no presente até o grande dia em que voltaremos a ser hommousion de Deus.
Rafael de Campos