A despeito de toda tradição popular que beatifica os que lideraram grandes instituições religiosas ou que contribuíram significativamente para algum setor da sociedade, nos despojemos um pouco, por ora nessa reflexão, dos quesitos que levaram homens e mulheres como Machado de Assis, Pelé, João Paulo II, Toquinho, Martin Luther King Jr. e Madre Tereza, dentre outros, à posição de “santidade” à eles conferida. A razão do meu pedido é a mais simples: quando gastamos tempo demais enaltecendo certos personagens da história, de alguma forma acabamos por nos colocar numa posição inferior, de incapacidade, de infinita pecaminosidade enquanto os exaltamos à inacessibilidade, inatingibilidade e os pintamos assentados nos tronos celestiais.
Certamente, o processo de santificação nada tem a ver com a capacidade de reproduzir os mesmos atos heroicos dos tais, nem mesmo assumir suas personalidades, que são por vezes tão distintas da nossa, ainda que sejam admiráveis e dignas de citação. Quando do Verbo escutamos “sejam perfeitos como o Pai celestial de vocês é perfeito” ou “sejam santos como eu sou santo” ou ainda “eu sou a luz do mundo… vocês são a luz do mundo”, estamos diante da declaração do que nos tornamos quando somos inseridos Nele e ao mesmo tempo é um convite amável ao desafio de viver na máxima intensidade, aquilo que o Verbo possui em sua essência mais profunda: o amor!
Sim, o Verbo é amar. Quem ama conhece Aquele a quem o Verbo disse “somos um”. Podemos dizer que ser santo, ou santificar-se, significa correr à passos largos na direção da prática do amor. Ser amor, fazer amor, pensar amor, manifestar amor! É ser encharcado pelo amor de tal maneira que, tudo o que tem haver com o amor tenha a ver conosco.
Isso de forma alguma anula quem somos, pelo contrário nos aperfeiçoa, nos completa, nos abrilhanta em tudo! Em amor não corremos o risco de nos perder, pelo contrário, no amor nos encontramos, nos desvendamos, nos calibramos, nos tornamos tal qual éramos nos pensamentos do Verbo quando recebemos Dele o “façamos o homem”. Nas intencionalidades do Criador, quanto mais somos amor mais perto estamos da vida, quanto mais nos distanciamos do amor, mais perto estamos da morte!
Todas as leis se resumem no “ame”, as parábolas do Verbo sempre ensinaram o amor por meio do perdão, do acolhimento, da compaixão, da empatia; as profecias mais severas eram pura expressão do amor que avisa as consequências da obediência ou desobediência ao Eterno, pois quem “avisa amigo (amoroso) é”; a decoração do universo é uma poesia de amor aos seres humanos, o instinto messiânico do animal/mãe para com o filhote é a impressão do amor sacrificial como pedagogia do amor Divino; o amor está no cheiro, no gosto, no tato, no tempo, no espaço, nas oportunidades, nas possibilidades, na vida e na morte! Você leu corretamente; a morte é expressão de amor visto que nela o imperfeito não está eternizado, o pecado não arraigado para sempre, a destruição não está imposta como ponto final na história, isso é amor!
Visto que assim é e assim se faz, amar é o caminho natural e coerente para todo aquele que compreendeu o sentido do universo, pra quem percebeu o propósito da vida! Amar é o dom que Deus dá a quem não se acorrenta pelo egoísmo, ódio, indiferença e violência; embora até estes em alguma instância sejam capazes de experimentar o amor que é fruto da graça e do aviso Divino do caminho a seguir.
Assim sendo, amar é o propósito de viver! Sem amor nenhuma boa decisão possui significado nem recebe estrutura capaz de se sustentar no fogo da provação na avaliação das obras, com amor todas as boas decisões ganham tal sustentação! Em amor o suicídio de si mesmo pelo outro é heroico, sem amor ainda que entregue meu corpo para ser queimado não terá sido mais do que um sacrifício de tolo. Em amor toda oferta é bem vinda, sem amor toda entrega se torna vã e religiosamente vazia.
Santo é quem ama! Santificado está aquele que encarnou o amor nas múltiplas dimensões da existência. Não há maior amor ou santidade do que dar a vida pelos irmãos! Negar-se, substituir-se pelo outro por amor, escolher andar mais lentamente por estar carregando alguém nos ombros, interceder junto à uma autoridade por causas que não trazem benefícios a si mesmo, ajudar alguém oferecendo de si voluntariamente além daquilo que se podia sendo este alguém incapaz de lhe retribuir de alguma forma!
O verdadeiro santo não exalta a si mesmo pois o amor, que é a base de seu ser, só se interessa na promoção das qualidades do outro; tal ser amadurecido no amor não busca uma posição de status, poder, influência gananciosa, sua busca é por servir cada vez mais os de perto e os de longe, os amigos e os que se fazem seus inimigos, os fáceis e os difíceis, os cultos e os ignorantes; é uma vocação que não está condicionada ao tempo e ao espaço, é uma consciência que está iluminada pela eternidade!
Encerro aqui, dizendo que ser santo é amar, e que amar é possível a todos os homens que se submetem conscientemente ou por uma intuição da graça de Deus Àquele que essencialmente é amor. Santo não é aquele que a sociedade confere tal título, aliás o ente amoroso e santificado nem busca sair do anonimato de forma que nem mesmo sua mão direita sabe o que a esquerda está fazendo. Certamente por acidente, alguns santos foram registrados nos anais da história e suas trajetórias são bem conhecidas por todos. O fato é que maior do que os santos documentados, são os santos que estão gravados na memórias dos que por eles foram amados! Os santos aguardam a coroa da Justiça que não é fabricada por mãos artesanais humanas, mas sim por Aquele que supera os séculos e que sonda os corações! Santifiquemo-nos pois e transformemos o mundo das pessoas amando-as intensamente!